Idade Média

26 março 2013

O labirinto das catedrais: simbolismos e ensinamentos

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Labirinto da catedral de Amiens, França
Labirinto da catedral de Amiens, França

Na catedral de Chartres, na França, existe o mais renomado labirinto do mundo. Ele serviu de inspiração e modelo a muitos outros, ainda existentes em catedrais da maior respeitabilidade no orbe católico.

Sabe-se que muitos desses labirintos foram destruídos em séculos de iluminismo ou anticatolicismo.

Mas, o que faz um labirinto gravado no chão? Qual é a função no recinto sagrado de uma catedral desse desenho matemático?

O termo ‘labirinto’ designa um percurso sinuoso, com ou sem cruzamentos, becos-sem-saída e falsas pistas, destinado a perder ou enganar o intruso que nele penetra.

Quem visita Chartres pode encontrar pessoas executando um estranho ritual. Estão percorrendo seu labirinto com ares de procurar “energias” provenientes de obscuras forças telúricas.

Em poucas palavras, trata-se de mais uma superstição Nova Era, de tipo neopagão, que nada tem a ver com o catolicismo.

Na catedral de Chartres ou nas suas lojas de souvenirs, ninguém soube explicar-me direito a razão de ser do labirinto.

“Chartres, o labirinto decifrado”, de John e Odette Ketley-Laporte
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Se eu fazia menção à ridícula crendice Nova Era, os lojistas sorriam. Para eles era mais uma tolice em que guias inescrupulosos fazem cair turistas americanos ávidos de extravagâncias.

Numa livraria erudita, um estudante que preparava seu mestrado apontou-me o livro que explicaria o que para mim era um enigma. E, no essencial, o fez: “Chartres: le labyrinthe déchiffré” (“Chartres, o labirinto decifrado”), de John e Odette Ketley-Laporte, Éditions Garnier, 1997.

De volta a casa pude lê-lo pausadamente. Eis algumas das interessantes informações que nos devolvem o autêntico sentido cristão – aliás, muito esquecido – do labirinto das catedrais.

Os labirintos da Antiguidade

Os labirintos dos quais mais se fala são o das pirâmides do Egito e o da ilha de Creta, na área de cultura helênica.

Em ambos os casos tudo indica que não se tratou de construções materiais, mas sobretudo mitológicas.

Atribui-se ao faraó Amenemhat III (1860 a.C. – 1814 a.C) a construção de um palácio monumental na depressão de Faium, perto do lago Meris (atualmente Birket-Qarun). O palácio teria tido quase três mil salas, ligadas por um complexo sistema de corredores em vários níveis. Esse prédio foi chamado pelos gregos de Labirinto. Mas nada restou dele.

Busto de Amenemhat III, (1860 aC – 1814 aC), que constriuiu o
mitico palácio chamado pelos gregos de Labirinto.
Busto achado na área do Panteon, Roma

A lenda do labirinto, entretanto, sobreviveu ao palácio. Segundo ela, no prédio morava o deus Anúbis, divindade com cabeça de cão, que por meio de um fio conduzia até o deus supremo as almas dos faraós falecidos, superando os perigos do abismo eterno.

Segundo Heródoto, a lenda do palácio de Amenemhat III teria inspirado o arquiteto Dédalo – encarregado por Minos, rei de Creta – a construir uma prisão para o monstro Minotauro.

A lenda do Labirinto de Dédalo foi a que mais marcou o Ocidente. Houve intensos esforços para localizar suas ruínas ou, pelo menos, o local onde poderia ter estado.

“Nenhuma das numerosas escavações efetuadas nos sítios arqueológicos da ilha de Creta revelou qualquer indício sério sobre a verdadeira natureza, nem mesmo da localização do famoso Labirinto” – escrevem John e Odette Ketley-Laporte.

A lenda grega é uma adaptação da mitologia egípcia: Ariadne, filha do rei de Creta, deu ao herói Teseu, como prova de amor, a ponta de um novelo de lã que ela desenrolava. Teseu nunca devia afrouxar para não se perder no Labirinto e atingir por fim a salvação ou paz eterna.

No meio do Labirinto, Teseu encontrou o demoníaco Minotauro, acabou vencendo-o e por meio do fio atingiu a salvação.

A Antiguidade deixou parcos desenhos de um Labirinto.

O Labirinto no Cristianismo

É no cristianismo que o labirinto adquire toda a sua dimensão simbólica, religiosa e moral.

O primeiro labirinto cristão recuperado é o da Basílica de São Reparato, hoje em ruínas, construída em estilo romano no ano 324, em El-Asnam (Argélia).

Este labirinto é um mosaico, a exemplo de todo o chão da igreja. Suas dimensões – 2,40 metros por 3 metros – mostram que ele não foi feito para ser percorrido a pé, mas acompanhado com o olhar.

Cada pedrinha do mosaico tem uma letra, devendo o fiel encontrar no meio delas a frase Sancta Mater Ecclesia (Santa Mãe Igreja). O ensinamento é que a Igreja é o caminho certo em meio à confusão desta Terra.

No século VI em diante, aparecem labirintos de maior beleza e perfeição nas igrejas do norte da Itália, como em San Vitale (Ravena).

Mas foi nas grandes catedrais medievais francesas de Poitiers, Amiens, Arras, Auxerre, Reims, Bayeux, Chartres Mirepoix, Saint-Omer, Saint-Quentin e Toulouse, entre outras, que o labirinto atingiu sua plenitude.

O labirinto acabado: na catedral de Chartres

O labirinto mais completo é sem dúvida o da catedral de Chartres, construído na sua nave central por volta do ano 1200 e medindo cerca de 13 metros de extensão.

Ele é redondo e suas pedras negras marcam o percurso – em pedras brancas – a ser feito a pé ou de joelhos. A borda é finamente trabalhada, assim como o centro, rodeado por um desenho florido.

Labirinto da catedral de Chartes é o mais perfeito
Labirinto da catedral de Chartes é o mais perfeito

A renda de pedra que rodeia o labirinto estabelece uma fronteira entre o sagrado e o profano.

O labirinto de Chartres associa a espiritualidade cisterciense ao desejo de fazer da catedral um modelo de perfeição acabada, espelho da Ordem do Universo.

O centro do labirinto era recoberto por uma extraordinária placa de cobre. Não sabemos que imagens estavam nela representadas, pois as testemunhas pós-medievais já as viram muito apagadas.

A impiedade sacrílega da Revolução Francesa arrancou essa placa com o pretexto de fundi-la e fazer canhões para a República.

No dia da festa da Assunção de Nossa Senhora (no Calendário Juliano, ainda em uso na Idade Média), um raio de sol atravessava o vitral central da fachada e projetava a imagem de Nossa Senhora sobre o cobre, produzindo um efeito luminoso colorido de esplendor incomparável.

Esse centro é chamado de Paraíso, ou também de Jerusalém, aplicando-se o termo à Jerusalém celeste e à Jerusalém pela qual os Cruzados combatiam.

Na catedral de Reims, o percurso dentro do Labirinto recebia o nome de “Caminho de Jerusalém” e era percorrido recitando-se as orações contidas num livrinho de devoção especial.

Quem ingressa no Labirinto deve caminhar através de onze anéis até chegar ao Paraíso. O número 11 é simbólico e ensina que é um caminho a ser percorrido pelo pecador.

“O número 11 – escreve R. Allendy – é o símbolo da luta interior, da dissonância, do desvio. Santo Agostinho diz que é o número da transgressão da lei, porque supera em um o número dez que é o número do Decálogo. (…) ‘É chamado – diz Agrippa – o número do pecado e dos penitentes, motivo pelo qual foi ordenado fazer onze sacos de silício no Tabernáculo para servirem de vestimenta aos penitentes e para aqueles que choravam seus pecados’” (René Allendy, Le symbolisme des nombres, Éditions traditionnelles, 1990)

Acrescentam os autores: “Como a noção de penitência é indissociável da ideia de pecado, pensamos imediatamente nos fiéis que, para fazer penitência na Idade Média, percorriam o Labirinto de joelhos”.

Nossa Senhora desfaz as encrucilhadas insolúveis
do labirinto da vida e guia o fiel

Esses onze anéis sinalizam o conjunto das peripécias que o homem concebido no pecado deve atravessar no decurso da vida. Ele encontra obstáculos, voltas e desvios, retrocessos inesperados que o obrigam a começar tudo de novo.

Sua vida está cheia dessas idas e vindas, das voltas que não se entendem, das aparentes aniquilações dos trabalhos feitos, da necessidade de reiniciar uma e outra vez.

Lição moral do Labirinto

Essas situações da vida real, nas quais o caminho parece perdido e o trabalho de uma vida desperdiçado, em que não se vê mais o ponto de chegada, também são momentos de tentação.

Tentação de desânimo, de desesperança, de largar os braços, de renunciar ao caminho, de desistir da salvação.

Esses são os momentos do anjo da perdição – representado pelo demoníaco Minotauro da lenda de Creta – que figura de modo pagão o demônio do desespero que assalta os homens no meio de alguma curva da vida.

Porém, no Labirinto de Chartres, está representado também o novelo misterioso que ajuda o pecador a não se perder e a vencer a tentação: a graça divina.

Com um pormenorizado desenvolvimento matemático-simbólico, John e Odette Ketley-Laporte mostram que o centro do Labirinto representa a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Portanto, Àquele que é o criador da graça e que a dispensa a todos os que perseveram no labirinto da vida, impedindo que se percam ou que caiam nas armadilhas e nos embustes que enchem a passagem do homem pela Terra.

Montagem fotográfica reconstitui o momento em que
a imagem de Nossa Senhora é projetada no centro
do Labirinto de Chartres, na festa da Assunção

A condição para o fiel é uma só: nunca largar o fio do novelo, inclusive no momento em que tudo parece rumar no contra-senso ou para trás.

Nossa Senhora no centro do Labirinto

Mas há mais. A catedral de Chartres é dedicada inteiramente à Mãe de Deus. É Ela quem administra o novelo do Filho e nos dá o fio, tornando possível sermos fieis e chegarmos a seu Divino Filho, após atravessar todas as vicissitudes desta vida.

Isso está fortemente simbolizado em Chartres.

Por exemplo, o percurso do Labirinto ou ‘Caminho de Jerusalém’ está composto com 273 pedras. Elas somam os dias dos nove meses da gestação, porque Nossa Senhora vai gestando para o Céu a alma do pecador que percorre com o coração contrito e humilhado o caminho rumo à Pátria celeste, guiado por Ela por meio do fio da graça de seu Filho.

A última pedra do ‘Caminho de Jerusalém’ tem um tamanho diverso de todas as outras e a proporção do corpo humano. Ela representa simbolicamente o católico que após completar o caminho prenhe de inverossímeis, chega à porta do ‘Paraíso’, prosterna-se agradecido e implora à Virgem que o apresente a seu Divino Filho.

Nas como que intérminas idas e vindas, o pecador que não perde de vista Nossa Senhora talvez julgue percorrer um caminho caótico. Porém os autores do livro mostram como, na realidade, esssas indas e vindas pelo Labirinto estão concebidas faz desenhar duas vezes o monograma marial – a letra M – de modo surpreendente.

O Labirinto de Chartres é bem uma “via de Maria”, porque nele Nossa Senhora nos faz chegar a graça divina por sua intercessão, e é por causa d’Ela que o fiel triunfa sobre as vicissitudes da vida mortal.

Essa última pedra tem um outro simbolismo acrescido.

Dois dias antes da festa da Assunção, o raio de sol de que falamos acima projeta a imagem de Nossa Senhora sobre essa pedra. É a data presumida da Dormição de Maria: o passo prévio à Assunção.

Dois dias depois, na festa da Assunção, a imagem era projetada na esplêndida placa de cobre.

Triunfo final sobre o Labirinto

A sabedoria dos construtores das catedrais era de uma riqueza que surpreende a estreiteza dos raciocínios modernos. E o Labirinto de Chartres nos fornece um surpreendente exemplo:

Cristo Rei triunfou sobre o Labirinto:
vitral na igreja de Sao Miguel, Cumnor, Inglaterra

No domingo de Páscoa, após as celebrações litúrgicas, os cônegos da catedral iam fazer um inocente jogo de bola exatamente encima do Labirinto, enquanto cantavam a sequência Victimae Pascali Laudes (À Vítima Pascoal oferecemos um sacrifício de louvor).

Como quem diz, com as palavras e os gestos, que Cristo venceu todas as vicissitudes do Labirinto de sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição.

O Labirinto foi vencido e Nosso Senhor está num trono no mais alto do Céu, recebendo o eterno louvor de seus anjos e de seus santos.

É o que cantará um dia, mutatis mutandis, a alma fiel que percorreu o labirinto de sua vida com os olhos postos em Nossa Senhora.

No fim da existência, as sinuosidades do Labirinto terão ficado definitivamente para trás, e a alma que perseverou ascenderá ao Céu.

Ali repousará por toda a eternidade, contemplando a beleza incomensurável de Nossa Senhora e a glória infinita de Deus.

Eis alguns significados e simbolismos do Labirinto

 

CRUZADASCASTELOSCATEDRAIS HEROISORAÇÕESCONTOSCIDADE SIMBOLOS

AS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

12 março 2013

Abadias beneditinas: modelos de governo monárquico-aristocráticos-democráticos

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Foi na sala do capítulo, durante as reuniões quotidianas, que nasceram alguns modelos de participação política e de organização do poder ainda em vigor.

O capítulo monástico foi, sem dúvida, o primeiro lugar do Ocidente em que regularmente, diariamente, se verificou a relação dos membros com a Regra, se controlou a respectiva aplicação, se inculcou o seu conteúdo, se reforçou a coesão do grupo.

Porque a vida dos religiosos decorre num regime de direito. Léo Moulin provou, em numerosos estudos, de que forma o estudo das regras e das constituições dos estabelecimentos religiosos é fundamental para a ciência política contemporânea, sublinhando alguns aspectos:

– o carácter misto do governo dos religiosos (monarquia, oligarquia e democracia); isto pelo papel respectivamente confiado ao abade, aos decanos do mosteiro e a toda a comunidade;

– a natureza e a originalidade da sua assembleia legislativa;

– a primazia do poder executivo, primazia essa temperada pela necessidade de esse poder executivo se inclinar perante votos colegiais;

– as origens religiosas das técnicas eleitorais modernas;

– o sistema, complexo e sofisticado, que presidia à eleição do abade (com a participação da “sanior et major pars”), etc.

Realizações materiais eram consequência da vida religiosa.
Monges rezam em enterro, Huntington Catalog Images, f 192

Lembremos apenas isto: Cister funda a sua Assembleia Supranacional em 1115, habilitando-a a legislar, a modificar ou abrogar as leis, a interpretá-las.

Só o capítulo geral da Ordem, o Parliamentum, pode conceder dispensas e absolvições; esse capítulo elege o superior geral e os seus assistentes; pode destituí-los.

A Assembleia é a fonte de todos os poderes, a Summa Potestas. Isto, repito, em 1115, um século antes da Magna Carta e do seu embrião de regime parlamentar.

Comparadas com esta forma elaborada de governo, com estas assembleias regulares submetidas a um código eleitoral e deliberativo extraordinariamente minucioso, as instituições municipais e reais do princípio do século XII parecem bastante toscas.

Tudo o que temos vindo a dizer foi lapidarmente resumido por Taine:

“Pelo seu trabalho inteligente, voluntário, executado em consciência e conduzido a pensar no futuro, o monge produz mais do que o leigo. Pelo seu regime, sóbrio, concentrado, económico, o monge consome menos do que o leigo. É por isso que, aí onde o leigo tinha falhado, ele prospera.”

 

 


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

FIM

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26 fevereiro 2013

O espantoso desenvolvimento medieval sob orientaçao monacal cheia de sabedoria

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Beneditinos na França
Beneditinos na França

Continuação do post anterior

“Desbravadores, construtores, arquitectos, jardineiros, hortelãos, piscicultores, silvicultores, agricultores, criadores de coelhos, criadores de imensos rebanhos de carneiros (os cistercienses – não nos esqueçamos de que os cistercienses ingleses foram os primeiros a desenvolver as quintas destinadas à criação do carneiro e as redes de exportação da lã para o Continente), patrões de explorações agrícolas modelo, únicos mestres (eficazes) da assistência técnica, e isso durante séculos, os monges são por todo o lado, e senão na origem de tudo, pelo menos obreiros ativos do que será, um dia, a Europa.”

Antes de mais, como realizadores de modelos urbanos. “Vivemos como se fosse numa cidade”, exclama um deles num sermão do Advento.

É verdade, a abadia dos séculos XI e XII vai ser, como a cidade ocidental, um espaço totalmente novo, criado por homens cujo projeto é viverem nela uma vida de grupo mas também uma vida individual, diferente da vida que se faz cá fora, na sociedade com a qual romperam.

Tal como a cidade (e antes dela), a abadia é centrada: com numerosas vias de circulação, o seu espaço central vazio, correspondente à praça, é o local por excelência das trocas e da distribuição de funções, animadoras do conjunto, sistemática e racionalmente separadas e diferenciadas. À imagem da cidade, a abadia é uma entidade cercada através de um muro ritmado por portas.

Monges beneditinos trabalham os campos no sul da França
Monges beneditinos trabalham os campos no sul da França

Sem o terem procurado conscientemente, aí os temos pioneiros do desbravamento e arroteamento de terras, da drenagem de pântanos, da construção de barragens e diques; e percursores na utilização das novas energias (a madeira e a água), de que o Ocidente tinha tanta necessidade, estando como estava em plena expansão demográfica e urbana.

Era preciso conhecer melhor os monges “engenheiros hidráulicos”, nota D’Haenens.

Há realizações monumentais célebres: o plano de 1167, no Saltério do Trinity College, em Cambridge, com a rede de canalizações de água em Canterbury; o “hino à água” de um monge de Claraval no século XIII; a rede de esgotos de Villers-la-Ville; o aqueduto suspenso de Obazine (final do século XII); a água corrente em todas as celas, desde o século XII, na Grande Chartreuse.

Os monges lavavam as mãos antes das refeições, e todas as sextas-feiras o abade ou o prior lavavam os pés aos outros monges, como Cristo fizera aos apóstolos antes da última ceia.

Monjas beneditinas em região de desmatamento continuam a tradição inicida na Idade Média.  Foto da primeira metade do século XX, em Montana, EUA
Monjas beneditinas em região de desmatamento continuam a tradição inicida na Idade Média.
Foto da primeira metade do século XX, em Montana, EUA

Por isso, habitualmente a canalização servia em primeiro lugar a enfermaria, depois a fonte do claustro e só depois a cozinha.

Sabe-se também que os cistercienses estiveram entre os primeiros a utilizar o martelo hidráulico.

Em Pontigny, a queda de água da levada que os monges fizeram no século XII desenvolvia tão grande força motriz que, ainda em 1800, alimentava três rodas hidráulicas.

Mas as realizações hidráulicas dos monges brancos são mais e mais variadas: construção de aquedutos, diques e barragens (mesmo em rios de média dimensão); cisternas eficazes a aproveitar águas infiltradas e a prevenir inundações; escolhas certeiras de localização de cenóbios, ocupando o único ponto com água num cenário de aridez; evacuação de água do interior de minas, etc.

‘Contra a sua vontade’, os cistercienses experimentaram novas técnicas de exploração. Isso pela própria força das coisas, porque colocavam, nas suas realizações temporais, a seriedade, a inteligência, a paixão que animavam as suas práticas de interiorização espiritual.

Por isso foram responsáveis por tecnologias agronómicas e industriais revolucionárias. Voltemos a Duby:

“Monges e conversos, rendeiros do senhor Deus, melhoraram as raças animais – e um testemunho disso é o progressivo aumento dos pergaminhos que eles fabricavam com a pele de animais jovens – conseguiram reconstituir a fertilidade das suas terras por meios menos toscos.

Richard, abade de Wallingford em trabalhos de trigonometria, History of the abbots of St Albans, século XIV, British Library
Richard, abade de Wallingford em trabalhos de trigonometria.
History of the abbots of St Albans, século XIV, British Library

“Foram os campeões do adubo, das rotações fecundadoras; foram os campeões do trabalho da terra. Avisados acerca das melhores maneiras de atrelar os bois, aplicando ao solo dos campos, para melhor o revolver, o ferro…no século XIII, a Ordem de Cister colocou-se na vanguarda do desenvolvimento da metalurgia, [solicitando aos príncipes a doação das ferrarias mais ricas, domesticando a força das águas correntes para melhor bater o metal]. Cister, que erigiu as suas forjas com tanta majestade como os seus santuários.”

Desta forma, a cidade monástica prolongou-se para fora da muralha em propriedades e explorações. Projecções essas que foram racionalmente acompanhadas e pensadas nos campos da contabilidade, dos cartulários, dos censuais.

Por isso deram lugar a grandes aperfeiçoamentos de modelos de gestão e traduziram-se em práticas avançadas de arquivística, de gestão contabilística, de recenseamento fundiário e de cadastro de terras.


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

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12 fevereiro 2013

Requinte da vida temporal: frutos abençoados dos monges que renunciaram ao mundo

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Monges preparando o famoso Bénédictine
Monges preparando o famoso Bénédictine

Continuação do post anterior

Todos os álcoois e licores franceses, dizem os especialistas, passaram por um período monástico; do mesmo modo, os mosteiros tiveram um papel decisivo na história dos queijos.

Acompanhemos Léo Moulin numa longa citação:

“Os monges eram os únicos a ter reservas de vinho, de fruta, de cereal; os meios financeiros e tecnológicos para os tratar; a inteligência e o espírito de observação, unidos ao espírito de invenção, para o fazer; as capacidades para deixar envelhecer o produto…

“Grande viajante, o meio monástico presta-se naturalmente à transmissão de técnicas, de ‘segredos’, de habilidades. Para ele não existe o risco de se extinguir a linhagem, como acontecia a tantas famílias nestes séculos mortíferos da Idade Média.

A contemplação do sublime inspirou a produção de requintes
A contemplação do sublime inspirou a produção de requintes

“Pode acumular reservas: a sua arte de cultivar as terras e a abstinência dos monges permitem-lho. Não comercializa nada, pelo menos no princípio.

“Que fazer desta cevada, senão cerveja? E destas uvas, senão vinho? E destas maçãs, senão cidra?

“E deste mel, senão hidromel? Que fazer finalmente deste leite, que se tem em abundância, senão queijo?”.

Uma pesquisa sobre as rações alimentares dos monges deu resultados surpreendentes. Em Corbie, em Saint-Germain-des-Prés e em Saint-Denis, cada irmão recebia diariamente 1,700 kg de pão, 1,5 litros de vinho (duas garrafas das nossas) ou de cerveja (cinco latas), cerca de 100 gramas de queijo, 230 gramas de legumes secos (favas ou lentilhas), 25 gramas de sal, um grama de mel e 30 gramas de gordura animal.

Os cartuxos seguiram o exemplo dos beneditinos: fábrica de Chartreuse

Nada de carne, é claro. Isto para três refeições diárias. As monjas recebiam um pouco menos, porque se pensava que, sendo mulheres, comiam menos (mas tinham direito a pão de melhor qualidade).

Em comparação, os leigos que trabalhavam para o mosteiro de Corbie recebiam menos pão (1,300 kg) mas bebiam 1,45 litros de vinho e 2,3 litros de cerveja.

Ao contrário dos monges, recebem ainda mais de 100 gramas de toucinho e 218 gramas de carne de porco salgada. A que se juntam 400 gramas de legumes secos, para puré de legumes e 138 gramas de queijo.

Tinham ainda 654 gramas de azeite e 327 gramas de um condimento salgado à base de peixe, 27 gramas de pimenta, 54 gramas de cominhos, sal e vinagre à discrição.

Quer dizer, os leigos que trabalham para Corbie recebem mais comida do que os monges. Eis uma conclusão que desafia frontalmente as ideias feitas sobre o assunto.

São rações enormes. Tudo gira em torno do pão; o que se come com o pão é o companaticum; daqui tiramos nós a palavra companheiro, etimologicamente aquele com quem se partilha o pão.

São Bento entrega a Regra a seus discípulos
São Bento entrega a Regra a seus discípulos

Os responsáveis pela alimentação não tinham em grande conta as couves, os frutos sasonais, “as ervas do jardim”; como em todas as civilizações rurais, só alimenta o que é consistente.

Por isso, para ajudar a engolir aquelas massas enormes de pão e de legumes secos, era preciso afogar tudo em quantidades torrenciais de vinho e de cerveja.

Contra a ideia tradicional de uma Idade Média esfomeada, Michel Rouche apresenta-nos os comensais carolíngios a empanturrarem-se de comida.

Alguns exemplos de grandes celebrações em mosteiros franceses sugerem-nos consumos de quatro ovos e de mais de um frango por cabeça, o todo bem cozinhado na gordura de três porcos (e a somar-se às refeições regulares).

Quer dizer que não houve fomes no Ocidente medieval? Claro que houve, bastantes e duras.

São Bento preside uma refeição dos monges

Mas quando a única fonte a dar conta dessas fomes é uma crónica monástica, como tantas vezes é o caso, deveremos formular uma prudente reserva: estaremos perante um ano de más colheitas.

Mas o corpo não precisa só de alimento, requer também higiene, individual e coletiva: a Regra prevê a toilette matinal, o banho e a abstinência sexual.

E prevê o cuidado com os doentes. Estes são agrupados num local específico do mosteiro, na enfermaria, afastados do quadrilátero do claustro.

Têm a sua própria alimentação, o seu horário, as suas salas, os seus regulamentos, o seu quotidiano.

Podemos dizer que é assim que nasce e se aperfeiçoa o espaço hospitalar ocidental (protótipo do hospital urbano, ao lado da cidade), num local próprio, com o seu dia-a-dia específico inspirado pelo quotidiano monástico medieval.

E não esqueçamos que a hospitalitas monástica tem dois filhos: o hospital, como acabámos de ver, mas também o hotel.


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

Continua no próximo post

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29 janeiro 2013

O projeto monástico de São Bento e nacimento da cultura e da civilização

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Ora et labora ("reza e trabalha") é o leimotiv beneditino
Ora et labora (“reza e trabalha”) é o leimotiv beneditino

Continuação do post anterior

É curioso que o projeto beneditinose mostra especialmente criativo no domínio do quotidiano, do corpo, dos sentidos, da cultura material e profana, com as quais se propõe precisamente romper.

Mais: nos séculos XI e XII os mosteiros beneditinos de homens e de mulheres foram mesmo criadores de valores profanos tipicamente europeus e ocidentais, que depois a sociedade fez seus.

Os monges e o corpo

O aspecto mais importante: a alimentação. Numa abadia, isso pode ser complicado, mesmo triplamente complicado: porque é preciso preparar diariamente comida para um grande grupo, pela imposição estrita da proibição de carne de quadrúpedes e pelos frequentes jejuns. A comunidade tem que resolver muitos e difíceis problemas:

– a produção de matérias primas em autarquia;

– a preparação e a transformação dessas matérias primas em alimentos comestíveis;

– a conservação e a armazenagem em stock dos produtos.

Repare-se nisto: é preciso dispor em permanência, e em grande quantidade, de substitutos para a alimentação à base de carne; é preciso investir nas frutas, nos legumes, nos derivados de leite, na criação de capoeira e na piscicultura.

Na piscicultura houve realizações verdadeiramente espetaculares: arranjo de enormes tanques; construção de barragens ou de viveiros, em cascata ou alimentados por água corrente (por vezes constituindo conjuntos luxuosos e monumentais); técnicas sofisticadíssimas de repovoamento de peixes, de fecundação artificial (nomeadamente na Borgonha), de criação de determinadas espécies (as carpas da Alemanha e da Polónia), de maneiras de pescar (o salmão na Irlanda).

Monges na colheita de trigo
Monges na colheita de trigo

Entremos nas cozinhas e observemos as experiências de organização do espaço, os fornos, as chaminés, os esgotos, por vezes conduzindo a resultados extraordinários: Alcobaça, é claro, mas também Fontevrault, Glastonbury, Villers-la-Ville. Mas podíamos falar também na organização do trabalho, nos utensílios…

Centremo-nos na preparação e transformação dos alimentos.

Celeiro de Cluny: tão grande que hoje abriga um museu
Celeiro de Cluny: tão grande que hoje abriga um museu

Como já foi observado por historiadores da alimentação e do quotidiano, quase todos os progressos realizados, desde os inícios da Idade Média, nos diversos sectores da economia e da tecnologia alimentares, são devidos aos esforços metódicos e perseverantes dos estabelecimentos religiosos; a cozinha dos religiosos está, involuntariamente, na origem da gastronomia.

A proibição da carne e os jejuns estimulam a criatividade, as experiências dietéticas e culinárias, a exploração das virtualidades de outros produtos alimentares diferentes da carne vermelha.

É preciso armazenar grandes stocks e conservá-los em bom estado, para ter sempre disponível uma reserva alimentar para um grupo numeroso.

Não é só um problema para o cozinheiro, é também para o celeireiro, que cuidará dos edifícios e das condições de armazenagem, da gestão de stocks, do tratamento de excedentes.

Muitos celeiros cistercienses ficaram famosos (Pontigny, Longpont, Royaumont, Noirlac, Clermont, Villers). O celeiro de Claraval, do fim do século XII, tinha 75 m de comprimento; o de Vauclair, do século XIII, 70x15m, o que dá 1050 m2; o de Eberbach, construído pelo ano de 1200, media 93×16 m (=1488 m2). Seria interessante saber como é que eles eram aproveitados interiormente.

Lembremo-nos, além disso, das granjas monumentais, ou da famosa fábrica de cerveja de Villers-la-Ville (1270-1276), com as dimensões de 42X12 m (=504 m2).


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

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15 janeiro 2013

Dos licores aos Hospitais: os frutos incontáveis da obra de São Bento

Arquivado em: Uncategorized — idademedia @ 7:28
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São Bento, Biblioteca Nacional de Budapest

“Fuit vir…era uma vez um homem, Bento por graça e de nome, que desde os primeiros anos da sua infância mostrou sensatez de velho”.

Assim começa a “Vida e Milagres do Venerável Bento”, escrita pelo papa Gregório Magno em 593 ou 594, e a única fonte propriamente dita de que dispomos (para além da Regra), se quisermos saber algo da existência do patriarca dos monges do Ocidente, ou do pai da Europa.

Os santos eram assim: nasciam sábios e maduros, não brincavam, não eram irrequietos, não faziam as tropelias que todos os miúdos de todas as épocas fazem.

Gregório podia ter elaborado uma biografia bem mais completa, para nosso esclarecimento; não o fez porque o que lhe interessava era sim escrever uma hagiografia edificante para o povo de Deus.

Não sabemos quando morreu São Bento. Com toda a certeza após 547. Gregório conta que o velho monge viu a morte chegar: seis dias antes mandou que lhe abrissem a sepultura.

Quando sentiu o fim próximo, pediu aos companheiros para o levarem para o oratório: “e sustentando os membros debilitados nos braços dos seus discípulos, de pé, mãos erguidas para o céu, entre palavras de oração exalou o último suspiro.”

São Bento com sua Regra, afresco medieval

Nesse momento, dois irmãos perceberam que o seu abade tinha morrido, pois viram, do mosteiro até ao céu [a cella in coelum] estender-se uma estrada coberta de alcatifas e iluminada por lâmpadas sem conta.

No topo estava um personagem de aspecto venerável e cercado de luz, que lhes perguntou que caminho era aquele. Responderam que não sabiam.

Então ele disse-lhes: Este é o caminho pelo qual sobe ao céu Bento, amado do Senhor.

Quando, na segunda metade do século VI, o Ocidente sucumbia sob a anarquia política, a regressão da cultura erudita, o desaparecimento de formas mais complexas de governo, só uma entidade estava em condições de liderar a reorganização política e moral: a Igreja, que contava nas suas fileiras com os homens mais sábios e com as instituições mais fortes da época.

Separada de Roma, pela primeira vez sozinha a contas com o seu destino, a igreja amadureceu rapidamente. E apoiou-se em dois pilares: o papado e os monges.

Quando dizemos o papado estamos a falar de Gregório Magno, quando dizemos os monges estamos a pensar em São Bento de Núrcia. Foi com eles que a igreja pôde exercer uma indiscutível liderança da Europa ocidental.

1. No campo da cultura

Os mosteiros tinham escolas, nas quais aprenderam a ler e a escrever quase todos aqueles que, antes do século XII, sabiam fazê-lo; e tinham scriptoria, nos quais se copiaram alguns dos mais preciosos monumentos do pensamento clássico.

2. Na economia

À frente do mosteiro, o abade dirigia uma verdadeira multidão de camponeses dependentes. Um senhor, portanto. Mas um senhor que foi quase sempre um administrador mais eficaz dos seus domínios do que os seus correspondentes laicos; e que foi, muitas vezes, um pioneiro nos métodos de cultivo.

Quatro séculos após a morte de São Bento, os seus monges eram os melhores agricultores da Europa ocidental.

Monjas  beneditinas vivem hoje Regra medieval
3. Na religião

O essencial dos mosteiros beneditinos era a procura de uma ligação íntima com Deus.

O mundo à volta do mosteiro pressionava a todo o tempo os monges para que eles, com as suas orações e missas, obtivessem para senhores, cavaleiros ou homens mais humildes, a salvação que a vida que haviam levado pressagiava duvidosa.

Por exigência da sociedade laica, o tempo dos monges passou a estar ocupado quase em permanência com a oração.

No templo multiplicaram-se as capelas; os oficiantes revesavam-se, faziam turnos.

Nas grandes abadias do Ocidente – em Saint Gall ou no Monte de Saint Michel – rezava-se noite e dia.

4. Na política

Os seus monges iriam ser braços direitos de reis e príncipes, ou poderosos senhores locais com competências políticas e judiciais sobre populações dependentes.

Mas foi isso mesmo que aconteceu e, perdoe-se o determinismo do raciocínio, nem poderia ter sido de outra maneira. Estes monges tinham uma série de capacidades e talentos que faziam imensa falta aos reis da Alta Idade Média – e que quase mais ninguém tinha (à exceção de alguns bispos).

Podiam servir como escrivães, como professores, como chanceleres, como conselheiros…e assim foram utilizados em todas as monarquias do ocidente.

5. Na sociedade

É José Mattoso quem melhor explica o importante papel social desempenhado pelos monges a diminuir antagonismos, a pacificar estratos mais belicistas, a ajudar a integrar minorias desenraizadas, a reafectar ao usufruto dos mais pobres terras que estes haviam perdido.


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

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1 janeiro 2013

O Menino-Deus adorado por Reis dotados de conhecimentos astronômicos pasmosos: cena sagrada que encantou os medievais

Arquivado em: Uncategorized — idademedia @ 14:00
Adoração dos Reis Magos. Beato Angelico
Adoração dos Reis Magos. Beato Angelico

Em 6 de janeiro, desde os primeiros séculos, a Igreja celebra a festa da Epifania, ou seja, a visita dos Reis, também chamados de Magos ou Sábios, que foram adorar o Menino Deus.

Epifania, em grego, significa manifestação, ou também revelação esplendorosa.

De início, a festa celebrava-se no próprio dia de Natal. O mais antigo registro dela é do historiador romano Ammianus Marcellinus no ano 361.

Foi na Idade Média, precisamente no ano de 534, que a Igreja separou as duas festas para comemorá-las com mais pompa, e fixou o dia 6 de janeiro como da Epifania ou da Adoração dos Magos

A visita significou a manifestação de Nosso Senhor não somente aos judeus, mas a todas as nações da Terra, representados pelos Reis Magos.

Segundo a tradição seus nomes eram Melchior, Gaspar e Balthazar (habitualmente representado como preto). Segundo São Mateus, eles vieram do Leste de Jerusalém, o que leva a pensar que fossem patriarcas, ou reis, vindos da área cultural da Caldéia.

Os caldeus tinham grandes conhecimentos de astronomia, de ali que os Reis fossem também chamados de Magos, nome que no caso no contém nenhuma conotação desdourante, e também de Sábios.

Estrela guiou os Reis Magos. Giotto, detalhe.
Estrela guiou os Reis Magos. Giotto, detalhe.

Conta-se que eles pertenciam a estirpes de reis locais que tiveram a intuição de que o mundo, tendo chegado a uma situação de decadência sem saída, precisaria de um Redentor que haveria de nascer dos judeus.

Pelos seus cálculos astronômicos, o nascimento haveria de ser sinalizado por uma estrela no Céu.

A tradição passou de geração em geração nas famílias desses reis, até que cumpriram-se os tempos.

E a estrela anunciada apareceu e os guiou até Belém.

Eles levaram um rico cortejo e presentes preciosos para o Salvador da humanidade.

Como foi possível tanta ciência astronômica? Não houve também um auxílio sobrenatural? Qual?

É fato que a arqueologia revela que povos antiqüíssimos possuíam conhecimentos que hoje a ciência mais avançada recupera com ingentes e admiráveis esforços e imensas aplicações de dinheiro e tecnologia. A matéria é ampla e apaixonante demais para tratá-la agora. O faremos mais adiante.

Entrementes, eis como o episódio sagrado é descrito pelo Evangelho de São Mateus (2; 1-18):

São Mateus escreveu seu Evangelho divinamente inspirado
São Mateus escreveu seu Evangelho divinamente inspirado

1. Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.

2. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.

3. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.

4. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.

5. Disseram-lhe: Em Belém, na Judéia, porque assim foi escrito pelo profeta:

6. E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as ci7dades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo(Miq 5,2).

7. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido.

8. E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.

9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.

10. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.

11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.

12. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.

13. Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.

14. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito.

15. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).

Herodes ordena massacre dos inocentes. Notre Dame de Paris
Herodes ordena a massacre dos inocentes. Notre Dame de Paris

16. Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos.

17. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias:

18. Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem (Jer 31,15)!

Aquelas infelizes, mas gloriosas vítimas do ódio a Jesus Cristo, rei de Israel e Redentor do mundo são lembradas pela Igreja como o Santos Inocentes.

A Igreja comemora os Santos Inocentes no dia 28 de dezembro.

Sobre o rei Herodes ver: Enquanto os Santos Inocentes reinam no Céu, o túmulo de Herodes segue envolto numa lembrança horrorizada

***

Tranqüilidade sobrenatural e oração diante do Menino-Deus

 

Adoração dos Reis Magos, Giotto
Adoração dos Reis Magos, Giotto

No afresco do famoso pintor italiano Giotto (*), Nossa Senhora, segura seu Divino Filho no colo. Ela aparece sentada numa espécie de troneto colocado sobre um estradozinho ricamente atapetado, e ricamente vestida. Para receber os Reis, compreende-se que Ela se vestiu com aparato.

Atrás de Nossa Senhora aparecem um anjo, São José, santos e outras pessoas do Templo que o autor quis representar. Ou talvez sejam pessoas que no futuro contemplariam tal cena em espírito e em oração.

Um dos reis adora o Menino Jesus e osculando seus pés. Os dois outros monarcas estão tranqüilos, comprazidos em oração diante de Nossa Senhora e do Menino-Deus, vendo seu irmão na realeza, adorar o Divino Infante.

Estão contentes com tudo o que se passa, aguardando chegar a vez deles. Mas sem impaciência, com a tranqüilidade e a serenidade medieval, que exprimia bem a presença de Deus, o espírito e a graça divinos na alma desses personagens.

Logo atrás dos dois Reis, um pagem está freando ou subjugando o camelo, para que este não crie problemas. Esse personagem é um animalis homo, sem nada de sobrenatural, de tranqüilo e sereno. É um homem bruto, agitado e prestando atenção em tudo, de nariz pontudo, de olhos saltados e mandão. Está bem à altura de um tratador de camelos.

 

(Fonte: Plinio Correa de Oliveira, sem revisão do autor. Catolicismo)
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23 dezembro 2012

Feliz Natal e bom Ano Novo!

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19 dezembro 2012

Criança recém-nascida, mas Rei de toda majestade e de toda glória

Arquivado em: Uncategorized — idademedia @ 2:37

O Divino Infante, com majestade de verdadeiro Rei, repousa em seu presépio, embora seja ainda uma criança recém-nascida.

Ele, Rei de toda majestade e de toda glória, o criador do Céu e da Terra, Deus encarnado feito homem.

Ele, detentor desde o primeiro instante de seu ser — portanto já no claustro de Nossa Senhora — de mais majestade, mais grandeza, mais manifestações de força e de poder que todos os homens, em toda a História da humanidade.

Ele, conhecedor de todas as coisas, sabendo incomparavelmente mais do que qualquer cientista.

Ele, em vários momentos, manifestando na fisionomia, sempre variável, esta majestade feita de sabedoria, de santidade, de ciência e de poder.

Imaginemos perceber tudo isso misteriosamente expresso na fisionomia desse Menino.

Às vezes ao mover-se e no movimento aparecendo sua faceta de Rei.

Abrindo os olhos e no olhar externando um fulgor de tal profundidade que n`Ele divisamos um grande sábio.

Rodeando-O, uma atmosfera que nimba de santidade todos aqueles que d`Ele se acercam.

Uma atmosfera de pureza tal, que as pessoas não se aproximam daquele local sem antes pedir perdão por seus pecados; mas, ao mesmo tempo, sentindo-se atraídas à emenda pela santidade que emana daquele sagrado recinto.

 
(Fonte: Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, 29-12-1973. Sem revisão do autor. “Catolicismo”)
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12 dezembro 2012

Assim falava um chefe de Estado medieval: sermão de Carlos Magno

Arquivado em: Uncategorized — idademedia @ 14:05
Carlos Magno medalhão comemorativo
Carlos Magno medalhão comemorativo

Sermão de Carlos Magno, pronunciado na grande assembléia de Aix-la-Chapelle, no mês de março de 802.

Sermão do Senhor Carlos, Imperador:

“Ouvi, bem amados irmãos! Fomos enviados aqui para vossa salvação, a fim de vos exortar a seguir exatamente a Lei de Deus e para vos converter na justiça e na misericórdia à obediência das leis desse mundo.

“Exorto-vos primeiramente a crer em um só Deus, Todo Poderoso, Padre, Filho e Espírito Santo; Deus único e verdadeiro, Trindade perfeita, Unidade verdadeira, Criador das coisas visíveis e invisíveis, em quem está nossa salvação, e que é o Autor de todos os bens.

“Crede no Filho de Deus feito homem para a salvação do mundo, nascido da Virgem Maria por obra do Espírito Santo. Crede que por nós sofreu a morte; que, ao terceiro dia, ressuscitou dentre os mortos; que subiu ao Céu, onde está sentado à destra de Deus.

“Crede que virá para julgar os vivos e os mortos, e que dará a cada um segundo suas obras.

“Crede numa só Igreja, ou seja, na sociedade dos bons por todo o universo; e sabei que só estes poderão ser salvos, e que só aos que perseveram até o fim na Fé, na comunhão e na caridade desta Igreja pertence o Reino de Deus.

Os que, por causa de seus pecados, estão excluídos dessa Igreja e não retornarem a Ela pela penitencia, não podem fazer neste século nenhuma ação que seja aceita por Deus. Estais persuadidos que recebestes no batismo a absolvição de vossos pecados.

“Esperai na misericórdia de Deus, que nos perdoa os pecados, cada dia, pela confissão e pela penitência. Crede na ressurreição de todos os mortos, na vida eterna, no suplício eterno dos ímpios.

Carlos Magno recebe bispos da Gália, Grandes Chroniques de France
Carlos Magno recebe bispos da Gália, Grandes Chroniques de France

“Tal é a Fé que vos salvará se a guardardes fielmente, e se lhe acrescentares as boas obras, porque a Fé sem as obras é uma Fé morta, e as obras sem a Fé, mesmo quando são boas, não podem agradar a Deus.

“Amai, pois, antes de tudo ao Senhor Todo-Poderoso com todo vosso coração e com todas vossas forças; tudo aquilo que credes ser-Lhe grato, fazei-o sempre, segundo vosso poder, com o socorro de Sua graça, mas evitai tudo o que O desagrada; porque mente quem pretende amar a Deus e não guarda Seus Mandamentos.

“Amai vosso próximo como a vós mesmos, e dai esmola aos pobres segundo vossos recursos.

“Recebei os viajantes nas vossas casas, visitai os pobres, e sede caridosos com os prisioneiros; na medida em que possais, não façais mal a ninguém, e não pactueis com aqueles que fazem mal a outrem, pois é mau não só prejudicar o próximo, mas também entender-se com aqueles que o prejudicam.

“Perdoai mutuamente vossas ofensas se quereis que Deus vos perdoa os pecados.

“Resgatai os cativos, socorrei aqueles que são injustamente oprimidos, defendei as viúvas e os órfãos, pronunciai juízos conforme à eqüidade; não favoreçais nenhuma injustiça, não vos abandoneis a longas cóleras, evitai a embriaguez e os festins inúteis.

“Sede humildes e bons uns para os outros; sede fiéis a vossos senhores; não cometais roubos, nem perjúrios, e não tenhais nenhum entendimento com aqueles que os cometem.

“Os ódios, a inveja e a violência nos afastam do Reino de Deus. Reconciliai-vos o quanto antes uns com os outros, pois, se está na natureza do homem pecar, arrepender-se é angélico, mas perseverar no pecado é diabólico.

“Defendei a Igreja de Deus e ajudai-a, a fim de que os Padres de Deus possam rezar por vós. Lembrai-vos do que prometestes a Deus no batismo: renunciastes ao demônio e às suas obras, não retorneis em nada para ele, não retornais em nada às obras às quais renunciastes, mas permanecei na vontade de Deus como prometestes, e amai Aquele que vos criou e por quem tendes todos os bens.

“Que cada um sirva a Deus fielmente no lugar onde se encontra.

São Pedro e São Paulo falam a Carlos Magno que dormia.
Catedral de Bourges, França

“Que as esposas sejam submissas a seus maridos; em toda bondade e pudor, guardem-se de atos desonestos; não cometam envenenamentos e não cedam em nada à cupidez, porque as que cometem esses atos estão em revolta contra Deus.

“Que elas eduquem seus filhos no temor de Deus e doem esmolas conforme suas fortunas, com coração bom e alegre. “

Que os maridos amem suas esposas e não lhes digam nenhuma palavra grosseira; dirijam seus lares com bondade e reúnam-se com mais freqüência na igreja. Que doem aos homens o que lhes devem, sem murmurar, e a Deus o que é de Deus, de boa vontade.

“Que os filhos amem os seus pais e os honrem.

Que não lhes desobedeçam em nada e guardem-se contra o roubo, o homicídio e a licenciosidade.

“Que os clérigos e os cônegos obedeçam diligentemente as ordens de seus Bispos, conservem sua residência e não andam de um lado para outro.

“Que não se imiscuam nas questões do século.

“Que conservem a castidade: a leitura das Sagradas Escrituras deve lembrá-los, freqüentemente, o serviço de Deus e da Igreja. “Que os monges sejam fiéis às promessas que fizeram a Deus; não se permitam nada contrário à vontade de seu Abade, não procurem nenhum benefício vergonhoso; saibam de cor sua regra e a sigam regularmente, lembrando-se de que para um grande número teria sito melhor não pronunciar votos do que não cumprir o voto pronunciado.

“Que os duques, os condes e os juízes sejam justos para com o povo, misericordiosos para com os pobres; que não vendam a justiça por dinheiro, e que nenhum ódio particular os faça condenar os inocentes.

Que tenham sempre no coração estas palavras do Apóstolo: ‘Teremos que comparecer, todos, perante o tribunal de Cristo, onde cada qual será julgado segundo suas obras, boas ou más’.

Assinatura de Carlos Magno
Assinatura de Carlos Magno

O que o Senhor expressou pelas seguintes palavras: ‘Assim como julgastes, assim sereis julgados’, isto é, sede misericordiosos a fim de que Deus vos faça misericórdia.

“ ‘Não há nada secreto que não deva então ser conhecido, nada escondido que não deva ser descoberto. No dia do juízo daremos contas a Deus de toda palavra inútil’.

“Esforcemo-nos pois, com a ajuda de Deus, em agradá-lo em todas nossas ações, a fim de que, depois da vida presente, mereçamos nos rejubilar na eternidade com os Santos do Senhor.

“Esta vida é curta, e a hora da morte é incerta, que outra coisa temos para fazer senão mantermo-nos sempre prontos?

“Não esqueçamos como é terrível cair nas mãos de Deus. Pela confissão, penitência e esmola tornamos o Senhor misericordioso e clemente: se Ele nos vê retornar para Ele de todo o coração, terá logo piedade de nós e nos fará misericórdia.

“Senhor, concedei-nos as prosperidades desta vida, e a eternidade da vida futura com Vossos Santos. Que Deus vos guarde, irmãos bem amados!”.

(Autor : Charles de Ricault d’Héricault, « Histoire Anecdotique de la France », Bloud et Barral, Libraires -Éditeurs, Paris, T. I, pp. 301-304)

5 dezembro 2012

Epitáfio do Carlos, o Temerário

Arquivado em: Uncategorized — idademedia @ 14:04

Carlos, o Temerário, nasceu em Dijon em 1433 e faleceu em Nancy, em 1476. Seu corpo, sob Carlos V, foi trasladado a Bruges.

Aqui jaz o mui alto, mui poderoso e magnânimo Príncipe Carlos, Duque de Borgonha, de Lorena, de Brabante, de Limburgo, de Luxemburgo e de Gueldres;

Conde de Flandres, d’Artois, de Borgonha; Palatino de Haynneau, de Holanda, de Zelândia, de Namur, de Zutphen; Marquês do Sacro Império; Senhor de Frisia, de Salins e de Malines,

o qual sendo grandemente dotado de força, de constância e de magnanimidade, prosperou por longo tempo em altas empresas, batalhas e vitórias, tanto em Mont-lo-Héry, em Normandia, em Artois, em Liège, como em outras partes, até que a fortuna, virando-lhe as costas, o afligiu na noite de Reis em 1476 diante de Nancy.

O corpo do qual, depositado na dita Nancy, foi depois, pelo mui alto, mui poderoso e mui vitorioso Príncipe Carlos, Imperador dos Romanos, V° deste nome, seu bisneto, herdeiro de seu nome, vitórias e senhorios, transladado a Bruges, onde o Rei Felipe de Castela, Leão, Aragão e Navarra, filho do dito Imperador Carlos, fê-lo colocar neste túmulo ao lado de sua filha e única herdeira, Maria, mulher e esposa do mui alto e mui poderoso Príncipe Maximiliano, Arquiduque d’Austria, depois Rei e Imperador dos Romanos. – Rezemos a Deus por sua alma. – Amém.


(Fonte: Alexandre Dumas, “Excursions sur les bords du Rhin – Impressions de Voyage”, Calmann-Lévy Editeurs, Paris, Tomo I, pp. 92 s., 112 a 115)

28 novembro 2012

O bispo D. Jeronimo pede ao Cid a honra de dar os primeiros golpes aos muçulmanos

Arquivado em: Uncategorized — idademedia @ 14:02

O bispo Dom Jeronimo
A Santa Missa lhes canta,
E uma vez a Missa dita,
Esta alocução lhes dava:
“A quem na luta morre
Pelejando face a face,
Lhe perdôo os pecados
E Deus lhe colherá a alma.

E a vós, meu Cid dom Rodrigo,
Que cedo cingistes espada,
Pela Missa que cantei
Para vós esta manhã,
Peço-lhe me concedeis,
Em troca a seguinte graça:
Que as primeiras feridas
Sejam feitas por minha espada”.
Disse-lhe o Campeador:
“Desde já lhe são outorgadas”.

(Fonte: Cantares de Mio Cid – Estrofe 94)

21 novembro 2012

A Primeira Comunhão e a morte do jovem cavaleiro Vivien

Arquivado em: Uncategorized — idademedia @ 14:01

O poema “La Chanson de Guillaume” gira em torno de uma batalha desenvolvida por Guilherme do Nariz Curvo contra os sarracenos de Deramé, na planície de Larchamp.

Vivien atira-se à luta acompanhado de seu primo Girart. A batalha é calorosa e os franceses são dizimados.

Ao cair da tarde, Vivien envia Girart a pedir ajuda a Guilherme.

O conde Vivien perdeu 10 homens, dos 20 que lhe restavam. Os outros perguntaram:

— Que faremos na batalha, amigos?

Disse Vivien:

— Em nome de Deus, senhores, escutai-me. Enviei Girart levando uma mensagem. Hoje mesmo vereis Guilherme ou Luís, o piedoso. Com um ou outro venceremos os árabes.

— Avante, pois, valoroso marquês — responderam eles.

E ei-los que marcham contra o inimigo.

Os pagãos colocaram Vivien em grande perigo. De seus 10 homens, não deixam um só vivo. É Segunda-feira à noite, e ele fica só na peleja. Tendo permanecido só, com seu escudo, ele os atormenta com cutiladas repetidas. Com sua espada, ele abate uma centena.

— Não chegaremos ao final — diziam os pagãos — enquanto deixarmos seu cavalo vivo debaixo dele.

Eles o perseguem através dos montes e vales, como o caçador acua um animal selvagem. Um grupo o surpreende no meio de um pequeno vale. Atiram sobre ele flechas e dardos agudos, que se enterram no corpo de seu cavalo. Um bárbaro, montado em rápido cavalo, avança pelo meio do vale.

Três vezes ele brandiu a lança que tem na mão direita, e numa quarta vez a lançou. O projétil se enterra no lado esquerdo da cota de malhas, fazendo saltar 30 escamas. Vivien recebe no corpo uma grave ferida, e sua insígnia branca lhe escapa das mãos. Jamais ele a reerguerá.

Ele coloca a mão atrás de si, sente a haste e extrai o dardo de seu corpo. Ele atinge o pagão nas costas e lhe enterra o ferro nos rins. De um só golpe ele o faz cair morto.

— Adeus, patife! Bérbere perverso! — brada o jovem Vivien — Não retornarás mais a teu país, e jamais te vangloriarás de ter matado um nobre de Luís.

Depois ele tira sua espada e retorna a combater. Quando ele golpeia as cotas de malha e os elmos, seus golpes os abatem até o chão.

— Santa Maria, Virgem Mãe e Donzela, enviai-me Luís ou Guilherme. Deus, Rei da glória, a quem devo a vida, vós que nascestes da Virgem Maria e cujo corpo foi criado em união com as Três Pessoas; vós que pelos pecadores sofrestes sobre a Cruz; que fizestes o céu e as estrelas, a terra e o mar, o sol e a lua, Eva e Adão para povoar o mundo, tão verdadeiramente como sois o verdadeiro Deus, impedi-me de ser tentado a recuar um só passo. Antes, que eu perca a vida. Fazei que eu observe meu voto até a morte, e que, graças à vossa bondade, não o atraiçoe. Santa Maria, Mãe de Deus, tão verdadeiramente que carregais Deus como vosso filho, protegei-me, por vossa santa piedade, para que os vilões sarracenos não me matem.

Logo que pronunciou essas palavras, se arrependeu:

— Tive um pensamento tolo, querendo evitar a morte. Nosso Senhor não agiu assim, Ele que sofreu, por nossa Redenção, a morte dos crucificados. Não devo, Senhor, pedir um adiamento da morte, posto que Vós mesmo não quisestes isso. Enviai-me Guilherme de Nariz Curvo ou Luís, que governa a França. Graças a ele nós obteremos a vitória.

O calor era forte, como em maio, durante o outono. Os dias eram longos, e ele jejuava havia três dias. Sofria os tormentos da fome e da sede. O sangue claro escorria de sua boca e da chaga que tinha ao lado esquerdo. Não havia água nas proximidades; a menos de quinze léguas, não conseguiria encontrar nem riacho nem fonte; não havia senão água salgada, das ondas marinhas.

No entanto, no meio da planície corre um vale com água lamacenta, brotada de uma rocha à beira-mar, que os sarracenos turvaram com seus cavalos. Está suja de sangue e de miolos. O bravo Vivien corre para lá e, inclinando-se, toma a contragosto aquela água salobra.

Os inimigos fazem chover sobre ele os golpes de lança, mas a cota é sólida e lhe protege o busto. Somente suas pernas e seus braços recebem mais de vinte ferimentos. Ele então se reergue, como um javali feroz, e tira a espada que lhe pende ao lado. Defende-se com coragem, mas os outros o atormentam como os cães a um javali. A água salobra que ele bebeu, e que não pode reter, lhe sai pela boca e pelo nariz. Ele sofre tanto, que sua vista se turva e ele perde a direção. Para acabar com sua bravura, os pagãos o cercam mais de perto.

Os inimigos o cobrem de golpes de lança e flechas de aço, por todas as partes. Elas se cravam em seu escudo, tão numerosas que o conde não o pode manter à altura de sua cabeça, e o deixa escorregar para os pés.

Lançando setas agudas, dardos e ferros, os inimigos despedaçam a cota do conde. O aço cortante fende o ferro leve de seu peito coberto de malha. Suas entranhas saem para fora. Como ele sente que seu fim está próximo, roga a Deus misericórdia.

Vivien caminha através da planície, arrastando suas entranhas entre seus pés e segurando-as com a mão esquerda. Seu elmo afunda até a altura do nariz. Em sua mão direita ele segura uma lâmina de aço, vermelha da copa à ponta e até à bainha ensangüentada.

Já atormentado pela agonia da morte, ele caminha sustentado por sua espada. Pede com fervor a Jesus Todo-Poderoso de lhe enviar Guilherme, o bom francês, ou o Rei Luís, valente guerreiro.

— Verdadeiro Deus de glória, unido em Trindade, Tu que nasceste da Virgem Maria e foste criado em união com as Três Pessoas, Tu que foste crucificado pelos pecadores, defende-me, ó Pai! Por tua santa bondade, para que eu não seja tentado a recuar um passo sequer na batalha, envia-me, Senhor, Guilherme do Nariz Curvo, porque ele sabe dirigir uma batalha. Deus, nosso Pai, Rei glorioso e forte, que jamais me venha a idéia de recuar um passo por medo da morte.

Um bérbere, vindo pelo pequeno vale e dando galope a seu cavalo rápido, fere na cabeça o nobre barão, com uma lança de aço que leva na mão direita, e seus miolos se espalham pela grama. Vivien cai de joelhos. É uma grande perda a morte de um tal homem!

Os pagãos, surgindo de todas as partes, fazem em pedaços o seu cadáver. Eles o levam e o colocam sob uma árvore, ao longo do caminho, para que os católicos não o achem mais.

No campo de Aliscans, o exército cristão, comandado por Guilherme d’Orange — Guilherme do Nariz Curvo — tinha sido derrotado pelos sarracenos. Podiam-se contar apenas quatorze sobreviventes. Próximo a uma fonte, em um prado, jazia um jovem, quase menino, que apesar disto era um guerreiro que nunca havia recuado. Tratava-se de Vivien, sobrinho de Guilherme, a quem ele amava como a um filho.

Percorrendo o campo de batalha, Guilherme reconhece Vivien e o crê morto, mas este faz um leve movimento. Docemente o nobre duque se inclina e lhe murmura ao ouvido:

— Tu não gostarias de comungar Nosso Senhor Eucarístico? — e lhe mostrou uma Hóstia consagrada. — Porém é preciso que faças tua confissão.

— Eu quero muito — responde uma voz fraca — mas apressai-vos; eu vou morrer. Tenho fome deste Pão. Eis minha confissão: Não me recordo de uma só falta, a não ser que eu tinha feito o voto de jamais recuar um passo diante dos pagãos, e tenho muito medo de haver hoje faltado com a promessa feita ao bom Deus.

Guilherme do Nariz Curvo tira a Hóstia de uma teca que trazia ao peito, e a aproxima dos lábios entreabertos de Vivien, cujos olhos se iluminam.

A morte lhe desceu ao coração, quando acabou de fazer sua primeira comunhão.

(Fonte: “La Chanson de Guillaume” – “Extraits des Chansons de Geste” – Larousse, 1960, pp. 53; Funck-Brentano, “Féodalité et Chevalerie”)

14 novembro 2012

São Guilherme, bispo de Bourges, e a sensibilidade das almas à Igreja

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São Guilherme, bispo de Bourges, convertia os hereges mais duros
São Guilherme, bispo de Bourges, convertia os hereges mais duros

São Guilherme, bispo de Bourges encontrou em uma legislação tremenda contra os hereges.

Entre outras coisas, os bens dos hereges deveriam ser confiscados. Eram penas tremendas quando alguém estava declarado em crime de heresia.

Ele não revogou nenhuma lei, não desprestigiou nenhum costume antigo, mas começou a chamar os hereges, sobretudo os piores e mais obstinados, para conversar com eles.

Tal foi sua capacidade de persuasão, e tal foi a força de contágio do que ele dizia, que os hereges mais endurecidos, sem nenhuma exceção, se comoviam e mudavam de vida.

Então, não era necessário aplicar daquelas penas, porque a Igreja é mãe. Quando ela vê que um herege é tocável pelas palavras de afeto e misericórdia, Ela não vai com a chibata.

São Guilherme, vitral da catedral de Bourges
São Guilherme, vitral da catedral de Bourges

Este bispo agia com muita sagacidade. Os hereges que se emendavam, era dispensados.

Mas a pena de confisco de bens ficava colocada numa suspensão.

Eles não tinham seus bens confiscados, mas, se voltassem para a heresia, seus bens seriam confiscados.

De maneira que eles ficavam presos ao bem pela doce força da persuasão e pela força dura da ameaça de sanções econômicas.

Compreende-se toda a razão da doçura desse bispo.

São Guilherme ameaçou pegar em armas  para defender os direitos da Igreja
São Guilherme ameaçou pegar em armas
para defender os direitos da Igreja

O Rei Felipe Augusto e certos nobres das redondezas de Bourges, vendo a doçura extrema de São Guilherme, resolveram atacar sua igreja e confiscar-lhe alguns dos seus direitos, certos de que o bispo não contestaria.

O bispo se levantou como uma fera! Declarou que pegaria até em armas para defender os direitos da Igreja.

Felipe Augusto e os nobres recuaram… Eles ficaram compreendendo de que força era essa mansidão.

Não se pode dizer que na Idade Média as almas fossem menos infensas ao mal ou que elas fossem naturalmente postas no bem.

O homem, concebido no pecado original, tem uma grande propensão para o mal, e, naturalmente, também é susceptível de querer o bem quando é fiel à graça de Deus.

Mas as almas eram capazes de serem arrastadas, de serem modificadas.

Portal de São Guilherme na catedral de Bourges.  O ódio revolucionário decapitou a imagem de um santo tão equilibrado.  No fato se apalpa a diferença do espírito medieval com a dureza moderna.
Portal de São Guilherme na catedral de Bourges.
O ódio revolucionário decapitou a imagem de um santo tão equilibrado.
No fato se apalpa a diferença do espírito medieval com a dureza moderna.

A extrema severidade: única atitude apostólica em relação ao coração endurecido

E hoje as almas são graníticas. Não se movem. São de uma rigidez cadavérica.

Isto explica nossa tese de que chegamos a um fim de que só uma extrema severidade pode alguma coisa em relação ao coração endurecido.

Alguém aqui me levantou um problema: por que o homem contemporâneo não se comove?

É porque não tem quem o comova, ou por que ele realmente é incomovível?

O que acontece é que aos olhos de Deus, povo e comovedores constitui um todo só.

Nós vemos que, certas vezes, todo um povo se perde porque um príncipe é ruim.

Outras vezes é Deus que dá ao povo um príncipe ruim, porque o povo é perdido.

7 novembro 2012

O grande retorno da heroína santa. Santa Joana d’Arc – 8

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Segundo uma piedosa tradição o coração de Santa Joana d’Arc ainda palpitava entre as brasas, sendo jogado no rio Sena para fazê-lo desaparecer. Mas, do fundo das águas, ele continua ainda palpitando e preparando o encerramento da missão da santa profetisa de Domrémy.

Com efeito, Santa Joana d’Arc julgava que sua epopeia não foi senão o sinal de uma grande missão que ela realizaria.

O sinal que Deus me deu é levantar o sítio dessa cidade e fazer sagrar o rei em Reims” – atestou ter ouvido dela Frei Pierre Seguin O.P. Numa carta aos ingleses, conclamando-os a saírem da França, a heroína escreveu: “Se vós ouvirdes [a Donzela], ainda podereis vir em companhia dela, lá onde os franceses farão a mais bela ação jamais feita pela Cristandade”.

O enigma aumenta ao se considerar uma confidência da santa durante a épica campanha da Ile-de-France: “Quando eu estava sobre os fossos de Melun, me foi dito por minhas vozes que eu seria aprisionada antes da São João”. E após comungar na igreja de Saint-Jacques, ela disse a umas crianças:

“Meus filhinhos, eu fui vendida e traída. Logo serei entregue à morte. Rogai a Deus por mim, pois eu não mais poderei servir ao rei e ao reino de França”.

Teria ficado truncada sua missão? Teriam errado as vozes? A pergunta soa ofensiva contra Deus, fonte última dessas vozes sobrenaturais.

Em seu livro La Mission Posthume de Sainte Jeanne d’Arc (Mgr. Henri Delassus, La mission posthume de Sainte Jeanne d’Arc), Mons. Henri Delassus apresentou uma douta e esclarecedora explicação.

Ele demonstrou que D. Cauchon e os juízes seus cúmplices difundiam os erros e as más tendências revolucionárias enquistados na Universidade de Sorbonne, como aliás se pode ler na condenação acima citada.

Esses erros igualitários e tendências desordenadas eram insuflados por uma verdadeira conspiração anticristã e se desenvolveram através da Revolução protestante, da Revolução Francesa e da Revolução comunista até desembocarem em nossos dias na tentativa de dissolução anárquica da família e da sociedade civil.

O cumprimento de sua missão em nossos dias

Santa Joana d’Arc surgiu como uma profetisa da restauração da Cristandade e, portanto, do movimento contrário ao representado por D. Cauchon e seus cúmplices.

Essa oposição radical a tais erros explica o ódio satânico desse prelado e de seus correligionários, os quais eram por sua vez aliados de ingleses interesseiros embora não tão iniciados na conspiração.

Mons. Delassus explica que a retomada do interesse pela Donzela de Orleans nos últimos tempos e a crescente devoção a ela, hoje venerada no altar, são sinais de que se aproxima a hora do cumprimento final de sua missão.

No moderno santuário de Rouen, construído no local onde Santa Joana d’Arc foi imolada, há um livro de visitas com as mensagens e pedidos dos peregrinos. “Forgive us” (“Perdoai-nos!”) é a expressão em inglês mais frequente.

Desde o dia que o iníquo e ilegal tribunal presidido pelo bispo Cauchon queimou a enviada de Deus, a ilibada Santa Joana d’Arc não mais cavalga pelas verdejantes planícies da França, mas nas profundezas do subconsciente de franceses e ingleses, para não dizer do mundo inteiro.

Um singular exemplo disso: 600 anos após o nascimento de La Pucelle, Nicolas Sarkozy, pouco antes de perder a presidência, dirigiu-se a Domrémy em busca de votos dos admiradores da santa. Singular humilhação para um presidente da República Francesa, herdeira espiritual dos erros e tendências igualitárias do júri que condenou a santa!

O que sucede na cabeça dos franceses e dos homens hoje – indagou com pasmo “The New York Times” – para que uma santa medieval, virgem e profetisa, saída de um conto de fadas, impressione o mundo moderno, laicista e igualitário, do século XXI?

Não adianta fugir da realidade – continua o quotidiano de Nova York: faça-se uma simples busca dos livros sobre ela na maior livraria virtual do mundo e encontrar-se-ão mais de seis mil títulos!

Na perspectiva de Mons. Delassus, a resposta a “The New York Times” não é difícil: cresce cada vez mais a percepção de que, herdeira dos erros condenados pela santa, a sociedade atual ruma para a morte; ou – hipótese previsível – caminha para uma restauração em favor da qual a Donzela está trabalhando eficazmente do Céu e cujos sintomas promissores já parecem ser visíveis.

31 outubro 2012

A virgem guerreira na fogueira. Santa Joana d’Arc – 7

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Santa Joana d'Arco na fogueira, últimos momentos
Santa Joana d’Arco na fogueira, últimos momentos

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A Donzela na fogueira

Na segunda-feira, 28 de maio, a santa foi imediatamente conduzida ao tribunal, que formalizou sua condenação final. Dois dias depois, por volta das 9 da manhã, ela foi levada ao local da execução: a Praça do Velho Mercado.

Num estrado estavam os chefes do tribunal – D. Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, o juiz Fr. Jean Lemaître O.P., Enrique de Beaufort, cardeal da Inglaterra e os bispos de Thérouanne e de Noyon. O escrevente Guillaume Manchon registrou que

“Joana foi conduzida ao suplício por uma grande escolta de soldados, por volta de 80, armados de espadas e varas. Na praça havia uma formação de 700 a 800 soldados. Eles rodeavam tão estreitamente a Joana que ninguém tinha coragem de lhe falar, com exceção de frei Ladvenu [o confessor] e [o escrevente] mestre Jean Massieu. Eu vi como a subiam à pira”.

Ato contínuo foi lido o acórdão final:

Santa Joana d'Arco levada à fogueira do crime iniquo
Santa Joana d’Arco levada à fogueira do crime iniquo

“Essa mulher, obstinada em seus erros, jamais desistiu sinceramente de suas temeridades e crimes infames. E, indo ainda muito mais longe, mostrou-se evidentemente mais condenável pela malícia diabólica de sua obstinação, fingindo uma contrição falaciosa e uma penitência e emenda hipócritas com perjúrio do santo nome de Deus e blasfêmia de sua inefável majestade. Posto que ela se mostrou obstinada, incorrigível, herética e relapsa – indigna de todo o perdão e da comunhão que nós lhe tínhamos oferecido misericordiosamente na nossa primeira sentença, tudo isso considerado, por resolução e conselho dos numerosos consultores, nós chegamos a nossa sentença definitiva, nestes termos: [...]

“Nós, juízes competentes neste caso, declaramos que tu, Joana, vulgarmente chamada de a Donzela, caíste em diversos erros e crimes de cisma, idolatria, invocação de demônios e muitos outros delitos. [...] nós te declaramos reincidente nas sentenças de excomunhão em que tu primitivamente incorreste, relapsa e herética, e com este acórdão nós te denunciamos e te declaramos membro apodrecido que deve ser amputado e jogado fora do corpo da Igreja para que não infecciones outros membros. Com a Igreja, nós te repelimos, cortamos e abandonamos ao poder secular, rogando a este poder que modere sua sentença sobre ti na hora da morte e da mutilação dos membros…” etc.

A terrível e emocionante execução

Após ouvir pacientemente a condenação, a virgem elevou orações e lamentações tão piedosas que até juízes, bispos e muitos presentes custavam a conter as lágrimas.

Ela encomendou sua alma a Deus, a Nossa Senhora e a todos os santos, pediu perdão pelos juízes e pelos ingleses, pelo rei da França e por todos os príncipes do reino.

Frei Jean Toutmouillé atestou que, voltando-se em direção de D. Cauchon, a santa lhe disse: “Bispo, eu morro por vossa causa”. Ao que, insensível, o prelado revidou: “Joana, tenha paciência, você morre porque não cumpriu o compromisso e você reincidiu em seu primeiro malefício”.

Santa Joana d'Arco: estatua na casa natal em Domremy-la-Pucelle
Santa Joana d’Arco: estatua na casa natal em Domremy-la-Pucelle

– “Eu apelo contra ti na presença de Deus”, foram as últimas palavras desse diálogo.

A pedido da santa, frei Isambard de la Pierre, O.P. segurava uma cruz, pois ela queria ver o símbolo de Jesus até o último instante de sua vida.

“No meio das chamas, contou o frade, ela não parava de invocar em altas vozes o nome de Jesus, implorando a misericórdia e o auxílio dos santos do Paraíso. Ela afirmava que não era nem herética, nem cismática como dizia o acórdão. Com o fogo ardendo, ela inclinou a cabeça e, antes de render o espírito, pronunciou ainda com força o nome de Jesus. O público chorava”.

O Journal de Paris escreveu na época que quando as roupas daquela santa e puríssima virgem se queimaram inteiramente, o carrasco diminuiu o fogo para que o povo a pudesse ver na sua nudez. E após já morta olharem-na à vontade, o carrasco voltou a atiçar o fogo até reduzir seu corpo a cinzas.

Um soldado inglês que a odiava mortalmente jurou jogar um facho de lenha na sua pira, quando ouviu a voz de Joana clamando por Jesus. Ficou então paralisado, como atingido por um raio, e seus colegas o levaram a uma taverna para acordá-lo.

À tarde, arrependido ele acorreu aos padres dominicanos, dizendo-lhes que havia pecado gravemente, e acrescentando que, na hora da morte da Donzela, ele julgou ter visto uma pomba branca saindo dela e partindo em direção da França.

“No mesmo dia – acrescentou Frei Isambard – o carrasco veio até o convento para procurar a frei Martin Ladvenu e a mim. Ele estava tocado e muito emocionado, com espantoso arrependimento e angustiada contrição. Tomado pelo desespero, ele temia nunca obter o perdão e a indulgência de Deus pelo fato de ter feito isso a uma santa mulher. ‘Eu temo muito estar condenado – dizia para nós – porque eu queimei uma santa’.

“Esse mesmo carrasco dizia e afirmava que não obstante o óleo, o enxofre e o carvão que ele aplicou sobre as entranhas e o coração de Joana, não conseguiu que fossem consumidos e reduzidos a cinzas. Ele estava muito perplexo, como se fosse um evidente milagre”, depôs ainda frei Isambard.

continua no próximo post

24 outubro 2012

Juízes venais, filosoficamente democráticos, condenam a santa. Santa Joana d’Arc – 6

Arquivado em: Uncategorized — idademedia @ 13:54
Santa Joana d'Arco: o poder vem de Deus  e Deus só o concede aos reis legítimos
Santa Joana d’Arco: o poder vem de Deus
e Deus só o concede aos reis legítimos

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A sentença iníqua

Os incríveis sucessos de armas e a sagração do rei em Reims constituíam crimes para os ingleses. Mas esses fatos eram a negação dos erros doutrinários dos legistas reunidos em tribunal sob a égide do bispo Cauchon.

Eles execravam toda ideia de que o poder vem de Deus para os príncipes e defendiam a tese de que ele vem por meio do povo. Santa Joana d’Arc devia ser queimada, concluíam.

Previamente lucubrada, a sentença foi pronunciada em 12 de abril de 1431. Entre outras coisas, dizia:

“Essas aparições e revelações de que ela se ufana e afirma receber de Deus por meio dos anjos e das santas não aconteceram como ela disse, mas constituem decididamente ficções de invenção humana, procedentes do espírito maligno; [...] mentiras fabricadas, inverosimilhanças levianamente admitidas por essa mulher; adivinhações supersticiosas; atos escandalosos e irreligiosos; dizeres temerários, presunçosos e cheios de jactância; blasfêmias contra Deus e os santos; impiedade em relação aos pais, idolatria ou pelo menos ficção errônea; proposições cismáticas contra a autoridade e o poder da Igreja, veementemente suspeitas de heresia e malsoantes [...] ela merece ser considerada suspeita de errar na fé [...] de blasfemar [...]”, etc.

Os juízes um por um aprovaram o acórdão, aduzindo agravantes.

Frei Isambard de la Pierre, O.P., que acompanhou todo o processo, depôs por escrito:

“Os juízes, tanto na condução do processo quanto na elaboração da sentença, procederam mais por malícia e desejo de vingança do que por zelo da justiça”.

No processo foi exigido da virgem guerreira um ato de submissão, ao que ela acedeu. O escrevente Guillaume Manchon perguntou ao bispo Cauchon se devia anotar esse ato. O presidente do tribunal disse que não.

Santa Joana d'Arco: conduzida ao tribunal  presidido pelo bispo Cauchon
Santa Joana d’Arco: conduzida ao tribunal
presidido pelo bispo Cauchon

“Na hora, Joana disse ao bispo: ‘Ah! Vós escreveis bem o que se faz contra mim e vós não quereis escrever o que é por mim’. Acredito que a declaração de Joana não foi registrada e na assembleia se levantou um grande murmúrio”, contou Frei Isambard.

Em parecer favorável à condenação elaborado pela Universidade de Paris, reduto de legistas revolucionários, o tribunal acrescentou uma nova agravante em 23 de maio:

“Por zelo pela salvação de vossa alma e de vosso corpo, eles [os juízes] transmitiram o exame da matéria à Universidade de Paris que é a luz das ciências e a extirpadora das heresias. Após receber as deliberações dessa agremiação, os juízes deliberaram que deveis ser novamente advertida sobre os vossos erros, escândalos e defeitos [...] Não escolhais voluntariamente a via da perdição eterna como os inimigos de Deus que cada dia se esforçam em perturbar os homens, adotando a máscara de Cristo, dos anjos e dos santos, [...] recusai pelo contrário semelhantes imaginações e aceitai a opinião dos doutores da Universidade de Paris e dos outros que conhecem a lei de Deus e as Santas Escrituras”.

Abjuração obtida mediante fraude

No dia seguinte, Santa Joana d’Arc foi conduzida ao cemitério de Saint-Ouen, onde o pregador Guillaume Erard, doutor em teologia, a increpou furiosamente. Depois deblaterou contra Carlos VII:

Cardeal interroga Santa Joana d'Arco na prisão. A sentença fora "arranjada" previamente com os invasores.
Cardeal de Winchester interroga Santa Joana d’Arco na prisão.
A sentença fora “arranjada” previamente com os invasores.
Paul Delaroche, Rouen, Museu des Beaux-Arts

“Carlos, que se diz rei, como herético e cismático que é, ligou-se a uma malfeitora mulher, infame e cheia de toda desonra, e não somente ele, mas todo o clero que lhe obedece”.

Com o dedo em riste contra a santa guerreira, acrescentou: “É a ti, Joana, que eu falo, e eu te digo que teu rei é herético e cismático”.

Ela respondeu: “Pela minha fé, meu senhor, com toda reverência, eu ouso vos dizer e jurar sob pena de minha vida que não há um cristão mais nobre entre todos os cristãos e que melhor ame a Fé e a Igreja, e em nada é o que vós dizeis”.

O pregador voltou-se para Jean Massieu, oficial de justiça, e mandou: “Faça-a calar a boca”.

Por fim, o teólogo apresentou-lhe uma folha com uma fórmula de abjuração. Joana, que não sabia ler, pediu ao mesmo oficial de justiça, Jean Massieu, para que a lesse.

Ele leu e depois garantiu que o texto dizia que a santa não portaria mais armas, nem roupas e cabelos como os homens e outros pontos menores.

O texto tinha no máximo oito linhas. A santa assinou, a execução foi suspensa e ela foi trancada num cárcere.

Porém, os juízes incluíram no processo uma abjuração extensa, na qual Santa Joana se confessava culpada dos crimes hediondos a ela imputados.

O mesmo oficial de Justiça depôs: “[O texto] não era o mesmo mencionado no processo; a fórmula que li e que Joana assinou era diferente da que foi incluída no processo”.

No mesmo dia, uma delegação de juízes foi visitá-la na prisão, insistindo em que não devia usar mais roupas de homem. O golpe já estava urdido.

Violências no cárcere

No domingo da Trindade, segundo depôs o oficial de Justiça Jean Massieu, quando a virgem acordou, “um dos guardas ingleses pegou seus vestidos femininos e jogou uma roupa de homem sobre seu leito, dizendo: ‘Levanta-te’.

Joana se cobriu com o traje de homem e disse: ‘os Srs. sabem que isso me foi proibido. Eu não quero esta roupa’. Mas eles se recusaram a lhe devolver as outras roupas, e o debate durou até meio dia.

Por fim, precisando atender às suas necessidades, ela ficou constrangida de sair fora usando o traje de homem. Quando voltou, eles não quiseram dar-lhe outro, apesar de suas súplicas e solicitações.

Esta retomada das roupas de homem foi a causa de sua condenação como relapsa, uma condenação injusta pelo que eu vi e pelo que eu conhecia de Joana”.

Carcereiros tentam violar a Santa. Fazia parte da manobra arranjada pelos juízes eclesiásticos.
Carcereiros tentam violar a Santa.
Fazia parte da manobra arranjada pelos juízes eclesiásticos.

Frei Isambard de la Pierre O.P. testemunhou que ele e outros ouviram da santa que

“os ingleses a maltratavam e praticavam contra ela violências quando usava roupas femininas. Eu a vi acabrunhada, cheia de lágrimas, desfigurada e mudada, a ponto de ficar com pena dela”. Massieu acrescentou: “Ela me disse que o bispo de Beauvais lhe havia enviado uma carpa, que ela comeu e que ela temia ser essa a causa de seu mal-estar”.

O Pe. Martin Ladvenu O.P. ouviu dela “que após a sua abjuração ela foi torturada na prisão, molestada e surrada, e que um lorde inglês tentou violá-la. Ela dizia publicamente que essa era a causa pela qual retomou o traje de homem”.

O mesmo frade estava na cela quando “entraram o bispo de Beauvais [D. Cauchon] e alguns cônegos de Rouen. Quando ela viu o bispo, disse-lhe: ‘Vós sois a causa de minha morte. Vós prometestes me pôr nas mãos da Igreja e vós me entregastes nas mãos de meus piores inimigos’.

“Na presença de todos, esses eclesiásticos a declararam herética, obstinada e relapsa. Ela disse: ‘Se vós, monsenhores da Igreja, me tivésseis conduzido e guardado em vossas prisões, não teria acontecido isto’”. Na época, existiam cárceres eclesiásticos onde os detentos eram tratados com respeito.

Após a visita, o bispo de Beauvais se dirigiu aos ingleses, que aguardavam do lado de fora:

“’Farewell (adeus); jantem bem, está feito’. Eu mesmo vi e ouvi – continua o Pe. Ladvenu – quando o bispo se regozijava com os ingleses e dizia ao conde de Warwick e a outros diante de todo mundo: ‘Ela foi pega’”.

Tudo acontecera como D. Cauchon desejara.

17 outubro 2012

Sagração do rei em Reims. Santa Joana d’Arc – 5

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Vontade de Deus: sagrar o rei em Reims

O rei Carlos VII encontrava-se em Loches quando lhe chegou a notícia da libertação de Orleans. Em sua companhia encontravam-se vários nobres e bispos. Joana bateu na porta. Dunois narra o fato:

“Quase imediatamente ela entrou e se pôs de joelhos e, enquanto abraçava as pernas do rei, disse: ‘Gentil Delfim, não percais mais tempo em tão intermináveis conselhos, mas vinde a Reims o mais cedo possível para receber a coroa digna de vós’”.

A Corte ficou perplexa e pediu explicações. Joana, segundo Dunois, disse então:

“Concluída minha oração a Deus, ouço uma voz que me diz: ‘Filha de Deus, vai, vai, vai, eu te ajudarei, vai.’ E quando ouço esta voz, sinto uma grande alegria’. E, coisa impressionante, enquanto repetia a linguagem de suas vozes, ela estava num êxtase maravilhoso, fitando o céu.

“Gentil Delfim, ordenai aos vossos sitiar a cidade de Troyes, e não percais mais o tempo em longos conselhos. Pois, em nome de Deus, antes de três dias eu vos farei entrar nessa praça, ou de bom grado e por amor, ou pela força e pela coragem, e grande será o espanto da Borgonha, a falsa”.

Troyes era a grande cidade no percurso até Reims e pertencia ao duque da Borgonha. Vendo chegar o cortejo real, a cidade se aprestou a resistir. Os generais franceses temiam atacar suas muralhas.

Dunois relata que “Joana ergueu sua tenda perto do fosso defensivo e executou diligências tão maravilhosas como não as teriam realizado dois ou três homens de guerra dos mais experientes e famosos. Ela trabalhou de tal modo durante a noite que na manhã seguinte o bispo e os burgueses de Troyes prestaram, cheios de pavor e tremor, vassalagem ao rei. Soube-se depois que, a partir do momento em que Joana disse ao rei para não se retirar diante da cidade, os habitantes perderam toda coragem e não pensaram em outra coisa senão em procurar asilo nas igrejas”.

“Quando alguém lhe dizia: ‘Mas jamais se viu alguém fazer coisas como vós o fazeis; em livro algum se lêem coisas semelhantes’; ela respondia: ‘Meu Senhor tem um livro que jamais clérigo algum leu, nem mesmo os que no clero foram perfeitos’”.

O pretendente chegou a Reims, onde com o nome de Carlos VII foi sagrado rei. A notícia suscitou entusiasmo na França. Era como se Deus em pessoa tivesse decidido a guerra em favor de Carlos VII.

A virgem guerreira no dia-a-dia

O lavrador Colin, morador da cidade natal de Santa Joana, atestou:

“Lembro-me de ter ouvido do nosso antigo pároco daqueles tempos, Pe. Guillaume Fronte, que Joana era boa católica e que jamais ele vira alguém melhor do que ela na paróquia”.

“Joana era pura – conta o duque de Alençon – e odiava muito essas mulheres que acompanham os exércitos. Certo dia, em Saint-Denis, voltando da sagração do rei, eu a vi de espada na mão perseguindo uma jovem prostituta, e até quebrou a espada nessa perseguição.

“Ela fazia questão de vigiar para que as mulheres dissolutas não fizessem parte de seu séquito, pois dizia que Deus permitiria que fôssemos derrotados por causa de seus pecados.

“Ela também se irritava enormemente quando ouvia os soldados blasfemar e os repreendia com veemência. Ela me repreendia especialmente quando eu blasfemava. Quando eu a via, eu parava de blasfemar”, acrescentou o duque.

“Ao anoitecer, Joana – narra Dunois – costumava retirar-se a uma igreja. Mandava tocar os sinos aproximadamente durante meia hora e reunia os religiosos mendicantes que acompanhavam o exército do rei. Então, dedicava-se à oração e fazia cantar pelos frades uma antífona em louvor da Bem-aventurada Virgem, Mãe de Deus”.

“Joana era muito devota de Deus e da bem-aventurada Virgem Maria. Ela se confessava quase todos os dias. [...] Sua grande alegria consistia em comungar com os filhos dos mendigos. Quando se confessava, chorava”, confirmaram diversas testemunhas.

continua no próximo post

10 outubro 2012

Uma donzela que desfez o melhor exército da época. Santa Joana d’Arc – 4

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As vozes no campo de batalha

O príncipe Jean de Valois (1409-1476), duque de Alençon, chefe dos exércitos reais, foi uma dos mais importantes testemunhas da condução de Santa Joana d’Arc na guerra. Ele a acompanhou lado a lado nos principais episódios de sua epopeia.

Quando a santa entrou na Guerra dos Cem Anos, o pretendente inglês e seu aliado, o Duque de Borgonha, dominavam grande parte da França.

Carlos VII, o legítimo pretendente à coroa francesa, era apelidado de “reizinho de Bourges”, de tal maneira seu território estava reduzido. Seu exército estava dizimado, desmoralizado, mal vestido e mal alimentado.

A batalha decisiva travava-se em volta de Orleans, sobre o rio Loire. A cidade era fiel a Carlos VII, mas os ingleses construíram bastiões e linhas que impediam levar alimentos e munições aos defensores. Orleans ia cair pela fome.

“Tendo visto depois as fortificações construídas pelos ingleses, posso dizer que os bastiões do inimigo foram tomados mais por milagre do que pela força das armas. Isso é verdadeiro, sobretudo quanto ao forte de Les Tourelles, na extremidade da ponte, e ao forte dos Agostinianos”, declarou o príncipe Jean.

Jean de Orléans (1402–1468), conde de Dunois e Mortain, mais conhecido como ‘Dunois’ ou o ‘bastardo de Orleans’, comandante da cidade sitiada, declarou: “Eu acredito que Joana foi enviada por Deus. Seus feitos e gestos na guerra me parecem proceder não da indústria humana, mas de conselho divino”.

Era urgente levar mantimentos à cidade sitiada. O único caminho possível era pelo rio Loire, mas o vento não era favorável. O comando francês decidiu adiar a expedição. Conta Dunois ter dito a Joana:

“Eu e outros mais sábios que eu convocamos um conselho, acreditando que isso [o adiamento] era o melhor e mais seguro”.

“Em nome de Deus, replicou Joana, o conselho de Nosso Senhor é mais seguro e sábio que o vosso. Vós acreditáveis me enganar, e vós vos enganastes a vós mesmos; pois eu trago um auxílio melhor do que jamais cidade ou cavalheiro algum recebeu no mundo, posto que é o auxílio do Rei dos Céus. Ele vos chega por causa de meu amor por vós, mas procede do próprio Deus que, a pedido de São Luís e de São Carlos Magno, teve pena da cidade de Orleans e não quer que os inimigos se apoderem do corpo do duque e de sua cidade”.

“Imediatamente e como que no mesmo instante, o vento contrário – que tornava muito difícil aos navios de víveres subir o rio na direção de Orleans – virou e ficou favorável”.

Santa Joana fez uma gloriosa entrada em Orleans com o exército francês no dia 29 de abril de 1429.

Dunois ficou pasmo vendo depois a Donzela esmigalhar o cerco inglês com soldados desmoralizados:

“Eu afirmo que até esse momento 200 ingleses punham em fuga 800 ou 1000 dos nossos. Mas nos bastaram 400 ou 500 homens de guerra para lutar contra todo o poder dos ingleses; e impusemos tanto respeito aos sitiantes, que eles não ousavam sair dos bastiões que lhes serviam de refúgio”.

Em 4 de maio de 1429, a santa impulsionou a conquista do bastião de Saint-Loup, vitória que reanimou os abatidos franceses.

Na festa da Ascensão, narra Dunois:

“[A Donzela] dirigiu aos ingleses uma carta impositiva, [...] dizendo-lhes que levantassem o cerco e voltassem para a Inglaterra, porque do contrário ela lançaria um grande assalto e os forçaria a irem embora: ‘Vós, homens da Inglaterra, que não tendes nenhum direito sobre o reino da França, o Rei dos Céus vos manda e ordena por meu intermédio, Joana, a Donzela, que deixeis vossas bastilhas e volteis a vosso país. Se não eu farei de vós uma coisa tão espantosa que ficará para perpétua memória. Eis o que vos escrevo pela terceira e última vez, eu não vos escreverei mais.

“JESUS MARIA, Joana a Donzela’.

“Após escrever, Joana pegou uma flecha, amarrou nela a carta com um fio e ordenou a um arqueiro lançá-la aos ingleses, gritando: ‘Lede, são notícias’”.

Os ingleses a receberam, leram-na e vociferaram as piores injúrias contra a virgem.

Após a conquista do grande bastião dos agostinianos, restava assaltar o bastião de Les Tourelles, sede do comando inglês.

Dunois declarou:

“Contarei outro fato, no qual vejo igualmente o dedo de Deus. Em 27 de maio iniciamos bem cedo o ataque. Joana foi ferida por uma flecha, que atravessou sua carne entre o pescoço e as costas, saindo mais de 15 centímetros. Joana não se retirou da batalha nem aceitou tratamento da ferida. O assalto durou desde a manhã até as oito horas da noite. Nessas condições não havia nenhuma esperança de vencer naquele dia. Eu opinava pela retirada do exército e pelo retorno a Orleans. A Donzela pediu-me aguardar ainda um pouco. Ao mesmo tempo, ela montou a cavalo e se retirou até um vinhedo, permanecendo sozinha em oração durante meio quarto de hora. Depois voltou, pegou nas mãos seu estandarte e posicionou-se sobre as bordas do fosso, espicaçando o inimigo. Vendo-a os ingleses tremiam, tomados de pavor. Os soldados do rei recuperaram a coragem e correram para a escalada da muralha. O bastião foi tomado sem resistência; os ingleses que ali estavam fugiram, mas pereceram todos”.

“[Sir William] Glasdale e os principais capitães acreditaram poder se retirar na torre da ponte de Orleans. Porém, eles caíram no rio e se afogaram. Esse Glasdale era o homem que se referia à donzela do modo mais injurioso, vilão e ignominioso”. Os ingleses abandonaram o sítio.

Ordens do Céu em Jargeau e Patay

Os ingleses reagruparam-se sob as ordens do duque de Suffolk em Jargeau, a 15 quilômetros de Orleans, aguardando reforços. Seu número era muito grande, mas a santa convenceu os franceses a partirem para a ofensiva.

“Joana nos disse: ‘Não temais, qualquer que seja a multidão deles: não hesiteis em atacar os ingleses, Deus conduz nosso exército”, narrou o duque de Alençon.

Na hora do ataque, a santa disse ao príncipe: “Adiante, gentil duque, ao ataque!”. “Eu achava que procedendo apressadamente na acometida nós nos precipitávamos, mas Joana me disse: ‘Não duvideis. A boa hora é quando Deus quer. É preciso lutar quando Deus quer. Lutai, e Deus lutará por vós’.

“Joana – prossegue o duque de Alençon – partiu ao assalto, e eu com ela. Joana subiu numa escada levando na mão o estandarte. Joana e o estandarte foram atingidos por uma pedra que caiu sobre seu elmo. O impacto a jogou por terra. Ela se levantou e disse aos homens de armas: ‘Amigos, amigos, subi! Subi! Nosso Senhor condenou os ingleses. Nesta hora eles são nossos, tende muita coragem!’

Jargeau foi tomada na hora”.

Conduzidos pela santa, os franceses conquistaram ainda outras cidades. Reforçado por Sir John Fastolf, o exército inglês, vindo de Paris, se concentrou na planície de Patay.

Era o melhor exército da época, excelente em batalhas abertas, dominava a técnica dos arcos, a arma mais temida. Os capitães franceses La Hire e Xantrailles estavam certos de que não os superariam.

“Mas, testemunhou o duque de Alençon, Joana disse: ‘Em nome de Deus, é preciso combatê-los. Ainda que eles estejam em posição tão alta quanto as nuvens nós os derrotaremos, porque Deus nos envia para que os castiguemos.’ Ela afirmava sua certeza da vitória. ‘O gentil rei, dizia, hoje terá a maior vitória que há muito tempo ele não teve’. De fato, o inimigo foi feito em pedaços sem grande dificuldade. Talbot [comandante inglês], entre outros, foi feito prisioneiro. Houve grande mortandade entre os ingleses”.

7 outubro 2012

Missão profética da Donzela de Orleans. Santa Joana d’Arc – 3

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As vozes e o rei da França

D. Cauchon prometera aos ingleses que faria Joana cair em suas rédeas. Estes, por sua vez, precisavam comprovar que as vozes – que guiaram todo o percurso épico e empolgante da Santa – provinham do demônio.

Essas vozes sobrenaturais levaram a Donzela de início até o pretendente legítimo ao trono da França, o qual se encontrava no castelo de Chinon.

Quando ela entrou para falar com ele, um cavaleiro riu de sua virgindade. O confessor de Joana, Pe. Jean Pasquerel, viu o fato:

“‘Ah! – disse-lhe Joana – em nome de Deus, renega isso, tu que estás tão próximo da morte!’. Menos de uma hora depois, esse homem caiu na água e se afogou”.

É bem conhecido o episódio ocorrido depois: a fim de testar a autenticidade da missão da Pucelle, o rei colocou um cortesão no lugar em que se encontrava e fingiu ser apenas um dos presentes.

A santa não hesitou. Dirigiu-se diretamente a ele, dizendo:

Santa Joana d'Arco, profetisa do Novo Testamento
Santa Joana d’Arco, profetisa do Novo Testamento

“Gentil Delfim, meu nome é Joana, a Donzela. O Rei dos Céus vos manda dizer por meu intermédio que sereis sagrado e coroado em Reims, e tornar-vos-eis o lugar-tenente do Rei dos Céus que é o Rei da França”.

O rei dirigiu-lhe muitas perguntas. No fim, Joana insistiu:

“Eu vos digo da parte de meu Senhor que vós sois o verdadeiro herdeiro da França e filho de rei, e Ele me envia a vós para vos conduzir até Reims a fim de que recebais vossa coroação e sagração, se vós tendes vontade disso”.

A situação de Carlos VII era miserável até do ponto de vista moral.

Ele duvidava até mesmo ser filho de seu pai, devido à vida desregrada da mãe. E pedira a Deus luzes sobre a dúvida.

Após o encontro, o rei confidenciou que Joana lhe falou sobre coisas secretas que ninguém sabia nem podia saber, com exceção de Deus.

O monarca acreditou então na providencialidade da Donzela.

Seu estandarte inspirava coragem e pavor

“Em Blois ela mandou confeccionar um estandarte onde nosso Salvador, como Juiz supremo, estava sentado num trono sobre as nuvens do céu. Havia um anjo em cujas mãos havia uma flor de lis [símbolo da monarquia francesa] que o Salvador abençoava.

“Todos os dias, de manhã e de tarde, Joana reunia os sacerdotes em volta desse estandarte e os mandava cantar antífonas e hinos em honra da bem-aventurada Virgem Maria. Na ocasião, jamais permitia a presença de homens de armas se antes não tivessem se confessado; ela convocava todos eles a se confessarem e virem à reunião, pois os padres estavam dispostos de bom grado a receber todos os penitentes”.

Há diversas descrições da bandeira.

A Santa a descreveu assim:

“Eu empunhava uma bandeira com o campo semeado de flores de lis. Havia a figura do mundo com dois anjos a seus lados. Era de pano branco, do tipo chamado de boucassin. Nela estava escrito Jesus Maria e a bandeira tinha uma franja de seda”.

“Eu mesma levava essa bandeira quando atacava os inimigos, a fim de evitar matar alguém. Jamais matei um homem”, explicou ela ao tribunal.

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