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Chaumont
No Sábado Santo havia uma cerimônia muito bonita na madrugada, para festejar a Ressurreição.

Do lado de fora da igreja tirava-se fogo do atrito da pedra e acendia-se o círio pascal.

Porque assim como Nosso Senhor Jesus Cristo deu vida a seu próprio cadáver, assim da fricção de matérias inertes como as pedras nasce uma chama viva para acender o Círio Pascal.

Então, na noite, nas trevas, é acesa uma luz: é Nosso Senhor Jesus Cristo que ressuscita!

Acende-se o círio pascal e o padre entra com uma vela acesa na igreja e canta 3 vezes “Lumen Christi” (Luz de Cristo).

Com o fogo do círio pascal iam se acendendo as velas dos presentes e daí a pouco a igreja estava toda iluminada pela Luz de Cristo.

capela do castelo de AmboiseO Lumen Christi é a luz da natureza divina de Nosso Senhor Jesus Cristo que transparece através de sua natureza humana.

Tudo quanto Ele disse e fez, por ter sido dito e feito por Ele, brilha de modo esplendoroso. É por causa dessa Lumen Christi que não se lê sem emoção o Evangelho.

A Igreja, instituição sobrenatural composta por homens ordenados na Hierarquia e na plebe fiel tem um reluzimento em seu ensino, governo, modo de ser, liturgia, etc., que também pode ser chamado Lumen Christi, porque vem de Nosso Senhor Jesus Cristo,

E assim como há um Lumen Christi na Igreja, a Cristandade também tem o seu lumen próprio.

Este lumen, enquanto refletindo na ordem temporal a Igreja e o espírito religioso e ortodoxo dos católicos que constituem a Cristandade, pode ser chamado, com a devida analogia, de Lumen Christi.

Castelo de LuynesEuropa é a parte mais culturalizada e mais carregada de tradições do mundo.

É a parte onde existiu, como em nenhum outro lugar da Terra, numa como que plenitude, durante algum tempo, a Civilização Cristã.

Por assim dizer, aquele solo ficou ensopado das bênçãos do precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Plinio Corrêa de Oliveira. Texto sem revisão do autor.

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Arquivo Secreto VaticanoUma ciência que se ouve mencionar pouco é a Diplomática, ou “corpo de conceitos e métodos com o objetivo de provar a fidedignidade e a autenticidade dos documentos. Ao longo do tempo ela evoluiu para um sistema sofisticado de idéias sobre a natureza dos documentos, sua origem e composição, suas relações com as ações e pessoas a eles conectados e com o seu contexto organizacional, social e legal”.

Barbara FraleEssa ciência apresentou resultados que darão para falar.

Em artigo estampado no quotidiano vaticano “L’Osservatore Romano” Barbara Frale (foto), investigadora do Arquivo Secreto Vaticano, defende que, segundo os documentos que possui a Santa Sé, os cavaleiros da Ordem do Templo custodiaram e veneraram o Santo Sudário no século XIII.

A versão segundo a qual eles adoravam uma cabeça barbada não teria passado de uma difamação. Esta foi promovida pelo iníquo rei da França Felipe IV o Belo com a intenção de fechar a Ordem e confiscar seus bens.

O fechamento aconteceu em 1307 com a anuência do Papa Clemente V.

Após um polêmico e expeditivo processo, Jacques de Molay, Grão Mestre templário foi queimado vivo em Paris com mais 137 monges-guerreiros.

Eles protestaram inocência até o fim. Os bens da Ordem foram confiscados por reis e eclesiásticos.

A autora do artigo especializou-se na polêmica existência dos templários. O caso ainda hoje faz correr abundante tinta.

O artigo da Dra. Frale “Os templários e o Sudário – Os documentos demonstram que o tecido lençol foi custodiado e venerado pelos cavaleiros da Ordem no século XIII” é uma antecipação do seu livro que sairá a público no próximo verão europeu.

Frale já publicou “L’ultima battaglia dei Templari. Dal codice ombra d’obbedienza militare alla costruzione del processo per eresia” (Roma, Libreria Editrice Viella, 2001); “Il Papato e il processo ai Templari. L’inedita assoluzione di Chinon alla luce della diplomatica pontificia (Roma, Libreria Editrice Viella, 2003); “I Templari” (Bolonha, Il Mulino, 2007); “Notizie storiche sul processo ai Templari” (in “Processus contra Templarios”, Cidade do Vaticano, Archivio Segreto Vaticano, 2007).

Primeira sede dos Templários, atual mesquita Al Aqsa, JerusalémA Ordem nasceu em Jerusalém pouco depois da primeira Cruzada. Ela visava defender os cristãos na Terra santa.

Seu nome era “Pobres Irmãos-Soldados de Cristo e do Templo de Salomão” porque instalaram sua primeira sede nas ruínas do palácio do rei-profeta.

A Regra dos cavaleiros-monges foi aprovada pelo Concílio de Troyes em 1129. São Bernado de Claraval teceu um subido elogio do estilo de vida dos frades-soldados.

Rapidamente tornou-se a ordem mais poderosa e ilustre da Cristandade medieval.

Era uma coluna que defendia militarmente as fronteiras da Cristandade e sustentava o combate contra o Islã invasor.

Santo Sudário, Ciência confirma a IgrejaNo ano de 1287 o jovem nobre Arnaut Sabbatier ingressou no Templo. Na cerimônia, Arnaut foi conduzido a um local só acessível para os monges-soldados do Templo.

Ali foi-lhe mostrado um lençol de linho que tinha impressa a figura de Nosso Senhor. Ele a beijou ritualmente três vezes na altura dos pés.

O documento está no processo contra os templários. Mas segundo Barbara Frale, tratava-se do Santo Sudário de Turim.

O histórico, hoje muito estudado, da mais famosa relíquia da Cristandade abona a teoria.

Em 1978 o historiador de Oxford, Ian Wilson, reconstituiu o percurso do sagrado lençol, passando pelo saque da capela dos imperadores de Bizâncio durante a quarta cruzada em 1204.

Entre as calúnias promovidas pelo rei da França estava a de adorar um misterioso “ídolo”: uma cabeça com barba. Mas Wilson concluiu que deveria se tratar, em verdade, do Santo Sudário.

Para Wilson, os anos em que não se tem notícia do paradeiro do Santo Sudário correspondem ao período em que a relíquia foi custodiada no maior segredo pelos cavaleiros templários.

Os templários, acrescenta Barbara Frale, promoveram liturgias especiais da sagrada relíquia. Eles tocavam elementos de seu hábito no Santo Sudário para pedir proteção contra os inimigos no campo de batalha.

A forma de devoção praticada pelo jovem templário Arnaut Sabbatier é idêntica à que praticou São Carlos Borromeu em 1578 quando a venerou em Turim seguindo os costumes dos dignitários do Templo.

A agencia ACIPrensa destaca que os templários custodiaram o Santo Sudário para que não caísse nas mãos dos hereges do Oriente (heresias diversas) e do Ocidente (cátaros) que negavam que Jesus Cristo fosse verdadeiro homem.

Os templários guardavam a santa relíquia numa urna especial que só permitia ver o rosto.

A relíquia “era o melhor antídoto contra todas as heresias” pois nela pode-se “ver, tocar e beijar” o próprio pano encharcado de sangue que envolveu Nosso Senhor Jesus Cristo na sua sepultura.

É a prova mais evidente de sua Humanidade Santíssima e da veracidade de sua Paixão e Morte.
Santo Sudário, negativos de fotos, corpo inteiroO diário “The Times” de Londres , assim como o diário “The Telegraph” relembraram que a relíquia, “desapareceu” para só reaparecer após o fechamento dos templários em Lirey, França, no ano de 1353.

Ela formava parte do espólio do templário Geoffroy de Charney, queimado junto ao Grão Mestre da Ordem Jacques de Molay.

Desde então muitas imposturas tem circulado a respeito de falsas continuidades da Ordem do Templo, com ritos e iniciações esdrúxulas sem autenticidade.

O auge dessas inépcias novelescas deu-se com o malicioso livro “O Código da Vinci” desprovido de toda seriedade.

Pergaminho de ChinonEm 2003 a Dra Frale descobriu o Pergaminho de Chinon . O documento prova que o Papa Clemente V exonerou de culpa os templários. Porém, eles foram dispersos e seus bens apropriados indevidamente.

A relíquia foi adquirida pela dinastia de Sabóia no século XVI. No século XX foi objeto de exigentes análises científicas que produziram um impressionante volume de dados que abonam sua autenticidade.

Barbara Frale imposta seu livro de um ponto de vista histórico-arqueológico. Ela não entra em questões teológicas. Mas, seu trabalho suscita questões da mais alta importância… para o século XXI!

A única continuidade genuína dos templários foi a Ordem de Cristo, fundada em 14 de Março de 1319, a pedido do rei Dom Diniz de Portugal, por bula do papa João XXII.

A nova ordem acolheu os últimos templários. As naus que descobriram o Brasil levavam a insígnia da Ordem de Cristo, estabelecendo uma ponte entre o País e os eventos que agora foram revelados.

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Rei Filipe I da França e o Papa Pasqual II
No âmago da grande paz e da luminosa ordem medieval nós encontramos a união entre o Poder Espiritual e o Poder Temporal. Não havia indiferentismo do Estado, nem laicismo agressivo, nem oposição crônica e desgastante entre os dois.

A Igreja não só respeitava as legítimas autoridades. Foi Ela, muitas vezes, a que instituiu e organizou os sistemas de governo, a partir de realidades embrionárias preexistentes, como o reino bárbaro dos francos ou dos hunos (húngaros).

E Ela vigiava como uma mãe para que o filho perseverasse pelo bom caminho.

Hoje, na imensa maioria dos casos, o filho está em estado de indiferença ou até revolta contra a mãe.

E então vemos imensas durezas na vida diária, crises e desajustes um pouco por toda parte. Os cidadãos sofrem as conseqüências, como filhos de pais divorciados em perpétua briga.

Batismo de Clóvis marca a conversão da FrançaHá até escritores que esperneiam e esbravejam contra essa feliz concórdia entre o Estado e a Igreja, entre o Sacerdócio e o Império.

Mas essa união fundamental entre os pensamentos, os desejos profundos e o sentimentos da Ordem Temporal e o da Ordem Espiritual da Idade Média foi defendida em documentos do Magistério eclesiástico que ficaram gravados para sempre.

E também em escritos luminosos de grandes Doutores da Igreja, santos e bons teólogos.

A título de exemplo, transcrevemos a seguir tópico da Encíclica “Immortale Dei” do Papa Leão XIII. Mais abaixo, reproduzimos carta de São Bernardo a Conrado, Imperador do Sacro Império Romano Alemão.

Papa Leão XIII:

“Então [na Idade Média] a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios.”

(Encíclica “Immortale Dei”, de 1º-11-1885 — nº28, Ed. Vozes, Petrópolis,1954, Doc. Pont. nº14, p.15)

Coroa de Carlos Magno, primeiro imperador sagrado pelo PapaSão Bernardo:

“A realeza e o sacerdócio não podiam estar unidos por mais suaves e mais fortes vínculos do que estiveram na pessoa de Jesus Cristo, que nasceu Sacerdote e Rei, descendente das tribos de Levi e de Judá.

Ademais, reuniu Ele uma e outro [realeza e sacerdócio] em seu Corpo Místico, que é o povo cristão, do qual Ele é a Cabeça, de modo que esta progênie de homens é chamada pelo Apóstolo: a raça eleita, o sacerdócio real (I, Pedr., II, 9); e em outra passagem, todos os predestinados são qualificados de reis e sacerdotes (Apoc., I, 6; V, 10).

“Portanto, não separe o homem o que Deus uniu! Pelo contrário, procure ele pôr em prática o que sancionou a Lei divina. Aqueles que estão unidos por sua instituição, estejam igualmente unidos pelo espírito e pelo coração; que se entreajudem, apóiem-se e se defendam mutuamente.

Papa Pio XII na sedia gestatoria, basílica de São Pedro, Roma“Se um irmão ajuda o irmão, diz a Escritura, ambos se consolarão”. Porém, se entram em rixa e se ferem, cairão na desolação.

“Longe de mim aprovar os que pretendem que a paz e a liberdade da Igreja sejam nocivas aos interesses do Império, ou que a prosperidade e a grandeza do Império sejam contrárias aos interesses da Igreja!

Deus, fundador de um e de outra, não os uniu para que se destruíssem, mas para que se edificassem reciprocamente”.

(São Bernardo, Epístola 244, a Conrado, Rei dos Romanos, em 1146; apud Mons. Henri Delassus, La mission posthume de Sainte Jeanne d’Arc et le règne social de Notre-Seigneur Jésus-Christ, t. II, c. LI, pp. 302-303).

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Ato de vassalagem de Carlos o Mau, rei de Navarra a Carlos V da França, Glória da Idade Média
A partir da época carolíngia existiu aquilo a que se poderia chamar uma mística da vassalagem: uma vida interior forjando em inúmeros vassalos a dedicação absoluta pelo seu senhor, razão de ser essencial da instituição. O caráter religioso da fidelidade jurada contribuiu imensamente para alimentar essa chama.

Belo exemplo dessa fidelidade pode ser visto ao ler a exortação dirigida em 843, por uma mulher de alto nascimento e grande cultura, Dhuoda, esposa do Marquês Bernardo de Septimania, a Guilherme, seu filho mais velho. Dhuoda exorta-o à fidelidade para com o senhor, a quem o seu pai decidiu que viesse a ser recomendado. Não há dúvida de que esse senhor é o próprio rei Carlos, o Calvo. Mas é um rei cujo poder é contestado. Todo o texto mostra que a apaixonada dedicação que a mãe exige de seu filho para com Carlos é a dedicação do vassalo para com o seu senhor. Reproduzimos aqui algumas passagens desse texto:

Submissão de São Luis a Inocencio IV em Cluny, Glória da Idade Média“Uma vez que Deus e Bernardo, teu pai, te escolheram para servires a Carlos, a quem tens por senhor, na flor da tua juventude, sustenta o que é da tua raça, ilustre pelos dois ramos.

“Não sirvas de maneira a agradar somente pela vista ao teu senhor, mas conserva-lhe, em tudo, com todo senso, uma fidelidade intacta e pura de corpo e alma.

“É por isso, meu filho, que eu te exorto a que mantenhas fielmente de corpo e alma, durante toda a tua vida, aquilo cujo encargo tens; que nunca possas ser acusado da loucura da infidelidade; que nunca o mal crie raízes no teu coração, a ponto de te tornares infiel ao teu senhor, seja no que for.

“Não creio seja de recear uma traição da tua parte ou da parte daqueles que contigo servem.

Vassalagem, Glória da Idade Média“Portanto, que tu, meu filho Guilherme, vindo da tua raça, sejas para com teu senhor, como te disse, sincero, vigilante, útil e o mais pronto ao seu serviço.

“Em todas as questões que interessem o poder do Rei, procura dar mostra de senso, em toda a medida das forças que Deus te deu.

“Lê as vidas ou as sentenças dos santos padres de outros tempos, e aí acharás como deves servir o teu senhor e ser-lhe útil em todas as coisas.

“Em tudo que puderes, aplica-te a executar fielmente as ordens do teu senhor. Toma em consideração também e contempla aqueles que deram mostras de maior fidelidade em servi-lo com perseverança, e aprende com eles a maneira de servir”.

(Fonte: F.L. Ganshof, “Que é o feudalismo?” – p. 51)

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O sino é quase tão antigo quanto à civilização.

Porém, como nós o conhecemos é um instrumento típico das igrejas católicas e dos prédios públicos da Cristandade.

Ele fica um instrumento religioso quando a Igreja Católica lhe confere suas bençãos e lhe comunica seu poder exorcístico numa cerimônia especial,

Os primeiros sinos eclesiásticos importantes apareceram nos mosteiros nos séculos IV e V, i. é, na ante-véspera e no iniciozinho da Idade Média.

Eles se generalizaram nas igrejas católicas já no século VII. Na dianteira saiu a região da Campania, na Itália, cuja capital é Nápoles. Do nome de Campânia vem a palavra “campana”, com que também se designa o sino.

Mas, só a partir do auge da Idade Média, quer dizer, no século XIII que os progressos na fundição dos metais permitiram aparecer os grandes sinos instalados nas catedrais e grandes igrejas.

Clique aqui para ouvir os sinos da catedral de Viena

Pouco ou mal se fala sobre este fruto abençoado da Igreja Católica que assumiu sua forma atual na Idade Média.

Alias, o quanto seus efeitos benéficos se fariam mais intensamente se hoje se eles fossem tocados como a Igreja quer!

Quantos sabem quais são os efeitos espirituais santificantes do sino das igrejas?

Eis, uma substanciosa explicação das bençãos do toque do sino feita por um digno representante do clero francês, Mons. Jean-Joseph Gaume (1802-1879), célebre pela sua ciência teológica:

Como todas as grandes e belas coisas, é à Igreja que devemos o sino.

O sino nasceu católico, por isso a Igreja o ama como a mãe ama o seu filho. Ela benze o metal de que é feito.

Logo que ele veio ao mundo, a Igreja o batizou e fez dele um ente sagrado.
Clique para ouvir os sinos da torre norte da catedral de Notre Dame de Paris
Com razão, porque o sino é destinado a cantar tudo o que há de santo e de santificante na terra e no céu.

Pelas orações e cerimônias que o acompanham, o batismo vai dizer-lhe a sua vocação.

A Igreja sempre teve em muito respeito o sino, o que se mostra com novo esplendor nas preces e nas cerimônias do seu batismo.

Reunidos os fiéis em roda do sino, suspenso a alguns metros acima do solo, o bispo em hábitos pontificais chega majestosamente, acompanhado do clero e seguido do padrinho e da madrinha do sino.

Em nome de Deus, de quem é ministro, o bispo chama sobre essa maravilhosa criatura a virtude do Espírito Santo, que a torna fecunda no primeiro dia da criação.

Certo de ser atendido, o bispo asperge o sino, ao qual confere o poder e o dever de afastar de todos os lugares, onde seu som repercutir, as potências inimigas do homem e de seus bens: os demônios, as trombas, o raio, o granizo, os animais maléficos, as tempestades e todos os espíritos de destruição.

Vejamos sua missão positiva.

A sua voz proclamará os grandes mistérios do Cristianismo, aumentará a devoção dos cristãos, para cantar novos cânticos na assembléia dos santos, e convidará os anjos a tomar parte nos seus concertos.

O sino fará tudo isto, porque esta missão lhe é confiada em nome d’Aquele que possui todo o poder no céu e na terra.

Clique para ouvir os sinos da abadia de Ettal, Alemanha

Cada badalada faz retinir ao longe os dois mistérios de morte e de vida – alpha e ômega – mistérios necessários para orientar a vida do homem, consolar as suas esperanças.

Não admira, pois, que o bispo, dirigindo¬-se ao próprio sino, o dedique a um santo ou a uma santa no paraíso, e lhe diga, com uma espécie de respeitosa ternura: “Em honra de São N., a paz doravante seja contigo, caro sino”.

Como o sino deve ter um nome, é preciso também que ele tenha um padrinho e uma madrinha.

O nome é gravado no sino, abaixo da cruz em relevo, que o marca com o selo de Nosso Senhor e o consagra ao seu alto culto.

Daí vem um fato pouco notado: o amor dos verdadeiros filhos da Igreja ao sino, e o ódio que lhe têm os inimigos de Deus.

Uma das mais doces alegrias de nossos pais, ao saírem da Revolução Francesa, foi ouvir os sinos, que haviam emudecido durante muitos anos.

Este incontestável poder do sino contra os demônios do ar justifica a virtude que ele goza, de dissipar os ventos e as nuvens, de afugentar diante de si o granizo e o raio, de conjurar as tempestades e os elementos desencadeados, pois que todas essas perniciosas influências da atmosfera provêm muito menos de coisas naturais do que da maldade desses gênios maléficos.
Clique para ouvir os sinos da igreja de Santa Maria Madalena, em Breslau, Alemanha

Nossos pais, na hora do perigo, faziam ouvir ao Pai Celeste, ao som dos sinos, seu primeiro grito de alarme. O Senhor não permanecia muito tempo insensível à voz do seu povo.

A corda que serve para tocar o sino, essa corda que sobe e desce sem cessar, indica o trabalho do pregador, e é também imagem da nossa vida.

(Fonte: Mons. Jean-Joseph Gaume, “L’Angelus au dix-neuvième siècle”, Editions Saint-Remi, 2005)


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A higiene não é uma descoberta dos tempos modernos, mas “uma arte que o século de Luiz XIV menosprezou e que a Idade Média cultuou com amor”, escreveu a historiadora Monique Closson, autora de numerosos livros sobre a criança, a mulher e a saúde no período medieval.

No estudo de referência “Limpo como na Idade Media”, a historiadora mostra com luxo de fontes que desde o século XII são incontáveis os documentos como tratados de medicina, ervolários, romances, fábulas, inventários, contabilidades, que nos mostram a paixão dos medievais pela higiene. Higiene pessoal, da cozinha, dos talheres, etc.

As iluminuras dos manuscritos são documentos insubstituíveis onde os gestos refletem o “clima psicológico ou moral da época”.

O zelo pela higiene veio abaixo no século XVI, com a Renascença e o protestantismo.

Milhares de manuscritos, diz Closson, ilustram o costume medieval.

Bartolomeu o inglês, Vicente de Beauvais, Aldobrandino de Siena, no século XIII, com seus tratados de medicina e de educação “instalaram uma verdadeira obsessão pela limpeza das crianças”.

Eles descrevem todos os pormenores do banho do bebê: três vezes ao dia, as horas, temperatura da água, perto da lareira para não pegar resfriado, etc..

As famosas Chroniques de Froissart, em 1382, descrevem a bacia no mobiliário do conde de Flandes, de ouro e prata. As dos burgueses eram de metais menos nobres e as camponesas em madeira.

A Idade Média atribuía valor curativo ao banho, como ensinava Bartolomeu o Inglês no Livro sobre as propriedades das coisas.

Na idade adulta os banhos eram quotidianos. Os centros urbanos tinham banhos públicos quentes copiados da antiguidade romana. Mas era mais fácil tomar banho quente todo dia em casa.

Na época carolíngia os palácios rivalizavam em salas de banho com os monastérios, que muitas vezes tinham ambulatórios para doentes e funcionavam como hospitais.

Em Paris, em 1292, havia 27 banhos públicos inscritos. São Luis IX os regulamentou em 1268.

Nos séculos XIV e XV, os banhos públicos tiveram um verdadeiro apogeu. Bruxelas, Bruges, Baden, Dijon, Digne, Rouen, Strasbourgo, Chartres… grandes ou pequenas as cidades os acolhiam em quantidade.

Eram vigiados moral e praticamente pelo clero que cuidava da saúde pública. Os hospitais mantidos pelas ordens religiosas, eram exímios e davam o tom na matéria.

Regulamentos, preços, condições, etc., tudo isso ficou registrado em abundantes documentos, diz Closson.

Dentifrícios, desodorantes, xampus, sabonetes, etc., tirados de essências naturais, são elencados nos tratados conhecidos como ervolários feitos nas abadias.

Historiadores como J. Garnier descreveram com luxo de detalhes os altamente higienizados costumes medievais.

As estações termais também eram largamente apreciadas. Flamenca, romance do século XIII faz o elogio da estação termal de Bourbon-l’Archambault. Imperadores, príncipes, ricos-homens os freqüentavam na Alemanha, Itália, Países Baixos, etc.

A era do ensebamento começou com o fim da Idade Média e durou até o século XX, conclui Monique Closson.

Ao menos até que os movimentos hippies, ecologistas, neo-tribais, etc. voltaram a pôr na moda andar sujo , sem barbear, vestido com blue-jeans e outras peças que estão ou fingem estar em farrapos ou com manchas, que vemos todos os dias na rua, nos transportes, aulas e locais de festa!

(Fonte : Monique Closson, “Propre comme au Moyen-Age”, Historama N°40, junho 1987)

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A celebração da festa de Natal remonta aos primeiros séculos da Igreja, sendo uma comemoração especificamente católica.

Desde o século IV as relíquias da manjedoura da gruta de Belém são veneradas na basílica de Santa Maria Maggiore em Roma.

Elas se encontram num precioso relicário de ouro e cristal (foto ao lado), onde podem ser admiradas e adoradas por todos.

A liturgia própria da festa era chamada ad praecepe, de onde vem a palavra presépio, e que significa literalmente em volta do berço.

Em 1223, São Francisco de Assis criou o primeiro presépio vivo, com personagens reais, na sua igreja de Grecchio, na Itália.

Os figurantes (o Menino Jesus numa manjedoura, Nossa Senhora, São José, os Reis Magos, os pastores e os anjos) eram representados por habitantes da aldeia.

Os animais, o boi, o burrico, as ovelhas e outros, também eram reais.

Este piedoso costume medieval espalhou-se rapidamente.

Os primeiros presépios em escala reduzida com imagenzinhas, entraram nas igrejas no século XVI por obra dos padres jesuítas, heróis na luta contra o protestantismo seco e hirsuto que desconhecem o presépio e os seus imponderáveis divinos que enchem as almas de gáudio.

Por volta dos séculos XV e XVI ficaram famosos os presépios de Nápoles, Itália, pela proliferação de figurinhas.

No início do século XIX, após a anticatólica Revolução Francesa, na França pareceu que o costume tinha morrido.

Mas, os habitantes da região de Provence (sul) deram novo impulso a esta piedosa devoção a partir de 1803 em casas particulares e igrejas criando famosos santons (figurinhas de massa) que representam os personagens da creche.

Na hora de montar o presépio, em geral, deixa-se a manjedoura vazia. Nela, o Menino Jesus será instalado na noite do dia 24 para o 25.

Forma parte de o costume colocar uma estrela no topo do presépio. Ela nos lembra a estrela que no céu guiou os três santos reis de Oriente vindos venerar o Salvador do mundo.

Os três Reis Magos (Gaspar, Melchior e Balthazar), simbolizam o conjunto dos povos da terra. Em geral, são representados com camelos, ou até elefantes e dromedários que lhes teriam servido de montaria.

É um costume muito praticado, colocá-los longe da creche e, dia após dia, aproximá-los dela, até introduzi-los na gruta na festa da Epifania (6 de janeiro).

Epifania significa a irradiação da glória externa de Deus, precisamente posta em relevo pela adoração dos potentados de Oriente.

A presença dos anjos é de rigor, relembrando o cântico angélico “Glória a Deus nos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade” de que nos falam as Escrituras.

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Na Idade Média a sociedade compunha-se de três classes sociais: o Clero, a nobreza e o povo. O Clero era a primeira classe.
Basicamente, o Clero divide-se em Clero secular e Clero regular. O Clero secular depende diretamente do Bispo e vive em paróquias. O Clero regular é constituído pelos religiosos que moram em conventos e pertencem às várias ordens e congregações.

Ss Gregório Magno (Papa) Ambrósio (cardeal), Agostinho e Jerônimo (bispos)

A hierarquia eclesiástica compõe-se, em sentido estrito, de apenas três graus: o Papa, os Bispos e os párocos. Eles têm o poder de jurisdição na Igreja.

Porém, a Igreja elaborou outros graus, que concedem um primado honorífico. Tal é o caso de Patriarcas e Cardeais, Arcebispos, monsenhores e cônegos.

Tais matizes honoríficos são vistos pelo povo como parte da hierarquia eclesiástica.

Os Patriarcas geralmente são arcebispos de sedes muito antigas, que tiveram liderança sobre determinadas regiões ou países, especialmente nas Igrejas Orientais. Na Igreja Latina isto ocorreu durante a Idade Média.

Primaz é o titular da sede mais antiga de um país. No Brasil o primaz é o Arcebispo de Salvador, na Bahia, a primeira cidade brasileira a ter bispos.

Mitra e paramentos para a Missa

Os cônegos constituem uma espécie de senado do Bispo, para o governo da diocese.

No Clero regular, as organizações das ordens religiosas, mas, em geral obedecem a princípios comuns.

Há o Superior Geral da ordem, que é a autoridade máxima, abrangendo todos os países. Abaixo dele estão os Provinciais, com jurisdição sobre as casas da ordem num país, ou em algumas regiões de um país.

Tiara (coroa do Papa) Beato Pio IX

Finalmente, os Superiores das diversas casas da ordem, individualmente consideradas. Além disso, em casa religiosa há os sacerdotes e os simples irmãos leigos.

Honório III (Papa) ouve sermão de São Francisco (frade)

Esta organização obedece à natureza da Igreja e do sacerdócio como foi instituido por Nosso Senhor Jesus Cristo, e teve seu desenvolvimento pleno na Idade Média. E assim perdura até hoje.

A hierarquia clerical também estava repleta de símbolos.

A coroa papal, a tiara, é uma superposição de três coroas sobre uma armação completamente fechada.

Do mesmo modo variavam em cores e adornos os chapéus dos Cardeais, as mitras de Arcebispos e Bispos e o barrete dos padres.

Havia outros símbolos, como o báculo do Abade, com a volta para dentro, representando sua autoridade dentro da abadia.

O báculo do Bispo tinha a volta para fora, indicando sua autoridade externa. A volta na ponta do báculo era sinal de submissão ao Papa.

São Patrício, bispo

Mas, o báculo do Papa não tinha volta alguma porque é símbolo de sua autoridade suprema e universal.

Fonte: GLORIA DA IDADE MÉDIA

Vitral gótico, Saint Remy, ReimsNo primeiro vitral que eu vi, eu tive a impressão que aquele mosaico de cores abria um buraco dentro da realidade material e conduzia meu olhar maravilhado para outra realidade que estava além do sensível.

O vitral me dava a impressão de que além da carapaça da matéria havia uma região aonde o maravilhoso se externava daquela maneira. O vitral, a bem dizer, é a porta dessa região.

Depois dessa porta há outra ordem de coisas. Está Deus. Aquele vitral é como que o cartão de visitas de Nosso Senhor, como que seu escudo heráldico.

O escudo heráldico não é a fotografia de um homem, mas é a descrição da mentalidade de uma família.

O vitral é a heráldica de Deus.

A luz criada por Deus penetrava no vitral e Deus como que dizia: “meu filho, sua alma dá para isso! sua vida existe para isso! tudo que está embaixo são coisas que na medida em que conduzem a isso estão bem”.

Resultado: alguém que voltando-se de olhar para a igreja de Saint Michel visse um grupo de punks dando risada da basílica, fazendo cambalhotas, e querendo, por exemplo, jogar lixo ali dentro, a posição natural e imediata seria …

Há uma proporção: quanto mais alto a alma subiu, mais essa reação seria definida. A reação é o termômetro exato do entusiasmo.

Mont Saint-MichelEsse estado de espírito maravilhado diante do Mont Saint Michel, da primeira torre, do primeiro vitral, do som deleitável do órgão, esses movimentos todos passam rápido demais em algumas almas.

Deixam, em outras, uma recordação que se fixa para todo o sempre se a alma continua fiel. Ali ela se encontra a si mesma, há uma espécie de identidade dela consigo mesma.

Deus criou aquela pessoa para viver nesse estado de espírito. Ela então vive disso.

Na medida em que ela não vive para isso, ela não tem a fisionomia que Deus quis para ela. Ela não sabe qual é sua verdadeira fisonomia.

De ali vem todos esses vazios, tristezas e frustrações que andam por ai.

Plinio Corrêa de Oliveira, 3/1/82. Texto sem revisão do autor.

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Considero o panorama que se observa na fotografia ao lado de alta categoria. Trata-se do Castelo de Cheverny, de estilo renascentista e clássico, situado no vale do Loire, na França. Onde está a beleza dele? É preciso analisar elemento por elemento.

A grama é de um verde esmeralda, que em nossos trópicos não germina. No meio da grama, a coisa mais comum do mundo: uma estrada inteiramente reta. No fundo, um castelo.

O que tem esse castelo propriamente de maravilhoso? Não se vê uma estátua, não se observa quase ornato, nem é ele uma construção cara. É o maravilhoso do equilíbrio, maravilhoso do edifício bem pensado, estudado e construído com categoria. É o equilíbrio que se encontra nas coisas francesas, que contêm toda espécie de sabores.

* * *


Analisemos o prédio. Ele é composto de uma espécie de torreão central, que é o ponto monárquico da construção. Essa parte central é toda leve, toda esguia, mas de tal maneira é bem pensada, que não se apresenta como raquítica, de nenhum modo, em relação aos dois extremos atarracadões e bojudos, existentes num e noutro lado do ponto central. A parte reta da fachada está bem no centro: é a graça dominando a força; Jacó dominando Esaú. Os elementos pesados coordenados em torno do leve.

É a afirmação da superioridade do espírito. O triunfo da graça sobre a força, da inteligência sobre as coisas da matéria.

* * *

Entretanto, o contraste entre a parte central e os dois extremos é equilibrado — porque todo contraste, para ser equilibrado, tem que apresentar termos intermediários harmônicos — por dois corpos de edifícios iguais, que não são tão esguios quanto o corpo central, nem tão bojudos quanto os extremos, mas que se situam entre um e outro desses elementos, preparando a transição.

A altivez do castelo está no que ele tem de mais gracioso. É como quem diz: “Forte eu sou, mas sobretudo eu me prezo de ser inteligente. Em última análise, sou completo. Sou dotado de inteligência e de força. Sou equilibrado”.
O castelo, sendo talvez um pouco discreto demais, foi realçado pela perspectiva. Fica num grande parque, envolto por um simples, mas esplêndido tapete de esmeraldas para lhe servir de apresentação. Ao longe, arvoredos formando a moldura. Dir-se-ia que ele sai de dentro de um mundo de delícias e de mistérios. A clareza e a lógica cercadas pelos imponderáveis: outra forma de equilíbrio.

Não é verdade que um dos prazeres da vida, que tornam a existência humana digna de ser cristãmente vivida, é analisar as coisas dessa forma?
Mas analisar com os olhos postos no Céu. Porque esses são valores de espírito, e são assim porque a civilização que gerou tais valores foi cristã. São assim, porque foi derramado o precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tais valores são um reflexo da Igreja Católica. Se não fossem as virtudes cristãs, isto não teria sido assim. Então, não é um puro gáudio para os olhos que se tira dessa análise, nem um puro gáudio da inteligência. Mas por cima dos gáudios visual e da inteligência há uma alegria superior do espírito, que considera uma ordem transcendente de coisas. Ordem na qual existe um Deus pessoal e sobrenatural, no Qual todas as formas de equilíbrio realizam-se de modo tão insondável, que é impossível de ser imaginado por qualquer criatura.
Assim é a Terra como a bênção de Deus a fez e como a Civilização Cristã

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 12 de maio de 196l. Sem revisão do autor.

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A impressão que o castelo de Chenonceaux causa, à primeira vista, é de entusiasmo!

Qual é a razão pela qual ele produz esse sentimento?

Imaginemos que fosse um castelo construído em terra, e que, em vez de correr um rio debaixo dele, passasse uma estrada poeirenta comum, permitindo o trânsito de carroças, automóveis, etc., etc.

Não é verdade que o castelo perderia pelo menos cinqüenta por cento de seu encanto?

Com isso, fica claro o que seu construtor explorou para produzir essa sensação de inebriamento.

Foi uma obra baseada no seguinte princípio: todas as coisas que se refletem na água ganham em beleza.

Tem-se uma sensação paradisíaca vendo as águas do rio fluírem tão plácidas, marcadas pelo azul do céu, e o castelo que nelas se reflete reproduzindo a imagem de si mesmo.

Vê-se que a maior beleza do castelo consiste na concretização dessa idéia originalíssima de construir uma parte dele sobre uma ponte. E isso de maneira tal, que ele, por assim dizer, parece um cisne em cima da água.

Esse é um castelo-cisne. Ele flutua sobre a água como se fosse uma fantasia, uma coisa irreal, um sonho!

* * *

Por outro lado, quanta harmonia foi posta, segundo o espírito francês, nessa portentosa obra de arquitetura.

O castelo é constituído por três elementos distintos. O primeiro deles é a ponte com os seus arcos, em cima da qual se construiu a ala mais leve do edifício. O segundo elemento é o corpo central do castelo. E por último, à esquerda, um torreão _ que deve ser o que restou de uma velha fortaleza medieval _ sólido, atarracado, grande, e que produz a sensação de estabilidade, ao último grau.

Chama a atenção o contraste entre os arcos da ponte, tão diáfanos e leves, e a base pesada da parte central. Esse misto de firmeza, de estabilidade e delicadeza forma um contraste harmônico de qualidades opostas, que acentua a sedução inerente a essa parte do edifício.

São os três elementos sucessivos que dão encanto ao castelo e explicam sua beleza.

Ao fundo, nota-se um jardim esplêndido. Um quadrilátero apresenta desenhos e vegetação lindíssimos, com aquela grama esmeraldina da Europa que aqui não se conhece.

Tal jardim é arranjado e “penteado” de tal maneira, que não o pode ser mais. Para compensar o extremo do arranjado, há ao seu lado uma arborização “despenteada”, puramente silvestre, que completa plenamente o panorama.

Em outros termos, tudo o que parece espontâneo foi estudado com uma sagacidade extraordinária, para provocar um efeito de conjunto. Mas com tal perfeição, que a noção de harmonia nasce sem que a maior parte das pessoas consiga explicitá-la.

O sumo da harmonia consiste exatamente em que não se possa precisar, à primeira vista, no que ela consiste, exigindo muita atenção para a definir …
_______

Excertos de conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sem revisão do autor.

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Chambord, aérea, castelos medievais
Veja o que é a arte! Quem construiu esse castelo não tinha idéia de que ele pudesse ser visto desde o ar. Ele foi construído com a preocupação artística comum, para as perspectivas comuns.

Dir-se-ia que ele é mais bonito ainda na perspectiva de onde os construtores não imaginavam que ele pudesse ser observado.

Um dos modos de se analisar o castelo é fazer uma distinção entre o telhado e aqueles mil torreões de um lado, e a parte de baixo construída de alvenaria.

São dois mundos diversos, porque a parte debaixo é sólida, até um pouco atarracada, com traços de fortaleza medieval.

Chambord, aérea, castelos medievaisChambord nitidamente não é medieval. Mas, considerando as duas grandes torres centrais, já concebidas para ter janelas e serem habitadas, mais as duas torres laterais, tem-se um esquema um pouco parecido com o de Valençay e de tantos outros castelos medievais.

Quer dizer que ainda há uma certa inspiração e perfume medieval presente nesse castelo.

As torres e as construções entre as torres são majestosas, bonitas, e ligeiramente carrancudas, um pouquinho pesadas.

Chambord, torres e chaminés, castelos medievaisSem o teto, a parte de alvenaria ficaria um tanto tristonha. Mas como os contrastes harmônicos são um dos segredos da arte, a parte de baixo, que daria uma falsa ilusão de pesada, é compensada por uma feeria no teto de chaminés, de torreõzinhos, de pequenos terracinhos com mais uma cúpula em cima, que dão a impressão de um concerto musical com mil notas que se desprendem pelo ar.

De maneira que, depois de a gente ter contemplado a majestade e a força da parte debaixo, olhando para a parte de cima, se fica embevecido simplesmente.

Vendo o conjunto se compreende exatamente o que é que é a harmonia, isto é unidade na variedade. Duas partes diretamente opostas constituem uma variedade. Mas essa variedade é um elemento de harmonia. A harmonia entre o teto e a parte de alvenaria do castelo é perfeita.

Chambord, fachada, castelos medievais

Plinio Corrêa de Oliveira. Sem revisão do autor.

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Casa do rei, Burxelas. Castelos medievais

Vemos nesse palácio – denominado Casa do Rei, porquanto foi a residência do Rei da Espanha – a beleza das várias seqüências de ogivas. Ele está situado na Praça do Mercado de Bruxelas, capital da Bélgica.

O prédio é constituído por três andares e uma mansarda, com o mesmo estilo arquitetônico – o gótico -, exibindo, contudo, harmônicas e elegantes distinções entre suas diversas partes.

O andar térreo apresenta uma galeria com colunas, sobre as quais repousam ogivas muito abertas.

Sobre esta galeria, como fachada do primeiro andar, ergue-se outra, cujo número de colunas e ogivas é o dobro das colunas e ogivas de baixo, com exceção das duas colunas e da ogiva do centro do edifício, que se repetem nas duas galerias.

Todas as ogivas são trabalhadas finamente; de repente, elas se adelgaçam e terminam numa ponta.

Ficaria meio sem-graça ogivas com apenas uma abertura; mas, com essa ponta, elas ganham charme e adquirem encanto.

Casa do rei, Burxelas. Castelos medievais.jpgNo terceiro andar as janelas, em forma ogival, descansam o espírito em relação ao que está abaixo, bem como à mansarda superior.

O primeiro e o segundo andar, juntamente com a mansarda, constituem ordens ou estágios muito parecidos e, ao mesmo tempo, muito distintos, sobretudo bastante harmoniosos.

Na mansarda sobressaem quatro janelas, também ogivais, de cada lado do edifício.

Nas duas extremidades dela afloram dois pequenos torreões.

Como florão de honra, rumo ao qual tudo está construído, um torreão maior, todo enfeitado, todo ornado, emerge da mansarda.

Ele constitui o centro do edifício, dando-lhe unidade e nobreza.

Toda a glória da Casa do Rei como que se concentra nesse torreão.

A Casa é digna, altiva e afável. Sua fachada encanta quem a vê. A pessoa sente-se honrada, se for autorizada a transpor seus umbrais; e tranqüilizada, se for conduzida a um quarto de dormir, onde pode repousar serenamente.

_____________
Nota da redação
A artística iluminação valoriza o palácio e apresenta uma visão feérica dele, bem como de duas outras construções, com o mesmo estilo, da Praça do Mercado. O conjunto cria um ambiente envolto numa atmosfera como que mítica!

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Clerans, Castelos medievais
A Idade Média gerou grandes castelos de fábula, por exemplo o de Chenonceaux ou o de São Luís.

Mas também produziu centenas e centenas de castelos de graus menores de beleza e magnificência. E eles são muito bonitos e admiráveis também.

E, não só de castelos, mas casas senhoriais, burguesas e populares nas quais se espelhava qualquer coisa do brilho do grande castelo.

O universo dos castelos medievais não se compreende verdadeiramente, sem considerar esta dimensão social.

No período medieval o teor geral da vida possibilitou ao homem realizar na Terra não propriamente um mundo de gostosuras, mas sim um mundo de maravilhas e de realizações arquitetônicas, ultra-sapienciais e ultra-capazes de nos falar do Céu.

E por causa disso mesmo ultra-agradáveis para o homem peregrino nesta terra.

A beleza de Chenonceaux e dos castelos medievais não se exprime bem dizendo “que gostoso é morar aqui!” Porque há um critério profundo que explica esses castelos.

Perto de Rocamadour, castelos medievaisÉ a elevação de alma, a nobreza, a dignidade que engrandece o homem.

Não apenas ao senhor do castelo, mas até o jardineiro do castelo, como podemos ver na simpática casinha do encarregado do jardim (foto embaixo).

Nela, aliás, mora o atual proprietário de Chenonceaux, sendo o castelo continuamente visitado por turistas, viajantes e admiradores.

Os castelos cumpriam, e num grau enorme, a tão decantada “função social da propriedade privada”.

Mas, não ficava nisso.

O castelo medieval irradiava em torno de sim uma vida de feeria que elevava a vida do conjunto social a patamares que, no nosso massificado mundo hodierno, custa-nos imaginar.

Se esse movimento ascensional de conjunto não tivesse sido interrompido até onde a civilização católica teria chegado?

Chenonceaux, casa do jardineiro. Castelos medievaisPor certo, teria produzido uma imagem empolgante dos esplendores do Céu. Essa imagem teria ajudado imensamente à prática das virtudes.

E, portanto, até contribuiria possantemente para a salvação das almas. A cultura da morte, por exemplo, nem teria podido aparecer.

E se a Europa tivesse chegado a um patamar insonhado, até onde poderia ter chegado nosso Brasil sob a benéfica influencia da Civilização Cristã européia, da qual ele provém?

Na foto: a casinha do jardineiro de Chenonceaux

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Conciergerie, Sainte Chapelle e Palais de Justice
A Conciergerie (literalmente = portaria) é parte do antigo palácio de São Luis em Paris.

Sua fachada é quase toda ela medieval.

O atual Palais de Justice junto com a Sainte Chapelle (foto ao lado) faziam parte do mesmo conjunto.

Para se ter uma idéia do que era a Cristandade na Idade Média, é preciso imaginar uma noite em Paris sem iluminação pública.

No escuro da noite, a cidade inteira dorme.

Nos conventos e numa ou noutra casa particular onde há pessoas especialmente piedosas, alguém reza.

Conciergerie, castelo de São Luiz IX, em ParisOs transeuntes são raríssimos. Mas às vezes são forçados a ir de uma casa para outra para falar com um doente, com alguém que está morrendo. Um tabelião que vai fazer um testamento, por exemplo.

Para protegerem esses raros transeuntes, patrulhas andam a cavalo para todos os lados e cantam canções para fazerem entender longe é só levantar um brado que eles acorrerão na direção daquele brado.

Estes são ruídos que apenas cortam de vez em quando a noite.

A cidade dorme.

Conciergerie, castelo de São Luis, ParisNa Sainte Chapelle, em Notre Dame, o Santíssimo está no sacrário.

No palácio de São Luís, dorme um Rei que é um santo, e que ordena com santidade todas as coisas do seu reino.

E assim, a história da França flui gloriosamente, tranqüilamente, como flui o Sena ao pés do palácio.

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Na Europa medieval, as vidas dos conventos e dos castelos, dos santos e dos heróis se entrecruzaram indissoluvelmente.

El Escorial, castelos medievais
Por exemplo, o mosteiro do Escorial. Ele, aliás, não é medieval. Mas foi feito por homens que tinham mentalidade medieval. É, ao mesmo tempo, um convento e a residência pessoal do rei mais poderoso da Terra no seu tempo: Filipe II da Espanha.

Escorial, aposentos Felipe II. Castelos medievaisSem dúvida o Escorial é muito bonito. Mas, a gente pode pensar na salinha do Escorial, ou num dos salões, e ali imaginar Filipe II lendo uma carta de Santa Teresa de Jesus.

A gente pode imaginar por perto um Núncio gordalhão, bonachão, renascentista, contrário à reforma dos Carmelos, fazendo suas manobras. E Filipe II, que tinha uma alma maior do que todo o Escorial, decidindo.

Santa Teresa de Jesus e Filipe II: havia uma junção entre essas duas almas, porque Santa Teresa era ainda mais Escorial do que Filipe II. Ela encarnava o Escorial do Céu que olha para a Terra e Filipe II representava o Escorial da Terra que fica olhando para o Céu.

Escorial, aposentos Felipe II. Castelos medievaisNo Escorial há um entrecruzamento do temporal com o religioso. Por causa disso, a ordem temporal era sacral. Ela reconhecia e afirmava que nada de válido e autêntico podia brotar a não ser da verdadeira visão da Religião Católica, que os santos tiveram nos seus conventos.

Então nasciam as maravilhas da Civilização Cristã sob a sombra benigna e materna das instituições da Igreja Católica.

Foi assim que os santos geraram uma civilização católica, que antes de nascer palpitava na alma de santos como São Bento, São Remígio, e tantos outros.

Foi a junção da Europa medieval com a Igreja e a Religião que trouxe a paz de Cristo ao mundo.

No Céu nós teremos a Visão Beatífica e o Paraíso Celeste. Deus achou que a Visão Beatífica seria bem completada com o Paraíso Celeste. A prefigura da visão beatífica são as graças sobrenaturais. E a prefigura de Paraíso Celeste é a Civilização Cristã.

Plinio Corrêa de Oliveira. Texto sem revisão do autor.

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Virgen de la Antigua, Catedral de Sevilha. Milagres medievais
A imagem remonta aos primeiros tempos do Cristianismo, anterior aos reinos góticos, motivo pelo qual recebeu o nome de “a Antiga”.

Pintada em um muro da catedral, foi muito venerada em toda a península até a Espanha ser invadida pelos muçulmanos. Muza se apoderou de Sevilha, e Abdelasis, seu filho, fez passar a fio de espada grande parte da população.

A catedral foi convertida em mesquita maior, foram destruídos os objetos de culto e se empenharam em fazer desaparecer a imagem de Nossa Senhora a Antiga. Rasparam-na duas, três e muitas vezes mais, porém logo que concluíam sua obra sacrílega a imagem voltava a aparecer, mais bela e resplandecente ainda.

Avisado, Abdelasis foi ver o que acontecia. Logo que se apresentou diante da milagrosa imagem, uma força extraordinária o obrigou a ajoelhar-se, bem como a todo o seu séquito.

Isto se repetiu cada vez que os muçulmanos insistiam em seu iníquo propósito. Para fazê-la desaparecer, resolveram então cobri-la com uma parede maciça de pedra. Mas muitos fiéis continuaram a ver a imagem, como se a parede fosse de cristal.

A lembrança de Nossa Senhora a Antiga perdurou indelével nos corações dos católicos, em meio à terrível opressão em que estavam. No reinado de Fernando III, que deu novo e vitorioso impulso à Reconquista, o paredão que Abdelasis havia mandado erguer começou a emitir raios de resplendor, o que os mouros tomaram como presságio de sua ruína. Não conseguiram encobrir esse novo milagre, e além disso começou a repetir-se o prodígio de obrigar a ajoelhar-se todo infiel que se atrevesse a olhá-la.

São Fernando, Alcacer de CordobaEm agosto de 1247, o Rei São Fernando iniciou o sítio de Sevilha. Conhecendo a história dessa gloriosa imagem da Virgem, tinha vivo desejo de venerá-la, o que lhe foi concedido já antes de completar a Reconquista.

Uma noite, foi guiado por um anjo, em meio à cidade ainda ocupada pelos mouros, até o lugar da mesquita onde Ela estava murada. Rezou ali, e é de supor que com fervor lhe tenha pedido auxílio para libertar com a maior presteza a imagem e a cidade da tirania muçulmana.

Depois voltou à tenda do seu acampamento, onde sua ausência já deixara a todos aflitos. Contou-lhes o Rei que estivera visitando Nossa Senhora a Antiga, “a cujo poder deveremos o próximo repouso dentro da cidade”.

Quatro dias depois, a 24 de novembro de 1248, o emir Abu-Asan entregava ao Rei santo as chaves da cidade rendida.

A Nossa Senhora a Antiga foi muito difundida também na América desde o início da Conquista, pelo estrito vínculo que teve Sevilha com tudo que se relaciona com a América, sendo especialmente venerada em São Domingos, no Panamá (a primeira missa que se celebrou ali, em 1513, foi em sua honra), em Quito, Lima e Cuzco, entre muitos outros lugares.

(Fonte: Conde de Frabaguer, “Imágenes de la Virgen Aparecidas en España” – Juan J. Martínez Editor, Madrid, 1861; J. M. Matovelle, “Obras completas”, Ecuador, 1981, pp. 394-397)

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Nossa Senhora da Vitória, padroeira de Malága, Espanha
Em 1487 iniciou o rei católico Fernando o sítio de Málaga com um exército imponente. Uma vez estabelecido na proximidade, procurou persuadir seus habitantes a que lhe entregassem a praça, para evitar as destruições de um sítio.

O tirano que dominava a cidade, Hamet el Zegrí, mandou degolar os que participavam das tratativas, e então o Rei intimou a cidade a se render, mas ela se recusou.

Deu início então ao sítio, instalando diante dos muros de Málaga seus efetivos, e em meio a eles uma espécie de templo, onde mandou pôr uma imagem da Virgem, que sempre levava consigo.

Começou uma luta duríssima, em que a artilharia tinha muita parte. Antes de continuar a destruição da cidade, ainda foi feita uma segunda intimação a Zegrí, que a rechaçou mandando degolar uma comissão de muçulmanos que quis mostrar-lhe o perigo de prolongar um sítio sem esperanças de vitória.

Nossa Senhora da Vitória, padroeira de Malága, EspanhaObstinou-se na luta, apesar das muitas derrotas, praticando crueldades contra os seus. Depois do fracasso de uma sortida, fechou-se numa torre-fortaleza fora da cidade, abandonando-a à sua própria sorte. Ao se verem livres do jugo de Zegrí, os mouros pediram ao Rei que os deixasse voltar para a África ou viver em Castela, o que lhes foi recusado.

Declararam então os da cidade sitiada que, se não obtivessem isso, enforcariam nas ameias quinhentos cristãos cativos, ateariam fogo à cidade, exterminando suas famílias, e tratariam de morrer matando.

Estavam assim as coisas quando, a 18 de agosto, de improviso se rendeu a praça. Nela entraram imediatamente as tropas castelhanas, pondo a cruz nas torres do forte. Diante dele se ajoelharam os reis católicos e foi cantado o Te Deum.

Isabel e Fernando atribuíram a um milagre da Santíssima Virgem esse triunfo.

Para perpétua memória, em ação de graças mandaram edificar um templo no local em que estava a santa imagem que levavam. Desde então recebeu o nome de Nossa Senhora da Vitória, com o qual até hoje é venerada como padroeira de Málaga.

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Foulques V, Angers
Tal é o fundamento de todas estas idéias: a nobreza é chamada a proteger e purificar o mundo por meio do cumprimento do ideal cavalheiresco.

A vida reta e a reta virtude da nobreza são os meios de salvação para os maus tempos: o bem e a paz da Igreja e da Monarquia, o império da justiça, dependem dela.

Duas coisas há – isso se diz na vida de Boucicaut, um dos mais puros representantes do ideal cavalheiresco da última Idade Média – postas no mundo como dois pilares pela vontade de Deus, para sustentar a ordem das leis divinas e humanas; sem elas, o mundo seria só confusão; tais coisas são a cavalaria e a ciência, “chevalerie et science, que moult bien conviennent ensemble”.

“Science, Foy et Chevalerie” são os três lírios do “Chapel des Fleurs de Lys” de Philippe de Vitri. Representam três estados.

A nobreza é chamada a proteger e amparar os outros dois. A equiparação da nobreza e da ciência, que se revela também na inclinação a reconhecer no titulo de Doutor os mesmos direitos que no titulo de Cavaleiro, atestam o alto valor moral do ideal cavalheiresco.

Reis e cavaleirosHá nele a veneração de uma vontade e arrojo superiores, junto à de uma ciência e capacidade superiores.

Sente-se a necessidade de ver os homens elevados a uma potência superior, e trata-se de dar a esta necessidade a expressão de duas formas fixas e equivalentes de consagrar-se a uma tarefa vital superior.

Mas destas duas formas tinha o ideal cavalheiresco uma influência muito mais geral e poderosa, porque nele se uniam com o elemento ético tantos elementos estéticos que tornava-se compreensível para todo o espírito.

(Fonte: Johan Huizinga, “El Otoño de la Edad Media”, Revista de Occidente, Madrid, 1965, 6ª. Edición.)

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Como evitar o envenenamento espiritual de toda a sociedade sem consentir em injustiças contra os inocentes ou contra os próprios hereges?

Como conduzir a nau em rumo seguro, entre a indiferença desesperadora de muitos Bispos ou sua susceptibilidade à política local, e de outro lado a impetuosidade das massas populares ou dos agentes imperiais?

O grande Papa (Gregório IX) certamente considerou profundamente este problema. Como Pai da Cristandade, não desejava a morte, mas a correção de seus filhos transviados.

Gregório teve entre suas preocupações uma feliz inspiração: por que não se servir das novas ordens mendicantes?

Até mesmo Lea (historiador contrário à Inquisição) lhes reconheceu a utilidade:

“O estabelecimento destas Ordens parece uma intervenção providencial para proporcionar à Igreja de Cristo aquilo que com grande urgência necessitava. À medida que foi se tornando patente a necessidade de tribunais especiais e permanentes, todas as razões favoreciam que elas estivessem acima das invejas e inimizades locais que podem induzir ao prejuízo do inocente, e acima dos favoritismos que podem conspirar a favor da impunidade do culpado. Se, além dessa ausência de partidarismos locais, os juizes eram homens especialmente adestrados para a descoberta e conversão dos hereges; se tinham renunciado ao mundo por votos irrevogáveis; se não precisavam de bens materiais e eram surdos aos apelos de prazer, parecia que estavam oferecidas todas as garantias possíveis de que suas importantes obrigações seriam cumpridas dentro da mais estrita justiça. E que, enquanto a pureza da Fé era protegida, não haveria desnecessariamente opressões, crueldades ou perseguições ditadas por interesses particulares ou por vinganças pessoais”.

Como Lea supõe, Gregório provavelmente não tinha a intenção de estabelecer um tribunal permanente. Legislou para fazer frente a uma necessidade urgente, e os dominicanos, com seus profundos conhecimentos de teologia, pareciam estar perfeitamente aptos para auxiliar os Bispos.

Naturalmente, isso não seria do agrado de todos. Havia Prelados muito melindrosos em matéria de intervenções exteriores, mesmo de Roma. Levando isso em conta, Gregório escreveu uma diplomática carta aos Bispos do sul da França explicando a situação:

“Vendo-vos envolvidos no torvelinho de inquietações e apenas podendo respirar sob a pressão de sombrias preocupações, cremos oportuno dividir vossa carga para ser levada mais facilmente. Portanto, resolvemos enviar frades pregadores (dominicanos) contra os hereges da França e províncias adjacentes, e vos suplicamos, advertimos e exortamos a que os recebais amavelmente e os trateis bem, dando-lhes favor, conselho e ajuda para que possam cumprir seu mandato”.

Desse modo foram enviados os dominicanos, e em menor proporção os franciscanos, aos lugares onde mais abundavam os hereges. Alguns foram para a Alemanha, mas até 1367 nenhum tribunal sério e permanente ali se estabeleceu.

São Domingos preside auto-da-féAlberico, um dominicano, foi enviado para a Lombardia com o título de “Inquisitor hereticae pravitatis” (Inquisidor contra a perfídia dos hereges). Um de seus sucessores morreu nas mãos das hordas. Outro, São Pedro de Verona, também dominicano, filho de pais maniqueus e fundador da Inquisição de Florença, foi assassinado pelos hereges na estrada de Como a Milão, em 1252.

Ser inquisidor era perigoso, pois os hereges freqüentemente possuíam influências, poder, fanatismo e desespero.

Nenhum jovem dominicano aspirava, por prazer, tirar os hereges de suas tocas. Tal era o caso especial do sul da França, onde os cátaros que sobreviveram à Cruzada, lutaram longa e tenazmente contra os novos tribunais monásticos.

Alguns hereges saquearam um convento dominicano em 1234. Oito anos depois o inquisidor Arnaud e vários frades pregadores foram assassinados. Então, os dominicanos rogaram ao Papa (Inocência IV) que os dispensasse de sua missão. A isto se recusou o Pontífice. Uma força armada de católicos destruiu a resistência dos cátaros, tomando de assalto Montségur, onde se tinham refugiado os assassinos dos dominicanos, e queimou sem julgamento prévio 200 hereges, como os levitas de Moisés mataram os idólatras.

Depois deste fato, a Inquisição foi aceita pelas autoridades seculares. Gregório IX enviou inquisidores à Espanha em 1238. Um deles foi envenenado pelos hereges.

Nas instruções a seus emissários o Papa estabeleceu a diferença entre a Inquisição medieval e as investigações dos Bispos e anteriores tentativas de tratar do problema da heresia. Os monges deveriam ir às cidades onde havia a infecção herética e proclamar publicamente que todos os que fossem culpados de delitos contra a Fé deveriam se apresentar e abjurar de seus erros.

Os que assim o fizessem, seriam perdoados. Deveria ser empreendida uma pesquisa. Se duas testemunhas afirmassem que um indivíduo era herege, deveria ser julgado. Naturalmente, os monges atuariam sempre em colaboração com o Bispo, e com seu prévio consentimento. Nada se indicava então sobre o uso da tortura; não foi utilizada a não ser vinte anos mais tarde.

São Domingos queima livro pestilenciais, Glória da Idade MédiaAparentemente, Gregório não tinha a intenção de fundar uma instituição nova. Apenas utilizava as Ordens religiosas para ajudar os Bispos no cumprimento de uma obrigação que sempre tiveram. O Bispo Donais, profundo conhecedor de documentos originais da primeira Inquisição, é de opinião de que (o Papa Gregório IX) também tentava se antecipar às intromissões de Frederico II, o qual já começara a queimar seus inimigos políticos sob o pretexto de defender a Fé.

Gregório estabeleceu que fossem teólogos peritos, e não políticos ou soldados, aqueles que julgassem os que eram católicos verdadeiros e os que não o eram. Uma vez decidido este ponto, a Igreja ficava livre de reconciliar ou excomungar o herege, e (neste último caso) se o Estado o considerasse perigoso, poderia aplicar-lhe a pena costumeira por alta traição.

Como Moisés na Antiguidade, Gregório desejou proteger do erro os filhos de Deus. Como Moisés, ordenou que se fizesse com toda diligência uma investigação ou inquisição, e exigiu ao menos o depoimento de duas testemunhas. Insistiu, como Moisés, para que os crimes contra Deus não ficassem impunes. Até aqui o paralelo é exato, mas não vai além.

Moisés, sob a antiga Revelação, e em tempos primitivos, não cuidou em distinguir o penitente do empedernido, o enganado do enganador: o culpado era lapidado até à morte. O desejo principal de Gregório era atrair novamente os hereges transviados à graça de Deus. Somente caso insistisse em continuar sendo inimigo de Deus (e inimigo, portanto, da sociedade) deveria ser expulso da igreja, e abandonado à parcimoniosa misericórdia do Estado.

Foi preciso tempo e não pouco esforço para conseguir o funcionamento da nova organização de modo a se realizarem os desejos do Papa.

Hoje está reconhecido que os Juizes (da Inquisição) eram muito superiores a seus contemporâneos dos tribunais seculares.

Fonte: William Thomas Walsh, “Personajes de la Inquisición”, Espasa-Calpe, S.A., Madrid, 1948, pp. 71 a 74.

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O primeiro aspecto que chama atenção na escultura do homem que figura nesta foto é o modo de estar de pé.

Tal escultura pode bem representar o cruzado no apogeu da Idade Média.

Ele apresenta um equilíbrio de corpo perfeito.

Os pés não são pés chatos, como os de pato, com a precária firmeza deste. Não. É a estabilidade corporal do homem, na qual não falta uma certa nota de elegância, em que entra algo de espiritual.

As pernas, o tronco, os braços, representam a solidez física perfeita de um homem que venceu a ação da gravidade.

Ele não cedeu em nada à preguiça.

Mas também não está efervescente, não tem a mentalidade do homem de negócios, que fala em cinco telefones ao mesmo tempo…

Mantém-se inteiramente tranqüilo, mas de uma tranqüilidade tal, que seu repouso se volta inteiro para a ação.

E atuação que já é de uma vez a guerra. A mais absorvente de todas as atividades, aquela que se opõe mais diretamente à preguiça. Não é o trabalho, é a luta.

Ele está numa posição em que a qualquer momento pode iniciar o combate.

Está fazendo uma proclamação com os grandes braços abertos.

Como quem diz: “Isto é assim e não vai por menos, ai de quem negar o que proclamo, porque pego a espada…“. É a proclamação perfeita de quem anuncia e ameaça.

< Por outro lado, o cruzado permanece numa atitude contemplativa.

Sua fisionomia indica que ele não está vendo o que se passa em torno de si.

Está olhando dentro de si mesmo. E de dentro de si considera um ideal inteiramente superior, que lhe ilumina a alma: são os princípios a favor dos quais o homem é obrigado a combater.

Ele todo é um edifício de coerência, de metafísica, pronto para descarregar o golpe. Todas as razões do combate lhe estão presentes, tudo raciocinado, coerente, tudo positivo.

É um homem profundamente sério. Se acontecer qualquer coisa diante dele, sua visão será a da realidade inteira. Não irá exagerar, nem subestimar, nem torcer a realidade, nem mentir. Ele vê o que acontece e diz o que vê.

É o varão sério por excelência.

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Excertos de conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, 22 de abril de 1967. Sem revisão do autor.

Para a mentalidade medieval esta terra é uma terra da exílio na qual, entretanto, há um paraíso: a Santa Igreja Católica, a única igreja verdadeira do único Deus verdadeiro. E os vitrais eram as janelas desse paraíso. Os romanos descobriram o vidro, mas nunca fizeram um vitral. Quando começou então a história do vitral? Quando nasceu o desejo do maravilhoso. Se as almas dos vitraleiros — se a palavra existe no português — não fossem ávidas deste azul, daquele verde, daquele dourado, eles teriam tomado o trabalho de encontrar essas cores? Eles preferiam ficar numa semi-pobreza a vida inteira até encontrar um verde ou um azul que sonhavam para o vitral de Nossa Senhora, ou do Anjo S. Gabriel, ou de um santo. E depois morriam contentes. “Ali vai haver tal azul, essa é a minha contribuição para todo o sempre para a glória de tal Santo”. A gente teria a vontade de imaginar que o Anjo que veio pegar a alma deles quando eles morreram, tinham santidades e virtudes análogas à cor com que eles sonharam. Essa era a morte do artesão que trabalhava o vitral. Ele podia dizer: “a minha vida está explicada, eu trouxe tal cor ao conhecimento dos homens, à piedade da Igreja, à glória de santo tal, ou de Nosso Senhor em tal mistério de sua vida. Ó sol tu que me antecedeste na criação, tu também, foste criado para que um dos seus raios passasse sempre por lá. Enquanto tu fores sol e o mundo for mundo, um dos teus raios atravessará o azul com que eu sonhei, e vai iluminar o chão de granito e vai enlevar alguma alma fiel que veja. Minha vida está explicada”. Por detrás da história do vitral está a história das almas que quiseram essas cores. Porém, há muito mais. É a história das almas irmãs destas que pensaram num maravilhoso muito mais global do que simplesmente uma cor. Desejaram o vitral inteiro. E, mais ainda, as almas que pensaram na catedral. O que é que é o vitral senão um elemento da catedral? Se quiserem, os vitrais são os olhos das catedrais. Ó alma da Idade Média que pensou nas catedrais, que pensou nos castelos e que queria mais, mais e mais. Quando é que nasceu essa alma? A alma da Idade Média, o espírito da Idade Média nasceu quando? Se nós nos pusermos estas perguntas, nós vamos remontando como um rio a história da Igreja. Todas essas almas que engendraram o gótico, elas desejavam coisas mais perfeitas, mais e mais. E haveria de vir um dia em que a perfeição da Igreja e da Civilização Cristã, da Cristandade seriam tais que o Reino de Maria estaria constituído na terra. E aí também, haveria um reflorescer incomparável das artes, da beleza, dos vitrais e quanta outra coisa! Nós estamos numa época de germinação do Reino de Maria. E se nós queremos conhecer o Reino de Maria como será, não se trata tanto de planejá-lo, nem de excogitá-lo, mas se trata de sentir a pulsação dele dentro de nós.

(Fonte: Plínio Correa de Oliveira, 15.8.81, excerto sem revisão do autor.)

uma águia traz um peixe aos mouros que passavam fome, vitral na capela do castelo Em 778, Carlos Magno, o invencível Imperador cristão, com seus francos cercou a fortaleza de Lourdes e tentou conquistá-la pela fome. Ela estava nas mãos de Mirad, um emir muçulmano e o rochedo era virtualmente inconquistável, salvo pela fome.

Quando a cidadela ia cair aconteceu um estranho prodígio: uma águia trouxe um peixe fresco no bico. O astuto emir enviou o peixe a Carlos Magno para fazer crer que a fortaleza tinha viveres para resistir por muito tempo.

O santo bispo de Puy percebeu a cilada do demônio. E decidiu subir ele próprio ao rochedo para falar com o indômito e desafiante líder do Islã…

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Havia na Idade Média uma forma de distinção própria a cada classe social. Ela era condicionada à função de cada qual na sociedade.

Havia uma distinção eclesiástica, uma distinção aristocrática e uma burguesa.

Religioso, nobre e plebeu

É necessário não confundir a distinção, segundo a concepção medieval, com a dos tempos modernos.

No Ancien Régime, por exemplo, a distinção eclesiástica era ter o cabelo empoado, usar lencinho, e uma série de atitudes congêneres que davam idéia de um homem adamado, freqüentando a sociedade mundana.

Hoje, o bispo avançado procura parecer com qualquer um, um sindicalista ou um invasor de terras do tipo emessetista.

Bispo, Notre Dame de Paris

Na Idade Média, pelo contrário, vemos o espelho da distinção do clero nas imagens de bispos esculpidas nos portais das catedrais góticas: homens eretos, de porte firme, olhar profundo e simplicidade de maneiras; mas ao mesmo tempo com racionalidade e nobreza, em tudo extraordinárias; verdadeiros pastores de almas, verdadeiros guias, príncipes na ordem do espírito, sem nenhuma preocupação de caráter mundano. Eis o verdadeiro símbolo da distinção eclesiástica.

A distinção do nobre era uma distinção guerreira, porque a classe aristocrática era a classe militar. A distinção do nobre consistia essencialmente em ser um batalha-dor corajoso, de peito aberto, olhar inflamado, atitude decidida.

Nobre, batalha de Crécy

A distinção plebéia, no fim da Idade Média, é a distinção do burguês: sério, calmo, bonachão, pensativo, de aspecto grave, colocado atrás de uma verdadeira tribuna, que era o seu balcão. É a figura típica do burguês ou do artesão. Esse modo de ser fazia parte da distinção burguesa.

São três estilos de vida, três funções diferentes na sociedade, dando origem a três tipos distintos. Porém todos eles, dentro dessas várias ordens, são proprietários das funções que ocupam, e nelas encarnam graus diferentes de distinção, personificando dessa forma os seus respectivos cargos.

Podemos assim ter uma idéia da variedade de tipos e da índole profunda que imperava no conjunto das instituições medievais.

Eram homens profundamente enriquecidos em sua dignidade pessoal, encarnando e personificando as posições que ocupavam.

Esta é uma das mais profundas razões da força e da solidez das instituições medievais.

Prof. Plinio Corrêa de Oliveira