Idade Média

10 outubro 2010

Torneio na reedificação do castelo de Windsor (2)

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 10:38

Combatente medieval, Kaltenberg

continuação do post anterior


O Rei havia previsto esta concorrência e, fora do espaço das tendas reservadas para os cavaleiros, havia feito construir uma espécie de acampamento onde podiam bem se alojar dez mil pessoas. Cada um estava pois seguro de achar um alojamento segundo sua condição: os senhores no castelo, os cavaleiros nas tendas, o povo ao relento.

Chegou-se a Windsor com noite fechada, mas o castelo estava tão bem iluminado que parecia um solar de fadas. De seu lado, as tendas estavam dispostas como as casas de uma rua; somente entre elas ardiam tochas colossais que difundiam uma luminosidade comparável à do dia, enquanto nas cozinhas, dispostas de trecho em trecho, via-se um sem número de assadores e de serventes ocupados em detalhes que não eram desprovidos de encantos para paladares que tinham cavalgado desde o meio-dia.

Cada um procedeu à sua instalação, depois ao jantar. Até duas horas da madrugada a noite foi cheia de tumulto e de exclamações alegres. Por volta daquela hora, o barulho diminuiu gradualmente nas tendas e no acampamento, enquanto as janelas do castelo apagavam-se umas após as outras. E tudo entrou no repouso e na escuridão. Mas esta trégua nas alegrias não foi de longa duração.

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Ao despontar do dia, cada um foi acordando e preparando o espírito; primeiro o povo, que não só devia ser o menos bem localizado, mas ainda receava não ter suficiente lugar.

Sem tomar tempo para desjejuar, cada um foi levando nos bolsos a provisão da jornada. Toda esta multidão escoou então pelas porteiras e espalhou-se como uma torrente no espaço raso que se lhe havia destinado entre a liça e as arquibancadas. Seus temores eram fundados.

Apenas a metade das pessoas que vieram de Londres puderam encontrar lugar; mas nem por isso renunciaram ao espetáculo. Tão logo se certificaram de que não havia mais meio de penetrar no cercado, e que as barreiras continham tudo que elas podiam contar, disseminaram-se pela campina, procurando todos os pontos elevados de onde era possível dominar o espetáculo.

Anacronismo creativo, Rep. ChecaÀs onze horas as trombetas anunciaram que a Rainha saía do castelo. Dizemos a Rainha somente, porque como Eduardo era o ‘defensor’ dessa jornada, ele já estava na sua tenda.

Madame Philippe (a Rainha) tinha à direita Gauthier de Mauny e à esquerda Guillaume de Montaigu, que deveriam ser os heróis dos dias seguintes. A Condessa de Salisbury vinha logo atrás, conduzida pelo Duque de Lancaster e pelo Príncipe Jean de Hainaut.

A nobre sociedade tomou lugar nas galerias que para esse efeito estavam preparadas e que em um instante tornaram-se semelhantes a um tapete de veludo maravilhosamente bordado com pérolas e diamantes.

Justa medieval, WarwickA liça era um grande retângulo, cercado por paliçadas; nos dois extremos abriam-se as porteiras que deviam dar passagem, uma aos campeães, a outra aos ‘defensores’.

No extremo oriental, sobre uma plataforma bastante elevada para que dominasse a liça, havia-se montado a tenda de Eduardo, que era toda de veludo vermelho bordado de ouro. Em cima dela flutuava o pavilhão real, cujos quartéis primeiro e terceiro tinham os leopardos da Inglaterra e no segundo e quarto as flores de lys da França.

Por fim, de ambos lados da porta estavam suspensos o escudo da paz e a ‘targa de guerra’ (targa: parte da armadura usada sobre o peito. Nas liças foi convencionado que o cavaleiro que tocasse a targa de guerra do ‘defensor’ o desafiava para um combate real; enquanto que se tocasse o escudo, o desafiava para um combate de cortesia) do ‘defensor’; e dependendo de se os campeães faziam tocar por seus escudeiros ou tocavam eles mesmos um ou outra, solicitavam com isso a simples justa ou desejavam o combate de morte.

* * *

Os marechais haviam longamente insistido para que sob nenhum pretexto os campeões pudessem usar outras armas que não as chamadas armas corteses. Visto que o Rei deveria ser um dos ‘defensores’, era de se temer que algum ódio pessoal ou alguma traição se esgueirasse na liça.

Torneio medieval, WarwickEduardo havia então respondido que ele não era um cavaleiro de parada, mas um homem de guerra e que se ele tinha um inimigo, sentir-se-ia muito à vontade em lhe oferecer esta ocasião de chegar até ele.

As condições haviam sido portanto mantidas sem restrições e os espectadores, por momentos inquietos por seus prazeres, sentiram-se assegurados, porque ainda que raramente essas justas derivassem para um verdadeiro combate, a possibilidade de que isto acontecesse dava um novo interesse a cada passo.

Assim, quando a festa transformava-se em luta sangrenta, os espectadores, sem o confessar, não podiam impedir-se de testemunhar, por meio de seus aplausos mais ardentes e repetidos, a predileção que tinham por um espetáculo onde os atores desempenhavam um papel sempre perigoso e algumas vezes até mortal.

Quanto às outras condições do combate, elas não se afastavam em nada do regulamento ordinário.

Lide medieval, KaltenbergQuando um cavaleiro era desmontado e jogado à terra, se ele não se podia levantar sem a ajuda de seus escudeiros, era declarado vencido; o mesmo acontecia quando, no combate à espada ou machado, um dos campeões recuava diante do outro a ponto que a garupa de seu cavalo tocasse a barreira.

Enfim, se o combate fosse com tal acirramento que ameaçasse tornar-se mortal, os marechais de campo podiam cruzar suas lanças entre os dois campeões e assim pôr-lhe término com sua própria autoridade.

* * *

Um arauto avançou na liça e leu em alta voz as condições da justa. Tão logo terminou a leitura, um grupo de músicos postados perto da tenda de Eduardo fez, em sinal de desafio, retinir o ar com o som das trombetas e dos clarins; em seguida, um outro grupo de músicos respondeu-lhe do extremo oposto.

Anacronismo creativo, cavaleiro medieval, LoireAs porteiras se abriram e um cavaleiro totalmente armado apareceu na liça. Mas, ainda que tivesse a viseira abaixada, pelo brasão que era de ouro com listras prata e azul, foi logo reconhecido como o Conde de Derby, filho do Conde de Lancaster, do Pescoço Torto.

Ele avançou, fazendo graciosamente caracolar seu cavalo até o meio da liça; chegado lá, virou-se para a Rainha, a quem saudou inclinando o ferro de sua lança até a terra, no meio das aclamações da multidão. Enquanto isso, seu escudeiro atravessava a arena e, subindo na plataforma, foi golpear com uma vara o escudo de paz de Eduardo.

O Rei saiu em seguida, todo armado, menos a targa, que fez afixar do pescoço por seus lacaios, saltou agilmente sobre o cavalo que se lhe tinha pronto e entrou na liça com tanta graça e segurança que as aclamações redobraram.

Ele estava coberto de uma armadura veneziana, toda incrustada de lâminas e fios de ouro formando desenhos curiosos nos quais se reconhecia o gosto oriental e, sobre seu escudo, em vez das armas reais, levava uma estrela velada por uma nuvem, com esta divisa: “Présente, mais cachée”.

Cavaleiro medieval derrubado, KaltenbergEntão entregou-se-lhe a lança que ele pegou e pôs em riste. Logo os juízes do campo, vendo que os campeões estavam prontos, bradaram em alta voz: “Deixai ir!”

No mesmo instante, os adversários, esporeando seus cavalos, precipitaram-se um contra o outro, e encontraram-se no meio da liça. Os dois haviam dirigido a ponta de sua lança para a viseira do elmo, os dois atingiram o alvo.

Mas a extremidade arredondada da lança não tendo podido penetrar no aço, ambos passaram além, sem dano. Retornaram por conseguinte cada um a sou ponto, e ao sinal dado, lançaram-se de novo um contra o outro.

Desta vez ambos golpearam-se de cheio em suas targas, ou seja, bem no meio do peito. Eram demasiado bons cavaleiros para serem desmontados; entretanto um dos pés do Conde de Derby saiu do estribo e a lança escapou-lhe das mãos.

Quanto a Eduardo, permaneceu firme em sua sela, mas, pela violência do golpe, sua lança partiu-se em três pedaços, dois dos quais voaram pelo ar e o terceiro ficou-lhe na mão. Um escudeiro do Conde de Derby recolheu sua lança e lha apresentou, enquanto traziam uma nova para Eduardo. Assim que os dois campeões se rearmaram, retornaram ao campo e voltaram à carga pela terceira vez .

Choque na lide epoca medieval, KaltenbergDesta vez, o Conde de Derby apontou ainda sua lança contra a targa de seu adversário, enquanto Eduardo, voltando a seu primeiro objetivo, havia, como no início, tomado o elmo do Conde como ponto de mira.

Ambos, nesta circunstância, deram uma nova prova de sua destreza e força, porque pela violência do golpe que recebeu seu dono, o cavalo de Eduardo parou em seco e dobrou os joelhos traseiros, enquanto que a lança do Rei atingiu tão exatamente o meio do elmo que, rompendo as amarras que o seguravam ao pescoço, arrancou o capacete do Conde de Derby.

Os dois pelejaram como bravos e destros cavaleiros, mas quer fosse por fadiga quer por cortesia, o Conde não quis continuar a luta e, inclinando-se diante do Rei, reconheceu-se vencido e retirou-se no meio dos aplausos que ele partilhou com seu vencedor.

Cavaleiros entram na lide, KaltenbergEduardo entrou na sua tenda, e as trombetas retiniram de novo em sinal de desafio; o som teve como na primeira vez um eco na extremidade oposta; depois, assim que se extinguiu, viu-se entrar um segundo cavaleiro, a quem se reconheceu como Príncipe, pela coroa que encimava seu elmo. Com efeito, este novo campeão era o Conde Guillaume de Hainaut, cunhado do Rei.

Este passe, foi, como o outro, uma luta de honra e de cortesia mais do que uma verdadeira justa; de resto, talvez ele tenha-se tornado mais atraente aos olhos dos campeões experimentados, que eram não só os atores mas também os espectadores destas cenas, porque cada um fez maravilhas de destreza.

Porém, havia no fundo dos golpes desferidos uma intenção demasiado visível da parte dos adversários de entregar-se a um jogo e não a um combate, para que a impressão produzida não fosse a que se sentiria em nossos dias vendo representar uma comédia perfeitamente tramada quando se teria ido para ver uma tragédia bem dramática. Resultou daí que, por maior que fosse o prazer que desfrutara com este espetáculo, a multidão que o aplaudia, era visível, quando terminou, que ela esperava a seguir alguma coisa de mais sério.

Continua no próximo post

(Fonte : Alexandre Dumas, « La Comtesse de Salisbury », Calmann-Lévy, Editeur, Paris, 1878, T.I, pp.247 a 261)

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