Idade Média

23 fevereiro 2016

Quem podia entrar na Cavalaria?

Cavaleiros
Cavaleiros

Quem era admitido na Cavalaria? Quem tinha o direito de ser admitido na Cavalaria?

Em princípio, todos. Não era preciso ser nobre para ser admitido na “Sainte Ordre de Chevalerie”, na “Santa Ordem da Cavalaria”.

E há exemplos históricos de homens da plebe, do povo, que foram recebidos cavaleiros. Mas a classe que por excelência tinha obrigação de se sacrificar, e tinha como característica o espírito de sacrifício, era a nobreza.

Sendo a Cavalaria uma dedicação plena ao serviço de Deus, aqueles que mais naturalmente podiam se entregar a isso eram os nobres, que tinham para tal uma inclinação quase natural, uma inclinação de classe.

Por isso a grande maioria dos cavaleiros eram nobres. As outras classes tinham como obrigação cuidar mais de seus próprios interesses, dentro de limites legítimos.

O lavrador tinha obrigação de cuidar do seu campo, o burguês tinha obrigação de administrar os seus negócios.

O dever de um burguês muito piedoso, muito cristão, era administrar bem seus negócios, ao passo que o dever de estado do nobre era a dedicação a um serviço em favor do bem comum, tanto mais quando se tratava do serviço de Deus.

Outra questão é saber em que lugar se era recebido na Cavalaria. Podia ser na igreja ou no campo de batalha. Francisco I, como vimos, foi armado cavaleiro no campo de batalha.

Monumento a Bayard em sua cidade natal.
Monumento a Bayard em sua cidade natal. Poncharra. Saboia, França.Poncharra. Saboia, França.

Dom João I, pouco antes da batalha de Aljubarrota, armou numerosos cavaleiros, fazendo um apelo para que naquela batalha eles se fizessem dignos da Ordem que acabavam de receber. Mas de modo geral a cerimônia se dava na igreja.

Em que idade se era recebido cavaleiro? Quando se entrava na maioridade. Ao entrar na maioridade — 15, 16, 17 anos — já se estava inteiramente pronto para ir combater, para lutar sozinho contra 30 muçulmanos, comandar um exército, etc., e então já se podia ser armado cavaleiro.

Como é que se ingressava na Cavalaria? Através de um rito, de uma cerimônia, que na França se chamava “adoubement”. Em Portugal se chamava “armar cavaleiro”.

Houve três espécies de ritos: o militar, o religioso e o litúrgico.

O mais antigo foi o militar. Consistia essencialmente em um cavaleiro — porque só um cavaleiro podia armar outro cavaleiro — cingir a espada ao recipiendário, dando-lhe na ocasião um violentíssimo tapa na nuca, tão forte que o rapaz precisava tomar cuidado para não ir ao chão.

 

 

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16 fevereiro 2016

A Cavalaria se estruturou organicamente

Bayard defende a ponte sobre o Carigliano. Henri-Félix-Emmanuel Philippoteaux (1815–1884).
Bayard defende a ponte sobre o Carigliano.
Henri-Félix-Emmanuel Philippoteaux (1815–1884).

Outro aspecto importante é que a instituição da Cavalaria surgiu como que espontaneamente, organicamente, sem um plano nem decreto, pela ação da graça e do Espírito Santo.

Não é como a vida religiosa, que tem um legislador como São Bento, que dá à instituição uma lei, uma organização, uma estrutura jurídica.

De fato já existia aquele ideal, aquela inspiração, mas um homem, um fundador, dá uma organização para aquilo.

Com a Cavalaria não acontece assim. Não houve um Papa que em determinado momento excogitasse “como seria uma coisa interessante instituir a Cavalaria”, publicasse depois uma encíclica “De militia christiana”, e a partir desse dia começasse a existir a Cavalaria.

Tanto não é assim, que nós não podemos nem saber quando é que começou a Cavalaria. Podemos dizer onde ela floresceu mais perfeitamente, mas não onde que ela começou. Tudo se passou organicamente.

O impulso do Espírito Santo, agindo em toda a Europa por meio da Igreja e dos santos, vai fazendo nascer esse desejo de um ideal e o vai elaborando aos poucos. Não surgiu de uma reunião de pessoas, de um concílio ou de uma universidade para estudar e deliberar sobre o assunto.

Na Idade Média quase tudo se fez assim. É um corpo sadio que vai florescendo e vai dando frutos. Funck-Brentano tem sobre isso uma expressão muito bonita:

Cavaleiro em oração, Vitral na Universidade de Yale.
Cavaleiro em oração.
Vitral na Universidade de Yale.

“Alguém pode não gostar da civilização medieval, do regime feudal medieval. Mas uma coisa que ninguém pode fazer é criticar aquela sociedade por ter dado aqueles frutos.

“Ela só podia ter dado aqueles frutos. Uma sociedade como aquela tinha que dar nascimento àquelas instituições, tinha que florescer com aquelas instituições.

“A coisa surgia como o fruto nasce da árvore. A pessoa pode não gostar de maçã, mas ninguém pode criticar uma macieira porque dá maçãs”.

A Cavalaria era de fato um ideal de santidade e uma via de santificação. Diante daqueles homens rudes, bárbaros e semi-selvagens, a Igreja teve a linda audácia de não fazer concessões.

Ela tomou um ideal de santidade e o ofereceu a eles.

Analisando o ideal da Cavalaria, vemos que era um altíssimo ideal de santidade. Não era um ideal de levar uma vida bem direitinha, bem honestazinha, mas era propriamente um ideal de santidade.

Quem encarnasse perfeitamente o espírito da Cavalaria ficava santo. E a Cavalaria também era uma via de santificação.

Porque seguindo aquele termo, seguindo aquelas normas da Cavalaria, embebendo-se daquele espírito da Cavalaria o homem se santificava, mais ou menos como se santifica quem segue a regra de uma determinada Ordem religiosa.

Quem se embeber no espírito da Ordem de S. Domingos, por exemplo, não dá para não tornar-se um santo.

Se a Cavalaria era um ideal de perfeição, também era um colégio. Em algumas recepções de cavaleiros, aquele que os recebe diz: “Eu vos recebo com vontade, com satisfação, no colégio da Cavalaria”.

Isso pode dar margem a confusão, pois era colégio enquanto o conjunto de todos aqueles que foram armados cavaleiros. Era uma corporação, um conjunto, ligados todos pelo mesmo ideal.

Pelo fato de terem sido armados cavaleiros através de um rito sensível, também havia uma certa solidariedade entre eles. Mas sem uma estrutura jurídica.

Isso é uma coisa muito bonita também na Cavalaria, porque aqueles homens eram armados cavaleiros, e a todo momento estavam lutando um contra o outro.

Era normal um cavaleiro que vivesse num feudo e depois fosse lutar por outro, mas sempre havia uma certa solidariedade. Eles sempre sentiam no outro uma marca especial, que os levava a ter uma mútua estima.

O rei da França Francisco I é armado cavaleiro por Bayard. Louis Ducis (1775 - 1847) , Museu do castelo de Blois.
O rei da França Francisco I é armado cavaleiro por Bayard.
Louis Ducis (1775 – 1847) , Museu do castelo de Blois.

Vemos isso com Bayard, por exemplo, quando ele se aproximou das linhas inimigas. Estão os imperiais do outro lado, e todos se aproximam para ver aquele grande cavaleiro, que era o pior inimigo que eles tinham, o homem que mais dores de cabeça dava aos imperiais.

Mas sentiam alguma coisa de comum com ele, embora fosse já uma época de decadência da Cavalaria. Quando ele foi preso, o rei da Inglaterra Henrique VIII o recebeu com uma consideração muito especial.

Trataram-no com toda a cortesia, sentindo uma certa solidariedade com um homem que, como eles, tinha recebido a ordem da Cavalaria, e como eles — ou muito melhor que eles, aliás — servia os ideais da Cavalaria.

Outra coisa característica na Cavalaria é que todos são iguais. Um pequeno fidalgo, como é Bayard na Cavalaria, é igual a um rei.

É por isso que, logo depois da batalha de Marenga, Francisco I, rei de França, se faz armar cavaleiro por ele, que era pequeno fidalgo de uma nobreza muito modesta.

Mas como ele é cavaleiro, pode armar cavaleiro o rei, e não há nisso nada de contrário às leis. Na Cavalaria, os únicos graus que existem são as diferenças de valor.

A Cavalaria teve seu máximo florescimento nos séculos XI e XII. Começou a decair no século XIII, e tal decadência se estendeu por toda a Europa civilizada.

 

 

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2 fevereiro 2016

Fidelidade ao senhor feudal, fidelidade a Deus

Eduardo, dito o príncipe negro, ajoelhado ante seu pai o rei Eduardo III,
1390, British Library, MS Nero D VI, f31

As obrigações morais impostas ao cavaleiro mostram o valor da instituição: combater pela Fé, ser submisso ao suserano, ser fiel à palavra dada, proteger os fracos, as viúvas e os órfãos, combater a injustiça.

Os poetas medievais fizeram a descrição do cavaleiro ideal. Ele deve ser “franco de coração e belo de corpo, generoso, doce, humilde e pouco falador”.

Reunia as grandes qualidades exigidas dos nobres da época: valentia, generosidade, espírito empreendedor e circunspecção; era retilíneo, austero e puro.

Em qualquer circunstância, o cavaleiro deve defender a Fé. Deste juramento de manter a Fé de Jesus Cristo originou-se o costume de na Missa os cavaleiros desembainharem a espada durante a leitura do Evangelho. Isto significava a disposição de derramar o sangue em defesa da doutrina da Igreja.

Esta magnífica instituição contribuiu muito para o florescimento de uma das virtudes essenciais da época: o senhor deve amar os seus vassalos, e os vassalos devem amar o seu senhor.

Assim, segundo a expressão de um famoso historiador, “jamais o preceito divino ‘amai-vos uns aos outros’ penetrou de modo tão profundo o coração dos homens”.

Mesmo fora dos limites da Cristandade, corria a fama das extraordinárias virtudes do cavaleiro medieval.

Em certa ocasião, quando São Luís IX se encontrava prisioneiro dos muçulmanos, um de seus chefes, chamado Octai, pediu a São Luís, sob ameaça, para ser armado cavaleiro.

Tal era a admiração que os mais ferozes inimigos da Civilização Cristã tinham por tão magnífica instituição.

A fidelidade é a virtude cavalheiresca por excelência, a primeira obrigação do vassalo em relação a seu superior.

O cavaleiro tem uma obrigação de honra de servir a seu divino Suserano, sem fraqueza nem felonia. Paralelismo sempre perfeito com o direito feudal, com a organização feudal.

Eduardo, o príncipe negro, Príncipe de Gales, 1453, Bruges Garter Book.
Eduardo, o príncipe negro, Príncipe de Gales,
1453, Bruges Garter Book.

Em troca, “Sire Dieu” se obriga a auxiliar o cavaleiro, protegê-lo com sua graça e, se for preciso, protegê-lo miraculosamente. E nós vemos nas crônicas quantas vezes ocorre a proteção miraculosa de Deus.

O brasão que adotamos para o “Legionário”, depois para o “Catolicismo”, lembra um desses fatos.

Quando o rei Artur foi combater contra os romanos pagãos que dominavam a França — os medievais não tinham a mínima ideia de cronologia, não tinham nenhum escrúpulo do anacronismo —, teve que se bater em duelo singular com um gigante, Floros.

Estava quase sendo vencido, quando Nossa Senhora apareceu, e com o forro de arminho de seu manto cobriu a cabeça do rei Artur. Os golpes do gigante pegavam no manto de arminho e não causavam mal ao rei Artur.

O pagão, por sua vez, ficou apavorado com aquela visão, e acabou sendo derrotado. Aquela orla de arminho que temos em nosso brasão lembra esse fato.

Também aqui está o paralelismo perfeito com o direito feudal. É o senhor que se obriga a defender, a proteger, a sustentar o vassalo. O Senhor aqui é Deus. Nossa Senhora é a dama e Rainha do cavaleiro.

Os cavaleiros franceses tinham um grito tradicional: “Nossa Senhora, velai para que eu não me torne perjuro”. Eles entregavam a Nossa Senhora sua fidelidade, sua primeira obrigação.

De fato, embora a Cavalaria não tenha existido só na França, quando se fala de Cavalaria tem-se que falar sobretudo da França, onde ela floresceu de maneira especial.

Jean de Salisbury, um bispo inglês do século XII, diz que estabeleceu-se o solene costume de que no dia em que um homem era revestido do símbolo militar, em que ele era armado cavaleiro, votasse sua pessoa ao serviço do altar e da espada, isto é, prometesse a Deus ligar-se a Ele pelo laço do serviço doméstico.

Serviço doméstico tem aí o sentido de feudal. Quando é armado cavaleiro, o homem se liga a Deus por um laço feudal.

Há muitas outras expressões que denotam a mesma coisa. Assim, na Idade Média os cavaleiros eram chamados os homens de Deus, no sentido em que se falava dos homens do rei da França, dos homens do imperador da Alemanha, etc.

Santa Joana d’Arc, embora mulher, foi uma das mais perfeitas flores da Cavalaria
Santa Joana d’Arc, embora mulher,

foi uma das mais perfeitas flores da Cavalaria

Quer dizer, os vassalos, aqueles que estavam ligados ao suserano pelo vínculo feudal. Os cavaleiros eram os homens de Deus.

A Canção de Antioquia fala de “les Jésus chevaliers” — os cavaleiros de Jesus.

E Santa Joana d’Arc — que, embora mulher e vivendo já numa época de decadência, foi uma das mais perfeitas flores da Cavalaria — levou talvez à suma perfeição a encarnação do ideal de Cavalaria.

Na primeira entrevista que ela teve com Baudricourt em Vaucouleurs, ela se referiu a Deus com expressões tão nitidamente feudais, que Baudricourt pensou que ela se referisse a um outro senhor feudal.

Desconfiado de uma traição, perguntou a ela: “Mas quem é o teu senhor?” Ela respondeu: “Meu senhor é Deus”.

Ela tinha de tal forma essa noção do laço feudal para com Deus, da transposição do laço feudal para as relações entre Deus e o homem, que as expressões de que se servia davam margem a essa confusão, até mesmo para um homem experimentado na linguagem feudal, como era Baudricourt.

Sabemos também que, em sinal de submissão, havia o costume de o vassalo estender ao suserano o seu guante, sua luva de ferro.

Na Chanson de Roland, agonizando em Roncesvales, Roland “reclame le pardon de Dieu”, estende o guante de sua mão direita e São Gabriel o recebe.

São alguns pequenos exemplos que mostram como isso é real. A Cavalaria é o laço feudal — o regime feudal, por assim dizer — transposto às relações entre Deus e o homem.

Para resumir, poderíamos dizer que, para converter esses rudes varões semi-bárbaros (o melhor autor da Cavalaria chama-os de peles vermelhas, tão selvagens quanto os índios da América, faltando-lhes apenas o cocar e as flechas), a Igreja ofereceu-lhes o ideal cristão do soldado.

Ofereceu-lhes um fim preciso, um código de procedimento especial, tudo isso encarnado, concretizado, revestido de forma sensível pela transposição do laço feudal para a vida sobrenatural. Isso é a Cavalaria.

 

 

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26 janeiro 2016

A Igreja modelando o ideal do cavaleiro

Para compreendermos como a Igreja modelou o ideal de cavaleiro, é conveniente entendermos a rudeza dos bárbaros recém convertidos.

O primeiro personagem que podemos focalizar é Raul de Cambrai, personagem de uma canção de gesta. Ele fez tais e tantas, que sua mãe acabou por amaldiçoá-lo; mas enquanto ela o amaldiçoava, ele ria.

Um dia ele chega diante de um mosteiro de religiosas e dá esta ordem aos seus soldados:

“Armareis minha tenda no meio da igreja, fareis meu leito diante do altar e poreis meus falcões sobre o crucifixo de ouro”.

Ele queima a igreja, queima o mosteiro, queima as religiosas, entre elas a mãe de seu mais fiel vassalo e amigo.

Enquanto as chamas crepitam, ele se banqueteia à farta no próprio local do sacrilégio, sendo ainda por cima um dia de jejum. Ele desafia a Deus, ergue a cabeça contra Deus.

Esse era um barão feudal do século X, uma matéria-prima muito rude com a qual a Igreja irá trabalhar. Aqueles homens eram ainda semi-bárbaros, semi-selvagens.

Já eram cristãos, naturalmente batizados, mas o bárbaro germano a todo momento aparecia neles, e aparecia com grande ênfase, com grande entusiasmo, e com certa frequência os dominava.

Virando a página, ouviremos um cronista do século XIII, em 1220, falando de um cavaleiro chamado Walter de Birbach.

Vestido de ferro, com sua rija espada na mão, em grandes lides de guerra, esse cavaleiro tinha uma tão grande devoção a Nossa Senhora, que se consagrou a Ela, rendendo-Lhe preito de homenagem como uma rainha terrestre.

Antes das lides, o cavaleiro assiste a Missa. Os Milagres de Notre Dame (KB 71 A 24, fol. 123r).
Antes das lides, o cavaleiro assiste a Missa.
Os Milagres de Notre Dame (KB 71 A 24, fol. 123r).

O cronista diz que quando ele se retirou para um mosteiro cisterciense, no fim da vida, poderia ter conservado ali sua armadura, porque ela tinha adquirido um ar tão religioso quanto o burel cisterciense.

Esse é o tipo ideal, generalizado, do barão feudal dos séculos XII e XIII. Uma mudança enorme, portanto, entre essas duas figuras.

Como é que se fez em tão pouco tempo uma mudança tão grande? Quem é que fez isso? Certamente a Igreja, o Espírito Santo, mas foi sobretudo através da Cavalaria.

A Cavalaria, como quase tudo na Idade Média, não surgiu por decreto, não surgiu pela ação de um homem determinado, não surgiu nem mesmo em certo lugar.

Embora a Igreja não ame a guerra, na Idade Média ela viu os valores que existem na profissão militar.

Viu também a necessidade que havia de guerras, naquele momento histórico: antes lutar contra os maus cristãos semi-bárbaros, antes lutar contra os bárbaros declarados, antes lutar contra os muçulmanos.

Por isso ela fez nascer em toda a Europa, pela sua ação lenta, orgânica, pela ação do Espírito Santo, o desejo de dar um ideal e um freio àquela fogosidade germânica. E depois apresentou aos soldados medievais, aos homens medievais, esse ideal que é a Cavalaria.

Podemos definir assim as coisas: Cavalaria é a forma cristã da condição militar, e o cavaleiro é o soldado cristão. Ela é mais um ideal do que uma instituição.

Assim, a Igreja ofereceu ao soldado uma lei precisa e um fim preciso. A lei precisa foi o Código da Cavalaria, uma lei especial adequada para aquele gênero de vida, para aqueles homens. E o fim preciso era alargar na Terra as fronteiras do Reino de Deus.

Vemos numa crônica medieval que, para protestar adesão à Fé de Jesus Cristo, era costume em França que os cavaleiros, durante a leitura do Evangelho na Missa, tivessem sua espada nua.

Com isso eles queriam dizer: “Se for preciso defender o Evangelho, nós aqui estamos”.

Carlos Magno coroado imperador pelo Papa Leão III
Carlos Magno coroado imperador pelo Papa Leão III

Mas além de apresentar esse fim preciso e essa lei precisa, a Igreja se lembrou do sinal corporal, uma necessidade profundamente humana, sem a qual a realidade permanece imperfeita, inacabada, desfalecente.

Ela tratou então de satisfazer esse gosto medieval pelo concreto, pelo encarnado, pela manifestação sensível dos valores das realidades espirituais.

Ela tratou de concretizar também a Fé, os sentimentos cristãos. Por isso formou o direito feudal. Profundamente concreto, o direito feudal é concebido para indivíduos reais, bem personalizados, não para homens abstratos de uma sociedade teórica.

Repousa sobre a fidelidade, sobre a reciprocidade. Um vassalo liga-se a um senhor por um laço pessoal, torna-se seu homme-lige, obrigando-se ao serviço da hoste, ao serviço militar, e em troca esperando do suserano subsistência e proteção.

Esse laço pessoal é proclamado em uma cerimônia, um rito. Mais um sinal sensível, mais uma coisa concreta, que torna mais concreta ainda essa realidade.

O vassalo se ajoelha diante do senhor, com as mãos em suas mãos, o cinturão de que pende a espada aberto — em sinal de confiança, de entrega, de abandono — declara-se seu homme-lige e lhe entrega seus bens.

Por sua vez, o suserano beija o vassalo em sinal de afeição e proteção. Depois devolve-lhe os bens ou dá-lhe bens, se o vassalo não os tinha.

É a investidura do feudo. Encerra-se o contrato pelos juramentos sobre o Evangelho. Coisa profundamente concreta, com simbolismo muito sensível.

A Igreja tomou esse laço feudal e o transpôs para o domínio espiritual. O cavaleiro é o vassalo de Deus, Suserano supremo.

Na divisa de Santa Joana d’Arc — “le Christ qui est roi de France” — Nosso Senhor é um soberano, cercado da corte dos santos. Deus como rei, como suserano, tem a sua corte, a corte dos santos, servido pela milícia dos anjos. São expressões muito significativas.

Pelo rito de se armar cavaleiro, este resolve deliberadamente empenhar sua vida, sua pessoa, seus bens, todos os seus atos, ao serviço desse suserano de poder e majestade infinitos.

Como dizia a regra dos templários:

“Servir militarmente, combater com pureza de ânimo, pelo sumo e verdadeiro Rei”.

Expressão tipicamente feudal e militar. Assim como se combate pelo senhor feudal, também se combate pelo Senhor eterno.

O serviço da hoste, obrigação do vassalo, no caso da Cavalaria é a defesa da Santa Igreja, feudo de Deus, e também do povo, dos fracos, dos pobres, dos órfãos, das viúvas — dos pobres miúdos, como se dizia em Portugal na Idade Média.

O cavaleiro presta esse serviço com o coração inteiramente leal.

 

 

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19 janeiro 2016

A Idade Média: “segunda Criação” obra da Igreja

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 5:11
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A Idade Média nasceu na queda do Império Romano, de lutas de raças, confusão de povos, violências, gemidos, corrupção e barbárie.
A Idade Média nasceu na queda do Império Romano, de lutas de raças,
confusão de povos, violências, gemidos, corrupção e barbárie.

“Na Idade Média há muitas coisas. Por um lado o isolamento das cidades, a queda de impérios, luta de raças, confusão de povos, violências, gemidos; corrupção, barbárie, instituições que caem ou ficam apenas no bosquejo; homens que vão aonde vão os povos; e povos que vão aonde outro quer e eles nem sabem; há luz apenas suficiente para ver que todas as coisas estão fora de seu lugar e que não lugar para coisa alguma: Europa é caos.

“Porém, além do caos há uma outra coisa: a presença da Igreja, Esposa imaculada de Nosso Senhor. Então, há um grande acontecimento nunca antes visto pelos povos: há uma segunda Criação operada pela Igreja.

A presença da Igreja no caos inicial fez da Idade Média uma 'segunda Criação'
A presença da Igreja no caos inicial
fez da Idade Média uma ‘segunda Criação’

“Da Idade Média nada me parece assombroso senão a sua criação, e nada há que me pareça adorável salvo a Igreja.

“Para operar esse grande prodígio, Deus escolheu esses tempos obscuros, eternamente famosos ao mesmo tempo pela explosão de todas as forças brutais e pela manifestação da impotência humana.

“Nada é mais digno da Divina Majestade e da divina grandeza que trabalhar ali, onde homens, povos e raças se agitam confusamente e ninguém obtém nada.

“Querendo Deus demonstrar em duas solenes ocasiões que a corrupção só é estéril e que só a virgindade é fecunda, quis que Maria nascesse e contraísse desposórios com a Igreja. Então, a Igreja foi mãe de povos, como Maria é Mãe dEla.

“Viu-se então àquela imaculada Virgem, ocupada em fazer o bem – do mesmo modo que seu divino Esposo ‒, levantar o ânimo dos caídos e moderar o ímpeto dos violentos; dar a uns o pão dos fortes e a outros o pão dos mansos.

“Aqueles ferozes filhos do pólo, que humilharam a majestade romana escarnecendo-a, caíram vencidos pelo amor aos pés da indefensa Virgem.

“Então o mundo todo contemplou, entre atônito e assombrado, por espaço de muitos séculos, a renovação da Igreja, a renovação do prodígio de Daniel protegido contra todo mal em meio à cova dos leões.

“Após ter amansado amorosamente aquelas grandes iras e após ter serenado só com um olhar aquelas furiosas tempestades, viu-se a Igreja tirar um monumento da ruína; uma instituição de um costume; um princípio de um fato; uma lei de uma experiência.

“Para dizer tudo de vez: o ordenado do esdrúxulo; o harmônico do confuso.

“Sem dúvida, todos os instrumentos de sua Criação, como o próprio caos, existiam antes em meio ao caos; mas pertenceu a Ela a força vivificante e criadora.

“No caos estava, como no embrião, tudo o que haveria de vir e de ganhar vida. Porém, na Igreja despojada de tudo, só havia o ser e a vida.

“Tudo passou a viver quando o mundo prestou ouvido atento às suas amorosas palavras e fixou o olhar na sua resplandecente beleza.”

 

 

(Autor: Juan Donoso Cortés, “Obras Completas”, BAC, Madri, vol. II, p. 630).

 

 

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17 novembro 2015

O cavaleiro, braço armado da Santa Igreja

Roberto de Normandia no sitio de Antioquia
Roberto de Normandia no sitio de Antioquia

Dispôs a Providência que a Idade Média fosse uma era histórica especialmente aguerrida, não só pela dupla compressão com que Carlos Magno teve que lutar — os sarracenos e os bárbaros — mas também pelos resíduos de espírito pagão que ficaram nos próprios católicos, por onde eram levados a desembainhar a espada por motivos insignificantes.

Gradualmente foi a Igreja dulcificando os costumes e canalizando esse ardor combativo para o serviço da Cristandade.

Até a época das Cruzadas, a defesa do território e do governo legítimo de cada povo era o mais elevado ideal que inspirava o coração dos guerreiros no momento das batalhas.

Mas eis que uma idéia nova, como um astro desconhecido que brilha com fulgor extraordinário no meio da noite, paira sobre a Igreja e atrai todos os olhares.

Tomada de Jerusalém. Emil Signol, Museu das Cruzadas, castelo de Versailles
Tomada de Jerusalém.
Emil Signol, Museu das Cruzadas, castelo de Versailles

Sua luz se projeta em um momento sobre a Europa inteira e acende em todo lugar um entusiasmo sagrado; todas as classes da sociedade cristã se agrupam, se interpenetram, confraternizam; os povos, que até pouco antes se desmembravam e se fracionavam para viver isolados em suas estreitas muralhas, se levantam simultaneamente como um só homem, uma só nação, um só exército; marcham sob o mesmo estandarte, obedecem ao mesmo impulso, devotam-se à mesma causa.

O que se passa então no mundo? Qual a grande nova que se diz e se repete no Oriente e no Ocidente?

Qual o objeto desse universal abalo das nações cristãs? A libertação de Jerusalém!

A Cruzada não é senão o mistério da Cruz, meditado e realizado, posto em pensamento e ação em toda a sua amplitude, notavelmente nos seus resultados, e não somente por um indivíduo ou por uma nação, mas por toda a Cristandade, por todo o Corpo Místico de Cristo, crucificado e ressuscitado.

Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Ele mesmo profetizou, devia sofrer, mas também entrar na glória.

Segundo o rei Davi, devia ser perseguido e esbofeteado, saciar sua sede com fel e vinagre, ter os pés e as mãos perfumados, divididas suas roupas e sua túnica jogada à sorte.

Mas para Ele voltar-se-iam todos os confins da terra, adorá-lo-iam todas as famílias dos povos, a Ele caberia o Império, dominaria as nações.

Segundo Isaías, devia ser acabrunhado de opróbrios, quebrantado por nossos crimes.

Mas por isso teria uma longa posteridade, dividiria os despojos dos poderosos, receberia as nações por herança, golpearia a terra com a vara de sua boca, faria habitar juntos o lobo e o cordeiro, o leão e o cabrito, sob a direção de um menino; levantaria seu estandarte aos olhos das nações, e os povos acudiriam a Ele e lhe apresentariam suas homenagens. Seu sepulcro seria glorioso.

Segundo o Discípulo bem-amado, esse Cordeiro, imolado desde a origem do mundo, teria uma espada de dois gumes para ferir as nações rebeldes, governá-las-ia com vara de ferro e calcá-las-ia aos pés no lagar.

Com seus santos e seus anjos, julgaria e castigaria a grande Babilônia, a idólatra Roma, de quem o império anticristão de Maomé não é senão uma versão reduzida.

Seus servidores e seus combatentes seriam distinguidos por seu sinal: o sinal do Filho do Homem, o thau do profeta Ezequiel; o thau que primitivamente tinha forma de cruz; o thau, última letra do alfabeto hebreu, porque Jesus Cristo crucificado é o fim de todas as coisas; o thau que, em hebreu, é a primeira letra da palavra crucificado.

E dessas execuções da justiça divina pelo Cordeiro e seu exército, nunca o sangue dos culpados subiria até o freio dos cavalos.

E a Cruzada, o que é senão tudo isso? Não é a Cristandade inteira reunida sob a cruz, para sofrer e combater?

Batalha das Navas de Tolosa, Espanha.
Batalha das Navas de Tolosa, Espanha.

Não é Jesus Cristo, outrora só e rejeitado por seu povo, que agora reúne as principais nações da Terra, o lobo e o cordeiro, o leão e o cabrito, o franco, o godo, o vândalo, o inglês, o lombardo, o italiano, o grego, o sírio, as nações outrora as mais bárbaras ou as mais requintadas?

Ele as reuniu à voz de um menino; Ele as reuniu sob seus estandarte, a Cruz; Ele as reuniu para sofrer e combater, como Jesus Cristo, que sofreu e morreu para combater e vencer, como Jesus Cristo ressuscitado e triunfante!

Na concepção do cavaleiro medieval, a guerra é o ato pelo qual um povo resiste à injustiça com o preço de seu sangue. Onde houver injustiça, há legítima causa de guerra até a satisfação.

A guerra é, depois da religião, o primeiro dos ofícios humanos: uma ensina o direito, a outra o defende; uma é a palavra de Deus, a outra o seu braço.

“Santo, santo é o senhor Deus dos Exércitos!” O Deus da Justiça, o Deus que manda o forte socorrer o fraco oprimido, o Deus que derruba as dominações soberbas.

O espírito das Cruzadas, a união do heroísmo à devoção, do amor ao próximo à combatividade, da espada à penitência, se mostrou com as mais brilhantes cores nas Ordens de Cavalaria.

Como o caçador, vigilante e armado no cimo da colina, investiga de que lado sopra o vento, assim a Europa, naqueles tempos, de lança em punho e pé no estribo, observava atentamente de que lado vinha a injúria.

Viesse ela de um trono ou da torre de um simples castelo, fosse preciso cruzar mares, campos ou vales, nada detinha seus guerreiros.

Não se avaliava o proveito ou o prejuízo: o sangue se derrama sem preço ou não se derrama, e a consciência o paga na terra de Deus, na eternidade.

A guerra transformou-se não só num serviço cristão, mas ainda num serviço monástico: viram-se batalhões de monges cobrir com o cilício e o escudo os postos avançados do Ocidente.

Os religiosos se animaram com bravura cavalheiresca; os cavaleiros se inflamaram com zelo religioso; o soldado se fez monge na perspectiva da Jerusalém celeste; o monge se fez soldado para libertação da Jerusalém terrestre.

Tomaram e conquistaram pela violência a Jerusalém da Terra, assim como só pela violência se conquista a do Céu.

Tais foram aqueles cavaleiros orantes e monges armados, cujos mosteiros eram fortalezas, que obedeciam com o mesmo fervor ao sino como à trombeta quando os chamava à batalha.

Eram os primeiros no ataque e os últimos na retirada. Enquanto sua espada feria, suas orações e cânticos entusiásticos se elevavam aos céus.

É assim que o grande São Bernardo, não contente em louvar a vida piedosa dos templários, governados por uma sábia regra, lhes traça uma justificação da guerra: Não há lei que impeça ao cristão golpear com o gládio; o que é proibido é a guerra iníqua, é sobretudo a guerra entre os cristãos.

“Matar os pagãos seria até mesmo proibido, se se pudesse impedir de qualquer outro modo suas corrupções e retirar-lhes os meios de oprimir os fiéis.

Mas atualmente é melhor massacrá-los, a fim de que sua espada não permaneça suspensa sobre a cabeça dos justos.

Os cavaleiros de Cristo podem combater os combates do Senhor, podem fazê-lo com toda a segurança. Quer eles matem o inimigo ou morram eles próprios, não devem conceber nenhum receio; padecer a morte por Cristo ou dá-la, longe de ser criminoso, é antes glorioso.

O cavaleiro de Cristo mata em consciência e morre tranquilo; morrendo, trabalha por si mesmo; matando, trabalha por Cristo. E não é sem razão que ele porta um gládio; ele é o ministro de Deus para castigo dos maus e exaltação dos bons.

Quando mata um malfeitor, não é homicida, mas (desculpai a palavra) malicida, e é necessário ver nele o vingador que está a serviço de Cristo e o defensor do povo cristão.

A morte dos pagãos faz a sua glória, porque ela é a glória de Cristo; sua morte é um triunfo, porque ela o introduz na morada das recompensas eternas”.

Entre as frágeis instituições que a Cavalaria tomou sob a sua guarda, havia uma sagrada entre todas: a Igreja. A Igreja, não tendo soldados nem muralhas para defender-se, estivera sempre à mercê de seus perseguidores.

Qualquer príncipe podia tudo contra ela. Mas quando a Cavalaria se formou, a sua preocupação foi proteger a fraca e oprimida Cidade de Deus, cuja liberdade era a própria causa do gênero humano.

Fundada por nosso Senhor Jesus Cristo para perpetuar a obra da Redenção entre os homens, a Igreja era a mãe, a esposa, a irmã de todo aquele que tivesse uma nobre alma e uma boa espada.

Tudo isso fez das Cruzadas um ciclo de operações militares para exaltação da Igreja: contra os mouros no Ocidente, na Sicília e na Espanha; contra pagãos no Norte; contra hereges e antipapas em Toulouse e na Itália.

Assim como em São Francisco de Assis a virtude do desapego dos bens terrenos refulgiu de um modo especial, assim nas Cruzadas brilhou como nunca o caráter militante da Igreja.

 

 

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10 novembro 2015

Defesa da Igreja e da justiça

 

“Em todas as suas ações — diz o autor de ‘l’Entrée en Espagne’ — o cavaleiro deve se propor um duplo fim: a salvação de sua alma e a honra da Igreja, da qual ele é o guardião”.

Sustentar a Cristandade é um termo que aparece frequentemente em nossos velhos poemas, e que exprime bem o que quer dizer.

Quando o jovem deixa a casa paterna, a última palavra que a mãe lhe dirige é para lembrá-lo deste augusto dever: “Serve a Jesus Cristo e a Santa Igreja”.

Ao mesmo tempo que recebia as armas de cavaleiro, o escudeiro pronunciava, a pedido do celebrante, o juramento de respeitar as leis da Cavalaria e recitava alguma oração no gênero daquela, lindíssima, que se encontra no cerimonial, datado de 1293-1295, do Padre Guilherme Durant, e da qual Marc Bloch nos deu uma excelente transposição:

“Senhor Santíssimo, Pai Todo-Poderoso, Vós que permitistes na terra o uso da espada para combater a perfídia dos maus e defender a justiça, que para a proteção do povo quisestes constituir a Ordem da Cavalaria, fazei com que, dispondo o seu coração ao bem, o vosso servo que aqui está não faça nunca uso desta espada ou de outra para lesar alguém injustamente, mas que se sirva sempre dela para defender a Justiça e o Direito”.

 

O espírito guerreiro que os animava bem se expressa nesta poesia, habitual entre os cavaleiros medievais:    Si j’avais un pied en ParadisEt l’autre em mon château,

Je retirerais, pour aller me battre,

Le pied que j’aurais là-haut.

Se eu tivesse um pé no Paraíso

E outro no meu castelo,

Eu retiraria, para ir combater,

O pé que estivesse no Céu. (Léon Gautier, “La Chevalerie”, Arthaud, Paris, 1959, pp. 31-32).

Baudouin de Condé crê que o cavaleiro deve continuar ativo em sua armadura durante todo o tempo que suas forças o permitam.

Até às portas da morte, até o último suspiro, o pensamento e a recordação dos feitos e das batalhas persegue a grande maioria desses homens de armas.

Um deles morre murmurando: “No céu, vou refazer a guerra de espada e de lança”.

Outro moribundo, sem desanimar, pede aos que o estão velando que o ajudem a levantar-se e armar-se, para acertar uma “quintana”. Certo cavaleiro dizia que era preciso haver mouros no paraíso, que lhes dessem ocasião de novos combates.

Numerosos guerreiros, para serem mais garantidamente admitidos na bem-aventurada morada, tomam a precaução de vestir, antes de morrer, hábitos de monge, com os quais serão enterrados.

Vendo-os aparecer em tais vestes, São Pedro não ousará fechar-lhes as portas. Esse uso praticado pela Cavalaria, de se enterrar com hábito de monge, continuou até o fim do século XIV.

Em algumas abadias havia monges especialmente designados para vestir os cavaleiros que exprimissem tal desejo.

Se o cavaleiro morresse em uma batalha, depositava-se sobre a tumba sua bandeira, seu estandarte e o pequeno estandarte de seu elmo. Se ele não tivesse morrido em batalha, era permitido colocar-se apenas duas destas insígnias.

Suvanes, em seu “Tratado sobre a Espada Francesa”, fala do costume de se levar a uma igreja as armas do cavaleiro morto, para serem conservadas no tesouro do templo.

A espada de Santa Joana d’Arc encontra-se na igreja de Santa Catarina de Fierbois. A Santa guerreira considerava um verdadeiro dom celeste a espada que recebera.

Os cruzados que tinham combatido na Terra Santa, ou mesmo aqueles que apenas haviam pronunciado o voto de fazê-lo, eram enterrados com as pernas cruzadas, atitude em que podemos contemplá-los sobre os túmulos, nos claustros dos mosteiros.

O cavaleiro ansiava pelo momento em que pudesse abandonar os torneios e seguir para além-mar, para a Terra Santa. Só assim poderia adquirir a reputação de “batalhador”.

São Luís IX, em sua imensa piedade, não se cansava de dizer que preferia o cognome de “batalhador” ao de “devoto”.

Preguiça e avareza aparecem aos olhos do cavaleiro como inimigos mortais. Por isso, não bastava conquistar um prêmio num torneio ou uma batalha vitoriosa. Ao voltar para casa, ele deveria mostrar-se benevolente para com todos, amável, polido, dar esmolas aos pobres, distribuir suas velhas túnicas aos menestréis.

À valentia, generosidade e cortesia devia juntar-se a modéstia.

Sentimentos religiosos dos cavaleiros

Ir à missa todas as manhãs, sem distinção entre Domingo e dias da semana, era obrigação à qual os cavaleiros se submetiam em consciência.

Durante a leitura do Evangelho, tiravam a espada da bainha e a sustentavam na mão até o fim da leitura, indicando com isto a sua vontade de defender em todas as circunstâncias a Igreja e a Fé.

A oração que parece ter sido a mais divulgada nos séculos XIII a XVI é a seguinte, que se encontra em grande número de livros de horas:

“Alcançai-me o dom desta Graça Divina, que será a protetora e a mestra dos meus cinco sentidos, que me fará cumprir as sete obras de misericórdia, crer nos doze artigos da Fé e praticar os dez mandamentos da Lei, e que enfim me livrará dos sete pecados capitais até o último dia da minha vida”.

Eram orações tradicionais, que nem todos os cavaleiros podiam estar repetindo, se não as decoravam.

Um dos mais renomados cavaleiros franceses era Étienne Vignolles, chamado La Hire, o ativo colaborador de Santa Joana d’Arc. Com o bravo Dunois, ele ia tentar fazer levantar o cerco de Montargis, assaltada pelos ingleses.

Aproxima-se do campo inimigo e suplica a um capelão, tendo em vista os perigos que vai enfrentar, que lhe seja dada a absolvição dos pecados que ele possa ter cometido.

O padre lhe pede que se confesse. Impossível, pela urgência, pois o ataque é iminente. A absolvição pedida é dada, sob a condição de La Hire dizer a Deus uma oração.

Ele junta devotadamente as mãos, e diz em gascão: “Deus, eu te suplico que faças hoje por La Hire o mesmo que Tu gostaríeis que La Hire fizesse por Ti, se ele fosse Deus e Tu fosses La Hire”. E ele estava certo de ter rezado muito bem a Deus.

 

 

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3 novembro 2015

O ideal da Cavalaria em ação nas Cruzadas

O bispo Adhemar de Monteil leva a Santa Lança na vitória libertadora de Antioquia
O bispo Adhemar de Monteil leva a Santa Lança na vitória libertadora de Antioquia

Nascida da união de dois anelos aparentemente contraditórios — a caridade cristã e a força do guerreiro — a Cavalaria deixou na História um sulco prateado que ninguém conseguiu apagar.

Num mundo que surgia das ruínas do paganismo romano, lançou um raio de beleza ideal e criou condições para a maior epopeia que os séculos viram: as Cruzadas.

O cavaleiro nasceu na Igreja Católica e formou-se na sagrada doutrina do Mestre da Galileia, que ele aprendeu a admirar nos coloridos vitrais e nas serenas imagens das catedrais medievais. Em sua alma trazia impressa a aprazível, bondosa e suave imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele sabe perfeitamente que a vida do homem sobre a Terra é um combate — Militia est vita hominis super terram (Job, 7,1) — e ao elevar seu olhar até o Senhor Justo e Bom (Sl. 24, 8-9), o Rei paciente e bondoso, generoso e cheio de misericórdia (Sl. 102, 8-10), que passou a vida fazendo o bem, percebe que Ele foi desprezado, injuriado, perseguido, traído, preso, flagelado, ultrajado, e finalmente morto infamemente entre dois vulgares ladrões.

Em face a essa incomensurável injustiça, a alma angustiada do homem medieval repete o brado do leal Clóvis: “Ah, se eu estivesse lá com meus francos!…”

O cavaleiro quer estabelecer aquilo que Nosso Senhor Jesus Cristo veio instaurar.

Daí o grandioso momento em que, reunidos os cavaleiros na praça de Clermont-Ferrand, ao chamado do Bem-aventurado Urbano II, as Cruzadas nasceram!

Inspiradas pelo papado, nutridas da doutrina da Cátedra da Verdade, é nela que melhor encontramos a explicação das mesmas.

As Cruzadas — afirma Inocêncio III — tinham por fim “arrebentar militarmente os bárbaros pagãos e conservar a herdade de nosso Senhor, vingar as injúrias ao Crucificado e defender a terra onde nasceu o Salvador”.

São Cruzadas, em primeiro lugar, contra os infiéis que se instalaram impunemente “naquela cidade em que Nosso Salvador quis padecer, e em outras que os pagãos conspurcam livremente”; mas o papado move também cruzadas contra os hereges que querem destruir a Cristandade, contra os cristãos rebeldes, contumazes na excomunhão ou culpados de crimes eclesiásticos gravíssimos.

São Bernardo de Claraval, incansável pregador das Cruzadas.
São Bernardo de Claraval, incansável pregador das Cruzadas.

 

O lema invocado por Celestino III é extraído dos Evangelhos:

“Quem não está com Cristo, como a doutrina evangélica ensina, é um inimigo.

“Praticarias o infame vício da ingratidão, ficarias coberto com o manto da infidelidade e serias réu do crime de condenação eterna se, estando Jesus Cristo, Nosso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores, expulso da terra que comprou com seu próprio Sangue, e como que cativo dos sarracenos por causa de seu salutar sinal da Cruz, tu negligenciasses tomar parte na Cruzada.

“Indigno se torna da herança eterna, e bem pode ser excluído da mesma — o que não pode deixar de causar terror — aquele que não acende seu zelo pela Fé Cristã, não se move pelas injúrias feitas a Jesus Cristo e não se abrasa diante da profanação do Santuário e das afrontas feitas ao Redentor. Como poderá ser co-herdeiro com Cristo quem negligenciou prestar-lhe socorro, como varão, quando Ele precisava?”

 

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22 setembro 2014

Símbolos Papais requintados na Idade Média

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Anel do Pescador que foi de Bento XVI.
Anel do Pescador que foi de Bento XVI.

No post “Símbolos dos Papas tomaram forma final na Idade Média”, apresentamos a contribuição que a “Doce primavera da Fé” deu para a criação ou definição de certas insígnias dos Papas.

Essas insígnias não correspondem a uma época, mas a todas as épocas e provêm de ensinamentos evangélicos ou da Tradição da Igreja.

Neste post trataremos de outras insígnias e da parte que a Era Medieval teve em sua elaboração.

O Anel do Pescador é dos mais importantes símbolos. Consiste num anel de ouro no qual está gravada a Barca de Pedro, símbolo da Igreja, e em volta, o nome do Papa que o está usando.

A primeira menção documentada ao Anel está contida numa carta do Papa Clemente IV de 1265. Nela, o Pontífice dizia que era costume dos sucessores de Pedro muito anteriores a ele, manter sigilosas suas cartas.

Isto se fazia através de um pouco de cera quente no fim do texto ou para fechar o envelope. O Papa aplicava então o Anel, que deixava cunhado seu nome e a Barca.

Férula, originalmente do Beato Pio IX.
Férula, originalmente do Beato Pio IX.

Depois passou a ser usado em todos os documentos oficiais da Igreja, que são conservados no Vaticano.

Cada Anel do Pescador é destruído pelo Cardeal Camerlengo da Santa Igreja Romana assim que se constata a morte do Papa.

A destruição simboliza o fim da autoridade do Papa falecido, e impede que algum outro venha a utilizá-lo indevidamente.

A Férula é usada pelos Papas em lugar do báculo pastoral dos bispos e abades mitrados. Enquanto o báculo, que lembra um cajado de pastor, indica a autoridade na diocese ou na abadia, a Férula, que tem forma de Cruz, indica a jurisdição universal do Papa.

A Férula já era usada nos primórdios da Idade Média. No auge desta, era recebida pelo novo Papa como símbolo de governo, que inclui a punição e a penitência.

A Sedia Gestatória é um trono portátil levado por 12 homens chamados de sediários ou palafreneiros, que vão vestidos de vermelho com ornatos de ouro.

A Sedia Gestatória é acompanhada por dois assistentes que levam os Flabelli, ou flabelos, grandes leques de pena de avestruz que remontam ao século IV.

Os flabelli eram usados pelos magnatas da Antiguidade e nasceram com uma finalidade muito prática: afastar insetos; mas depois permaneceram, pelo seu valor decorativo e pela manifestação da altíssima dignidade do Pontífice.

A mais antiga referência à Sedia Gestatória remonta ao ano 521 e era também reminiscência dos antigos reis. Hoje é certo que ela vinha sendo usada antes do ano 1.000.

Pálio pontifício.
Pálio pontifício.

O Papa também usa o Pálio sobre os paramentos litúrgicos, na Missa ou em outras cerimônias.

Trata-se de uma rica fita circular da qual descem duas faixas de 30 cm, uma pelo peito e outra pelas costas.

O Pálio é ornado com seis cruzes pequenas, vermelhas, para lembrar o Preciosíssimo Sangue derramado na Redenção, e é preso por três agulhas de ouro, que evocam os pregos com que Jesus foi crucificado.

Também os arcebispos usam o Pálio, embora mais simples. Os bispos dos ritos orientais católicos usam-no com mais ornato.

Outra insígnia exclusiva é o Fanon, pequena capa de ombros, como uma dupla murça (mozeta) ou camalha de seda branca com listras douradas.

O Fanon, ou Fano, é reservado somente ao Papa durante as Missas pontificais e representa o escudo da fé que protege a Igreja Católica, personificada no Papa.

Só o Sumo Pontífice, chefe visível da Igreja de Cristo, pode usar o Fanon.

As faixas verticais, de cor dourada, representam a unidade e a indissolubilidade da Igreja latina e oriental. O Fano já era usado no século VIII, porém ficou exclusivo do Papa a partir do fim do século XII.

Sedia Gestatoria, se destacam os fiabelli

O sub-cinctorium, ou succintório, ou subcíngulo, só é usado pelo Papa nas Missas pontificais. Consiste numa faixa estreita e comprida, decorada nas extremidades com uma cruz e um cordeiro, pendendo do lado esquerdo.

Mencionado pela primeira vez no século X, na Idade Média o subcíngulo podia ser usado pelos bispos, e era dotado de uma bolsa com esmolas para distribuir aos pobres. Evoca também a toalha usada por Jesus na Última Ceia para lavar os pés dos Apóstolos.

Embora não tenham sido abolidos, esses símbolos deixaram de ser usados hoje –numa época em que paradoxalmente tanto se fala dos pobres e da pretensa humildade de tantos prelados.

Manto, no quadro usado por S.S. Pio VII na Capela Sistina

O Manto é uma capa muito larga, exclusiva do Papa. Originariamente era vermelha e depois passou a acompanhar as cores litúrgicas. Quando o Papa usava a Sedia Gestatória, portava o Manto.

A primeira referência ao uso do Manto remonta à Divina Comédia de Dante Alighieri, no século XIII.

O Manto é muito maior que o Papa, que ao sentar-se no trono coloca seus pés sobre ele, enquanto os assistentes o espraiam sobre os degraus do trono. Indica a superioridade absoluta do Papa. Bispos e outros dignitários podiam usar mantos menores.

O Manípulo Papal é semelhante aos usados por bispos e padres, com a diferença de que os fios que o unem são dourados e vermelhos, para simbolizar a união das igrejas católicas, ou ritos católicos do Oriente e do Ocidente. É usado na liturgia desde o século VI.

Cabe mencionar o “umbraculum” ou umbrela, rico guarda-chuva de cor dourada e vermelha que os Papas usavam para se proteger do sol. Era prerrogativa exclusiva dos reis e simbolizava o poder temporal do Papado. Teria sido instituído por Alexandre VI, na transição da Idade Média para a Renascença.

É símbolo da vacância do Papado. Atualmente é usado no escudo de armas do Cardeal Camerlengo, que administra a Igreja durante a vacância do Trono de Pedro entre a morte de um Papa e a entronização do seguinte.

Esta insígnia constitui também privilégio das basílicas, sendo habitualmente exposta junto ao altar-mor ou em procissões.

 

 

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14 julho 2014

O mais admirável em Carlos Magno: sua altíssima sacralidade

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 3:07
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Carlos Magno busto relicario.
Fundo: cúpula da catedral de Aachen

Leia o post anterior: A guerra santa em Carlos Magno e seus Pares

O mais admirável da magnífica obra de Carlos Magno foi a criação de um estado de espírito de altíssima sacralidade.

Esse espírito provinha de uma comunicação da graça que abençoava tudo quanto ele fazia.

Por isso sua imensa obra teve uma clave transcendente que está fora de comparação com outras coisas que ele ou outros fizeram.

Esta clave sobrenatural lhe dava uma visão das coisas temporais com uma altura que nem o gênio dá.

Da altura em que ele concebia o poder e a unção de Deus ele via todos os problemas, mesmo naturais do mundo.

Essa participação de Deus formou propriamente o caráter imperial do governo dele.

É uma vastidão de horizontes fenomenal sobre o universo, sobre a vida humana, sobre a terra, as possibilidades do homem, etc., etc., enquanto reflexos de um Deus transcendente.

Ele é um homem que levou uma vida sacrificada terrível, mas tinha a alegria estável da finalidade obtida.

Ele deixou a matriz do feudalismo, suscitando uma grande admiração por um tipo de alma que todos os homens a partir de então e até a Revolução, não deixaram de tender. Essa admiração foi tão grande que até hoje, exceto historiadores preconceituosos, ninguém fala mal dele.

A Igreja, Corpo Místico de Cristo, foi a fonte do espírito que o grande Carlos difundiu.

O mundo só não ficou muito mais carolíngio ainda porque não foi tão católico quanto devia ser. Porque a Igreja é carolingeogênica por definição.

As gente só compreende toda a dimensão da beleza das virtudes pessoais que Carlos Magno teve ou não teve, imaginando-as em Calos Magno.

Carlos Magno teve um problema de casamentos. Isso para um católico é um problema perturbador?

Se você imagina Carlos Magno, você vê a castidade com uma beleza que não é fácil imaginar de outra maneira. Não me interessa, para efeito do que estou falando, este efeito circunscrito, limitado da realidade histórica.

Carlos Magno probo, cultural, fazendo aquele renascimento da cultura, foi completamente diferente de um príncipe Médicis do tempo da Renascença. Quer dizer, ele é um pano de fundo sobre o qual tudo quanto é bonito fica lindo.

Agora o que que é o unum do pano de fundo de Carlos Magno? É o próprio espírito da Igreja, é a Igreja.

São Gregório VII foi para o Papado o que Carlos Magno foi para a ordem temporal.

Vocês, provavelmente não ouviram um elogio tão insistente de Carlos Magno, mas vocês todos não tomam como novidade o que estou dizendo, porque uma graça flutua em torno de nome dele e todos intuem.

Agora, o que que é isto em Carlos Magno? É uma quintessência do espírito da Igreja dado ao laicato. Carlos Magno é o exemplo por excelência do leigo católico.

Não adianta dizer que Carlos Magno não está canonizado. Eu não discuto nada disto.

Eu digo só, que é notório que existe em torno dele esta graça e que sua figura reluzente é uma das poucas coisas que a Revolução não conseguiu destruir. Ela conseguiu pôr em silêncio, mas não conseguiu destruir.

Este fundo revela um predicado na alma dele de onde tudo isto se irradia e o próprio foco deste unum é a Igreja.

Se não fosse a Igreja Carlos Magno não teria nada disto. E o fogo da Igreja se irradia a partir do clero. Esse ponto é preciso não esquecer.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de conferência pronunciada em 22/2/86. Sem revisão do autor)

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30 junho 2014

Convite aos fiéis a aprofundar racionalmente as verdades da fé

Castelo de Chaumont

 

 

O historiador Rodney Stark colocou o problema: na História houve apenas uma civilização que saiu do nada, para acabar sendo hegemônica: a ocidental.
Existiram, sem dúvida, outras grandes civilizações: chinesa, egípcia, caldéia, indiana, etc.
Elas todas se iniciaram num alto nível, ficaram porém estagnadas e decaíram lenta mas irreversivelmente ao longo dos milênios.
Por que não cresceram como a ocidental e cristã?
Stark indica como causa dessa diferença capital entre a civilização cristã e as outras o papel desempenhado pela Igreja Católica.
As religiões pagãs, diz ele, originaram-se de lendas fantásticas impostas sem explicação.
Só a Religião católica convida os fiéis a aprofundar racionalmente as verdades da fé.
Já no século II Tertuliano ensinava que “Deus, o Criador de todas as coisas, nada fez que não fosse pensado, disposto e ordenado pela razão”.

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