Idade Média

5 outubro 2008

O Papa Gregório IX e o estabelecimento da Inquisição

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 23:12

Como evitar o envenenamento espiritual de toda a sociedade sem consentir em injustiças contra os inocentes ou contra os próprios hereges?

Como conduzir a nau em rumo seguro, entre a indiferença desesperadora de muitos Bispos ou sua susceptibilidade à política local, e de outro lado a impetuosidade das massas populares ou dos agentes imperiais?

O grande Papa (Gregório IX) certamente considerou profundamente este problema. Como Pai da Cristandade, não desejava a morte, mas a correção de seus filhos transviados.

Gregório teve entre suas preocupações uma feliz inspiração: por que não se servir das novas ordens mendicantes?

Até mesmo Lea (historiador contrário à Inquisição) lhes reconheceu a utilidade:

“O estabelecimento destas Ordens parece uma intervenção providencial para proporcionar à Igreja de Cristo aquilo que com grande urgência necessitava. À medida que foi se tornando patente a necessidade de tribunais especiais e permanentes, todas as razões favoreciam que elas estivessem acima das invejas e inimizades locais que podem induzir ao prejuízo do inocente, e acima dos favoritismos que podem conspirar a favor da impunidade do culpado. Se, além dessa ausência de partidarismos locais, os juizes eram homens especialmente adestrados para a descoberta e conversão dos hereges; se tinham renunciado ao mundo por votos irrevogáveis; se não precisavam de bens materiais e eram surdos aos apelos de prazer, parecia que estavam oferecidas todas as garantias possíveis de que suas importantes obrigações seriam cumpridas dentro da mais estrita justiça. E que, enquanto a pureza da Fé era protegida, não haveria desnecessariamente opressões, crueldades ou perseguições ditadas por interesses particulares ou por vinganças pessoais”.

Como Lea supõe, Gregório provavelmente não tinha a intenção de estabelecer um tribunal permanente. Legislou para fazer frente a uma necessidade urgente, e os dominicanos, com seus profundos conhecimentos de teologia, pareciam estar perfeitamente aptos para auxiliar os Bispos.

Naturalmente, isso não seria do agrado de todos. Havia Prelados muito melindrosos em matéria de intervenções exteriores, mesmo de Roma. Levando isso em conta, Gregório escreveu uma diplomática carta aos Bispos do sul da França explicando a situação:

“Vendo-vos envolvidos no torvelinho de inquietações e apenas podendo respirar sob a pressão de sombrias preocupações, cremos oportuno dividir vossa carga para ser levada mais facilmente. Portanto, resolvemos enviar frades pregadores (dominicanos) contra os hereges da França e províncias adjacentes, e vos suplicamos, advertimos e exortamos a que os recebais amavelmente e os trateis bem, dando-lhes favor, conselho e ajuda para que possam cumprir seu mandato”.

Desse modo foram enviados os dominicanos, e em menor proporção os franciscanos, aos lugares onde mais abundavam os hereges. Alguns foram para a Alemanha, mas até 1367 nenhum tribunal sério e permanente ali se estabeleceu.

São Domingos preside auto-da-féAlberico, um dominicano, foi enviado para a Lombardia com o título de “Inquisitor hereticae pravitatis” (Inquisidor contra a perfídia dos hereges). Um de seus sucessores morreu nas mãos das hordas. Outro, São Pedro de Verona, também dominicano, filho de pais maniqueus e fundador da Inquisição de Florença, foi assassinado pelos hereges na estrada de Como a Milão, em 1252.

Ser inquisidor era perigoso, pois os hereges freqüentemente possuíam influências, poder, fanatismo e desespero.

Nenhum jovem dominicano aspirava, por prazer, tirar os hereges de suas tocas. Tal era o caso especial do sul da França, onde os cátaros que sobreviveram à Cruzada, lutaram longa e tenazmente contra os novos tribunais monásticos.

Alguns hereges saquearam um convento dominicano em 1234. Oito anos depois o inquisidor Arnaud e vários frades pregadores foram assassinados. Então, os dominicanos rogaram ao Papa (Inocência IV) que os dispensasse de sua missão. A isto se recusou o Pontífice. Uma força armada de católicos destruiu a resistência dos cátaros, tomando de assalto Montségur, onde se tinham refugiado os assassinos dos dominicanos, e queimou sem julgamento prévio 200 hereges, como os levitas de Moisés mataram os idólatras.

Depois deste fato, a Inquisição foi aceita pelas autoridades seculares. Gregório IX enviou inquisidores à Espanha em 1238. Um deles foi envenenado pelos hereges.

Nas instruções a seus emissários o Papa estabeleceu a diferença entre a Inquisição medieval e as investigações dos Bispos e anteriores tentativas de tratar do problema da heresia. Os monges deveriam ir às cidades onde havia a infecção herética e proclamar publicamente que todos os que fossem culpados de delitos contra a Fé deveriam se apresentar e abjurar de seus erros.

Os que assim o fizessem, seriam perdoados. Deveria ser empreendida uma pesquisa. Se duas testemunhas afirmassem que um indivíduo era herege, deveria ser julgado. Naturalmente, os monges atuariam sempre em colaboração com o Bispo, e com seu prévio consentimento. Nada se indicava então sobre o uso da tortura; não foi utilizada a não ser vinte anos mais tarde.

São Domingos queima livro pestilenciais, Glória da Idade MédiaAparentemente, Gregório não tinha a intenção de fundar uma instituição nova. Apenas utilizava as Ordens religiosas para ajudar os Bispos no cumprimento de uma obrigação que sempre tiveram. O Bispo Donais, profundo conhecedor de documentos originais da primeira Inquisição, é de opinião de que (o Papa Gregório IX) também tentava se antecipar às intromissões de Frederico II, o qual já começara a queimar seus inimigos políticos sob o pretexto de defender a Fé.

Gregório estabeleceu que fossem teólogos peritos, e não políticos ou soldados, aqueles que julgassem os que eram católicos verdadeiros e os que não o eram. Uma vez decidido este ponto, a Igreja ficava livre de reconciliar ou excomungar o herege, e (neste último caso) se o Estado o considerasse perigoso, poderia aplicar-lhe a pena costumeira por alta traição.

Como Moisés na Antiguidade, Gregório desejou proteger do erro os filhos de Deus. Como Moisés, ordenou que se fizesse com toda diligência uma investigação ou inquisição, e exigiu ao menos o depoimento de duas testemunhas. Insistiu, como Moisés, para que os crimes contra Deus não ficassem impunes. Até aqui o paralelo é exato, mas não vai além.

Moisés, sob a antiga Revelação, e em tempos primitivos, não cuidou em distinguir o penitente do empedernido, o enganado do enganador: o culpado era lapidado até à morte. O desejo principal de Gregório era atrair novamente os hereges transviados à graça de Deus. Somente caso insistisse em continuar sendo inimigo de Deus (e inimigo, portanto, da sociedade) deveria ser expulso da igreja, e abandonado à parcimoniosa misericórdia do Estado.

Foi preciso tempo e não pouco esforço para conseguir o funcionamento da nova organização de modo a se realizarem os desejos do Papa.

Hoje está reconhecido que os Juizes (da Inquisição) eram muito superiores a seus contemporâneos dos tribunais seculares.

Fonte: William Thomas Walsh, “Personajes de la Inquisición”, Espasa-Calpe, S.A., Madrid, 1948, pp. 71 a 74.

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9 Comentários »

  1. A INQUISIÇAÕ É INDEFENSÁVEL, E GREGORIO IX ESTAVA NA VALA COMUM DE INQUISIDORES ASSASSINOS. ALGUEM TEM IDEIA DE QUANTOS JUDEUS FORAM MORTOS NA INQUISIÇÃO SÍO PORQUE NAO ACEITAVAM O CATOLICISMO? SEGUNDO OS LIVROS SECRETOS DO VATICANO LIBERADOS EM 1999, FORAM MAIS DE 9 MILHOES DE PESSOAS, SENDO MAIS DA METADE JUDEUS. OS CATOLICOS DAQUELA EPOCA SE ESQUECERAM QUE JESUS ERA JUDEU PRATICANTE ATÉ A SUA MORTE, ONDE ALGUNS DIAS ANTES CELEBROU O PESSACH, OU SEJA, A PASCOA JUDAICA. A INQUISIÇÃOP FAZ PARTE DO PASSADO NEGRO DA IGREJA CATOLICA, E NUNCA O VATICANO PEDIU DESCULPAS PORISSO.

    Comentário por moises eli magrisso — 13 julho 2009 @ 15:01 | Responder

    • Nem na época da II Guerra haviam mais de 6 milhões de judeus na Europa…rs. Quanto mais na Idade Média!

      Meu caro, de onde você tirou esses números exorbitantes? Da mega-sena? Olha lá heim, jogatina é um péssimo vício, heim!

      Ah, quanta porcaria somos obrigados a ler na internet.

      Ademais, parabéns pelo post!

      Frederico

      Comentário por Frederico — 8 fevereiro 2010 @ 10:59 | Responder

  2. Não sei como tem pessoas que defendem isso. Se a igreja católica é inocente Hitler também é.
    Só reomendo que leiam O Queijo e os Vermes do historiador Carlos Ginzburg onde da pra ter uma pequena noção como eram feitos esses assassinatos.

    Comentário por André — 17 março 2010 @ 12:37 | Responder

  3. Saibam todos que a inquisição iniciou no século 15 e permaneceu até o final do século 19, e no Brasil tambem teve inquisição. Leiam a história dos holandeses (a maioria eram judeus) que foram expulsos do Brasil. A maioria foram para NY e Curaçao. Então 9 milhoes de pessoas assassinadas pela inquisição nao foram apenas em Portugal e Espanha, mas em vários paises do mundo, incluindo as 4 cruzadas, verdadeira carnificina, sem contar que na última cruzada, nao conseguiram chegar em Jerusalém, então saquearam Constantinopla matando milhares de turcos, tudo isto em nome de Cristo.

    Comentário por moises eli magrisso — 4 julho 2010 @ 21:50 | Responder

  4. Quando li a historia (a verdadeira) historia da inquisicao, troquei de religiao, fiquei com vergonha do catolicismo. Alias, sao cerca de 10 mil pessoas por dia que estao largando a igreja catolica, e isto vai aumentar cada vez mais, enquanto a Igreja nao pedir perdao aos judeus, pela inquisicao. Alguem escreveu que a inquisicao e indefensavel. Sem duvida que e indefensavel, destruiram o verdadeiro sentido do cristianismo, que diga-se de passagem, vem do judaismo, a verdadeira religiao de Jesus.

    Comentário por CARLOS ALBERTO PORTINARI — 10 fevereiro 2011 @ 19:28 | Responder

  5. O Papa Alexandre III- nasceu em Siena, ensinou direito canónico na universidade de Bolonha, onde escreveu Summa Magistri Rolandi, comentários sobre Decretum Gratiani. escreveu: “Mais vale absolver culpados do que, por excessiva severidade, atacar a vida de inocentes… A mansidão mais convém aos homens da Igreja do que a dureza”. H. C. Lea cita 47 bulas nas quais a Santa Sé continuamente insiste na jurisprudência que deve se observar nos tribunais eclesiásticos. Alertam para não cair na violência e injustiças freqüentes dos juizes leigos. (Hansen, Zauberwahn…, op. cit., pp. 24s).Antes, abramos um parêntese, para de fato mostrarmos conforme os historiadores, que muita calúnia se lançou contra a Igreja Católica, no que concerne a falsa acusação de matança de “centenas”, “milhares” e até “milhões” de pessoas. Pura lenda, que na verdade não passava de mentira estratégica protestante, fomentada por anticatólicos como:Russel Hope Robbins, o apostata Doelling, Jules Baissac, Jean Français e Reinach.O próprio Rui Barbosa quando principiante inexperiente, traduziu “O Papa e o Concílio” uma obra de um deles, do Doelling, e se arrependeu mais tarde, proibindo no prefácio a publicação da mesma, pelas calúnias apaixonadas. Dizia mais tarde Rui Barbosa, quando maduro e experiente: “Estudei todas as religiões do mundo e cheguei a seguinte conclusão: religião ou a Católica ou nenhuma.” (Livro Oriente, Carlos Mariano de M. Santos (1998-2004) artigo 5º).wordpress

    Comentário por Lucas — 26 novembro 2011 @ 20:52 | Responder

  6. A intolerância religiosa é uma peste insidiosa que só muda de personagens e cenários … ali Moisés, acolá os cruzados e depois Gregório IX, aqui terroristas empreendendo a “jihad” contra americanos porque estes ajudam os judeus que, por sua vez, acantoam palestinos em campos de concentração impensáveis para um mundo que chegou ao século XXI. E um interminável rio de sangue vai se alimentando de afluentes oriundos das várias religiões humanas, demasiadamente humanas para entenderem o divino. Não tenho conhecimento de que Deus jamais tenha dado procuração a qualquer um para matar alguém em nome dele. Aliás, não poderia, pois, segundo Seu próprio Filho, ele é AMOR. E no mundo que Ele criou (ou permitiu que se criasse), há uma enorme diversidade de povos e culturas que criaram várias religiões no esforço de compreenderem a divindade que, penso eu, está além de nossa compreensão. Temos um vislumbre parcial e diminuto dela, provavelmente o possível para nosso incipiente nível de consciência, e me parece de uma extrema arrogância julgar que alguma religião saiba quem é Deus, perfeitamente. Falta, às religiões em geral (a umas mais, a outras menos, a alguns fiéis mais, a outros menos), a humildade necessária diante de uma grandeza incomensurável.

    Comentário por Christiana — 19 novembro 2012 @ 21:59 | Responder

  7. não vai mim dizer quê voçê , frederico. É afavor de uma religião tão diabólica como essa, quê no passado assassinou meio mundo de gente dizendo está fazendo em nome de Deus; eu quero que voçê mim mostre na bíblia alguma passagem onde Deus ordena quê podemos matar alguém para defender alguma religião. jamais o Deus de amor quê ama eu e voçê e a todos na terra faria tal coisa. essa ordenança veio de um papa (gregório IX ) LA PELO SÉCULO 14 OU SEJA 1400, não acredito quê voçê venha mim dizer quê isso é correto; e esse papa era da igreja cotólica foi ele, praticamente quém fundou essa seita, e o que eu sei é quê até hoje o vaticano nunca pediu perdão por isso como voçê pode dizer quê tal coisa é correto. fique sabendo quém pratica, autoriza, ou aceita esse tipo de coisa quando morre nessa terra vai direto para o fogo eterno, ou seja para o inferno. A bíblia sagrada diz quê todos os perversos serão lançados no inferno, e isso meu caro é para século dos séculos, não tem fim, imagine a pessoa sendo atormentado 24 horas por dia e isso sem ter um fim determinado; eu, heim

    Comentário por gilmar da silva — 28 agosto 2013 @ 12:59 | Responder

  8. Christiana,, antes de dizer esta bobagem: judeus que, por sua vez, acantoam palestinos em campos de concentração impensáveis para um mundo que chegou ao século XXI, vá conhecer primeiro Israel e ver como vivem maravilhosamente bem os palestinos, infinitamente melhor que em qualquer país árabe que os rejeitam.j Os palestinos desfrutam do que há de melhor em Israel, quando necessário ocupam os melhores hospitais, tem ótimos empregos, muitos são empresários bem sucedidos, e quem os acantoam não são os judeus, são os líderes corruptos deles mesmos. Enquanto isto, os judeus tiveram que fugir dos países árabes para não ser assassinados, e os que permaneceram porque não conseguiram fugir, vivem mal, vivem acantoados, não tem futuro, e sua vida é apenas uma sobrevivência. Eu só conheço um tipo de pessoa que acusam os judeus em relação aos palestinos: AQUELES QUE NUNCA ESTIVERAM EM ISRAEL, e pelas suas afirmações, tenho absolutíssima certeza que voce nunca esteve lá. Voce ofende um povo inteiro por dar opiniões baseados no achismo.,

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    Comentário por Elias Barbacena — 3 março 2014 @ 3:44 | Responder


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