Idade Média

27 setembro 2010

Torneio na reedificação do castelo de Windsor (1)

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 10:41

Cavaleiros, WarwickCoisa curiosa, os medievais tinham uma vida quotidiana extraordinariamente entretida. Tal vez por isso mesmo, interessavam-se pouco por deixá-la descrita em pergaminhos. Quem iria a ler o que via com seus próprios olhos no dia-a-dia?

Foi preciso que autores de séculos posteriores tentassem reconstituir aquela vida animadíssima da era medieval.

Entre esses, esteve o escritor francês Alexandre Dumas. Romancista de fértil imaginação, ele quis descrever uma justa medieval com fidelidade histórica de pormenores. Para isso foi tirar da celebre crônica de Jean Froissard os dados históricos, como ele mesmo deixa claro em várias partes de sua obra.

Eis o resultado:

WindsorO Rei Eduardo III fez reedificar o Castelo de Windsor, fundado outrora pelo Rei Artur.

Ele devia comemorar a reedificação com um torneio e festas. Enviou em conseqüência arautos à Escócia, França e Alemanha para proclamar que, amigo ou inimigo, cada um, contanto que fosse cavaleiro, podia vir, pela honra, quebrar lanças na justa d’armas de Windsor.

Semelhante convite, da parte de um tão grande Príncipe, como se compreende bem, comoveu toda a Cavalaria.

Assim, da Escócia, da França e da Alemanha viam-se chegar, como representação de toda a nobreza do mundo, os mais bravos campeões daquela época.

Alguns já se tinham encontrado nos campos de batalha e sabiam o conceito que deviam formar uns dos outros; mas a maior parte não se conhecia senão pela reputação, e ansiava por se conhecer.

Justas era medieval, KaltenbergÀ medida que chegavam, iam se inscrever com os juízes do campo, ora com seu nome, ora sob o pseudônimo que queriam usar; e, no dia seguinte, recebiam de Eduardo III um presente proporcionado à sua nascença ou ao rango que pareciam ter.

De resto, o torneio devia durar três dias, tendo como ‘defensores’ (‘defensor’ era um dos anfitriões, que desafiava todos os que, em luta cortês ou luta real, quisessem terçar armas com ele), no primeiro dia o próprio Eduardo; no segundo, Gauthier de Mauny, que havia deixado a Bretanha para não perder uma tal festividade; e, no terceiro dia, Guillaume de Montaigu, a quem o Rei, de acordo com sua promessa, acabava de armar cavaleiro, e que devia quebrar lá sua primeira lança. Os três ‘defensores’ deviam aceitar o combate à lança, espada ou machado; só o punhal estava proibido.

Na véspera da festa de São Jorge (Padroeiro da Inglaterra e da Cavalaria), dia fixado para a abertura das comemorações, a cidade de Londres despertou com o ressoar das trombetas e dos clarins.

Cavaleiro medieval, torneio WarwickOs cavaleiros, que haviam acorrido de diferentes partes do mundo para esta grande cidade, deviam dirigir-se às tendas que o Rei lhes havia feito preparar na planície de Windsor; porque não se podia pensar em hospedar no castelo uma tal multidão de pessoas.

Em conseqüência, desde as oito horas da manhã, todas as ruas que conduziam do Castelo de Londres, ou seja da Praça Santa Catarina à estrada, estavam ornadas com tapeçarias e juncadas de folhas.

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De ambos lados, a uns cinco ou seis pés de distância em relação às casas, cordas encobertas por guirlandas de flores, formavam espécies de calçadas nas quais devia circular o povo, enquanto que a parte mais elevada do pavimento permaneceria livre e aberta para os cavaleiros.

Ademais, não havia árvore que não tivesse frutas frescas, não havia janela que não fosse ocupada por pirâmides de cabeças, nenhum terraço que não oferecesse sua seara de espectadores apertados como espigas e ondulantes como elas ao menor ruído que parecia anunciar a aproximação do cortejo.

Torneio Idade Media, KaltenbergAo meio-dia, vinte e quatro trombetas saíram tocando do castelo, no meio de aclamações da multidão, a quem anunciavam por fim o espetáculo tão impacientemente esperado por ela desde a manhã. As trombetas eram seguidas de sessenta corcéis equipados para a justa e montados por escudeiros de honra, portando gonfalões que mostravam os brasões de seus amos.

Depois dos escudeiros vinham o Rei e a Rainha, ornados com suas vestes reais, tendo na cabeça a coroa e o cetro à mão e entre ambos, sobre um belo corcel cujas crinas douradas pendiam até o chão, o jovem Príncipe de Gales, o futuro herói de Crécy e Poitiers, que iria fazer no torneio seu aprendizado de guerra.

Detrás deles cavalgavam, “pêle-mêle”, duzentos ou trezentos cavaleiros cobertos de armas brilhantes, com escudos desenhados com brasões ou divisas, de viseira erguida ou abaixada, caso quisessem ser reconhecidos ou guardar o incógnito.

Enfim, o desfile terminava com uma multidão incontável de pajens e lacaios, uns sustentando no punho falcões encapuzados, os outros conduzindo cães que no pescoço portavam bandeirolas com as armas de seus donos.

Esta magnífica assembléia atravessou toda a cidade ao passo e em boa ordem, para chegar ao Castelo de Windsor, situado a vinte milhas de Londres. Apesar desta distancia, uma parte da população a acompanhou, correndo através dos campos, enquanto o cortejo seguia a estrada.

Continua no próximo post

(Fonte : Alexandre Dumas, « La Comtesse de Salisbury », Calmann-Lévy, Editeur, Paris, 1878, T.I, pp.247 a 261)

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1 Comentário »

  1. Muito interessante , uma forma leve de adquirir conhecimentos sobre o cotidiano medieval.

    Comentário por Ana — 10 abril 2011 @ 15:03 | Responder


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