Idade Média

13 outubro 2015

Os mestres medievais autores de inventos atribuídos a Leonardo da Vinci

Detalhe do relógio astronômico na Praça da Cidade Velha, Praga.
Detalhe do relógio astronômico na Praça da Cidade Velha, Praga.

continuação de post anterior: A geometria a serviço do arquiteto medieval

Em 1459, os mestres-pedreiros de Estrasburgo, Viena e Salzburg, reunidos em Ratisbona para redigir os estatutos profissionais de suas lojas, decidiram:

“Nenhum operário, nenhum mestre, nenhum parlier, nenhum jornaleiro ensinará a quem não for do nosso ofício nem fez jamais trabalho de pedreiro como tirar a elevação [alçado] a partir do plano” (J. Gimpel, Les bâtisseurs de cathédrales, Ed. du Seuil, Paris, 1958, p. 123.).

O parlier – forma germanizada de parleur – é, de certo modo, um contramestre encarregado de “falar” [parler] aos companheiros como representante e intérprete do arquiteto nos grandes canteiros de obras.

Em 1486, o arquiteto alemão Mathias Roriczer, em sua obra intitulada Livro da Construção Exata de Pináculos, explicou abertamente esse método, com o auxílio de desenhos que recordam os que Villard executara 250 anos antes, sem os considerar um segredo.

O princípio da duplicação dos quadrados já se encontra no Tratado de Vitrúvio. Tanto Villard como Magister II conheciam certamente esse princípio.

Vitrúvio diz-nos tê-lo descoberto ele mesmo num diálogo de Platão: o Menon. “Platão demonstrou destarte a duplicação, por meio de linhas desenhadas” (Vitrúvio, I, Introdução).

Se o Carnet de Villard de Honnecourt nos faz pensar nos Cadernos de Leonardo da Vinci, isso não ocorre por mero acaso e a aproximação nada tem de fortuita.

Separados um do outro por dois séculos e meio, Villard, homem da Idade Média, e Vinci, homem da Renascença, tinham recebido praticamente a mesma formação e a mesma cultura: a das artes mecânicas.

Ao redigirem apontamentos de trabalho, resultados de suas pesquisas pessoais, eles obravam em conformidade com os costumes de seu tempo.

Detalhe das engrenagens do relógio astronômico da catedral de Estrasburgo.
Detalhe das engrenagens do relógio astronômico
da catedral de Estrasburgo.

Conhece-se a existência de mais de 150 manuscritos técnicos que datam do final do século XIV e começo do século XVI.

Da Vinci utilizou os tratados de seus antecessores e de seus contemporâneos, mas é admissível que ignorasse Villard e sua obra.

Foi recentemente provado que numerosas invenções atribuídas a Da Vinci já existiam nos escritos de engenheiros como Konrad Kyeser, nascido em 1366, Robert Valturio, nascido em 1413, e Francesco di Giorgio, nascido em 1439, escritos esses que Da Vinci conhecia todos. Anotou de seu próprio punho um texto de Giorgio.

Como Villard, ele também leu Vitrúvio, cujas obras figuravam entre os volumes de sua biblioteca. Se Villard parece ter vivido de pleno acordo com os costumes do seu meio social e o status de sua profissão, Da Vinci reagiu violentamente à falta de consideração com que os humanistas trataram o técnico que ele era.

Os iluminadores de manuscritos prestaram aos arquitetos medievais uma homenagem apropriada, ao representarem Deus, o Pai, como um arquiteto-engenheiro, medindo o universo com um compasso gigantesco.

Silenciosos mas pasmosos progressos: o Relógio Mecânico

A sociedade medieval entusiasmou-se pela mecanização e a pesquisa técnica, porque acreditava firmemente no progresso, um conceito ignorado no mundo antigo.

De um modo geral, os homens da Idade Média recusaram-se a respeitar as tradições que poderiam ter freado seu ímpeto criador, e Gilbert de Tournai escrevia:

“Jamais encontraremos a verdade se nos contentarmos com o que já está descoberto… Os que escrevem antes de nós não são senhores, mas guias. A verdade está aberta a todos, ela não foi ainda inteiramente possuída”. (Gimpel, Les bâtisseurs de cathédrales, p. 163)

 

ERelógio astronômico da catedral de Estrasburgo. Bernard, mestre da escola episcopal de Chartres, de 1114 a 1119, acrescentava:

“Somos anões empoleirados nos ombros de gigantes.

“Por isso, vemos mais que eles e mais longe que eles, não porque a nossa vista seja mais aguda ou nossa estatura mais elevada, mas porque eles nos carregam no ar e nos elevam a toda a sua gigantesca altura”. (J. Le Goff, Les intellectuels au Moyen Age, ed. du Seuil, Paris, 1957, p. 17 )

 

Relógio astronômico da catedral de Estrasburgo.

A atitude de um Gilbert de Tournai e de um Bernard de Chartres levou os homens dessa época a encararem as invenções como coisa normal e a aceitarem a ideia de que haveria sempre no futuro novas invenções.

A ambição dos inventores não conhecia limites, sua imaginação ignorava fronteiras e, no entanto, de todas as máquinas extravagantes que conceberam e por vezes realizaram, uma simboliza a sua “pesquisa” científica: o relógio.

Se a teoria de Lewis Mumford sobre a origem beneditina dos relógios mecânicos é hoje controvertida, as opiniões desse autor sobre o papel da medida do tempo no desenvolvimento da civilização continuam válidas:

“A máquina-chave da idade industrial moderna não foi a máquina a vapor, foi o relógio. Em cada fase do seu desenvolvimento, o relógio é o fato saliente e o símbolo da máquina.

“Ainda hoje, nenhuma outra máquina é tão onipresente. Assim, no começo da técnica moderna, apareceu profeticamente a primeira máquina automática precisa que, após alguns séculos de esforços, iria pôr à prova o valor dessa técnica em cada ramo da atividade industrial.

“Permitindo a determinação de quantidades exatas de energia (portanto, a padronização), a ação automática e, finalmente, o seu próprio produto, a saber, um tempo exato, o relógio foi a primeira máquina da técnica moderna.

“Conservou a preeminência em todas as épocas. Possui uma perfeição a que as outras máquinas aspiram” (L. Mumford, Technique et civilisation, ed. du Seuil, Paris, 1950, pp. 23-24.).

 

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).

 

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12 março 2013

Abadias beneditinas: modelos de governo monárquico-aristocráticos-democráticos

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Foi na sala do capítulo, durante as reuniões quotidianas, que nasceram alguns modelos de participação política e de organização do poder ainda em vigor.

O capítulo monástico foi, sem dúvida, o primeiro lugar do Ocidente em que regularmente, diariamente, se verificou a relação dos membros com a Regra, se controlou a respectiva aplicação, se inculcou o seu conteúdo, se reforçou a coesão do grupo.

Porque a vida dos religiosos decorre num regime de direito. Léo Moulin provou, em numerosos estudos, de que forma o estudo das regras e das constituições dos estabelecimentos religiosos é fundamental para a ciência política contemporânea, sublinhando alguns aspectos:

– o carácter misto do governo dos religiosos (monarquia, oligarquia e democracia); isto pelo papel respectivamente confiado ao abade, aos decanos do mosteiro e a toda a comunidade;

– a natureza e a originalidade da sua assembleia legislativa;

– a primazia do poder executivo, primazia essa temperada pela necessidade de esse poder executivo se inclinar perante votos colegiais;

– as origens religiosas das técnicas eleitorais modernas;

– o sistema, complexo e sofisticado, que presidia à eleição do abade (com a participação da “sanior et major pars”), etc.

Realizações materiais eram consequência da vida religiosa.
Monges rezam em enterro, Huntington Catalog Images, f 192

Lembremos apenas isto: Cister funda a sua Assembleia Supranacional em 1115, habilitando-a a legislar, a modificar ou abrogar as leis, a interpretá-las.

Só o capítulo geral da Ordem, o Parliamentum, pode conceder dispensas e absolvições; esse capítulo elege o superior geral e os seus assistentes; pode destituí-los.

A Assembleia é a fonte de todos os poderes, a Summa Potestas. Isto, repito, em 1115, um século antes da Magna Carta e do seu embrião de regime parlamentar.

Comparadas com esta forma elaborada de governo, com estas assembleias regulares submetidas a um código eleitoral e deliberativo extraordinariamente minucioso, as instituições municipais e reais do princípio do século XII parecem bastante toscas.

Tudo o que temos vindo a dizer foi lapidarmente resumido por Taine:

“Pelo seu trabalho inteligente, voluntário, executado em consciência e conduzido a pensar no futuro, o monge produz mais do que o leigo. Pelo seu regime, sóbrio, concentrado, económico, o monge consome menos do que o leigo. É por isso que, aí onde o leigo tinha falhado, ele prospera.”

 

 


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

FIM

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26 fevereiro 2013

O espantoso desenvolvimento medieval sob orientaçao monacal cheia de sabedoria

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Beneditinos na França
Beneditinos na França

Continuação do post anterior

“Desbravadores, construtores, arquitectos, jardineiros, hortelãos, piscicultores, silvicultores, agricultores, criadores de coelhos, criadores de imensos rebanhos de carneiros (os cistercienses – não nos esqueçamos de que os cistercienses ingleses foram os primeiros a desenvolver as quintas destinadas à criação do carneiro e as redes de exportação da lã para o Continente), patrões de explorações agrícolas modelo, únicos mestres (eficazes) da assistência técnica, e isso durante séculos, os monges são por todo o lado, e senão na origem de tudo, pelo menos obreiros ativos do que será, um dia, a Europa.”

Antes de mais, como realizadores de modelos urbanos. “Vivemos como se fosse numa cidade”, exclama um deles num sermão do Advento.

É verdade, a abadia dos séculos XI e XII vai ser, como a cidade ocidental, um espaço totalmente novo, criado por homens cujo projeto é viverem nela uma vida de grupo mas também uma vida individual, diferente da vida que se faz cá fora, na sociedade com a qual romperam.

Tal como a cidade (e antes dela), a abadia é centrada: com numerosas vias de circulação, o seu espaço central vazio, correspondente à praça, é o local por excelência das trocas e da distribuição de funções, animadoras do conjunto, sistemática e racionalmente separadas e diferenciadas. À imagem da cidade, a abadia é uma entidade cercada através de um muro ritmado por portas.

Monges beneditinos trabalham os campos no sul da França
Monges beneditinos trabalham os campos no sul da França

Sem o terem procurado conscientemente, aí os temos pioneiros do desbravamento e arroteamento de terras, da drenagem de pântanos, da construção de barragens e diques; e percursores na utilização das novas energias (a madeira e a água), de que o Ocidente tinha tanta necessidade, estando como estava em plena expansão demográfica e urbana.

Era preciso conhecer melhor os monges “engenheiros hidráulicos”, nota D’Haenens.

Há realizações monumentais célebres: o plano de 1167, no Saltério do Trinity College, em Cambridge, com a rede de canalizações de água em Canterbury; o “hino à água” de um monge de Claraval no século XIII; a rede de esgotos de Villers-la-Ville; o aqueduto suspenso de Obazine (final do século XII); a água corrente em todas as celas, desde o século XII, na Grande Chartreuse.

Os monges lavavam as mãos antes das refeições, e todas as sextas-feiras o abade ou o prior lavavam os pés aos outros monges, como Cristo fizera aos apóstolos antes da última ceia.

Monjas beneditinas em região de desmatamento continuam a tradição inicida na Idade Média.  Foto da primeira metade do século XX, em Montana, EUA
Monjas beneditinas em região de desmatamento continuam a tradição inicida na Idade Média.
Foto da primeira metade do século XX, em Montana, EUA

Por isso, habitualmente a canalização servia em primeiro lugar a enfermaria, depois a fonte do claustro e só depois a cozinha.

Sabe-se também que os cistercienses estiveram entre os primeiros a utilizar o martelo hidráulico.

Em Pontigny, a queda de água da levada que os monges fizeram no século XII desenvolvia tão grande força motriz que, ainda em 1800, alimentava três rodas hidráulicas.

Mas as realizações hidráulicas dos monges brancos são mais e mais variadas: construção de aquedutos, diques e barragens (mesmo em rios de média dimensão); cisternas eficazes a aproveitar águas infiltradas e a prevenir inundações; escolhas certeiras de localização de cenóbios, ocupando o único ponto com água num cenário de aridez; evacuação de água do interior de minas, etc.

‘Contra a sua vontade’, os cistercienses experimentaram novas técnicas de exploração. Isso pela própria força das coisas, porque colocavam, nas suas realizações temporais, a seriedade, a inteligência, a paixão que animavam as suas práticas de interiorização espiritual.

Por isso foram responsáveis por tecnologias agronómicas e industriais revolucionárias. Voltemos a Duby:

“Monges e conversos, rendeiros do senhor Deus, melhoraram as raças animais – e um testemunho disso é o progressivo aumento dos pergaminhos que eles fabricavam com a pele de animais jovens – conseguiram reconstituir a fertilidade das suas terras por meios menos toscos.

Richard, abade de Wallingford em trabalhos de trigonometria, History of the abbots of St Albans, século XIV, British Library
Richard, abade de Wallingford em trabalhos de trigonometria.
History of the abbots of St Albans, século XIV, British Library

“Foram os campeões do adubo, das rotações fecundadoras; foram os campeões do trabalho da terra. Avisados acerca das melhores maneiras de atrelar os bois, aplicando ao solo dos campos, para melhor o revolver, o ferro…no século XIII, a Ordem de Cister colocou-se na vanguarda do desenvolvimento da metalurgia, [solicitando aos príncipes a doação das ferrarias mais ricas, domesticando a força das águas correntes para melhor bater o metal]. Cister, que erigiu as suas forjas com tanta majestade como os seus santuários.”

Desta forma, a cidade monástica prolongou-se para fora da muralha em propriedades e explorações. Projecções essas que foram racionalmente acompanhadas e pensadas nos campos da contabilidade, dos cartulários, dos censuais.

Por isso deram lugar a grandes aperfeiçoamentos de modelos de gestão e traduziram-se em práticas avançadas de arquivística, de gestão contabilística, de recenseamento fundiário e de cadastro de terras.


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

Continua no próximo post

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12 fevereiro 2013

Requinte da vida temporal: frutos abençoados dos monges que renunciaram ao mundo

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 7:35
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Monges preparando o famoso Bénédictine
Monges preparando o famoso Bénédictine

Continuação do post anterior

Todos os álcoois e licores franceses, dizem os especialistas, passaram por um período monástico; do mesmo modo, os mosteiros tiveram um papel decisivo na história dos queijos.

Acompanhemos Léo Moulin numa longa citação:

“Os monges eram os únicos a ter reservas de vinho, de fruta, de cereal; os meios financeiros e tecnológicos para os tratar; a inteligência e o espírito de observação, unidos ao espírito de invenção, para o fazer; as capacidades para deixar envelhecer o produto…

“Grande viajante, o meio monástico presta-se naturalmente à transmissão de técnicas, de ‘segredos’, de habilidades. Para ele não existe o risco de se extinguir a linhagem, como acontecia a tantas famílias nestes séculos mortíferos da Idade Média.

A contemplação do sublime inspirou a produção de requintes
A contemplação do sublime inspirou a produção de requintes

“Pode acumular reservas: a sua arte de cultivar as terras e a abstinência dos monges permitem-lho. Não comercializa nada, pelo menos no princípio.

“Que fazer desta cevada, senão cerveja? E destas uvas, senão vinho? E destas maçãs, senão cidra?

“E deste mel, senão hidromel? Que fazer finalmente deste leite, que se tem em abundância, senão queijo?”.

Uma pesquisa sobre as rações alimentares dos monges deu resultados surpreendentes. Em Corbie, em Saint-Germain-des-Prés e em Saint-Denis, cada irmão recebia diariamente 1,700 kg de pão, 1,5 litros de vinho (duas garrafas das nossas) ou de cerveja (cinco latas), cerca de 100 gramas de queijo, 230 gramas de legumes secos (favas ou lentilhas), 25 gramas de sal, um grama de mel e 30 gramas de gordura animal.

Os cartuxos seguiram o exemplo dos beneditinos: fábrica de Chartreuse

Nada de carne, é claro. Isto para três refeições diárias. As monjas recebiam um pouco menos, porque se pensava que, sendo mulheres, comiam menos (mas tinham direito a pão de melhor qualidade).

Em comparação, os leigos que trabalhavam para o mosteiro de Corbie recebiam menos pão (1,300 kg) mas bebiam 1,45 litros de vinho e 2,3 litros de cerveja.

Ao contrário dos monges, recebem ainda mais de 100 gramas de toucinho e 218 gramas de carne de porco salgada. A que se juntam 400 gramas de legumes secos, para puré de legumes e 138 gramas de queijo.

Tinham ainda 654 gramas de azeite e 327 gramas de um condimento salgado à base de peixe, 27 gramas de pimenta, 54 gramas de cominhos, sal e vinagre à discrição.

Quer dizer, os leigos que trabalham para Corbie recebem mais comida do que os monges. Eis uma conclusão que desafia frontalmente as ideias feitas sobre o assunto.

São rações enormes. Tudo gira em torno do pão; o que se come com o pão é o companaticum; daqui tiramos nós a palavra companheiro, etimologicamente aquele com quem se partilha o pão.

São Bento entrega a Regra a seus discípulos
São Bento entrega a Regra a seus discípulos

Os responsáveis pela alimentação não tinham em grande conta as couves, os frutos sasonais, “as ervas do jardim”; como em todas as civilizações rurais, só alimenta o que é consistente.

Por isso, para ajudar a engolir aquelas massas enormes de pão e de legumes secos, era preciso afogar tudo em quantidades torrenciais de vinho e de cerveja.

Contra a ideia tradicional de uma Idade Média esfomeada, Michel Rouche apresenta-nos os comensais carolíngios a empanturrarem-se de comida.

Alguns exemplos de grandes celebrações em mosteiros franceses sugerem-nos consumos de quatro ovos e de mais de um frango por cabeça, o todo bem cozinhado na gordura de três porcos (e a somar-se às refeições regulares).

Quer dizer que não houve fomes no Ocidente medieval? Claro que houve, bastantes e duras.

São Bento preside uma refeição dos monges

Mas quando a única fonte a dar conta dessas fomes é uma crónica monástica, como tantas vezes é o caso, deveremos formular uma prudente reserva: estaremos perante um ano de más colheitas.

Mas o corpo não precisa só de alimento, requer também higiene, individual e coletiva: a Regra prevê a toilette matinal, o banho e a abstinência sexual.

E prevê o cuidado com os doentes. Estes são agrupados num local específico do mosteiro, na enfermaria, afastados do quadrilátero do claustro.

Têm a sua própria alimentação, o seu horário, as suas salas, os seus regulamentos, o seu quotidiano.

Podemos dizer que é assim que nasce e se aperfeiçoa o espaço hospitalar ocidental (protótipo do hospital urbano, ao lado da cidade), num local próprio, com o seu dia-a-dia específico inspirado pelo quotidiano monástico medieval.

E não esqueçamos que a hospitalitas monástica tem dois filhos: o hospital, como acabámos de ver, mas também o hotel.


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

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29 janeiro 2013

O projeto monástico de São Bento e nacimento da cultura e da civilização

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Ora et labora ("reza e trabalha") é o leimotiv beneditino
Ora et labora (“reza e trabalha”) é o leimotiv beneditino

Continuação do post anterior

É curioso que o projeto beneditinose mostra especialmente criativo no domínio do quotidiano, do corpo, dos sentidos, da cultura material e profana, com as quais se propõe precisamente romper.

Mais: nos séculos XI e XII os mosteiros beneditinos de homens e de mulheres foram mesmo criadores de valores profanos tipicamente europeus e ocidentais, que depois a sociedade fez seus.

Os monges e o corpo

O aspecto mais importante: a alimentação. Numa abadia, isso pode ser complicado, mesmo triplamente complicado: porque é preciso preparar diariamente comida para um grande grupo, pela imposição estrita da proibição de carne de quadrúpedes e pelos frequentes jejuns. A comunidade tem que resolver muitos e difíceis problemas:

– a produção de matérias primas em autarquia;

– a preparação e a transformação dessas matérias primas em alimentos comestíveis;

– a conservação e a armazenagem em stock dos produtos.

Repare-se nisto: é preciso dispor em permanência, e em grande quantidade, de substitutos para a alimentação à base de carne; é preciso investir nas frutas, nos legumes, nos derivados de leite, na criação de capoeira e na piscicultura.

Na piscicultura houve realizações verdadeiramente espetaculares: arranjo de enormes tanques; construção de barragens ou de viveiros, em cascata ou alimentados por água corrente (por vezes constituindo conjuntos luxuosos e monumentais); técnicas sofisticadíssimas de repovoamento de peixes, de fecundação artificial (nomeadamente na Borgonha), de criação de determinadas espécies (as carpas da Alemanha e da Polónia), de maneiras de pescar (o salmão na Irlanda).

Monges na colheita de trigo
Monges na colheita de trigo

Entremos nas cozinhas e observemos as experiências de organização do espaço, os fornos, as chaminés, os esgotos, por vezes conduzindo a resultados extraordinários: Alcobaça, é claro, mas também Fontevrault, Glastonbury, Villers-la-Ville. Mas podíamos falar também na organização do trabalho, nos utensílios…

Centremo-nos na preparação e transformação dos alimentos.

Celeiro de Cluny: tão grande que hoje abriga um museu
Celeiro de Cluny: tão grande que hoje abriga um museu

Como já foi observado por historiadores da alimentação e do quotidiano, quase todos os progressos realizados, desde os inícios da Idade Média, nos diversos sectores da economia e da tecnologia alimentares, são devidos aos esforços metódicos e perseverantes dos estabelecimentos religiosos; a cozinha dos religiosos está, involuntariamente, na origem da gastronomia.

A proibição da carne e os jejuns estimulam a criatividade, as experiências dietéticas e culinárias, a exploração das virtualidades de outros produtos alimentares diferentes da carne vermelha.

É preciso armazenar grandes stocks e conservá-los em bom estado, para ter sempre disponível uma reserva alimentar para um grupo numeroso.

Não é só um problema para o cozinheiro, é também para o celeireiro, que cuidará dos edifícios e das condições de armazenagem, da gestão de stocks, do tratamento de excedentes.

Muitos celeiros cistercienses ficaram famosos (Pontigny, Longpont, Royaumont, Noirlac, Clermont, Villers). O celeiro de Claraval, do fim do século XII, tinha 75 m de comprimento; o de Vauclair, do século XIII, 70x15m, o que dá 1050 m2; o de Eberbach, construído pelo ano de 1200, media 93×16 m (=1488 m2). Seria interessante saber como é que eles eram aproveitados interiormente.

Lembremo-nos, além disso, das granjas monumentais, ou da famosa fábrica de cerveja de Villers-la-Ville (1270-1276), com as dimensões de 42X12 m (=504 m2).


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

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15 janeiro 2013

Dos licores aos Hospitais: os frutos incontáveis da obra de São Bento

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São Bento, Biblioteca Nacional de Budapest

“Fuit vir…era uma vez um homem, Bento por graça e de nome, que desde os primeiros anos da sua infância mostrou sensatez de velho”.

Assim começa a “Vida e Milagres do Venerável Bento”, escrita pelo papa Gregório Magno em 593 ou 594, e a única fonte propriamente dita de que dispomos (para além da Regra), se quisermos saber algo da existência do patriarca dos monges do Ocidente, ou do pai da Europa.

Os santos eram assim: nasciam sábios e maduros, não brincavam, não eram irrequietos, não faziam as tropelias que todos os miúdos de todas as épocas fazem.

Gregório podia ter elaborado uma biografia bem mais completa, para nosso esclarecimento; não o fez porque o que lhe interessava era sim escrever uma hagiografia edificante para o povo de Deus.

Não sabemos quando morreu São Bento. Com toda a certeza após 547. Gregório conta que o velho monge viu a morte chegar: seis dias antes mandou que lhe abrissem a sepultura.

Quando sentiu o fim próximo, pediu aos companheiros para o levarem para o oratório: “e sustentando os membros debilitados nos braços dos seus discípulos, de pé, mãos erguidas para o céu, entre palavras de oração exalou o último suspiro.”

São Bento com sua Regra, afresco medieval

Nesse momento, dois irmãos perceberam que o seu abade tinha morrido, pois viram, do mosteiro até ao céu [a cella in coelum] estender-se uma estrada coberta de alcatifas e iluminada por lâmpadas sem conta.

No topo estava um personagem de aspecto venerável e cercado de luz, que lhes perguntou que caminho era aquele. Responderam que não sabiam.

Então ele disse-lhes: Este é o caminho pelo qual sobe ao céu Bento, amado do Senhor.

Quando, na segunda metade do século VI, o Ocidente sucumbia sob a anarquia política, a regressão da cultura erudita, o desaparecimento de formas mais complexas de governo, só uma entidade estava em condições de liderar a reorganização política e moral: a Igreja, que contava nas suas fileiras com os homens mais sábios e com as instituições mais fortes da época.

Separada de Roma, pela primeira vez sozinha a contas com o seu destino, a igreja amadureceu rapidamente. E apoiou-se em dois pilares: o papado e os monges.

Quando dizemos o papado estamos a falar de Gregório Magno, quando dizemos os monges estamos a pensar em São Bento de Núrcia. Foi com eles que a igreja pôde exercer uma indiscutível liderança da Europa ocidental.

1. No campo da cultura

Os mosteiros tinham escolas, nas quais aprenderam a ler e a escrever quase todos aqueles que, antes do século XII, sabiam fazê-lo; e tinham scriptoria, nos quais se copiaram alguns dos mais preciosos monumentos do pensamento clássico.

2. Na economia

À frente do mosteiro, o abade dirigia uma verdadeira multidão de camponeses dependentes. Um senhor, portanto. Mas um senhor que foi quase sempre um administrador mais eficaz dos seus domínios do que os seus correspondentes laicos; e que foi, muitas vezes, um pioneiro nos métodos de cultivo.

Quatro séculos após a morte de São Bento, os seus monges eram os melhores agricultores da Europa ocidental.

Monjas  beneditinas vivem hoje Regra medieval
3. Na religião

O essencial dos mosteiros beneditinos era a procura de uma ligação íntima com Deus.

O mundo à volta do mosteiro pressionava a todo o tempo os monges para que eles, com as suas orações e missas, obtivessem para senhores, cavaleiros ou homens mais humildes, a salvação que a vida que haviam levado pressagiava duvidosa.

Por exigência da sociedade laica, o tempo dos monges passou a estar ocupado quase em permanência com a oração.

No templo multiplicaram-se as capelas; os oficiantes revesavam-se, faziam turnos.

Nas grandes abadias do Ocidente – em Saint Gall ou no Monte de Saint Michel – rezava-se noite e dia.

4. Na política

Os seus monges iriam ser braços direitos de reis e príncipes, ou poderosos senhores locais com competências políticas e judiciais sobre populações dependentes.

Mas foi isso mesmo que aconteceu e, perdoe-se o determinismo do raciocínio, nem poderia ter sido de outra maneira. Estes monges tinham uma série de capacidades e talentos que faziam imensa falta aos reis da Alta Idade Média – e que quase mais ninguém tinha (à exceção de alguns bispos).

Podiam servir como escrivães, como professores, como chanceleres, como conselheiros…e assim foram utilizados em todas as monarquias do ocidente.

5. Na sociedade

É José Mattoso quem melhor explica o importante papel social desempenhado pelos monges a diminuir antagonismos, a pacificar estratos mais belicistas, a ajudar a integrar minorias desenraizadas, a reafectar ao usufruto dos mais pobres terras que estes haviam perdido.


(Autor: (excertos de) Luís Miguel Duarte, Professor Catedrático de História Medieval na Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

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