Idade Média

23 fevereiro 2016

Quem podia entrar na Cavalaria?

Cavaleiros
Cavaleiros

Quem era admitido na Cavalaria? Quem tinha o direito de ser admitido na Cavalaria?

Em princípio, todos. Não era preciso ser nobre para ser admitido na “Sainte Ordre de Chevalerie”, na “Santa Ordem da Cavalaria”.

E há exemplos históricos de homens da plebe, do povo, que foram recebidos cavaleiros. Mas a classe que por excelência tinha obrigação de se sacrificar, e tinha como característica o espírito de sacrifício, era a nobreza.

Sendo a Cavalaria uma dedicação plena ao serviço de Deus, aqueles que mais naturalmente podiam se entregar a isso eram os nobres, que tinham para tal uma inclinação quase natural, uma inclinação de classe.

Por isso a grande maioria dos cavaleiros eram nobres. As outras classes tinham como obrigação cuidar mais de seus próprios interesses, dentro de limites legítimos.

O lavrador tinha obrigação de cuidar do seu campo, o burguês tinha obrigação de administrar os seus negócios.

O dever de um burguês muito piedoso, muito cristão, era administrar bem seus negócios, ao passo que o dever de estado do nobre era a dedicação a um serviço em favor do bem comum, tanto mais quando se tratava do serviço de Deus.

Outra questão é saber em que lugar se era recebido na Cavalaria. Podia ser na igreja ou no campo de batalha. Francisco I, como vimos, foi armado cavaleiro no campo de batalha.

Monumento a Bayard em sua cidade natal.
Monumento a Bayard em sua cidade natal. Poncharra. Saboia, França.Poncharra. Saboia, França.

Dom João I, pouco antes da batalha de Aljubarrota, armou numerosos cavaleiros, fazendo um apelo para que naquela batalha eles se fizessem dignos da Ordem que acabavam de receber. Mas de modo geral a cerimônia se dava na igreja.

Em que idade se era recebido cavaleiro? Quando se entrava na maioridade. Ao entrar na maioridade — 15, 16, 17 anos — já se estava inteiramente pronto para ir combater, para lutar sozinho contra 30 muçulmanos, comandar um exército, etc., e então já se podia ser armado cavaleiro.

Como é que se ingressava na Cavalaria? Através de um rito, de uma cerimônia, que na França se chamava “adoubement”. Em Portugal se chamava “armar cavaleiro”.

Houve três espécies de ritos: o militar, o religioso e o litúrgico.

O mais antigo foi o militar. Consistia essencialmente em um cavaleiro — porque só um cavaleiro podia armar outro cavaleiro — cingir a espada ao recipiendário, dando-lhe na ocasião um violentíssimo tapa na nuca, tão forte que o rapaz precisava tomar cuidado para não ir ao chão.

 

 

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16 fevereiro 2016

A Cavalaria se estruturou organicamente

Bayard defende a ponte sobre o Carigliano. Henri-Félix-Emmanuel Philippoteaux (1815–1884).
Bayard defende a ponte sobre o Carigliano.
Henri-Félix-Emmanuel Philippoteaux (1815–1884).

Outro aspecto importante é que a instituição da Cavalaria surgiu como que espontaneamente, organicamente, sem um plano nem decreto, pela ação da graça e do Espírito Santo.

Não é como a vida religiosa, que tem um legislador como São Bento, que dá à instituição uma lei, uma organização, uma estrutura jurídica.

De fato já existia aquele ideal, aquela inspiração, mas um homem, um fundador, dá uma organização para aquilo.

Com a Cavalaria não acontece assim. Não houve um Papa que em determinado momento excogitasse “como seria uma coisa interessante instituir a Cavalaria”, publicasse depois uma encíclica “De militia christiana”, e a partir desse dia começasse a existir a Cavalaria.

Tanto não é assim, que nós não podemos nem saber quando é que começou a Cavalaria. Podemos dizer onde ela floresceu mais perfeitamente, mas não onde que ela começou. Tudo se passou organicamente.

O impulso do Espírito Santo, agindo em toda a Europa por meio da Igreja e dos santos, vai fazendo nascer esse desejo de um ideal e o vai elaborando aos poucos. Não surgiu de uma reunião de pessoas, de um concílio ou de uma universidade para estudar e deliberar sobre o assunto.

Na Idade Média quase tudo se fez assim. É um corpo sadio que vai florescendo e vai dando frutos. Funck-Brentano tem sobre isso uma expressão muito bonita:

Cavaleiro em oração, Vitral na Universidade de Yale.
Cavaleiro em oração.
Vitral na Universidade de Yale.

“Alguém pode não gostar da civilização medieval, do regime feudal medieval. Mas uma coisa que ninguém pode fazer é criticar aquela sociedade por ter dado aqueles frutos.

“Ela só podia ter dado aqueles frutos. Uma sociedade como aquela tinha que dar nascimento àquelas instituições, tinha que florescer com aquelas instituições.

“A coisa surgia como o fruto nasce da árvore. A pessoa pode não gostar de maçã, mas ninguém pode criticar uma macieira porque dá maçãs”.

A Cavalaria era de fato um ideal de santidade e uma via de santificação. Diante daqueles homens rudes, bárbaros e semi-selvagens, a Igreja teve a linda audácia de não fazer concessões.

Ela tomou um ideal de santidade e o ofereceu a eles.

Analisando o ideal da Cavalaria, vemos que era um altíssimo ideal de santidade. Não era um ideal de levar uma vida bem direitinha, bem honestazinha, mas era propriamente um ideal de santidade.

Quem encarnasse perfeitamente o espírito da Cavalaria ficava santo. E a Cavalaria também era uma via de santificação.

Porque seguindo aquele termo, seguindo aquelas normas da Cavalaria, embebendo-se daquele espírito da Cavalaria o homem se santificava, mais ou menos como se santifica quem segue a regra de uma determinada Ordem religiosa.

Quem se embeber no espírito da Ordem de S. Domingos, por exemplo, não dá para não tornar-se um santo.

Se a Cavalaria era um ideal de perfeição, também era um colégio. Em algumas recepções de cavaleiros, aquele que os recebe diz: “Eu vos recebo com vontade, com satisfação, no colégio da Cavalaria”.

Isso pode dar margem a confusão, pois era colégio enquanto o conjunto de todos aqueles que foram armados cavaleiros. Era uma corporação, um conjunto, ligados todos pelo mesmo ideal.

Pelo fato de terem sido armados cavaleiros através de um rito sensível, também havia uma certa solidariedade entre eles. Mas sem uma estrutura jurídica.

Isso é uma coisa muito bonita também na Cavalaria, porque aqueles homens eram armados cavaleiros, e a todo momento estavam lutando um contra o outro.

Era normal um cavaleiro que vivesse num feudo e depois fosse lutar por outro, mas sempre havia uma certa solidariedade. Eles sempre sentiam no outro uma marca especial, que os levava a ter uma mútua estima.

O rei da França Francisco I é armado cavaleiro por Bayard. Louis Ducis (1775 - 1847) , Museu do castelo de Blois.
O rei da França Francisco I é armado cavaleiro por Bayard.
Louis Ducis (1775 – 1847) , Museu do castelo de Blois.

Vemos isso com Bayard, por exemplo, quando ele se aproximou das linhas inimigas. Estão os imperiais do outro lado, e todos se aproximam para ver aquele grande cavaleiro, que era o pior inimigo que eles tinham, o homem que mais dores de cabeça dava aos imperiais.

Mas sentiam alguma coisa de comum com ele, embora fosse já uma época de decadência da Cavalaria. Quando ele foi preso, o rei da Inglaterra Henrique VIII o recebeu com uma consideração muito especial.

Trataram-no com toda a cortesia, sentindo uma certa solidariedade com um homem que, como eles, tinha recebido a ordem da Cavalaria, e como eles — ou muito melhor que eles, aliás — servia os ideais da Cavalaria.

Outra coisa característica na Cavalaria é que todos são iguais. Um pequeno fidalgo, como é Bayard na Cavalaria, é igual a um rei.

É por isso que, logo depois da batalha de Marenga, Francisco I, rei de França, se faz armar cavaleiro por ele, que era pequeno fidalgo de uma nobreza muito modesta.

Mas como ele é cavaleiro, pode armar cavaleiro o rei, e não há nisso nada de contrário às leis. Na Cavalaria, os únicos graus que existem são as diferenças de valor.

A Cavalaria teve seu máximo florescimento nos séculos XI e XII. Começou a decair no século XIII, e tal decadência se estendeu por toda a Europa civilizada.

 

 

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2 fevereiro 2016

Fidelidade ao senhor feudal, fidelidade a Deus

Eduardo, dito o príncipe negro, ajoelhado ante seu pai o rei Eduardo III,
1390, British Library, MS Nero D VI, f31

As obrigações morais impostas ao cavaleiro mostram o valor da instituição: combater pela Fé, ser submisso ao suserano, ser fiel à palavra dada, proteger os fracos, as viúvas e os órfãos, combater a injustiça.

Os poetas medievais fizeram a descrição do cavaleiro ideal. Ele deve ser “franco de coração e belo de corpo, generoso, doce, humilde e pouco falador”.

Reunia as grandes qualidades exigidas dos nobres da época: valentia, generosidade, espírito empreendedor e circunspecção; era retilíneo, austero e puro.

Em qualquer circunstância, o cavaleiro deve defender a Fé. Deste juramento de manter a Fé de Jesus Cristo originou-se o costume de na Missa os cavaleiros desembainharem a espada durante a leitura do Evangelho. Isto significava a disposição de derramar o sangue em defesa da doutrina da Igreja.

Esta magnífica instituição contribuiu muito para o florescimento de uma das virtudes essenciais da época: o senhor deve amar os seus vassalos, e os vassalos devem amar o seu senhor.

Assim, segundo a expressão de um famoso historiador, “jamais o preceito divino ‘amai-vos uns aos outros’ penetrou de modo tão profundo o coração dos homens”.

Mesmo fora dos limites da Cristandade, corria a fama das extraordinárias virtudes do cavaleiro medieval.

Em certa ocasião, quando São Luís IX se encontrava prisioneiro dos muçulmanos, um de seus chefes, chamado Octai, pediu a São Luís, sob ameaça, para ser armado cavaleiro.

Tal era a admiração que os mais ferozes inimigos da Civilização Cristã tinham por tão magnífica instituição.

A fidelidade é a virtude cavalheiresca por excelência, a primeira obrigação do vassalo em relação a seu superior.

O cavaleiro tem uma obrigação de honra de servir a seu divino Suserano, sem fraqueza nem felonia. Paralelismo sempre perfeito com o direito feudal, com a organização feudal.

Eduardo, o príncipe negro, Príncipe de Gales, 1453, Bruges Garter Book.
Eduardo, o príncipe negro, Príncipe de Gales,
1453, Bruges Garter Book.

Em troca, “Sire Dieu” se obriga a auxiliar o cavaleiro, protegê-lo com sua graça e, se for preciso, protegê-lo miraculosamente. E nós vemos nas crônicas quantas vezes ocorre a proteção miraculosa de Deus.

O brasão que adotamos para o “Legionário”, depois para o “Catolicismo”, lembra um desses fatos.

Quando o rei Artur foi combater contra os romanos pagãos que dominavam a França — os medievais não tinham a mínima ideia de cronologia, não tinham nenhum escrúpulo do anacronismo —, teve que se bater em duelo singular com um gigante, Floros.

Estava quase sendo vencido, quando Nossa Senhora apareceu, e com o forro de arminho de seu manto cobriu a cabeça do rei Artur. Os golpes do gigante pegavam no manto de arminho e não causavam mal ao rei Artur.

O pagão, por sua vez, ficou apavorado com aquela visão, e acabou sendo derrotado. Aquela orla de arminho que temos em nosso brasão lembra esse fato.

Também aqui está o paralelismo perfeito com o direito feudal. É o senhor que se obriga a defender, a proteger, a sustentar o vassalo. O Senhor aqui é Deus. Nossa Senhora é a dama e Rainha do cavaleiro.

Os cavaleiros franceses tinham um grito tradicional: “Nossa Senhora, velai para que eu não me torne perjuro”. Eles entregavam a Nossa Senhora sua fidelidade, sua primeira obrigação.

De fato, embora a Cavalaria não tenha existido só na França, quando se fala de Cavalaria tem-se que falar sobretudo da França, onde ela floresceu de maneira especial.

Jean de Salisbury, um bispo inglês do século XII, diz que estabeleceu-se o solene costume de que no dia em que um homem era revestido do símbolo militar, em que ele era armado cavaleiro, votasse sua pessoa ao serviço do altar e da espada, isto é, prometesse a Deus ligar-se a Ele pelo laço do serviço doméstico.

Serviço doméstico tem aí o sentido de feudal. Quando é armado cavaleiro, o homem se liga a Deus por um laço feudal.

Há muitas outras expressões que denotam a mesma coisa. Assim, na Idade Média os cavaleiros eram chamados os homens de Deus, no sentido em que se falava dos homens do rei da França, dos homens do imperador da Alemanha, etc.

Santa Joana d’Arc, embora mulher, foi uma das mais perfeitas flores da Cavalaria
Santa Joana d’Arc, embora mulher,

foi uma das mais perfeitas flores da Cavalaria

Quer dizer, os vassalos, aqueles que estavam ligados ao suserano pelo vínculo feudal. Os cavaleiros eram os homens de Deus.

A Canção de Antioquia fala de “les Jésus chevaliers” — os cavaleiros de Jesus.

E Santa Joana d’Arc — que, embora mulher e vivendo já numa época de decadência, foi uma das mais perfeitas flores da Cavalaria — levou talvez à suma perfeição a encarnação do ideal de Cavalaria.

Na primeira entrevista que ela teve com Baudricourt em Vaucouleurs, ela se referiu a Deus com expressões tão nitidamente feudais, que Baudricourt pensou que ela se referisse a um outro senhor feudal.

Desconfiado de uma traição, perguntou a ela: “Mas quem é o teu senhor?” Ela respondeu: “Meu senhor é Deus”.

Ela tinha de tal forma essa noção do laço feudal para com Deus, da transposição do laço feudal para as relações entre Deus e o homem, que as expressões de que se servia davam margem a essa confusão, até mesmo para um homem experimentado na linguagem feudal, como era Baudricourt.

Sabemos também que, em sinal de submissão, havia o costume de o vassalo estender ao suserano o seu guante, sua luva de ferro.

Na Chanson de Roland, agonizando em Roncesvales, Roland “reclame le pardon de Dieu”, estende o guante de sua mão direita e São Gabriel o recebe.

São alguns pequenos exemplos que mostram como isso é real. A Cavalaria é o laço feudal — o regime feudal, por assim dizer — transposto às relações entre Deus e o homem.

Para resumir, poderíamos dizer que, para converter esses rudes varões semi-bárbaros (o melhor autor da Cavalaria chama-os de peles vermelhas, tão selvagens quanto os índios da América, faltando-lhes apenas o cocar e as flechas), a Igreja ofereceu-lhes o ideal cristão do soldado.

Ofereceu-lhes um fim preciso, um código de procedimento especial, tudo isso encarnado, concretizado, revestido de forma sensível pela transposição do laço feudal para a vida sobrenatural. Isso é a Cavalaria.

 

 

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26 janeiro 2016

A Igreja modelando o ideal do cavaleiro

Para compreendermos como a Igreja modelou o ideal de cavaleiro, é conveniente entendermos a rudeza dos bárbaros recém convertidos.

O primeiro personagem que podemos focalizar é Raul de Cambrai, personagem de uma canção de gesta. Ele fez tais e tantas, que sua mãe acabou por amaldiçoá-lo; mas enquanto ela o amaldiçoava, ele ria.

Um dia ele chega diante de um mosteiro de religiosas e dá esta ordem aos seus soldados:

“Armareis minha tenda no meio da igreja, fareis meu leito diante do altar e poreis meus falcões sobre o crucifixo de ouro”.

Ele queima a igreja, queima o mosteiro, queima as religiosas, entre elas a mãe de seu mais fiel vassalo e amigo.

Enquanto as chamas crepitam, ele se banqueteia à farta no próprio local do sacrilégio, sendo ainda por cima um dia de jejum. Ele desafia a Deus, ergue a cabeça contra Deus.

Esse era um barão feudal do século X, uma matéria-prima muito rude com a qual a Igreja irá trabalhar. Aqueles homens eram ainda semi-bárbaros, semi-selvagens.

Já eram cristãos, naturalmente batizados, mas o bárbaro germano a todo momento aparecia neles, e aparecia com grande ênfase, com grande entusiasmo, e com certa frequência os dominava.

Virando a página, ouviremos um cronista do século XIII, em 1220, falando de um cavaleiro chamado Walter de Birbach.

Vestido de ferro, com sua rija espada na mão, em grandes lides de guerra, esse cavaleiro tinha uma tão grande devoção a Nossa Senhora, que se consagrou a Ela, rendendo-Lhe preito de homenagem como uma rainha terrestre.

Antes das lides, o cavaleiro assiste a Missa. Os Milagres de Notre Dame (KB 71 A 24, fol. 123r).
Antes das lides, o cavaleiro assiste a Missa.
Os Milagres de Notre Dame (KB 71 A 24, fol. 123r).

O cronista diz que quando ele se retirou para um mosteiro cisterciense, no fim da vida, poderia ter conservado ali sua armadura, porque ela tinha adquirido um ar tão religioso quanto o burel cisterciense.

Esse é o tipo ideal, generalizado, do barão feudal dos séculos XII e XIII. Uma mudança enorme, portanto, entre essas duas figuras.

Como é que se fez em tão pouco tempo uma mudança tão grande? Quem é que fez isso? Certamente a Igreja, o Espírito Santo, mas foi sobretudo através da Cavalaria.

A Cavalaria, como quase tudo na Idade Média, não surgiu por decreto, não surgiu pela ação de um homem determinado, não surgiu nem mesmo em certo lugar.

Embora a Igreja não ame a guerra, na Idade Média ela viu os valores que existem na profissão militar.

Viu também a necessidade que havia de guerras, naquele momento histórico: antes lutar contra os maus cristãos semi-bárbaros, antes lutar contra os bárbaros declarados, antes lutar contra os muçulmanos.

Por isso ela fez nascer em toda a Europa, pela sua ação lenta, orgânica, pela ação do Espírito Santo, o desejo de dar um ideal e um freio àquela fogosidade germânica. E depois apresentou aos soldados medievais, aos homens medievais, esse ideal que é a Cavalaria.

Podemos definir assim as coisas: Cavalaria é a forma cristã da condição militar, e o cavaleiro é o soldado cristão. Ela é mais um ideal do que uma instituição.

Assim, a Igreja ofereceu ao soldado uma lei precisa e um fim preciso. A lei precisa foi o Código da Cavalaria, uma lei especial adequada para aquele gênero de vida, para aqueles homens. E o fim preciso era alargar na Terra as fronteiras do Reino de Deus.

Vemos numa crônica medieval que, para protestar adesão à Fé de Jesus Cristo, era costume em França que os cavaleiros, durante a leitura do Evangelho na Missa, tivessem sua espada nua.

Com isso eles queriam dizer: “Se for preciso defender o Evangelho, nós aqui estamos”.

Carlos Magno coroado imperador pelo Papa Leão III
Carlos Magno coroado imperador pelo Papa Leão III

Mas além de apresentar esse fim preciso e essa lei precisa, a Igreja se lembrou do sinal corporal, uma necessidade profundamente humana, sem a qual a realidade permanece imperfeita, inacabada, desfalecente.

Ela tratou então de satisfazer esse gosto medieval pelo concreto, pelo encarnado, pela manifestação sensível dos valores das realidades espirituais.

Ela tratou de concretizar também a Fé, os sentimentos cristãos. Por isso formou o direito feudal. Profundamente concreto, o direito feudal é concebido para indivíduos reais, bem personalizados, não para homens abstratos de uma sociedade teórica.

Repousa sobre a fidelidade, sobre a reciprocidade. Um vassalo liga-se a um senhor por um laço pessoal, torna-se seu homme-lige, obrigando-se ao serviço da hoste, ao serviço militar, e em troca esperando do suserano subsistência e proteção.

Esse laço pessoal é proclamado em uma cerimônia, um rito. Mais um sinal sensível, mais uma coisa concreta, que torna mais concreta ainda essa realidade.

O vassalo se ajoelha diante do senhor, com as mãos em suas mãos, o cinturão de que pende a espada aberto — em sinal de confiança, de entrega, de abandono — declara-se seu homme-lige e lhe entrega seus bens.

Por sua vez, o suserano beija o vassalo em sinal de afeição e proteção. Depois devolve-lhe os bens ou dá-lhe bens, se o vassalo não os tinha.

É a investidura do feudo. Encerra-se o contrato pelos juramentos sobre o Evangelho. Coisa profundamente concreta, com simbolismo muito sensível.

A Igreja tomou esse laço feudal e o transpôs para o domínio espiritual. O cavaleiro é o vassalo de Deus, Suserano supremo.

Na divisa de Santa Joana d’Arc — “le Christ qui est roi de France” — Nosso Senhor é um soberano, cercado da corte dos santos. Deus como rei, como suserano, tem a sua corte, a corte dos santos, servido pela milícia dos anjos. São expressões muito significativas.

Pelo rito de se armar cavaleiro, este resolve deliberadamente empenhar sua vida, sua pessoa, seus bens, todos os seus atos, ao serviço desse suserano de poder e majestade infinitos.

Como dizia a regra dos templários:

“Servir militarmente, combater com pureza de ânimo, pelo sumo e verdadeiro Rei”.

Expressão tipicamente feudal e militar. Assim como se combate pelo senhor feudal, também se combate pelo Senhor eterno.

O serviço da hoste, obrigação do vassalo, no caso da Cavalaria é a defesa da Santa Igreja, feudo de Deus, e também do povo, dos fracos, dos pobres, dos órfãos, das viúvas — dos pobres miúdos, como se dizia em Portugal na Idade Média.

O cavaleiro presta esse serviço com o coração inteiramente leal.

 

 

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17 novembro 2015

O cavaleiro, braço armado da Santa Igreja

Roberto de Normandia no sitio de Antioquia
Roberto de Normandia no sitio de Antioquia

Dispôs a Providência que a Idade Média fosse uma era histórica especialmente aguerrida, não só pela dupla compressão com que Carlos Magno teve que lutar — os sarracenos e os bárbaros — mas também pelos resíduos de espírito pagão que ficaram nos próprios católicos, por onde eram levados a desembainhar a espada por motivos insignificantes.

Gradualmente foi a Igreja dulcificando os costumes e canalizando esse ardor combativo para o serviço da Cristandade.

Até a época das Cruzadas, a defesa do território e do governo legítimo de cada povo era o mais elevado ideal que inspirava o coração dos guerreiros no momento das batalhas.

Mas eis que uma idéia nova, como um astro desconhecido que brilha com fulgor extraordinário no meio da noite, paira sobre a Igreja e atrai todos os olhares.

Tomada de Jerusalém. Emil Signol, Museu das Cruzadas, castelo de Versailles
Tomada de Jerusalém.
Emil Signol, Museu das Cruzadas, castelo de Versailles

Sua luz se projeta em um momento sobre a Europa inteira e acende em todo lugar um entusiasmo sagrado; todas as classes da sociedade cristã se agrupam, se interpenetram, confraternizam; os povos, que até pouco antes se desmembravam e se fracionavam para viver isolados em suas estreitas muralhas, se levantam simultaneamente como um só homem, uma só nação, um só exército; marcham sob o mesmo estandarte, obedecem ao mesmo impulso, devotam-se à mesma causa.

O que se passa então no mundo? Qual a grande nova que se diz e se repete no Oriente e no Ocidente?

Qual o objeto desse universal abalo das nações cristãs? A libertação de Jerusalém!

A Cruzada não é senão o mistério da Cruz, meditado e realizado, posto em pensamento e ação em toda a sua amplitude, notavelmente nos seus resultados, e não somente por um indivíduo ou por uma nação, mas por toda a Cristandade, por todo o Corpo Místico de Cristo, crucificado e ressuscitado.

Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Ele mesmo profetizou, devia sofrer, mas também entrar na glória.

Segundo o rei Davi, devia ser perseguido e esbofeteado, saciar sua sede com fel e vinagre, ter os pés e as mãos perfumados, divididas suas roupas e sua túnica jogada à sorte.

Mas para Ele voltar-se-iam todos os confins da terra, adorá-lo-iam todas as famílias dos povos, a Ele caberia o Império, dominaria as nações.

Segundo Isaías, devia ser acabrunhado de opróbrios, quebrantado por nossos crimes.

Mas por isso teria uma longa posteridade, dividiria os despojos dos poderosos, receberia as nações por herança, golpearia a terra com a vara de sua boca, faria habitar juntos o lobo e o cordeiro, o leão e o cabrito, sob a direção de um menino; levantaria seu estandarte aos olhos das nações, e os povos acudiriam a Ele e lhe apresentariam suas homenagens. Seu sepulcro seria glorioso.

Segundo o Discípulo bem-amado, esse Cordeiro, imolado desde a origem do mundo, teria uma espada de dois gumes para ferir as nações rebeldes, governá-las-ia com vara de ferro e calcá-las-ia aos pés no lagar.

Com seus santos e seus anjos, julgaria e castigaria a grande Babilônia, a idólatra Roma, de quem o império anticristão de Maomé não é senão uma versão reduzida.

Seus servidores e seus combatentes seriam distinguidos por seu sinal: o sinal do Filho do Homem, o thau do profeta Ezequiel; o thau que primitivamente tinha forma de cruz; o thau, última letra do alfabeto hebreu, porque Jesus Cristo crucificado é o fim de todas as coisas; o thau que, em hebreu, é a primeira letra da palavra crucificado.

E dessas execuções da justiça divina pelo Cordeiro e seu exército, nunca o sangue dos culpados subiria até o freio dos cavalos.

E a Cruzada, o que é senão tudo isso? Não é a Cristandade inteira reunida sob a cruz, para sofrer e combater?

Batalha das Navas de Tolosa, Espanha.
Batalha das Navas de Tolosa, Espanha.

Não é Jesus Cristo, outrora só e rejeitado por seu povo, que agora reúne as principais nações da Terra, o lobo e o cordeiro, o leão e o cabrito, o franco, o godo, o vândalo, o inglês, o lombardo, o italiano, o grego, o sírio, as nações outrora as mais bárbaras ou as mais requintadas?

Ele as reuniu à voz de um menino; Ele as reuniu sob seus estandarte, a Cruz; Ele as reuniu para sofrer e combater, como Jesus Cristo, que sofreu e morreu para combater e vencer, como Jesus Cristo ressuscitado e triunfante!

Na concepção do cavaleiro medieval, a guerra é o ato pelo qual um povo resiste à injustiça com o preço de seu sangue. Onde houver injustiça, há legítima causa de guerra até a satisfação.

A guerra é, depois da religião, o primeiro dos ofícios humanos: uma ensina o direito, a outra o defende; uma é a palavra de Deus, a outra o seu braço.

“Santo, santo é o senhor Deus dos Exércitos!” O Deus da Justiça, o Deus que manda o forte socorrer o fraco oprimido, o Deus que derruba as dominações soberbas.

O espírito das Cruzadas, a união do heroísmo à devoção, do amor ao próximo à combatividade, da espada à penitência, se mostrou com as mais brilhantes cores nas Ordens de Cavalaria.

Como o caçador, vigilante e armado no cimo da colina, investiga de que lado sopra o vento, assim a Europa, naqueles tempos, de lança em punho e pé no estribo, observava atentamente de que lado vinha a injúria.

Viesse ela de um trono ou da torre de um simples castelo, fosse preciso cruzar mares, campos ou vales, nada detinha seus guerreiros.

Não se avaliava o proveito ou o prejuízo: o sangue se derrama sem preço ou não se derrama, e a consciência o paga na terra de Deus, na eternidade.

A guerra transformou-se não só num serviço cristão, mas ainda num serviço monástico: viram-se batalhões de monges cobrir com o cilício e o escudo os postos avançados do Ocidente.

Os religiosos se animaram com bravura cavalheiresca; os cavaleiros se inflamaram com zelo religioso; o soldado se fez monge na perspectiva da Jerusalém celeste; o monge se fez soldado para libertação da Jerusalém terrestre.

Tomaram e conquistaram pela violência a Jerusalém da Terra, assim como só pela violência se conquista a do Céu.

Tais foram aqueles cavaleiros orantes e monges armados, cujos mosteiros eram fortalezas, que obedeciam com o mesmo fervor ao sino como à trombeta quando os chamava à batalha.

Eram os primeiros no ataque e os últimos na retirada. Enquanto sua espada feria, suas orações e cânticos entusiásticos se elevavam aos céus.

É assim que o grande São Bernardo, não contente em louvar a vida piedosa dos templários, governados por uma sábia regra, lhes traça uma justificação da guerra: Não há lei que impeça ao cristão golpear com o gládio; o que é proibido é a guerra iníqua, é sobretudo a guerra entre os cristãos.

“Matar os pagãos seria até mesmo proibido, se se pudesse impedir de qualquer outro modo suas corrupções e retirar-lhes os meios de oprimir os fiéis.

Mas atualmente é melhor massacrá-los, a fim de que sua espada não permaneça suspensa sobre a cabeça dos justos.

Os cavaleiros de Cristo podem combater os combates do Senhor, podem fazê-lo com toda a segurança. Quer eles matem o inimigo ou morram eles próprios, não devem conceber nenhum receio; padecer a morte por Cristo ou dá-la, longe de ser criminoso, é antes glorioso.

O cavaleiro de Cristo mata em consciência e morre tranquilo; morrendo, trabalha por si mesmo; matando, trabalha por Cristo. E não é sem razão que ele porta um gládio; ele é o ministro de Deus para castigo dos maus e exaltação dos bons.

Quando mata um malfeitor, não é homicida, mas (desculpai a palavra) malicida, e é necessário ver nele o vingador que está a serviço de Cristo e o defensor do povo cristão.

A morte dos pagãos faz a sua glória, porque ela é a glória de Cristo; sua morte é um triunfo, porque ela o introduz na morada das recompensas eternas”.

Entre as frágeis instituições que a Cavalaria tomou sob a sua guarda, havia uma sagrada entre todas: a Igreja. A Igreja, não tendo soldados nem muralhas para defender-se, estivera sempre à mercê de seus perseguidores.

Qualquer príncipe podia tudo contra ela. Mas quando a Cavalaria se formou, a sua preocupação foi proteger a fraca e oprimida Cidade de Deus, cuja liberdade era a própria causa do gênero humano.

Fundada por nosso Senhor Jesus Cristo para perpetuar a obra da Redenção entre os homens, a Igreja era a mãe, a esposa, a irmã de todo aquele que tivesse uma nobre alma e uma boa espada.

Tudo isso fez das Cruzadas um ciclo de operações militares para exaltação da Igreja: contra os mouros no Ocidente, na Sicília e na Espanha; contra pagãos no Norte; contra hereges e antipapas em Toulouse e na Itália.

Assim como em São Francisco de Assis a virtude do desapego dos bens terrenos refulgiu de um modo especial, assim nas Cruzadas brilhou como nunca o caráter militante da Igreja.

 

 

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