Idade Média

24 novembro 2014

“Uma espécie de rei eterno”(10) — São Luís, estadista da Cristandade 9

São Luís, estátua em Saint Louis, Missouri, EUA.
São Luís, estátua em Saint Louis, Missouri, EUA.

continuação do post anterior: Reordena o Reino de Jerusalém
São Luís IX realizou a perfeição da França. Encarnou o país da harmonia, da bondade, da generosidade de alma e da inteira entrega a Nossa Senhora.

Ele parece presente na Sainte-Chapelle e em outros lugares que cantam a glória de Nosso Senhor e de Sua Mãe Santíssima.

Foi um santo segundo a alma da França, como São Fernando III de Castela, seu primo-irmão, foi o santo que a Espanha aguardava, ou Santo Henrique imperador foi o anelado da Alemanha.

Ele contribuiu para fazer da Idade Média uma Jerusalém terrestre, imagem da celeste.

Na Alemanha, quando alguém perguntava: “Como você vai?” e o outro ia muito bem, dizia: “Eu vou como vai o bom Deus na França”.

Pois, sob o santo estadista, a França imprimiu na Europa o equilíbrio ideal entre os senhores feudais, a realeza e o povo, entre o Papa e o Imperador, entre os soberanos vizinhos.

O governante sem sabedoria perde seu povo e o rei sábio o salva. Sem sabedoria, o poder civil ou eclesiástico se transforma em instrumento de perdição.

Por isso, Dom Guéranger, o grande abade de Solesmes, formulou um elogio lapidar do santo: “A Sabedoria eterna desceu um dia de seu trono no Céu e pousou sobre São Luís”.

 

FIM
Estátua de São Luís na basílica de Montmartre, Paris Fundo Eskimo Nebula, NGC 2392, Hubble Space Telescope
Estátua de São Luís na basílica de Montmartre, Paris

Fundo Eskimo Nebula, NGC 2392, Hubble Space Telescope

Notas:

 

(*) São Luís tornou-se então o árbitro da Cristandade, por suplência e em caráter excepcional, exercendo a função própria ao Imperador — no caso o ímpio Frederico II, que se tornara inepto para exercê-la; e também exercendo o papel de mediador entre o Imperador e os Papas Gregório IX e Inocêncio IV, pois sua autoridade moral superava às dos supremos titulares tanto do plano temporal quando do espiritual.

1) Dom Prosper Guéranger O.S.B., L’anné liturgique, http://www.abbaye-saint-benoit.ch/gueranger/anneliturgique/pentecote/pentecote05/003.htm.

2) Georges Bordonove, Saint Louis, conferencia pronunciada em Paris, em 16-12-92 na Fundação Dosne-Thiers.

3) Henri Pourrat, Les Saints de France, Editions Contemporaines Boivin, 1951.

4) Henri Pourrat, Id. ibid.

5) Na época de São Luís, a libra tournois era cunhada pela abadia de Tours, que lhe dava o nome. Continha 6,74 gramas de ouro, ou 80,88 gramas de prata. Em reais, a libra tournois de ouro valeria: 6,74 gramas X R$ 93,00 = R$ 626,82. Cfr.: http://fr.wikipedia.org/wiki/Livre_tournois; http://ourohoje.com/.

6) Cathédrale Notre-Dame de Paris, La Couronne d’Épines, Association Maurice de Sully, Montligeon, 2014, pp. 29 e ss.

7) Id. ibid.

8) René Grousset, Histoire des Croisades et du Royaume Franc de Jerusalem, Plon, Paris 1936, vol. III, p. 489; J. F. Michaud, História das Cruzadas, Editora das Américas, São Paulo, Vol. V, pp. 87/88.

9) Georges Bordonove, Saint Louis, col. Les rois qui ont fait la France, Ed. Pygmalion, Paris, 1984, p. 314.

10) Georges Bordonove, Saint Louis, id. ibid., p.319.

 

 

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17 novembro 2014

Reordena o Reino de Jerusalém — São Luís, estadista da Cristandade 8

São Luís na Cruzada
São Luís na Cruzada

continuação do post anterior: As Cruzadas
A rainha Margarida de Provence salvou Damietta com um punhado de cavaleiros e reuniu o imenso resgate de 400.000 bizantinos de ouro, libertando assim o rei, a maioria dos cavaleiros e grande parte do exército prisioneiro.

São Luís trasladou-se a São João d’Acre, onde consultou os barões do Reino sobre permanecer ou não na Terra Santa.

A rainha-mãe Branca de Castela havia informado que o rei da Inglaterra tramava invadir a França e que o reino corria grande perigo.

Segundo Joinville, São Luís explicou:

“Eu não tenho paz nem trégua com o rei da Inglaterra. Mas o povo de Terra Santa quer impedir-me de partir. Eles dizem que se eu for embora, sua terra estará perdida e será destruída e que eles preferem sair comigo. Eu vos rogo pensar nisto e responder-me em oito dias”.

Os nobres, incluídos os dois irmãos do rei e os grandes senhores, julgaram que o estado do exército exigia voltar para a França, a fim de se reorganizarem.

Estátua de São Luis. Fundo: rua medieval de Jaffa.
Estátua de São Luis. Fundo: rua medieval de Jaffa.

O conde de Jaffa, senhor feudal na Terra Santa, defendeu a ideia de ficar, apoiado por Joinville. São Luís decidiu:

“Eu vim para proteger o Reino de Jerusalém e não para perdê-lo. Que os que desejarem ficar comigo falem corajosamente”.

Luís IX autorizou os outros a partir. E ficou quatro anos tentando pôr fim às desavenças entre os príncipes cristãos do diminuído Reino de Jerusalém.

O monarca fortificou os pontos estratégicos e ele próprio carregou pedras para construir castelos. Segundo o historiador Bordonove, São Luís assumiu a missão de um rei de Jerusalém sem ter o título.

Na sua mente, o objetivo de reconquistar a Terra Santa não havia mudado. Ele retornou à França em 1254, quando morreu sua mãe.

Na hora de regressar, quis ser o último a subir no navio. Seu irmão queixou-se pelo atraso. O rei respondeu:

“Conde de Anjou, se eu vos sou pesado, desembaraçai-vos de mim; mas nunca abandonarei meu povo”.

O espírito medieval exigia do grande chefe ser o primeiro a avançar e o último a se retirar.

“Jerusalém!  Nós iremos até Jerusalém!”

Para Luís IX, o fracasso da Cruzada foi um castigo pelos seus pecados, de seus nobres e do povo da França em geral.

O Reino deveria requintar a justiça de sua ordem hierárquica e sacral com piedade e humildade.

A França inteira e ele próprio deveriam se oferecer a Deus. Porém, languidesciam na Europa o heroísmo religioso, a generosidade de alma e a inteira entrega a Nosso Senhor Jesus Cristo.

O rei não encontrou apoios proporcionados e sua saúde fraquejava. Mas, apoiado na promessa divina, zarpou de Aigues-Mortes rumo à África em 2 de julho de 1270.

São Luis mandou construir Aigues Mortes como base e porto para as Cruzadas
São Luis mandou construir Aigues Mortes como base e porto para as Cruzadas

Pisando terra moura, ele “ordenou a seu capelão que lançasse a proclamação de guerra da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Luís, rei de França, seu sargento”, contra a Tunísia, como narra Henri Pourrat.

O verão daquele ano foi abrasador e os poços de água estavam contaminados. O exército foi atingido pelo tifo, inclusive o rei, que havia entregado ao delfim Felipe seu testamento espiritual.

Redigido antes de partir, constituía uma obra sublime de união da Religião e da política, da Fé e da monarquia, de Cristo e da França.

A morte de São Luís
A morte de São Luís

“Meu bom filho, a primeira coisa que eu te ensino é engajar teu coração no amor de Deus. Sustenta os bons costumes do reino e destrói os malvados. Trabalha para que todos os vilões pecadores sejam varridos da Terra e, especialmente, faz tudo que te for possível para abater heresias e blasfêmias”.(9)

Seus mais próximos ouviram-no murmurar com insistência: “Jerusalém! Nós iremos até Jerusalém!” Foi seu último desejo.

Deitado sobre um leito de cinzas em forma de cruz, com as mãos cruzadas sobre o peito e o olhar posto no Céu, entrou no Paraíso e na História no dia 25 de agosto de 1270, aos 56 anos de idade.

Carlos de Anjou, seu irmão, infligiu uma dissuasiva derrota aos sarracenos; o sultão de Túnis aceitou um tratado favorável aos cristãos e a Cruzada encerrou-se.

O corpo do monarca foi trasladado para a Sicília, onde reinava Carlos, e inumado na catedral de Monreale, perto de Palermo.

Seus ossos foram levados para a Catedral de Notre-Dame em Paris, e sua disputa como relíquias foi tão grande, que eles se acham hoje dispersos nos mais variados locais da França.

Continua no próximo post

 

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10 novembro 2014

As Cruzadas — São Luís, estadista da Cristandade 7

São Luis embarca para a Cruzada
São Luis embarca para a Cruzada

continuação do post anterior: Árbitro da Cristandade
São Luís tinha certeza de que Deus queria dele a libertação de Jerusalém. E repetia que desejava salvar as almas dos muçulmanos, convertendo-os.

Joinville, contudo, para quem a salvação desses ímpios passava pelo extermínio, espantava-se ouvindo as intenções de tão grande chefe de armas.

Em 1240, para se livrar das potências marítimas italianas cuja politicagem prejudicara as Cruzadas anteriores, São Luís IX ordenou a construção de uma imensa fortaleza e um porto no Mediterrâneo.

Abriu-se uma estrada entre os pântanos, canalizaram-se fios de água, erigiram-se muralhas e torres de defesa e armazenamento.

A população local, que até então morava em palafitas, sentiu-se protegida com o surgimento da cidade de Aigues-Mortes, verdadeira maravilha arquitetônica a partir da qual o santo monarca embarcou para as Cruzadas — tanto para a sétima, em 25 de agosto de 1248, que durou seis anos, quanto para a oitava, em 1270.

Na VII Cruzada o rei desembarcou diante de Damietta, fortaleza que controlava o acesso ao Cairo, sede do Sultão, chefe máximo dos islamitas no Egito.

São Luís desenhou o plano de ataque. Os cavaleiros mais experimentados desceriam primeiro e estabeleceriam uma cabeça de ponte para repelir os contra-ataques mouros. O grosso do exército desembarcaria depois.

Porém, muitas naves não compareceram no dia combinado, desviadas pelos ventos. O Santo ordenou o ataque antes de os muçulmanos concentrarem mais tropas.

A frota real e a dos grandes senhores impressionavam pelo seu esplendor. Assim que a ponta de lança da cavalaria atingiu a terra, foi assediada por grande número de mouros, velozes e hábeis.

A confusão na praia foi geral. São Luís então pulou na água — como descreve Joinville —, todo armado, magnífico, com capacete luzidio e armadura de ouro; e pisou em terra junto com seus homens mais fiéis.

O pânico tomou conta dos islâmicos, que abandonaram a imponente fortaleza. O santo temeu uma emboscada e enviou observadores ao castelo que confirmaram a deserção geral.

São Luís ataca Damietta
São Luís ataca Damietta

Em Damietta, São Luís aguardou a parte do exército que faltava, enviou patrulhas de reconhecimento e pagou informantes para obter dados sobre a estrada até o Cairo e o estado de ânimo dos adversários. Cairo era mais populosa que qualquer cidade da Europa.

O único obstáculo no caminho era a fortaleza da Mansurah. Para atacá-la, era preciso atravessar um braço do rio Nilo que não tinha pontes. Um beduíno denunciou um passo, que a cavalaria atravessou, sendo que metade dos cavalos ia nadando e a metade deles tocava no fundo.

A ordem real era de fincarem pé enquanto o resto do exército cruzava o rio. Os muçulmanos hostilizavam a cavalaria, e fugiam quando esta reagia. O conde de Artois, irmão do rei, perdeu a paciência e foi atrás dos seguidores de Alá, que entraram na fortaleza deixando as portas abertas.

Quando o conde penetrou com os seus, as portas se fecharam: era uma arapuca. A ponta de lança da milícia real, composta de nobres e cavaleiros das Ordens Militares, foi massacrada por desobediência a São Luís.

O rei, que estava doente e comandava na retaguarda, percebeu a magnitude do desastre. Após diversos embates, os cruzados foram desarticulados e o santo caiu prisioneiro.

São Luís prisioneiro no Egito
São Luís prisioneiro no Egito

Os muçulmanos exigiram um alto resgate e a entrega da cidade de Damietta em troca da liberdade do monarca.

Enquanto a rainha Margarida providenciava esse dinheiro em Damietta, São Luís permaneceu numa prisão onde ocorreram fatos singulares.

O sultão Almoadam ficara ébrio de orgulho com a vitória, mas os mamelucos, que constituíam sua guarda pessoal, resolveram assassiná-lo no final do banquete da vitória.

Almoadam foi ferido, fugiu até o alto de uma torre, de onde caiu oferecendo em prantos o seu próprio trono em troca da vida. Octai, chefe dos mamelucos e os seus, traspassaram-no com inúmeros golpes.

Logo a seguir, Octai foi até a tenda de São Luís com a mão ensanguentada, dizendo:

“Almoadam já não existe. Que me darás por ter-te libertado de um inimigo que premeditava a tua ruína e a nossa?”

São Luís nada respondeu. O infiel apontou-lhe a espada, e exclamou irado:

“Não sabes que eu sou senhor de tua pessoa? Faze-me cavaleiro, ou serás morto!” São Luís respondeu: “Faze-te cristão, e te farei cavaleiro”. Octai abaixou a espada e retirou-se sem lhe fazer mal.(8)

Continua no próximo post

 

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3 novembro 2014

Árbitro da Cristandade — São Luís, estadista da Cristandade 6

São Luís estátua em Saint Louis, Missouri, EUA.  Fundo: rosácea de Notre Dame.
São Luís estátua em Saint Louis, Missouri, EUA.

Fundo: rosácea de Notre Dame.

continuação do post anterior: “Ressurreição” e Cruzada

A partir 1241 pioraram as notícias provenientes da Europa Oriental e da Terra Santa. A invasão dos mongóis atingiu a Polônia, a Hungria e a Romênia, após devastar a Rússia e a Ucrânia.

O chefe mongol Subedei mirava o coração da Europa, mas após esmagar o rei da Hungria em Mohi, voltou às pressas para a Ásia por razões não esclarecidas.

A corajosa rainha Branca ficou muito temerosa, mas São Luís parecia ser o único a intuir que a invasão não prosperaria.

“Quando viu a Europa ameaçada pelos tártaros — conta Pourrat —, São Luís disse: ‘Tende coragem minha mãe; ou nós os colocamos nas portas do inferno ou eles nos abrirão as portas do Céu’”.

O santo foi arguto estrategista e homem de fé: ou ele os venceria e eles iriam para o inferno enquanto pagãos horrivelmente criminosos, ou ele morreria e iria para o Céu. Nada se perderia lutando contra eles.

Uma das situações mais tempestuosas para arbitrar se deu na Bretanha, um ducado enfeudado à França mas quase independente dos pontos de vista de governo, cultural, étnico e linguístico.

Lá, Pierre de Dreux, parente de São Luís, tornou-se Duque. Audaz chefe de guerra, mas turbulento senhor feudal, Pierre ganhou o apelido de “Mauclerc” (mau clérigo) por suas exações à Igreja.

Seus atritos com os bispos bretões lhe valeram diversas excomunhões. Os Papas pouco conseguiram junto a este homem que dividiu a nobreza com conflitos de toda ordem.

Após inúmeras desordens, São Luís entrou militarmente na Bretanha e o despojou do ducado por felonia. “Mauclerc” insurgiu-se, mas o exército real, apoiado por boa parte da nobreza bretã, extinguiu a revolta.

Pierre de Dreux se submeteu ao jovem rei em Paris, em 1234. São Luís não o humilhou, mas dispôs que a Bretanha ficaria na posse do filho dele, João, o qual, por sua vez, juraria vassalagem ao rei da França juntamente com os nobres rebeldes.

O santo monarca concedeu a Pierre de Dreux o pequeno feudo de Braine. Assim, “Mauclerc” tornou-se “Braine” e acompanhou o rei na Cruzada ao Egito, onde foi gravemente ferido e morreu ao voltar, recebendo digna sepultura na necrópole familiar de Dreux.

Árbitro entre Papas e Imperador

 

São Luis em encontro com o Papa Inocêncio IV, em Lyon, 1248.
Louis-Jean-Francois Lagrenee (1724 – 1805)

Muito mais complicada era a secular luta entre o máximo poder temporal da Cristandade — o Imperador do Sacro Império — e o supremo poder espiritual, e indiretamente temporal, dos Papas.

O Imperador Frederico II Hohenstaufen investiu contra os pontífices Gregório IX e Inocêncio IV, tendo sido excomungado duas vezes. Gregório IX qualificou-o de “Anticristo”.

Inocêncio IV, um ano apenas após sua eleição, fugiu da Itália perseguido por ele. Nobres partidários de um e de outro estavam em situação de guerra civil e religiosa na Alemanha e na Itália.

Nesse confronto, o rei santo, que já era o mais respeitado dos príncipes cristãos, poderia ter feito prevalecer sua influência sobre o Papa e o Imperador.

Porém, ele se recusou a tal, pois queria reconciliá-los respeitando suas superioridades. A França estava prosperando tanto, que podia arcar sozinha arcar com o ônus da Cruzada.

Mas Luís queria uni-los nesta santa empresa. Gregório IX ofereceu a coroa imperial ao conde Roberto de Artois, irmão de São Luís. Contudo, o rei não aceitou, pois podia parecer usurpação e falta de respeito ao Imperador.

Em 3 de maio de 1241, arcebispos franceses que iam a um Concílio convocado por Gregório IX foram presos por Frederico II. São Luís IX pediu-lhe explicações, ao que ele respondeu secamente:

“Que vossa majestade real não se espante quando César prende no aperto e na angústia aqueles que vieram para criar angústia a César”.

São Luís IX retrucou com tanta habilidade que os arcebispos foram libertados.

Banido da Itália, Inocêncio IV instalou-se em Lyon e marcou para 1245 um Concílio que julgaria o Imperador. Este reuniu um exército em Turim, visando impedir a assembleia.

São Luís IX lhe fez saber, com tato e força: “Não toqueis no Soberano Pontífice, para não incorrerdes na cólera de Deus”.

São Luís mediador num litígio entre o rei da Inglaterra e seus barões. Georges Rouget (1783-1869), Versailles
São Luís mediador num litígio entre o rei da Inglaterra e seus barões.
Georges Rouget (1783-1869), Versailles

O Imperador entendeu: enviou ao Concílio um jurista para defendê-lo, comunicou que iria à Cruzada contra os mongóis e os sarracenos, e que indenizaria a Santa Sé.

Mas não cumpriu o prometido, voltando aos abusos. Foi então excomungado. Abandonado por boa parte de seus adeptos, pediu a intercessão de Luís IX. Este marcou um encontro sigiloso com Inocêncio IV na abadia de Cluny.

São Luís implorou ao Papa que aceitasse a proposta do imperador em troca da obrigação de ir para a Cruzada. O litígio só acabou com a morte do imperador.

No fim do caso, São Luís ficou consolidado como árbitro da Cristandade, nele confiando Papas, imperadores, episcopados e nobreza, além de corporações de ofício, de estudantes e cidades livres.(*)

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27 outubro 2014

“Ressurreição” e Cruzada — São Luís, estadista da Cristandade 5

São Luís acorda e anuncia a decisão de partir na Cruzada
São Luís acorda e anuncia a decisão de partir na Cruzada

continuação do post anterior: A Coroa de Espinhos e a Sainte-Chapelle

São Luís regressou de Taillebourg padecendo uma disenteria que se agravou rapidamente. Esta havia sido a causa da morte de seu pai, Luís VIII.

A rainha-mãe, Branca de Castela, pediu ao abade de Saint-Denis — abadia onde repousam os restos dos reis da França — para expor à veneração pública o corpo do glorioso São Dionísio, protetor do reino, bem como as relíquias de São Eleutério e São Rústico, seus companheiros de martírio. São Luís já tinha feito seu testamento, e murmurava em voz baixa:

— “Olhai para mim. Eu era o homem mais rico e mais nobre do mundo, o mais poderoso de todos pelos tesouros, pelo meu poder e pelos meus amigos, e eis que não posso obter da morte sequer uma trégua, nem uma hora à doença. De que valeu tudo isso?”

Quando ele perdeu o conhecimento, os médicos anunciaram seu fim iminente. O Palácio Real encheu-se de lamentações, suspiros e prantos. O clero recebeu ordem de preparar as exéquias.

Em certo momento, acreditou-se que o santo-herói tinha morrido. Joinville conta:

“Ele chegou a tal ponto, que uma das damas em volta quis puxar o pano por cima do rosto, dizendo que estava morto. Outra não quis. E enquanto discutiam, Nosso Senhor agiu nele e lhe devolveu a saúde.

“Tão logo pôde falar, pediu que lhe impusessem a Cruz, e assim foi feito. Então, ao ouvir dizer que ele falara, a rainha-mãe manifestou o maior júbilo que podia.

“Mas quando soube que o filho se tinha cruzado [decidido ir para a Cruzada], como ele mesmo dizia, ela ficou num estado de luto como se o tivesse visto morto”.

Vitral da catedral Notre Dame representando a São Luís
Vitral da catedral Notre Dame
representando a São Luís

São Luís IX explicou que Nosso Senhor o havia tirado dentre os mortos para que adotasse a Cruz, montasse um exército e reconquistasse Jerusalém, que gemia desde 1187 sob a tirania muçulmana.

As rainhas Branca e Margarida, os conselheiros reais e as altas autoridades eclesiásticas tentaram de tudo para dissuadi-lo. Mas em vão.

Ele tinha certeza de que fora salvo das fauces da morte para cumprir essa missão, e não por uma simples misericórdia de Deus. Do antigo reino de Jerusalém só ficava São João d’Acre e mais alguns portos periclitantes.

O espírito sobrenatural da Cruzada estava morto. São Luís IX o ressuscitaria com o fervor dos tempos de Godofredo de Bouillon e seus companheiros de expedição.

Reformador sábio e prudente

Prevendo uma ausência longa ou definitiva, Luís IX quis, antes de se lançar na Cruzada, apalpar o estado do reino, dar proteção aos mais fracos e conciliar os poderosos.

Em 1247, inspetores percorreram o reino como outrora os missi dominici de Carlos Magno. Dominicanos e franciscanos, Ordens que viviam um momento de fervor e seriedade, iam em duplas anotando as queixas dos pobres nos campos e nas cidades, sem tomarem contato com os bailios (governadores de província, ao mesmo tempo juízes, chefes militares e coletores de impostos).

O inquérito permitiu a São Luís modificar o Conselho Real, trocar três-quartos dos bailios e definir os limites precisos de seus poderes.

Também moderou os poderes judiciários da alta nobreza, fazendo com que todo o reino pudesse apelar ao rei como juiz supremo.

O escudo de ouro de São Luís
O escudo de ouro de São Luís

São Luís também estabeleceu regulamentos relativos aos costumes das corporações de ofício — os “sindicatos” da época — concedendo-lhes autonomia e estabilidade.

Reorganizou a Prefeitura de Paris e criou uma moeda: o escudo de ouro e o grand denier de prata para facilitar o comércio, pôr fim às fraudes e moralizar a atividade econômica.

Um governante hodierno que mexesse tanto nos costumes do país seria antipatizado, mas o carisma real e a luz da santidade do monarca brilharam nessas reformas e ele foi abençoado pelo povo.

O escudo de ouro foi a primeira moeda, no sentido moderno, emitida por um rei. Nela estava cunhado o escudo — de onde o nome — com o brasão fleurdelisé do santo rei.

O escudo de São Luís foi padrão até a Idade Moderna, sendo reeditado pelos seus sucessores e imitado por bispos, príncipes e senhores que emitiam moeda, e até mesmo pelos Papas, porque era digno de fé e isento de fraude.

A moeda foi conservada por muitos como uma medalha religiosa! Assim, houve um plebiscito mudo aprovando a confiança dos franceses em seu rei.

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20 outubro 2014

A Coroa de Espinhos e a Sainte-Chapelle — São Luís, estadista da Cristandade 4

São Luis: estátua da capela inferior da Sainte Chapelle. Fundo: capela superior. Coroa de Espinhos no relicário atual.
São Luis: estátua da capela inferior da Sainte Chapelle.

Fundo: capela superior. Coroa de Espinhos no relicário atual.

continuação do post anterior: O banquete de Saumur

Enquanto punha ordem na França e preparava a Cruzada, São Luís executou um projeto que marca a França até hoje.

Em 1239, o Império de Bizâncio consignou a Coroa de Espinhos a banqueiros venezianos como penhor de uma dívida de 135.000 libras tournois.(5)

A quantia equivalia à metade das entradas do reino francês em um ano! Porém, se comparada com os orçamentos multibilionários dos governos atuais, parece exígua: aproximadamente R$ 84.620.700,00.

São Luís assumiu a dívida, com a condição de a relíquia ficar sob a guarda da casa real francesa, em uma negociação que poderia ser comparada a empréstimos atuais envolvendo o FMI e bancos multinacionais.

Assinados os acordos e apurada a autenticidade da relíquia, ela foi levada à França por religiosos dominicanos.

No dia 10 de agosto de 1239, o santo monarca, seu irmão o príncipe Roberto I de Artois e o Arcebispo de Sens receberam a Santa Coroa, conferiram seus registros de autenticidade e entraram em cortejo na cidade de Villeneuve-l’Archevêque, na França.

Descalços e vestidos com túnicas de penitentes, o rei e o príncipe trasladaram o relicário de ouro e sua caixa de prata até a catedral de Sens.

São Luís carrega na procissão a Coroa de Espinhos até Notre. Dame Jules David, Paris, 1861
São Luís carrega na procissão a Coroa de Espinhos até Notre. Dame Jules David, Paris, 1861

No dia 11 eles foram de barco até o castelo real de Vincennes, fora dos muros de Paris, e no 18 de agosto, carregando nos ombros o incomparável símbolo do Rei dos reis, o soberano e o príncipe penitentes entraram solenemente na capital em meio às aclamações populares.

No dia seguinte São Luís dispôs a construção da Sainte-Chapelle, para guardar definitivamente a sagrada relíquia, que entrementes ficou na basílica de Saint-Denis.(6)

E providenciou a aquisição de mais sete relíquias da Crucifixão, entre elas a do Santíssimo Sangue de Cristo, da Pedra que fechou o Santo Sepulcro, partes da Santa Lança e da Santa Esponja.

A edificação da Sainte-Chapelle custou 35.000 libras tournois, e o relicário da Coroa de Espinhos e demais relíquias da Paixão consumiram outras 135.000, devido ao ouro e às pedras preciosas empregados.

A Sainte-Chapelle foi concebida como um relicário gigante feito de cristal e pedra.

O movimento da luz através dos imensos vitrais muda o colorido interno e cria uma atmosfera irreal, verdadeiramente sobrenatural, onde a arte mais delicada e a espiritualidade mais alta se fundem num só, segundo Bordonove.

São Luís mandou construir a Sainte Chapelle para servir de relicário da Coroa de Espinhos
São Luís mandou construir a Sainte Chapelle para servir de relicário da Coroa de Espinhos

O imponderável faz esquecer as formidáveis colunas de pedra e as imensas portas da melhor madeira, convidando a alma para um voo místico.

O pensamento se descola da espessa matéria como que espiritualizada pela arte, para partir como um foguete rumo ao Céu. Na Sainte-Chapelle os valores culturais e espirituais assumem a pedra e a matéria como a alma se une ao corpo.

Que ninguém se engane, conclui o referido historiador: São Luís está presente na Sainte-Chapelle não porque as flores de lis da França e os castelos de Castela — símbolos de seu brasão — enchem os muros, mas porque na Sainte-Chapelle lateja a própria alma do santo estadista.

A Sainte-Chapelle [foto] é a capela do Palácio Real e, juntamente com suas relíquias, pertencia à Coroa, e não à Igreja, assentando aliança entre o Rei dos Céus e o rei da França.

A Coroa de Cristo legitimava a Coroa da França, sua vassala por excelência nesta Terra, e ambas se uniam como as duas faces de uma mesma medalha.

“Na linguagem dos liturgistas, a Coroa de Espinhos tornou-se um penhor de Deus confiado ao povo francês. Deus havia penhorado sua Coroa ao rei da França até o dia do Juízo Final, quando Jesus Cristo em pessoa viria bater na porta do Palácio Real de Paris para recobrar a posse da coroa de Seu Reino”.(7)

Até o fim do mundo, a monarquia francesa seria a guardiã da Coroa com que o Redentor julgará a humanidade e encerrará a História. As relíquias foram definitivamente instaladas e a capela consagrada em 26 de abril de 1248.

A pedido de São Luís, foi instituída uma festa litúrgica em 11 de agosto para comemorar a chegada da Santa Coroa à França. Dois meses depois da consagração, o Santo Rei partiu para sua maior campanha militar: as Cruzadas.

Continua no próximo post

 

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13 outubro 2014

O banquete de Saumur — São Luís, estadista da Cristandade 3

São Luís na batalha de Taillebourg.  Ferdinand-Victor-Eugène Delacroix 1798-1863, Galerie des Batailles, Versailles
São Luís na batalha de Taillebourg.

Ferdinand-Victor-Eugène Delacroix 1798-1863, Galerie des Batailles, Versailles

continuação do post anterior: Rei enquanto santo e santo enquanto rei

Em 1237, o novo rei investiu seu irmão Afonso como conde de Poitiers, um riquíssimo, brilhante e populoso feudo. Mas, infelizmente, um ninho de revoltas da nobreza local!

Atiçados pelo rei Henrique III, da Inglaterra, que sonhava ser rei da França, os senhores feudais não cessavam de fazer intrigas. Já germinava a discórdia que desfecharia na guerra dos Cem Anos.

Os intrigantes haviam motejado o jovem monarca como “rei dos monges”, como “devoto” incapaz de defender sua herança.

São Luís IX quis conferir à investidura do irmão um caráter oficial e solene.

As festas incluíram um famoso banquete no castelo de Saumur e foram descritas por Joinville, autor de uma inigualável biografia do rei santo e espécie de primeiro-ministro do conde de Champagne, um dos mais poderosos, ricos e autônomos senhores da França.

— “O rei reuniu uma grande Corte em Anjou. Eu estava lá e dou testemunho que foi a melhor ordenada que já vi”.

E após descrever os grandes homens do reino sentados à mesa em suas brilhantes roupagens, prossegue:

“Atrás deles havia bem aproximadamente 30 cavaleiros vestidos com túnicas de seda que os protegiam. E, por trás dos cavaleiros, um grande número de lacaios com as armas do conde de Poitiers bordadas sobre tafetá.

“O rei estava vestido com uma túnica de seda bordada de cor azul, tendo por cima um manto de seda vermelha bordada e forrada de arminho, com um chapéu de algodão sobre a cabeça, o qual, aliás, não lhe ficava muito mal!!!, porque ele era jovem”.

Assim se apresentou o terceiro franciscano que ia descalço nas procissões, pois assim o exigiam o bem da ordem política e social, a harmonia da ordem cristã, a vocação e o cargo que Deus lhe deu.

O “devoto” no combate

 

São Luís recebe a vassalagem de Henrique III da Inglaterra
São Luís recebe a vassalagem de Henrique III da Inglaterra

Por detrás da deslumbrante festa crepitava o drama. Com as cerimônias, São Luís quis patentear seu poder supremo sobre o feudo.

Mas os insubordinados senhores locais interpretaram-na como provocação e tiraram pretexto para revolta.

O chefe dos dissidentes era Hugues de Lusignan, conde de la Marche, que a exemplo de Iscariote à mesa com Jesus na Última Ceia, estava sentado à mesa do rei. E seu suserano era o rei da Inglaterra, Henrique III.

A murmuração correu como rastilho de pólvora: São Luís queria usurpar os direitos do rei inglês.

A prova?

O festim e a nomeação de seu irmão como conde de Poitou!

Louco de raiva, Hugues de Lusignan abandonou Saumur às pressas, prometeu repudiar a vassalagem ao rei da França e montou uma liga militar contra a Coroa.

O rei da Inglaterra garantiu-lhe tropas que viriam por mar. Os amotinados aguardavam reforços da Espanha e o ataque do imperador alemão, que surpreenderia o rei francês pelas costas.

São Luís não se descuidou: estava perfeitamente informado dos planos, tratativas e reuniões secretas dos adversários. E antes de as tropas inglesas desembarcarem, empreendeu a ofensiva!

Os castelos de Hugues de Lusignan capitularam um após outro. E quando o rei inglês pôs o pé em terra com seu exército, era tarde demais.

Ele, porém, ousou enfrentar o “rei devoto”. O choque se deu em Taillebourg, em 1242, batalha completada em Saintes.

A carga de cavalaria conduzida pelo santo sobre um soberbo cavalo branco decidiu a batalha e mudou os rumos da Europa feudal.

São Luís em Taillebourg. Paul Lehugeur

“Luís — narra o historiador Henri Pourrat(4) —, à testa de somente oito homens de armas, lançou-se sobre a ponte de Chernete e sustentou o embate de mil ingleses, até o momento em que sua gente chegou, entusiasmada com o feito do rei”.

Séculos depois, o pintor Delacroix imortalizou a façanha. Pouco faltou para o rei inglês cair prisioneiro. A partir de Taillebourg, a Europa ficou sabendo que esse rei dos monges manejava a espada com implacável maestria.

Esplêndido vencedor, São Luís manifestou magnanimidade, inteligência, tato político e visão histórica que impressionaram a Europa feudal. Seus conselheiros quiseram convencê-lo a despojar os vencidos.

O santo reafirmou que isso estava no seu direito, mas não pediu senão aquilo que julgou politicamente inteligente.

Ao rei inglês derrotado cedeu as regiões francesas de Limousin, Périgord, Agenais, Saintonge e parte de Quercy, com a condição de tornar-se seu vassalo mediante o sagrado juramento de vassalagem.

Luís IX quis firmar os laços de amor entre os filhos de ambas as coroas. O rei da Inglaterra passou a lhe prestar as homenagens de um subordinado.

Assim fazendo, a Guerra dos Cem Anos ficou adiada de um século. Ao conde Hugues de Lusignan, chefe dos revoltosos, o rei perdoou um terço dos bens. Retirando-se para suas terras, morreu de desgosto.

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6 outubro 2014

Rei enquanto santo e santo enquanto rei — São Luís, estadista da Cristandade 2

São Luís recebe enviados do Velho da Montanha, ou Príncipe dos Assassinos, seita islâmica. Guy-Nicolas Brenet  (1728 — 1792)
São Luís recebe enviados do Velho da Montanha, ou Príncipe dos Assassinos,

seita islâmica. Guy-Nicolas Brenet  (1728 — 1792)

continuação do post anterior: O filhote de Leão

São Luís teria preferido viver num mosteiro, na abstinência e na meditação, explicou em conferência o renomado historiador Georges Bordonove.(2)

Porém, nasceu num berço de ouro agitado pela História e com uma missão divina: reger a filha primogênita da Igreja e tornar-se o árbitro da Cristandade no século XIII.

Sua aspiração à santidade foi realizada na responsabilidade tremenda de monarca e estadista europeu.

“Ele sabia comparecer em grande pompa, acolher faustosamente, dava festas e festins quando necessário. Ele respeitava altamente sua condição de rei.

“Mas na vida privada ignorava o luxo, misturava muita água no vinho e nos molhos para lhes tirar o gosto. Quando ia às procissões, levava calçados sem sola para ocultar que caminhava com os pés nus, na lama ou no pedregulho, pois as ruas de Paris não estavam pavimentadas”, explicou Bordonove.

Segundo o historiador Henri Pourrat, São Luís era “louro, delgado, de ombros um pouco curvos, alto e de fisionomia serena. Joinville disse dele: ‘Asseguro-vos que nunca vistes um homem de tão bela aparência, quando armado. E, mais ainda, era o mais altivo cristão que os pagãos jamais conheceram’”.(3)

O aspecto físico exprimia seu valor moral. São Luís IX foi um dos homens mais extraordinariamente bem apresentados de seu reino. E a França, como sempre, o fulcro do bom gosto e da elegância!

Mas também “era um soldado intrépido, hábil na hora de conduzir uma carga de cavalaria, pondo em risco em primeira linha sua pessoa, levando um elmo dourado que se destacava por cima de todos os barões do reino e que o tornavam alvo natural dos disparos.

Entrementes, tinha horror pelo sangue derramado e após a batalha se empenhava em cuidar dos feridos e salvar os prisioneiros dos abusos”, acrescenta o historiador Bordonove.

São Luís inquietava até seus capelães, que temiam pela sua saúde. Ele saía de seus êxtases ou meditações quase esgotado, no limite do desmaio.

Mas sabia ser o mais brilhante da corte, distinto, generoso e alegre, no protocolo oficial e na vida privada. Ria à vontade, dava às vezes gargalhadas, mas nunca às custas de alguém e jamais permitindo uma expressão grosseira ou ofensiva.

Nele, o chefe de guerra era a outra face do místico. O homem piedoso e amante da virtude da pobreza constituía a outra face do monarca mais brilhante da Europa.

O tato do diplomata revertia na caridade do esmoler, e a suavidade do santo, na esperteza sagaz do diplomata.

Ele se tornou o árbitro dos conflitos da Europa e da Cristandade do século XIII porque foi santo, e foi santo porque praticou heroicamente as virtudes no exercício político do mais requintado trono da Europa e do mais terrível dos exércitos da Cristandade.

Uma coisa estava contida na outra e eram perfeitamente inseparáveis, a ponto de que, se tivesse fraquejado no múnus monárquico, não teria sido santo, e vice-versa.

Ele foi rei cristianíssimo como nenhum de seus sucessores. E o fiel por excelência do Papado até mesmo quando dizia, com inflexível lógica e imenso respeito, algumas verdades ao próprio Papa e aos bispos de vários ducados do reino.

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29 setembro 2014

O filhote de Leão — São Luís, estadista da Cristandade 1

Em 25 de abril de 1214 um menino nasceu no castelo de Poissy, perto de Paris.

Há hoje no local um mosteiro para honrar aquela criança, que conhecemos pelo nome de São Luís IX, Rei da França.

O feliz evento aconteceu em meio a uma tormenta política. Nesse ano, seu avô, o rei Felipe Augusto, derrotou na batalha de Bouvines uma coalizão de príncipes e nobres franceses revoltados, apoiados pelo rei da Inglaterra, João Sem-Terra, sustentados pelo imperador Othon IV e auxiliados por tropas flamengas da Holanda e da Lorena.

João Sem-Terra cobiçava a coroa francesa e o imperador alemão Othon IV tinha sido excomungado pelo Papa.

A vitória de Bouvines foi considerada um “autêntico juízo de Deus” que salvou o trono a ser ocupado um dia pelo principezinho.

Quando ele aprendeu a escrever, assinava Luís de Poissy, gostava de cantar na igreja e ouvir os feitos bélicos de Bouvines dos próprios lábios de seu avô.

Ao subir ao trono, os conselhos do velho monarca inspiraram-no no exercício do poder régio.

Filhote de Leão

Seu pai, Luís VIII, o Leão, faleceu quando voltava de uma Cruzada contra os hereges albigenses. Sua prematura morte causou consternação.

O reino da França estava muito longe de ser a respeitada estrutura política que São Luís legou depois à sua descendência.

No sul, ainda crepitava a revolta da heresia cátara, panteísta e imoral, que corrompia os costumes até além Pirineus.

A Europa cristã estava ameaçada em todas suas fronteiras, e graves desordens grassavam em seu interior.  Os mongóis arrasavam a Europa Central e miravam o coração da Europa.
A Europa cristã estava ameaçada em todas suas fronteiras, e graves desordens grassavam em seu interior.

Os mongóis arrasavam a Europa Central e miravam o coração da Europa.

No leste, após ser derrotado em Bouvines, Othon IV renunciara à coroa imperial, afastando-se da política.

Porém, os partidários do erro, que negavam o poder do Papa de destituir imperadores, soberanos, bispos e abades, ainda ateavam crises, desmandos e guerras.

Os Papas estavam absorvidos por esse conflito teológico e político.

Na França, o poder da família real era pequeno se comparado ao do rei da Inglaterra, que também era duque da Normandia e da Aquitânia e cujas terras estendiam-se do Canal da Mancha ao Mediterrâneo.

Ademais, turbulentos senhores feudais geravam desordens, atritos e guerras locais.

Na Espanha e no Mediterrâneo, os muçulmanos promoviam incursões, infestavam o mar com sua pirataria e ameaçavam os portos cristãos.

As notícias do leste da Cristandade eram alarmantes: os mongóis devastavam países batizados havia não muito tempo e parecia que ninguém deteria sua marcha infernal rumo ao Ocidente.

Margarida de Provence, esposa de São Luís
Margarida de Provence, esposa de São Luís

Do decadente e cismático Império de Bizâncio provinham muitas intrigas e apelos desesperados em virtude do progresso das hordas do Islã na Terra Santa e na Ásia Menor.

Ao pequeno “Louis de Poissy” incumbiu o dever de salvar o reino e equilibrar a Europa que soçobrava.

Sua mãe, a piedosa rainha Branca de Castela, era constituída da matéria-prima dos verdadeiros chefes de Estado.

Enérgica e diplomática, ela foi nomeada regente durante a minoridade do rei, que herdou sua piedade e seu caráter.

São Luís foi sagrado aos 12 anos, em 29 de novembro de 1226, na catedral de Reims, mas só assumiu o poder régio em 1234.

Casou-se com uma princesa de nome poético, Margarida de Provence, que levou consigo o grão-ducado de seu pai, reforçando o poder da casa real e trazendo estabilidade e segurança.
Continua no próximo post

 

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6 abril 2014

A coroação de Carlos Magno e a doutrina das duas espadas, símbolo dos poderes da Igreja e do Estado

São Leão III Papa sagra Carlos Magno

imperador do Sacro Império na noite de Natal do ano 800

Leia o post anterior: Não foi a alfabetização que gerou a sabedoria de Carlos Magno

A Igreja reconheceu e coroou na terra Carlos Magno que Deus por certo terá coroado no Céu, em virtude da promessa divina a São Pedro: “tudo o que atares sobre a terra será atado também nos céus; e tudo o que desatares sobre a terra será desatado também nos céus.(Mt 16, 19).

A coroação tem este lado de bonito, que é a ideia do poder de um Papa.

O Império Romano pagão não nasceu dos Papas. Ele foi feito pelo Senado romano.

O Senado romano é que criou a grandeza romana. Os imperadores romanos apareceram durante a decadência da república romana; uma instituição pagã, portanto, mas que se cristianizou com Constantino.

O Papa se julgava no poder de recompor o Império Romano! Recompôs e fundou o Sacro Império Romano, quer dizer, o Império Romano Sagrado, feito para a defesa da Fé.

Aí se realizava aquele diálogo misterioso de Nosso Senhor com São Pedro, no momento em que Nosso Senhor foi preso.

Os teólogos sempre interpretaram que quando Nosso Senhor, na hora de ser preso, perguntou a São Pedro se tinha espadas consigo, São Pedro respondeu: “Tenho duas”. Nosso Senhor respondeu: “Isto basta!”

Os bons teólogos dizem que é São Pedro afirmando que ele tinha os dois gládios na mão exprimiu simbolicamente o gládio da Igreja, que é espiritual, e o gládio do Estado, que é o poder da força militar, para reduzir as heresias e liquidar com o mal.

Carlos Magno no centro dos imperadores.

Cetro para a sagracão de Carlos VI, século XIV

Esses dois gládios bastam a São Pedro para cumprir a sua missão.

Nessa noite de Natal do ano 800, o Papa acabava de forjar na pessoa de CVarlos Magno um gládio de ouro, que era o Sacro Império Romano Alemão, com a missão de defender a Fé por toda a Cristandade.

Maravilhas, belezas! Elas nos lembram dias tão diferentes, que são os dias em que nós vivemos, em que tudo está exatamente no sentido oposto.

Mas há certos ideais que nunca morrem, porque eles são diretamente deduzidos da Fé, e são imortais como a Fé!

E quando a gente ouve contar esses fatos, a gente compreende que a História do mundo não pode terminar assim. E que ela não pode terminar simplesmente numa derrota.

Tem que haver uma monumental desforra. E a Revolução laicista e igualitária tem que ser pisada de maneira a se constituir o Reino de Maria, para o qual o mundo foi construído.

O mundo foi criado por Deus para que, em determinado momento, o reino dEle sobre o mundo fosse pleno. É preciso que isto se realize.

E nós então temos, da lembrança dessas coisas, uma esperança no futuro.

Nada de mais anacrônico do que o Império de Carlos Magno, mas é um anacronismo criador.

A lembrança desse Império cria uma esperança e a certeza de um futuro. Nós caminhamos para a restauração daquela ordem de que foi Carlos Magno um símbolo.

Carlos Magno, estatueta no museu do Louvre  Fundo: Guariento di Arpo (1310-1370).
Carlos Magno, estatueta no museu do Louvre

Fundo: Guariento di Arpo (1310-1370).

Nós podemos pedir a Carlos Magno que reze por nós.

Nem todos os episódios da vida de Carlos Magno são inteiramente claros. A Igreja não se pronunciou bem exatamente sobre se ele é santo ou não santo.

Mas, em certas regiões da Europa, se festeja uma festa do bem-aventurado Carlos Magno que os antepassados dos progressistas tomados de zelo — porque nessas horas os progressistas têm zelo — quiseram abolir a festa de Carlos Magno.

Mas o Beato Pio IX lançou um Breve no qual ele declarava que, nos lugares onde Carlos Magno era cultuado como bem-aventurado, o culto podia continuar.

Nós podemos no interior de nossas almas, pedir a Carlos Magno que nos dê essa força invencível, para nós fundarmos o Reino de Maria, como ele fundou a Idade Média, da qual ele foi a pedra angular.

Santa Joana d’Arc recebia revelações do Céu, e ela sabia bem onde estariam Monseigneur São Luís e Monseigneur São Carlos Magno, como ela disse, não é?

Então, digamos como Santa Joana d’Arc: Monseigneur São Luís e Monseigneur São Carlos Magno, rogai para que acabe o caos contemporâneo e que venha logo o Reino de Maria!

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de conferência pronunciada em 30/10/72. Sem revisão do autor)

Leia o post seguinte: Carlos Magno exorta bispos e abades a alfabetizarem todos os que possam aprender

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