Idade Média

27 outubro 2015

Origens da Cavalaria medieval

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O 'adoubement' era a sagração do cavaleiro e marcava seu ingresso na cavalaria.
O ‘adoubement’ era a sagração do cavaleiro e marcava seu ingresso na cavalaria.

Podemos agora afirmar que existiram duas organizações paralelas: o exército feudal e a Cavalaria.

O exército feudal compreenderia tropas a cavalo e tropas a pé. Entre as primeiras estariam os diversos tipos de cavaleiros e escudeiros, cujos nomes derivariam da espécie de feudo que possuíssem ou da natureza de jurisdição que exercessem em seus territórios. Seus membros seriam recrutados entre a nobreza feudal.

Nas tropas a pé encontravam-se burgueses e determinados servos da gleba. Eram flecheiros e besteiros. Havia também os que se armavam com maça ou machado.

Qualquer um desses guerreiros podia ser armado cavaleiro, em virtude de seus atos de bravura ou de sua honestidade moral. A princípio, o cerimonial usado para conferir essa dignidade fora simplesmente militar (séc. IX e X).

Com a maior influência da Igreja Católica, começou a surgir o cerimonial religioso, que incluía a ação do sacerdote como parte integrante do “adoubement” (séc. XI).

Finalmente formou-se o cerimonial litúrgico, que atribuía aos membros do clero o direito de armar cavaleiros os homens de armas dignos (séc. XIII).

É bem provável que, no começo, a honra da Cavalaria fosse concedida tendo-se em vista sobretudo o valor militar do candidato. Com a ação da Igreja, modificou-se em parte essa visualização, preferindo-se atender muito mais às virtudes morais do guerreiro do que às suas qualidades físicas.

Não estamos de acordo com aqueles que afirmam que a origem da Cavalaria estaria nos costumes primitivos dos germanos. Os que lhe dão tal paternidade costumam apoiar-se no simples fato de que a entrega da espada era comum entre as tribos bárbaras.

Entretanto, a Cavalaria era uma distinção feita para a recompensa dos guerreiros excelentes. Existe nela uma idéia de que os atos de virtude devem ser simbolizados em alguma instituição.

Ora, a entrega das armas entre os bárbaros, ao que tudo indica, nunca significou uma recompensa por um ato de virtude, mas simplesmente conferia a um homem livre o direito de usar das armas.

Juramento durante a cerimônia de 'adoubement'.
Juramento durante a cerimônia de ‘adoubement’.

Ainda que houvesse entre os germanos certos cerimoniais muito próximos aos que se encontram na Cavalaria, jamais aqueles cerimoniais quiseram comemorar entre eles um valor moral, mas sempre tiveram em vista um fim prático, como seja o acréscimo de mais um guerreiro para a defesa da tribo.

A nobreza de concepção que se encontra na própria instituição da Cavalaria ultrapassa as possibilidades de realização dos bárbaros. Por isso essa instituição se deve, em última análise, à atuação evangélica da Igreja Católica entre esses povos.

Não queremos afirmar com isso que a Igreja teria previsto e ditado as normas de como seria a Cavalaria.

Sem a atuação da Igreja através da distribuição das graças de conversão a esses povos bárbaros, jamais teria nascido entre eles a ideia de uma tal instituição. Portanto, mais uma vez, podemos dizer que só à Igreja Católica é que devemos a origem mais profunda da Cavalaria.

 

Evolução da Cavalaria medieval

A Cavalaria assim compreendida sofreu um desenvolvimento orgânico muito importante. Se de um lado ela significava uma distinção às virtudes morais e naturais praticadas por certos guerreiros, de outro lado, por uma espécie de decorrência, ela originou a formação de agrupamentos, onde se praticava o ideal de vida do guerreiro católico.

Daí os dois ramos em que podemos dividir a Cavalaria: o civil e o religioso. A Cavalaria civil seria, de acordo com a exemplificação já vista, comparável a uma condecoração conferida àqueles guerreiros que se destacassem por seus atos de virtude militar ou moral.

A Cavalaria religiosa seria uma espécie de confraria religiosa ou Ordem Terceira, destinada a formar o espírito militar católico naqueles que tivessem inclinação para tal.

A existência dessa segunda espécie de Cavalaria se acha confirmada não só pela criação das Ordens Militares, como também pelo seguinte trecho:

“Guilherme, Conde de Holanda, tendo acabado de ser coroado imperador em Aix-la-Chapelle, foi feito cavaleiro em Colônia, no ano de 1248; porque era somente escudeiro, e as leis do império determinavam que o imperador só devia ser coroado se fosse cavaleiro. Por isto, o rei da Boêmia o fez cavaleiro.

“Eis as cerimônias que se praticaram nessa ocasião. Durante a Missa, celebrada pelo Cardeal Capuccio do Título de São Jorge au Voile d’Or, o Rei da Boêmia, após o Evangelho, apresentou a este Prelado o Conde de Holanda, dizendo-lhe:

‘Nós apresentamos a Vossa Reverência este escudeiro, suplicando muito humildemente que Vossa Paternidade receba sua profissão e seu votos, a fim de que ele possa entrar em nossa Sociedade Militar’.

“O Cardeal disse ao Conde: ‘Segundo a origem da palavra cavaleiro, é preciso que aquele que quer combater tenha grandeza de alma, que seja de condição livre, que seja dadivoso, que seja corajoso e que tenha muita destreza.

‘Que tenha grandeza de alma, a fim de não se deixar abater nas adversidades; que seja de condição livre por seu nascimento; que se faça honrar por sua liberalidade; que demonstre coragem quando comandar e que dê provas de suas destrezas nas ocasiões.

‘Mas antes de pronunciar os votos de vossa profissão, a fim de que não os façais sem saber ao que vos obrigais, escutai as regras da Cavalaria:

‘é preciso ouvir todos os dias a Santa Missa, expor vossa vida em defesa da Fé Católica, garantir da pilhagem a Igreja e seus ministros, proteger as viúvas e os órfãos, evitar as guerras injustas, aceitar os duelos para libertar o inocente, não alienar os bens do império, e viver diante de Deus e diante dos homens sem nenhuma falta.

‘Estas são as regras da Cavalaria, e se as observardes fielmente, obtereis muita honra nesta vida, e gozareis, após vossa morte, da eternidade bem-aventurada.

“Após isto, o Cardeal tomou as mãos do Conde de Holanda, e tendo-as encerrado no Missal onde acabara de ler o Evangelho, perguntou-lhe se queria receber a Ordem da Cavalaria, em nome do Senhor, e fazer profissão dessa Ordem conforme a regra que ele acabava de explicar.

“O Conde, tendo respondido que a queria receber, deu-lhe sua profissão por escrito, que ele pronunciou nos seguintes termos:

“Eu, Guilherme de Holanda, Príncipe da Milícia e vassalo do Santo Império, sendo livre, faço juramento de guardar a regra da Cavalaria, em presença do Senhor Cardeal do Título de São Jorge au Voile d’Or e Legado da Santa Sé, por estes Santos Evangelhos que toco com a mão”.

Rei da Boêmia deu-lhe então um grande golpe sobre o pescoço, dizendo-lhe: ‘Lembrai-vos, em honra de Deus Todo-Poderoso, que eu vos faço cavaleiro e vos recebo com alegria em nossa Sociedade; e lembrai-vos também de que Jesus Cristo recebeu uma bofetada, que d’Ele se riram diante do Pontífice Anás, que foi revestido de uma túnica de louco, que sofreu zombarias diante do rei Herodes, que foi exposto nu e preso a uma cruz.

“Eu vos peço de ter sempre no pensamento os opróbrios d’Aquele cuja Cruz aconselho-vos a trazer sempre’. Após a Missa ter chegado ao fim, saíram da Igreja ao som de trombetas, timbales e fanfarras.

“O Conde fez um desafio à lança com o filho do rei da Boêmia, e o perseguiu com a espada na mão, como para começar a cumprir as funções da Ordem com a qual acabava de ser honrado” (“Histoire des Ordres Monastiques, Religieux et Militaires, et des Congrégations Seculières de l’un et l’autre sexe, qui ont été établies jusqu’à présent” – Nicolas Gosselin, Paris, 1775, vol. IV, p. 44 ss).

Esse trecho confirma a tese de que havia uma Sociedade Militar, na qual se entrava por meio de uma profissão, fazendo-se votos e obedecendo-se a regras. Ora, isto é o que sucede nas Ordens Terceiras religiosas. Fica, portanto, provado que existia uma Cavalaria religiosa.

Quanto às Ordens Militares, basta recordar que muitas delas exigiam de seus membros votos perpétuos de castidade, obediência e pobreza. Os cavaleiros viviam em comunidades, recitando o Ofício Divino e trajando hábitos especiais.

Seria preciso, todavia, estudar melhor a natureza jurídico-eclesiástica das Ordens Militares de Cavalaria. Como o próprio nome indica, parecem estar incluídas na categoria das Ordens Religiosas dentro da Igreja.

 

 

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20 outubro 2015

Como se entrava na Cavalaria medieval?

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Beato Charles de Blois, duque da Bretanha, igreja Notre-Dame de Bulat-Pestivien
Beato Charles de Blois, duque da Bretanha,
igreja Notre-Dame de Bulat-Pestivien

Baseados no conceito de “cavaleiro”, podemos fazer uma ideia do significado das diversas etapas que se requeriam para ser armado cavaleiro.

Sendo o cavaleiro um homem de armas que possui determinadas virtudes naturais e morais, ele pode adquirir essas virtudes depois de um longo noviciado, como se faz nas Ordens Religiosas.

Ou tornar-se digno da Cavalaria porque, num momento excepcional, ele superou-se a si mesmo, demonstrando com isso um grande valor de alma que abarca, em potência, todas aquelas virtudes requeridas para o ingresso na Cavalaria.

Portanto, os homens de armas podem ser armados cavaleiros de duas maneiras:

a) normalmente, através de um noviciado, que compreende as três etapas de pajem, escudeiro e cavaleiro;

b) excepcionalmente, no campo de batalha ou em outras circunstâncias, quando se lhe confere a Cavalaria sem aquela preparação anterior.

Paul Lacroix afirma que “todo cavaleiro põe seu filho a serviço de outro cavaleiro”. (Paul Lacroix, “Vie Militaire et Religieuse au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance”, Firmin Didot Frères, Fils et Cie., Paris, 1873, p. 150)

Esta afirmação nos leva a pensar que havia entre os cavaleiros uma espécie de contrato, pelo qual era possível realizar o noviciado dos cavaleiros.

Somente os cavaleiros tinham poder de armar cavaleiro um homem de armas. Isso poderia significar também que somente os cavaleiros eram capazes de preparar e educar os homens de armas para a recepção na Cavalaria.

De maneira que o serviço de pajem e escudeiro, enquanto significando um noviciado para a recepção na Cavalaria, provavelmente só se fazia nos castelos de senhores que eram cavaleiros, isto é, membros da Cavalaria.

Isto talvez seja um dado novo, pois nos livros de História não se dá realce a esse fato, e acaba-se interpretando que o serviço de pajem e escudeiro se prestava a qualquer senhor feudal, e que era costume da nobreza enviar seus filhos a senhores mais poderosos para executarem tais serviços.

Robert Bruce, herói da Escócia, estátua em Bannockburn
Robert Bruce, herói da Escócia, estátua em Bannockburn

Uma vez que a Cavalaria é algo inteiramente distinto do feudalismo, aquele serviço de pajem e escudeiro, que todos reconhecem ser uma etapa para a recepção da Cavalaria, provavelmente só se fazia junto aos nobres que eram membros da Cavalaria.

Somente nobres eram capazes de transmitir aos jovens, desejosos de pertencer à Cavalaria, a mentalidade e as virtudes necessárias para adquirir aquela distinção honorífica.

Portanto, o serviço de pajem e escudeiro, enquanto significando uma etapa preparatória para a Cavalaria, deve ser visto como um verdadeiro noviciado, onde o pretendente à Cavalaria adquire, pelo exercício e pelo tempo, as virtudes naturais e morais que o possam tornar digno de ser membro da Cavalaria.

Esse era o meio normal para se ingressar na Cavalaria. Havia também os meios excepcionais, a que já nos referimos.

O que acabamos de dizer acerca do noviciado da Cavalaria talvez lance uma luz sobre o problema do significado da palavra “escudeiro”. Certamente ocorre com essa palavra o mesmo que com a palavra “cavaleiro”.

“Escudeiro” poderia significar uma etapa na formação de um homem de armas para a recepção na Cavalaria, e poderia significar também um tipo de guerreiro de exército feudal, que possuísse um feudo territorial de natureza especial.

Assim, poder-se-ia levantar a hipótese de que a palavra “escudeiro” teria pelo menos dois significados:

a) designava todos os homens de armas que estavam cursando o noviciado da Cavalaria, ou que já o haviam completado, embora ainda não tivessem recebido o “adoubement”;

b) designava os homens de armas do exército feudal que possuíam feudos especiais.

Para compreendermos melhor o sentido da palavra “escudeiro”, enquanto membro da Cavalaria, lembremos que nas Ordens Terceiras existem os noviços e os irmãos terceiros. Os noviços podem ficar noviços durante muito tempo, até serem aceitos como irmãos.

No caso da Cavalaria, existiram os escudeiros e os cavaleiros. Um cavaleiro provavelmente poderia ficar muito tempo escudeiro, até que fosse armado cavaleiro por um outro cavaleiro.

Todavia, embora não fosse armado cavaleiro, enquanto escudeiro ele pertencia à Cavalaria, isto é, participava de alguma dignidade honorífica pelo fato de ser um pretendente à Cavalaria.

Em abono desta hipótese, poder-se-ia aduzir o seguinte trecho do Grand Dictionnaire Universel Larousse:

“O escudeiro não podia usar esporas de ouro nem roupas de veludo; mas calçava esporas de prata e trajava vestimentas de seda”.

Isso parece indicar que o escudeiro tinha roupas especiais, que simbolizavam o seu grau de dignidade dentro da Cavalaria.

Por outro lado, falando sobre o grau de escudeiro, o mesmo dicionário assim se expressa:

“Da situação de pajem, o jovem fidalgo passava à de escudeiro; para receber esse grau, que lhe era conferido numa grande cerimônia religiosa, devia ter pelo menos 14 anos.

“O jovem, recém-saído do estado de pajem, era apresentado diante do altar por seu pai ou sua mãe, que, com uma vela na mão, compareciam ao oferecimento.

“O sacerdote tirava de cima do altar uma espada com seu cinturão, fazendo a seguir várias bênçãos sobre ela e prendendo-a ao lado do jovem candidato, que até então só a podia carregar”.

Essa descrição nos aproxima das cerimônias requeridas para a recepção de candidatos à Cavalaria, e por isso nos faz supor que escudeiro era um grau na cavalaria, que se adquiriria também através de certos rituais, e que se conservaria até que fosse chamado ao grau de cavaleiro.

Quanto à afirmação de que o escudeiro só podia levar a espada, sem poder fazer uso dela, há uma explicação a ser dada. Parece-nos que isso vigorava até que o escudeiro atingisse a idade de 21 anos.

Segundo Larousse, havia escudeiros que combatiam tal como os cavaleiros. Além disso, Lacroix, ao tratar dos escudeiros em sua obra “Vie Militaire et Religieuse au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance”, diz que os escudeiros, depois de um determinado tempo de serviço junto aos senhores feudais, iam correr o mundo com o título de “poursuivants d’armes” (cadetes de armas), onde acabavam de concluir o seu noviciado de Cavalaria, fazendo atos de bravura e aprimorando os seus conhecimentos e sua educação. (Paul Lacroix, idem, ibidem, pp. 150 ss.)

Portanto, é bem provável que os escudeiros usassem da espada para demonstrarem o seu valor militar, e assim tornarem-se dignos de receber o “adoubement” da Cavalaria.

De maneira que, se isso for assim, os escudeiros podiam ser inclusive adultos que ainda não tivessem recebido o “adoubement”, mas que no entanto pertenceriam à Cavalaria, pois estavam no noviciado preparatório para a mesma.

Ou seja, haveria casos em que um escudeiro ficava esperando durante muito tempo, até que chegasse a ocasião em que ele fosse julgado digno de ser armado cavaleiro.

Finalmente, poderíamos também supor que um fidalgo fosse cavaleiro enquanto membro do exército feudal, e no entanto tivesse o título de escudeiro enquanto membro da Cavalaria.

Esse fidalgo, que seria um “cavaleiro de nascimento”, todavia era escudeiro diante dos demais cavaleiros membros da Cavalaria, e devia ceder o seu lugar quando estivesse na presença daqueles.

Talvez houvesse também o caso de serem armados cavaleiros certos homens livres, que ocupassem no exército feudal o posto de escudeiro. Como membros da Cavalaria, estes seriam cavaleiros, e como participantes do exército feudal seriam escudeiros.

Estas últimas hipóteses, parece-nos, abririam novos horizontes na pesquisa do intrincado problema da Cavalaria. E sobretudo facilitariam a investigação do verdadeiro sentido dos termos “cavaleiro” e “escudeiro”, durante a Idade Média.

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13 outubro 2015

Os mestres medievais autores de inventos atribuídos a Leonardo da Vinci

Detalhe do relógio astronômico na Praça da Cidade Velha, Praga.
Detalhe do relógio astronômico na Praça da Cidade Velha, Praga.

continuação de post anterior: A geometria a serviço do arquiteto medieval

Em 1459, os mestres-pedreiros de Estrasburgo, Viena e Salzburg, reunidos em Ratisbona para redigir os estatutos profissionais de suas lojas, decidiram:

“Nenhum operário, nenhum mestre, nenhum parlier, nenhum jornaleiro ensinará a quem não for do nosso ofício nem fez jamais trabalho de pedreiro como tirar a elevação [alçado] a partir do plano” (J. Gimpel, Les bâtisseurs de cathédrales, Ed. du Seuil, Paris, 1958, p. 123.).

O parlier – forma germanizada de parleur – é, de certo modo, um contramestre encarregado de “falar” [parler] aos companheiros como representante e intérprete do arquiteto nos grandes canteiros de obras.

Em 1486, o arquiteto alemão Mathias Roriczer, em sua obra intitulada Livro da Construção Exata de Pináculos, explicou abertamente esse método, com o auxílio de desenhos que recordam os que Villard executara 250 anos antes, sem os considerar um segredo.

O princípio da duplicação dos quadrados já se encontra no Tratado de Vitrúvio. Tanto Villard como Magister II conheciam certamente esse princípio.

Vitrúvio diz-nos tê-lo descoberto ele mesmo num diálogo de Platão: o Menon. “Platão demonstrou destarte a duplicação, por meio de linhas desenhadas” (Vitrúvio, I, Introdução).

Se o Carnet de Villard de Honnecourt nos faz pensar nos Cadernos de Leonardo da Vinci, isso não ocorre por mero acaso e a aproximação nada tem de fortuita.

Separados um do outro por dois séculos e meio, Villard, homem da Idade Média, e Vinci, homem da Renascença, tinham recebido praticamente a mesma formação e a mesma cultura: a das artes mecânicas.

Ao redigirem apontamentos de trabalho, resultados de suas pesquisas pessoais, eles obravam em conformidade com os costumes de seu tempo.

Detalhe das engrenagens do relógio astronômico da catedral de Estrasburgo.
Detalhe das engrenagens do relógio astronômico
da catedral de Estrasburgo.

Conhece-se a existência de mais de 150 manuscritos técnicos que datam do final do século XIV e começo do século XVI.

Da Vinci utilizou os tratados de seus antecessores e de seus contemporâneos, mas é admissível que ignorasse Villard e sua obra.

Foi recentemente provado que numerosas invenções atribuídas a Da Vinci já existiam nos escritos de engenheiros como Konrad Kyeser, nascido em 1366, Robert Valturio, nascido em 1413, e Francesco di Giorgio, nascido em 1439, escritos esses que Da Vinci conhecia todos. Anotou de seu próprio punho um texto de Giorgio.

Como Villard, ele também leu Vitrúvio, cujas obras figuravam entre os volumes de sua biblioteca. Se Villard parece ter vivido de pleno acordo com os costumes do seu meio social e o status de sua profissão, Da Vinci reagiu violentamente à falta de consideração com que os humanistas trataram o técnico que ele era.

Os iluminadores de manuscritos prestaram aos arquitetos medievais uma homenagem apropriada, ao representarem Deus, o Pai, como um arquiteto-engenheiro, medindo o universo com um compasso gigantesco.

Silenciosos mas pasmosos progressos: o Relógio Mecânico

A sociedade medieval entusiasmou-se pela mecanização e a pesquisa técnica, porque acreditava firmemente no progresso, um conceito ignorado no mundo antigo.

De um modo geral, os homens da Idade Média recusaram-se a respeitar as tradições que poderiam ter freado seu ímpeto criador, e Gilbert de Tournai escrevia:

“Jamais encontraremos a verdade se nos contentarmos com o que já está descoberto… Os que escrevem antes de nós não são senhores, mas guias. A verdade está aberta a todos, ela não foi ainda inteiramente possuída”. (Gimpel, Les bâtisseurs de cathédrales, p. 163)

 

ERelógio astronômico da catedral de Estrasburgo. Bernard, mestre da escola episcopal de Chartres, de 1114 a 1119, acrescentava:

“Somos anões empoleirados nos ombros de gigantes.

“Por isso, vemos mais que eles e mais longe que eles, não porque a nossa vista seja mais aguda ou nossa estatura mais elevada, mas porque eles nos carregam no ar e nos elevam a toda a sua gigantesca altura”. (J. Le Goff, Les intellectuels au Moyen Age, ed. du Seuil, Paris, 1957, p. 17 )

 

Relógio astronômico da catedral de Estrasburgo.

A atitude de um Gilbert de Tournai e de um Bernard de Chartres levou os homens dessa época a encararem as invenções como coisa normal e a aceitarem a ideia de que haveria sempre no futuro novas invenções.

A ambição dos inventores não conhecia limites, sua imaginação ignorava fronteiras e, no entanto, de todas as máquinas extravagantes que conceberam e por vezes realizaram, uma simboliza a sua “pesquisa” científica: o relógio.

Se a teoria de Lewis Mumford sobre a origem beneditina dos relógios mecânicos é hoje controvertida, as opiniões desse autor sobre o papel da medida do tempo no desenvolvimento da civilização continuam válidas:

“A máquina-chave da idade industrial moderna não foi a máquina a vapor, foi o relógio. Em cada fase do seu desenvolvimento, o relógio é o fato saliente e o símbolo da máquina.

“Ainda hoje, nenhuma outra máquina é tão onipresente. Assim, no começo da técnica moderna, apareceu profeticamente a primeira máquina automática precisa que, após alguns séculos de esforços, iria pôr à prova o valor dessa técnica em cada ramo da atividade industrial.

“Permitindo a determinação de quantidades exatas de energia (portanto, a padronização), a ação automática e, finalmente, o seu próprio produto, a saber, um tempo exato, o relógio foi a primeira máquina da técnica moderna.

“Conservou a preeminência em todas as épocas. Possui uma perfeição a que as outras máquinas aspiram” (L. Mumford, Technique et civilisation, ed. du Seuil, Paris, 1950, pp. 23-24.).

 

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).

 

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6 outubro 2015

Hierarquia e símbolos na Cavalaria

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A dignidade de cavaleiro comportava graus:

– os “bannerets” ou porta-estandartes;

– a seguir os “bacheliers”, jovens que após as batalhas eram armados cavaleiros, ou então cavaleiros recém-sagrados;

– finalmente os cavaleiros propriamente ditos. As duas palavras “bachelier” e cavaleiro passam a ser sinônimas.

– No terceiro plano, os “cavaleiros alistados”, isto é, aqueles que se inscreveram mediante salário, a serviço de um mais poderoso.

– Por fim os escudeiros, que não estavam autorizados a lutar com um cavaleiro.

Quando se trata de escrever a um cavaleiro, ou de lhe dirigir a palavra, ele é intitulado Dom, Sire, Messire ou Monseigneur.

Sua esposa é qualificada de Dame ou Madame.

O escudeiro deve ser chamado de Monsieur, e sua esposa de Demoiselle.

Quanto ao uso de roupas de seda, elas eram proibidas aos simples burgueses, bem como aos escudeiros. Apenas os cavaleiros estavam autorizados a vesti-las.

Os escudeiros usavam roupas de lã, sem ornamentos de ouro ou de prata. Somente os cavaleiros eram autorizados a enfeitar seus mantos de branco ou cinza, de arminho ou outra pele de privilégio. As peles de menor qualidade eram para a gente do povo.

Somente os cavaleiros tinham o direito de dourar suas esporas e os arreios de seus cavalos. A mais característica das vestes de uso exclusivo dos cavaleiros era o longo manto escarlate enfeitado de arminho.

Esses mantos de grande luxo eram distribuídos pelo rei aos cavaleiros recém-armados por ele. A cor vermelha tornou-se privilégio da Cavalaria.

Mathieu de Couci (“História de Carlos VII”) descreveu um banquete que foi organizado em Lille, em 1454, pelos desejos do Duque de Bourgogne.

Os cavaleiros que serviam estavam vestidos de damasco, os escudeiros de cetim, e os simples valetes de pano de lã. Mathieu de Couci dá igualmente a descrição de uma justa de três borguinhões contra três escoceses.

Dos três borguinhões, os dois primeiros estavam vestidos de longos mantos enfeitados com pele de marta zibelina. Quanto ao terceiro, seu manto era de cetim negro.

Três cavaleiros franceses, chegando à corte da Espanha, apresentam-se vestidos com mantos escarlates e coroados com flores azuis. Usam luvas brancas e estão montados em grandes cavalos de batalha da Espanha.

As lanças cavalheirescas são feitas de pinho, tília, sicômoro ou faia, de preferência em freixo. A ponta de aço, aguda, é enfeitada com o “gonfalon” — bandeira de guerra muito comprida.

Joinville salienta que os cavaleiros tinham o costume de raspar os cabelos, para não se embaraçarem com eles durante as lutas.

Os cavaleiros se distinguiam uns dos outros pelas armas, onde seus brasões estavam pintados, ou mesmo pela cor do pequeno estandarte que enfeitava sua lança, e da bandeira com a qual o alto do seu capacete podia estar decorado.

Quanto ao brasão dos cavaleiros, era extremamente variável.

Alguns se contentavam com um escudo branco ou de cor lisa, para decorá-lo, após uma sucessão de acontecimentos, com um emblema significativo: uma cruz em memória de uma campanha contra os sarracenos; a reprodução de uma arma conquistada em um torneio; a imagem de uma torre ou de uma fortaleza tomada de assalto; as ameias de um reduto vitoriosamente defendido, etc.

 

 

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