Idade Média

10 novembro 2015

Defesa da Igreja e da justiça

 

“Em todas as suas ações — diz o autor de ‘l’Entrée en Espagne’ — o cavaleiro deve se propor um duplo fim: a salvação de sua alma e a honra da Igreja, da qual ele é o guardião”.

Sustentar a Cristandade é um termo que aparece frequentemente em nossos velhos poemas, e que exprime bem o que quer dizer.

Quando o jovem deixa a casa paterna, a última palavra que a mãe lhe dirige é para lembrá-lo deste augusto dever: “Serve a Jesus Cristo e a Santa Igreja”.

Ao mesmo tempo que recebia as armas de cavaleiro, o escudeiro pronunciava, a pedido do celebrante, o juramento de respeitar as leis da Cavalaria e recitava alguma oração no gênero daquela, lindíssima, que se encontra no cerimonial, datado de 1293-1295, do Padre Guilherme Durant, e da qual Marc Bloch nos deu uma excelente transposição:

“Senhor Santíssimo, Pai Todo-Poderoso, Vós que permitistes na terra o uso da espada para combater a perfídia dos maus e defender a justiça, que para a proteção do povo quisestes constituir a Ordem da Cavalaria, fazei com que, dispondo o seu coração ao bem, o vosso servo que aqui está não faça nunca uso desta espada ou de outra para lesar alguém injustamente, mas que se sirva sempre dela para defender a Justiça e o Direito”.

 

O espírito guerreiro que os animava bem se expressa nesta poesia, habitual entre os cavaleiros medievais:    Si j’avais un pied en ParadisEt l’autre em mon château,

Je retirerais, pour aller me battre,

Le pied que j’aurais là-haut.

Se eu tivesse um pé no Paraíso

E outro no meu castelo,

Eu retiraria, para ir combater,

O pé que estivesse no Céu. (Léon Gautier, “La Chevalerie”, Arthaud, Paris, 1959, pp. 31-32).

Baudouin de Condé crê que o cavaleiro deve continuar ativo em sua armadura durante todo o tempo que suas forças o permitam.

Até às portas da morte, até o último suspiro, o pensamento e a recordação dos feitos e das batalhas persegue a grande maioria desses homens de armas.

Um deles morre murmurando: “No céu, vou refazer a guerra de espada e de lança”.

Outro moribundo, sem desanimar, pede aos que o estão velando que o ajudem a levantar-se e armar-se, para acertar uma “quintana”. Certo cavaleiro dizia que era preciso haver mouros no paraíso, que lhes dessem ocasião de novos combates.

Numerosos guerreiros, para serem mais garantidamente admitidos na bem-aventurada morada, tomam a precaução de vestir, antes de morrer, hábitos de monge, com os quais serão enterrados.

Vendo-os aparecer em tais vestes, São Pedro não ousará fechar-lhes as portas. Esse uso praticado pela Cavalaria, de se enterrar com hábito de monge, continuou até o fim do século XIV.

Em algumas abadias havia monges especialmente designados para vestir os cavaleiros que exprimissem tal desejo.

Se o cavaleiro morresse em uma batalha, depositava-se sobre a tumba sua bandeira, seu estandarte e o pequeno estandarte de seu elmo. Se ele não tivesse morrido em batalha, era permitido colocar-se apenas duas destas insígnias.

Suvanes, em seu “Tratado sobre a Espada Francesa”, fala do costume de se levar a uma igreja as armas do cavaleiro morto, para serem conservadas no tesouro do templo.

A espada de Santa Joana d’Arc encontra-se na igreja de Santa Catarina de Fierbois. A Santa guerreira considerava um verdadeiro dom celeste a espada que recebera.

Os cruzados que tinham combatido na Terra Santa, ou mesmo aqueles que apenas haviam pronunciado o voto de fazê-lo, eram enterrados com as pernas cruzadas, atitude em que podemos contemplá-los sobre os túmulos, nos claustros dos mosteiros.

O cavaleiro ansiava pelo momento em que pudesse abandonar os torneios e seguir para além-mar, para a Terra Santa. Só assim poderia adquirir a reputação de “batalhador”.

São Luís IX, em sua imensa piedade, não se cansava de dizer que preferia o cognome de “batalhador” ao de “devoto”.

Preguiça e avareza aparecem aos olhos do cavaleiro como inimigos mortais. Por isso, não bastava conquistar um prêmio num torneio ou uma batalha vitoriosa. Ao voltar para casa, ele deveria mostrar-se benevolente para com todos, amável, polido, dar esmolas aos pobres, distribuir suas velhas túnicas aos menestréis.

À valentia, generosidade e cortesia devia juntar-se a modéstia.

Sentimentos religiosos dos cavaleiros

Ir à missa todas as manhãs, sem distinção entre Domingo e dias da semana, era obrigação à qual os cavaleiros se submetiam em consciência.

Durante a leitura do Evangelho, tiravam a espada da bainha e a sustentavam na mão até o fim da leitura, indicando com isto a sua vontade de defender em todas as circunstâncias a Igreja e a Fé.

A oração que parece ter sido a mais divulgada nos séculos XIII a XVI é a seguinte, que se encontra em grande número de livros de horas:

“Alcançai-me o dom desta Graça Divina, que será a protetora e a mestra dos meus cinco sentidos, que me fará cumprir as sete obras de misericórdia, crer nos doze artigos da Fé e praticar os dez mandamentos da Lei, e que enfim me livrará dos sete pecados capitais até o último dia da minha vida”.

Eram orações tradicionais, que nem todos os cavaleiros podiam estar repetindo, se não as decoravam.

Um dos mais renomados cavaleiros franceses era Étienne Vignolles, chamado La Hire, o ativo colaborador de Santa Joana d’Arc. Com o bravo Dunois, ele ia tentar fazer levantar o cerco de Montargis, assaltada pelos ingleses.

Aproxima-se do campo inimigo e suplica a um capelão, tendo em vista os perigos que vai enfrentar, que lhe seja dada a absolvição dos pecados que ele possa ter cometido.

O padre lhe pede que se confesse. Impossível, pela urgência, pois o ataque é iminente. A absolvição pedida é dada, sob a condição de La Hire dizer a Deus uma oração.

Ele junta devotadamente as mãos, e diz em gascão: “Deus, eu te suplico que faças hoje por La Hire o mesmo que Tu gostaríeis que La Hire fizesse por Ti, se ele fosse Deus e Tu fosses La Hire”. E ele estava certo de ter rezado muito bem a Deus.

 

 

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3 novembro 2015

O ideal da Cavalaria em ação nas Cruzadas

O bispo Adhemar de Monteil leva a Santa Lança na vitória libertadora de Antioquia
O bispo Adhemar de Monteil leva a Santa Lança na vitória libertadora de Antioquia

Nascida da união de dois anelos aparentemente contraditórios — a caridade cristã e a força do guerreiro — a Cavalaria deixou na História um sulco prateado que ninguém conseguiu apagar.

Num mundo que surgia das ruínas do paganismo romano, lançou um raio de beleza ideal e criou condições para a maior epopeia que os séculos viram: as Cruzadas.

O cavaleiro nasceu na Igreja Católica e formou-se na sagrada doutrina do Mestre da Galileia, que ele aprendeu a admirar nos coloridos vitrais e nas serenas imagens das catedrais medievais. Em sua alma trazia impressa a aprazível, bondosa e suave imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele sabe perfeitamente que a vida do homem sobre a Terra é um combate — Militia est vita hominis super terram (Job, 7,1) — e ao elevar seu olhar até o Senhor Justo e Bom (Sl. 24, 8-9), o Rei paciente e bondoso, generoso e cheio de misericórdia (Sl. 102, 8-10), que passou a vida fazendo o bem, percebe que Ele foi desprezado, injuriado, perseguido, traído, preso, flagelado, ultrajado, e finalmente morto infamemente entre dois vulgares ladrões.

Em face a essa incomensurável injustiça, a alma angustiada do homem medieval repete o brado do leal Clóvis: “Ah, se eu estivesse lá com meus francos!…”

O cavaleiro quer estabelecer aquilo que Nosso Senhor Jesus Cristo veio instaurar.

Daí o grandioso momento em que, reunidos os cavaleiros na praça de Clermont-Ferrand, ao chamado do Bem-aventurado Urbano II, as Cruzadas nasceram!

Inspiradas pelo papado, nutridas da doutrina da Cátedra da Verdade, é nela que melhor encontramos a explicação das mesmas.

As Cruzadas — afirma Inocêncio III — tinham por fim “arrebentar militarmente os bárbaros pagãos e conservar a herdade de nosso Senhor, vingar as injúrias ao Crucificado e defender a terra onde nasceu o Salvador”.

São Cruzadas, em primeiro lugar, contra os infiéis que se instalaram impunemente “naquela cidade em que Nosso Salvador quis padecer, e em outras que os pagãos conspurcam livremente”; mas o papado move também cruzadas contra os hereges que querem destruir a Cristandade, contra os cristãos rebeldes, contumazes na excomunhão ou culpados de crimes eclesiásticos gravíssimos.

São Bernardo de Claraval, incansável pregador das Cruzadas.
São Bernardo de Claraval, incansável pregador das Cruzadas.

 

O lema invocado por Celestino III é extraído dos Evangelhos:

“Quem não está com Cristo, como a doutrina evangélica ensina, é um inimigo.

“Praticarias o infame vício da ingratidão, ficarias coberto com o manto da infidelidade e serias réu do crime de condenação eterna se, estando Jesus Cristo, Nosso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores, expulso da terra que comprou com seu próprio Sangue, e como que cativo dos sarracenos por causa de seu salutar sinal da Cruz, tu negligenciasses tomar parte na Cruzada.

“Indigno se torna da herança eterna, e bem pode ser excluído da mesma — o que não pode deixar de causar terror — aquele que não acende seu zelo pela Fé Cristã, não se move pelas injúrias feitas a Jesus Cristo e não se abrasa diante da profanação do Santuário e das afrontas feitas ao Redentor. Como poderá ser co-herdeiro com Cristo quem negligenciou prestar-lhe socorro, como varão, quando Ele precisava?”

 

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27 outubro 2015

Origens da Cavalaria medieval

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O 'adoubement' era a sagração do cavaleiro e marcava seu ingresso na cavalaria.
O ‘adoubement’ era a sagração do cavaleiro e marcava seu ingresso na cavalaria.

Podemos agora afirmar que existiram duas organizações paralelas: o exército feudal e a Cavalaria.

O exército feudal compreenderia tropas a cavalo e tropas a pé. Entre as primeiras estariam os diversos tipos de cavaleiros e escudeiros, cujos nomes derivariam da espécie de feudo que possuíssem ou da natureza de jurisdição que exercessem em seus territórios. Seus membros seriam recrutados entre a nobreza feudal.

Nas tropas a pé encontravam-se burgueses e determinados servos da gleba. Eram flecheiros e besteiros. Havia também os que se armavam com maça ou machado.

Qualquer um desses guerreiros podia ser armado cavaleiro, em virtude de seus atos de bravura ou de sua honestidade moral. A princípio, o cerimonial usado para conferir essa dignidade fora simplesmente militar (séc. IX e X).

Com a maior influência da Igreja Católica, começou a surgir o cerimonial religioso, que incluía a ação do sacerdote como parte integrante do “adoubement” (séc. XI).

Finalmente formou-se o cerimonial litúrgico, que atribuía aos membros do clero o direito de armar cavaleiros os homens de armas dignos (séc. XIII).

É bem provável que, no começo, a honra da Cavalaria fosse concedida tendo-se em vista sobretudo o valor militar do candidato. Com a ação da Igreja, modificou-se em parte essa visualização, preferindo-se atender muito mais às virtudes morais do guerreiro do que às suas qualidades físicas.

Não estamos de acordo com aqueles que afirmam que a origem da Cavalaria estaria nos costumes primitivos dos germanos. Os que lhe dão tal paternidade costumam apoiar-se no simples fato de que a entrega da espada era comum entre as tribos bárbaras.

Entretanto, a Cavalaria era uma distinção feita para a recompensa dos guerreiros excelentes. Existe nela uma idéia de que os atos de virtude devem ser simbolizados em alguma instituição.

Ora, a entrega das armas entre os bárbaros, ao que tudo indica, nunca significou uma recompensa por um ato de virtude, mas simplesmente conferia a um homem livre o direito de usar das armas.

Juramento durante a cerimônia de 'adoubement'.
Juramento durante a cerimônia de ‘adoubement’.

Ainda que houvesse entre os germanos certos cerimoniais muito próximos aos que se encontram na Cavalaria, jamais aqueles cerimoniais quiseram comemorar entre eles um valor moral, mas sempre tiveram em vista um fim prático, como seja o acréscimo de mais um guerreiro para a defesa da tribo.

A nobreza de concepção que se encontra na própria instituição da Cavalaria ultrapassa as possibilidades de realização dos bárbaros. Por isso essa instituição se deve, em última análise, à atuação evangélica da Igreja Católica entre esses povos.

Não queremos afirmar com isso que a Igreja teria previsto e ditado as normas de como seria a Cavalaria.

Sem a atuação da Igreja através da distribuição das graças de conversão a esses povos bárbaros, jamais teria nascido entre eles a ideia de uma tal instituição. Portanto, mais uma vez, podemos dizer que só à Igreja Católica é que devemos a origem mais profunda da Cavalaria.

 

Evolução da Cavalaria medieval

A Cavalaria assim compreendida sofreu um desenvolvimento orgânico muito importante. Se de um lado ela significava uma distinção às virtudes morais e naturais praticadas por certos guerreiros, de outro lado, por uma espécie de decorrência, ela originou a formação de agrupamentos, onde se praticava o ideal de vida do guerreiro católico.

Daí os dois ramos em que podemos dividir a Cavalaria: o civil e o religioso. A Cavalaria civil seria, de acordo com a exemplificação já vista, comparável a uma condecoração conferida àqueles guerreiros que se destacassem por seus atos de virtude militar ou moral.

A Cavalaria religiosa seria uma espécie de confraria religiosa ou Ordem Terceira, destinada a formar o espírito militar católico naqueles que tivessem inclinação para tal.

A existência dessa segunda espécie de Cavalaria se acha confirmada não só pela criação das Ordens Militares, como também pelo seguinte trecho:

“Guilherme, Conde de Holanda, tendo acabado de ser coroado imperador em Aix-la-Chapelle, foi feito cavaleiro em Colônia, no ano de 1248; porque era somente escudeiro, e as leis do império determinavam que o imperador só devia ser coroado se fosse cavaleiro. Por isto, o rei da Boêmia o fez cavaleiro.

“Eis as cerimônias que se praticaram nessa ocasião. Durante a Missa, celebrada pelo Cardeal Capuccio do Título de São Jorge au Voile d’Or, o Rei da Boêmia, após o Evangelho, apresentou a este Prelado o Conde de Holanda, dizendo-lhe:

‘Nós apresentamos a Vossa Reverência este escudeiro, suplicando muito humildemente que Vossa Paternidade receba sua profissão e seu votos, a fim de que ele possa entrar em nossa Sociedade Militar’.

“O Cardeal disse ao Conde: ‘Segundo a origem da palavra cavaleiro, é preciso que aquele que quer combater tenha grandeza de alma, que seja de condição livre, que seja dadivoso, que seja corajoso e que tenha muita destreza.

‘Que tenha grandeza de alma, a fim de não se deixar abater nas adversidades; que seja de condição livre por seu nascimento; que se faça honrar por sua liberalidade; que demonstre coragem quando comandar e que dê provas de suas destrezas nas ocasiões.

‘Mas antes de pronunciar os votos de vossa profissão, a fim de que não os façais sem saber ao que vos obrigais, escutai as regras da Cavalaria:

‘é preciso ouvir todos os dias a Santa Missa, expor vossa vida em defesa da Fé Católica, garantir da pilhagem a Igreja e seus ministros, proteger as viúvas e os órfãos, evitar as guerras injustas, aceitar os duelos para libertar o inocente, não alienar os bens do império, e viver diante de Deus e diante dos homens sem nenhuma falta.

‘Estas são as regras da Cavalaria, e se as observardes fielmente, obtereis muita honra nesta vida, e gozareis, após vossa morte, da eternidade bem-aventurada.

“Após isto, o Cardeal tomou as mãos do Conde de Holanda, e tendo-as encerrado no Missal onde acabara de ler o Evangelho, perguntou-lhe se queria receber a Ordem da Cavalaria, em nome do Senhor, e fazer profissão dessa Ordem conforme a regra que ele acabava de explicar.

“O Conde, tendo respondido que a queria receber, deu-lhe sua profissão por escrito, que ele pronunciou nos seguintes termos:

“Eu, Guilherme de Holanda, Príncipe da Milícia e vassalo do Santo Império, sendo livre, faço juramento de guardar a regra da Cavalaria, em presença do Senhor Cardeal do Título de São Jorge au Voile d’Or e Legado da Santa Sé, por estes Santos Evangelhos que toco com a mão”.

Rei da Boêmia deu-lhe então um grande golpe sobre o pescoço, dizendo-lhe: ‘Lembrai-vos, em honra de Deus Todo-Poderoso, que eu vos faço cavaleiro e vos recebo com alegria em nossa Sociedade; e lembrai-vos também de que Jesus Cristo recebeu uma bofetada, que d’Ele se riram diante do Pontífice Anás, que foi revestido de uma túnica de louco, que sofreu zombarias diante do rei Herodes, que foi exposto nu e preso a uma cruz.

“Eu vos peço de ter sempre no pensamento os opróbrios d’Aquele cuja Cruz aconselho-vos a trazer sempre’. Após a Missa ter chegado ao fim, saíram da Igreja ao som de trombetas, timbales e fanfarras.

“O Conde fez um desafio à lança com o filho do rei da Boêmia, e o perseguiu com a espada na mão, como para começar a cumprir as funções da Ordem com a qual acabava de ser honrado” (“Histoire des Ordres Monastiques, Religieux et Militaires, et des Congrégations Seculières de l’un et l’autre sexe, qui ont été établies jusqu’à présent” – Nicolas Gosselin, Paris, 1775, vol. IV, p. 44 ss).

Esse trecho confirma a tese de que havia uma Sociedade Militar, na qual se entrava por meio de uma profissão, fazendo-se votos e obedecendo-se a regras. Ora, isto é o que sucede nas Ordens Terceiras religiosas. Fica, portanto, provado que existia uma Cavalaria religiosa.

Quanto às Ordens Militares, basta recordar que muitas delas exigiam de seus membros votos perpétuos de castidade, obediência e pobreza. Os cavaleiros viviam em comunidades, recitando o Ofício Divino e trajando hábitos especiais.

Seria preciso, todavia, estudar melhor a natureza jurídico-eclesiástica das Ordens Militares de Cavalaria. Como o próprio nome indica, parecem estar incluídas na categoria das Ordens Religiosas dentro da Igreja.

 

 

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20 outubro 2015

Como se entrava na Cavalaria medieval?

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Beato Charles de Blois, duque da Bretanha, igreja Notre-Dame de Bulat-Pestivien
Beato Charles de Blois, duque da Bretanha,
igreja Notre-Dame de Bulat-Pestivien

Baseados no conceito de “cavaleiro”, podemos fazer uma ideia do significado das diversas etapas que se requeriam para ser armado cavaleiro.

Sendo o cavaleiro um homem de armas que possui determinadas virtudes naturais e morais, ele pode adquirir essas virtudes depois de um longo noviciado, como se faz nas Ordens Religiosas.

Ou tornar-se digno da Cavalaria porque, num momento excepcional, ele superou-se a si mesmo, demonstrando com isso um grande valor de alma que abarca, em potência, todas aquelas virtudes requeridas para o ingresso na Cavalaria.

Portanto, os homens de armas podem ser armados cavaleiros de duas maneiras:

a) normalmente, através de um noviciado, que compreende as três etapas de pajem, escudeiro e cavaleiro;

b) excepcionalmente, no campo de batalha ou em outras circunstâncias, quando se lhe confere a Cavalaria sem aquela preparação anterior.

Paul Lacroix afirma que “todo cavaleiro põe seu filho a serviço de outro cavaleiro”. (Paul Lacroix, “Vie Militaire et Religieuse au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance”, Firmin Didot Frères, Fils et Cie., Paris, 1873, p. 150)

Esta afirmação nos leva a pensar que havia entre os cavaleiros uma espécie de contrato, pelo qual era possível realizar o noviciado dos cavaleiros.

Somente os cavaleiros tinham poder de armar cavaleiro um homem de armas. Isso poderia significar também que somente os cavaleiros eram capazes de preparar e educar os homens de armas para a recepção na Cavalaria.

De maneira que o serviço de pajem e escudeiro, enquanto significando um noviciado para a recepção na Cavalaria, provavelmente só se fazia nos castelos de senhores que eram cavaleiros, isto é, membros da Cavalaria.

Isto talvez seja um dado novo, pois nos livros de História não se dá realce a esse fato, e acaba-se interpretando que o serviço de pajem e escudeiro se prestava a qualquer senhor feudal, e que era costume da nobreza enviar seus filhos a senhores mais poderosos para executarem tais serviços.

Robert Bruce, herói da Escócia, estátua em Bannockburn
Robert Bruce, herói da Escócia, estátua em Bannockburn

Uma vez que a Cavalaria é algo inteiramente distinto do feudalismo, aquele serviço de pajem e escudeiro, que todos reconhecem ser uma etapa para a recepção da Cavalaria, provavelmente só se fazia junto aos nobres que eram membros da Cavalaria.

Somente nobres eram capazes de transmitir aos jovens, desejosos de pertencer à Cavalaria, a mentalidade e as virtudes necessárias para adquirir aquela distinção honorífica.

Portanto, o serviço de pajem e escudeiro, enquanto significando uma etapa preparatória para a Cavalaria, deve ser visto como um verdadeiro noviciado, onde o pretendente à Cavalaria adquire, pelo exercício e pelo tempo, as virtudes naturais e morais que o possam tornar digno de ser membro da Cavalaria.

Esse era o meio normal para se ingressar na Cavalaria. Havia também os meios excepcionais, a que já nos referimos.

O que acabamos de dizer acerca do noviciado da Cavalaria talvez lance uma luz sobre o problema do significado da palavra “escudeiro”. Certamente ocorre com essa palavra o mesmo que com a palavra “cavaleiro”.

“Escudeiro” poderia significar uma etapa na formação de um homem de armas para a recepção na Cavalaria, e poderia significar também um tipo de guerreiro de exército feudal, que possuísse um feudo territorial de natureza especial.

Assim, poder-se-ia levantar a hipótese de que a palavra “escudeiro” teria pelo menos dois significados:

a) designava todos os homens de armas que estavam cursando o noviciado da Cavalaria, ou que já o haviam completado, embora ainda não tivessem recebido o “adoubement”;

b) designava os homens de armas do exército feudal que possuíam feudos especiais.

Para compreendermos melhor o sentido da palavra “escudeiro”, enquanto membro da Cavalaria, lembremos que nas Ordens Terceiras existem os noviços e os irmãos terceiros. Os noviços podem ficar noviços durante muito tempo, até serem aceitos como irmãos.

No caso da Cavalaria, existiram os escudeiros e os cavaleiros. Um cavaleiro provavelmente poderia ficar muito tempo escudeiro, até que fosse armado cavaleiro por um outro cavaleiro.

Todavia, embora não fosse armado cavaleiro, enquanto escudeiro ele pertencia à Cavalaria, isto é, participava de alguma dignidade honorífica pelo fato de ser um pretendente à Cavalaria.

Em abono desta hipótese, poder-se-ia aduzir o seguinte trecho do Grand Dictionnaire Universel Larousse:

“O escudeiro não podia usar esporas de ouro nem roupas de veludo; mas calçava esporas de prata e trajava vestimentas de seda”.

Isso parece indicar que o escudeiro tinha roupas especiais, que simbolizavam o seu grau de dignidade dentro da Cavalaria.

Por outro lado, falando sobre o grau de escudeiro, o mesmo dicionário assim se expressa:

“Da situação de pajem, o jovem fidalgo passava à de escudeiro; para receber esse grau, que lhe era conferido numa grande cerimônia religiosa, devia ter pelo menos 14 anos.

“O jovem, recém-saído do estado de pajem, era apresentado diante do altar por seu pai ou sua mãe, que, com uma vela na mão, compareciam ao oferecimento.

“O sacerdote tirava de cima do altar uma espada com seu cinturão, fazendo a seguir várias bênçãos sobre ela e prendendo-a ao lado do jovem candidato, que até então só a podia carregar”.

Essa descrição nos aproxima das cerimônias requeridas para a recepção de candidatos à Cavalaria, e por isso nos faz supor que escudeiro era um grau na cavalaria, que se adquiriria também através de certos rituais, e que se conservaria até que fosse chamado ao grau de cavaleiro.

Quanto à afirmação de que o escudeiro só podia levar a espada, sem poder fazer uso dela, há uma explicação a ser dada. Parece-nos que isso vigorava até que o escudeiro atingisse a idade de 21 anos.

Segundo Larousse, havia escudeiros que combatiam tal como os cavaleiros. Além disso, Lacroix, ao tratar dos escudeiros em sua obra “Vie Militaire et Religieuse au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance”, diz que os escudeiros, depois de um determinado tempo de serviço junto aos senhores feudais, iam correr o mundo com o título de “poursuivants d’armes” (cadetes de armas), onde acabavam de concluir o seu noviciado de Cavalaria, fazendo atos de bravura e aprimorando os seus conhecimentos e sua educação. (Paul Lacroix, idem, ibidem, pp. 150 ss.)

Portanto, é bem provável que os escudeiros usassem da espada para demonstrarem o seu valor militar, e assim tornarem-se dignos de receber o “adoubement” da Cavalaria.

De maneira que, se isso for assim, os escudeiros podiam ser inclusive adultos que ainda não tivessem recebido o “adoubement”, mas que no entanto pertenceriam à Cavalaria, pois estavam no noviciado preparatório para a mesma.

Ou seja, haveria casos em que um escudeiro ficava esperando durante muito tempo, até que chegasse a ocasião em que ele fosse julgado digno de ser armado cavaleiro.

Finalmente, poderíamos também supor que um fidalgo fosse cavaleiro enquanto membro do exército feudal, e no entanto tivesse o título de escudeiro enquanto membro da Cavalaria.

Esse fidalgo, que seria um “cavaleiro de nascimento”, todavia era escudeiro diante dos demais cavaleiros membros da Cavalaria, e devia ceder o seu lugar quando estivesse na presença daqueles.

Talvez houvesse também o caso de serem armados cavaleiros certos homens livres, que ocupassem no exército feudal o posto de escudeiro. Como membros da Cavalaria, estes seriam cavaleiros, e como participantes do exército feudal seriam escudeiros.

Estas últimas hipóteses, parece-nos, abririam novos horizontes na pesquisa do intrincado problema da Cavalaria. E sobretudo facilitariam a investigação do verdadeiro sentido dos termos “cavaleiro” e “escudeiro”, durante a Idade Média.

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6 outubro 2015

Hierarquia e símbolos na Cavalaria

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A dignidade de cavaleiro comportava graus:

– os “bannerets” ou porta-estandartes;

– a seguir os “bacheliers”, jovens que após as batalhas eram armados cavaleiros, ou então cavaleiros recém-sagrados;

– finalmente os cavaleiros propriamente ditos. As duas palavras “bachelier” e cavaleiro passam a ser sinônimas.

– No terceiro plano, os “cavaleiros alistados”, isto é, aqueles que se inscreveram mediante salário, a serviço de um mais poderoso.

– Por fim os escudeiros, que não estavam autorizados a lutar com um cavaleiro.

Quando se trata de escrever a um cavaleiro, ou de lhe dirigir a palavra, ele é intitulado Dom, Sire, Messire ou Monseigneur.

Sua esposa é qualificada de Dame ou Madame.

O escudeiro deve ser chamado de Monsieur, e sua esposa de Demoiselle.

Quanto ao uso de roupas de seda, elas eram proibidas aos simples burgueses, bem como aos escudeiros. Apenas os cavaleiros estavam autorizados a vesti-las.

Os escudeiros usavam roupas de lã, sem ornamentos de ouro ou de prata. Somente os cavaleiros eram autorizados a enfeitar seus mantos de branco ou cinza, de arminho ou outra pele de privilégio. As peles de menor qualidade eram para a gente do povo.

Somente os cavaleiros tinham o direito de dourar suas esporas e os arreios de seus cavalos. A mais característica das vestes de uso exclusivo dos cavaleiros era o longo manto escarlate enfeitado de arminho.

Esses mantos de grande luxo eram distribuídos pelo rei aos cavaleiros recém-armados por ele. A cor vermelha tornou-se privilégio da Cavalaria.

Mathieu de Couci (“História de Carlos VII”) descreveu um banquete que foi organizado em Lille, em 1454, pelos desejos do Duque de Bourgogne.

Os cavaleiros que serviam estavam vestidos de damasco, os escudeiros de cetim, e os simples valetes de pano de lã. Mathieu de Couci dá igualmente a descrição de uma justa de três borguinhões contra três escoceses.

Dos três borguinhões, os dois primeiros estavam vestidos de longos mantos enfeitados com pele de marta zibelina. Quanto ao terceiro, seu manto era de cetim negro.

Três cavaleiros franceses, chegando à corte da Espanha, apresentam-se vestidos com mantos escarlates e coroados com flores azuis. Usam luvas brancas e estão montados em grandes cavalos de batalha da Espanha.

As lanças cavalheirescas são feitas de pinho, tília, sicômoro ou faia, de preferência em freixo. A ponta de aço, aguda, é enfeitada com o “gonfalon” — bandeira de guerra muito comprida.

Joinville salienta que os cavaleiros tinham o costume de raspar os cabelos, para não se embaraçarem com eles durante as lutas.

Os cavaleiros se distinguiam uns dos outros pelas armas, onde seus brasões estavam pintados, ou mesmo pela cor do pequeno estandarte que enfeitava sua lança, e da bandeira com a qual o alto do seu capacete podia estar decorado.

Quanto ao brasão dos cavaleiros, era extremamente variável.

Alguns se contentavam com um escudo branco ou de cor lisa, para decorá-lo, após uma sucessão de acontecimentos, com um emblema significativo: uma cruz em memória de uma campanha contra os sarracenos; a reprodução de uma arma conquistada em um torneio; a imagem de uma torre ou de uma fortaleza tomada de assalto; as ameias de um reduto vitoriosamente defendido, etc.

 

 

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29 setembro 2015

O que era o cavaleiro medieval: um ideal de honra, uma espécie de sacerdocio militar

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Chegamos pois a precisar, o mais possível, o significado da palavra “cavaleiro”, enquanto indicando aquele que pertence à Cavalaria:

é um homem de armas que, por suas virtudes naturais e morais, recebe uma distinção honorífica inteiramente pessoal, por isso mesmo não transmissível por hereditariedade, e que lhe confere o poder e o juízo de armar outros homens de armas como cavaleiros.

Esta distinção honorífica acarretava uma série de privilégios para aqueles que pertencessem à Cavalaria. O “Grand Dictionnaire Universel Larousse”, tratando do assunto, afirma o seguinte:

“A dignidade de cavaleiro era tão considerada, que o próprio rei sentia honra em sê-lo. Os cavaleiros sentavam-se à sua mesa, coisa que nem seus filhos, irmãos ou sobrinhos podiam fazer, a não ser quando fossem recebidos na Cavalaria.

“Usavam uma capa de honra, aberta no lado direito e presa por um alfinete no ombro, para deixar o braço livre no combate. Durante toda a Idade Média, somente o cavaleiro podia levar sua espada à cintura; os outros a suspendiam por um talabarte”.

Um outro sinal distintivo dos cavaleiros é o uso de esporas de ouro. Que essa prerrogativa fosse específica dos membros da Cavalaria, é o que faz supor a seguinte afirmação de Paul Lacroix no livro “Les Arts au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance”:

“Para ganhar suas esporas (de ouro) — expressão que ficou proverbial — era necessário fazer alguma ação brilhante, que mostrasse quanto se era digno de ser armado cavaleiro.

A cerimônia de recepção começava pela entrega das esporas, e aquele que conferia a ordem de Cavalaria, fosse rei ou príncipe, tomava sobre si o encargo de calçá-las no próprio recipiendário”. (Paul Lacroix, “Les Arts au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance” – Firmin Didot Frères, Fils et Cie., Paris, 1874)

Todos esses sinais exteriores serviam para simbolizar aquela excelência honorífica que possuíam os cavaleiros face aos demais homens de armas do exército feudal.

Note-se, no entanto, que essa excelência não importava em ascensão na hierarquia feudal ou em possuir equipamento militar mais completo.

A Cavalaria constituiu uma dignidade de ordem moral, que conferia àquele que com ela fosse honrado uma investidura de caráter praticamente religioso.

Léon Gautier, em importante obra consagrada ao assunto, chegou a qualificar a Cavalaria de “oitavo sacramento”.

Um padre que casasse, e fosse preso vestindo trajes civis, deveria ser conduzido a um tribunal eclesiástico.

O mesmo se passava com o cavaleiro. Por outro lado, ele usufruía vários privilégios consagrados ao clero.

Clérigos e cavaleiros eram homenageados da mesma forma. Nas comparações que fazem entre clero e cavalaria, os autores mais antigos sustentam que ao cavaleiro deve ser imposta a obrigação do celibato.

São três as ordens necessárias para o bom funcionamento de um Estado: O sacerdote, para cuidar do culto e das orações; o trabalhador, para cuidar do campo; e o cavaleiro, para proteger a ambos e sustentar a justiça.

A Cavalaria — diz o autor de Jouvencel — é o que são os braços para o corpo, isto é, dispostos para defender, sempre que necessário, a cabeça (a Igreja) e as pernas (o povo).

A Cavalaria é então um como que sacerdócio, mas de caráter militar.

Se uma jovem dama se tornasse herdeira de um importante domínio, ou se uma mulher ficasse viúva e com terras para administrar, recorria a um cavaleiro para que protegesse seus bens, tomasse a guarda do seu castelo e o comando dos homens de armas. O cavaleiro recebia com isso o título de visconde ou de castelão.

Os cavaleiros eram considerados por todos como um grupo de elite.

Quem podia ser armado cavaleiro?

A primeira condição exigida era, naturalmente, a Fé Católica.

A ideia de se fazer armar cavaleiro a um sarraceno faria explodir de rir. Em seguida era preciso que ele montasse a cavalo, soubesse manejar a lança, a acha e a espada, e devia mover-se livremente sob uma armadura de aço.

Não eram admitidos na Cavalaria aqueles que estivessem desonrados por costumes.

 

 

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22 setembro 2014

Símbolos Papais requintados na Idade Média

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Anel do Pescador que foi de Bento XVI.
Anel do Pescador que foi de Bento XVI.

No post “Símbolos dos Papas tomaram forma final na Idade Média”, apresentamos a contribuição que a “Doce primavera da Fé” deu para a criação ou definição de certas insígnias dos Papas.

Essas insígnias não correspondem a uma época, mas a todas as épocas e provêm de ensinamentos evangélicos ou da Tradição da Igreja.

Neste post trataremos de outras insígnias e da parte que a Era Medieval teve em sua elaboração.

O Anel do Pescador é dos mais importantes símbolos. Consiste num anel de ouro no qual está gravada a Barca de Pedro, símbolo da Igreja, e em volta, o nome do Papa que o está usando.

A primeira menção documentada ao Anel está contida numa carta do Papa Clemente IV de 1265. Nela, o Pontífice dizia que era costume dos sucessores de Pedro muito anteriores a ele, manter sigilosas suas cartas.

Isto se fazia através de um pouco de cera quente no fim do texto ou para fechar o envelope. O Papa aplicava então o Anel, que deixava cunhado seu nome e a Barca.

Férula, originalmente do Beato Pio IX.
Férula, originalmente do Beato Pio IX.

Depois passou a ser usado em todos os documentos oficiais da Igreja, que são conservados no Vaticano.

Cada Anel do Pescador é destruído pelo Cardeal Camerlengo da Santa Igreja Romana assim que se constata a morte do Papa.

A destruição simboliza o fim da autoridade do Papa falecido, e impede que algum outro venha a utilizá-lo indevidamente.

A Férula é usada pelos Papas em lugar do báculo pastoral dos bispos e abades mitrados. Enquanto o báculo, que lembra um cajado de pastor, indica a autoridade na diocese ou na abadia, a Férula, que tem forma de Cruz, indica a jurisdição universal do Papa.

A Férula já era usada nos primórdios da Idade Média. No auge desta, era recebida pelo novo Papa como símbolo de governo, que inclui a punição e a penitência.

A Sedia Gestatória é um trono portátil levado por 12 homens chamados de sediários ou palafreneiros, que vão vestidos de vermelho com ornatos de ouro.

A Sedia Gestatória é acompanhada por dois assistentes que levam os Flabelli, ou flabelos, grandes leques de pena de avestruz que remontam ao século IV.

Os flabelli eram usados pelos magnatas da Antiguidade e nasceram com uma finalidade muito prática: afastar insetos; mas depois permaneceram, pelo seu valor decorativo e pela manifestação da altíssima dignidade do Pontífice.

A mais antiga referência à Sedia Gestatória remonta ao ano 521 e era também reminiscência dos antigos reis. Hoje é certo que ela vinha sendo usada antes do ano 1.000.

Pálio pontifício.
Pálio pontifício.

O Papa também usa o Pálio sobre os paramentos litúrgicos, na Missa ou em outras cerimônias.

Trata-se de uma rica fita circular da qual descem duas faixas de 30 cm, uma pelo peito e outra pelas costas.

O Pálio é ornado com seis cruzes pequenas, vermelhas, para lembrar o Preciosíssimo Sangue derramado na Redenção, e é preso por três agulhas de ouro, que evocam os pregos com que Jesus foi crucificado.

Também os arcebispos usam o Pálio, embora mais simples. Os bispos dos ritos orientais católicos usam-no com mais ornato.

Outra insígnia exclusiva é o Fanon, pequena capa de ombros, como uma dupla murça (mozeta) ou camalha de seda branca com listras douradas.

O Fanon, ou Fano, é reservado somente ao Papa durante as Missas pontificais e representa o escudo da fé que protege a Igreja Católica, personificada no Papa.

Só o Sumo Pontífice, chefe visível da Igreja de Cristo, pode usar o Fanon.

As faixas verticais, de cor dourada, representam a unidade e a indissolubilidade da Igreja latina e oriental. O Fano já era usado no século VIII, porém ficou exclusivo do Papa a partir do fim do século XII.

Sedia Gestatoria, se destacam os fiabelli

O sub-cinctorium, ou succintório, ou subcíngulo, só é usado pelo Papa nas Missas pontificais. Consiste numa faixa estreita e comprida, decorada nas extremidades com uma cruz e um cordeiro, pendendo do lado esquerdo.

Mencionado pela primeira vez no século X, na Idade Média o subcíngulo podia ser usado pelos bispos, e era dotado de uma bolsa com esmolas para distribuir aos pobres. Evoca também a toalha usada por Jesus na Última Ceia para lavar os pés dos Apóstolos.

Embora não tenham sido abolidos, esses símbolos deixaram de ser usados hoje –numa época em que paradoxalmente tanto se fala dos pobres e da pretensa humildade de tantos prelados.

Manto, no quadro usado por S.S. Pio VII na Capela Sistina

O Manto é uma capa muito larga, exclusiva do Papa. Originariamente era vermelha e depois passou a acompanhar as cores litúrgicas. Quando o Papa usava a Sedia Gestatória, portava o Manto.

A primeira referência ao uso do Manto remonta à Divina Comédia de Dante Alighieri, no século XIII.

O Manto é muito maior que o Papa, que ao sentar-se no trono coloca seus pés sobre ele, enquanto os assistentes o espraiam sobre os degraus do trono. Indica a superioridade absoluta do Papa. Bispos e outros dignitários podiam usar mantos menores.

O Manípulo Papal é semelhante aos usados por bispos e padres, com a diferença de que os fios que o unem são dourados e vermelhos, para simbolizar a união das igrejas católicas, ou ritos católicos do Oriente e do Ocidente. É usado na liturgia desde o século VI.

Cabe mencionar o “umbraculum” ou umbrela, rico guarda-chuva de cor dourada e vermelha que os Papas usavam para se proteger do sol. Era prerrogativa exclusiva dos reis e simbolizava o poder temporal do Papado. Teria sido instituído por Alexandre VI, na transição da Idade Média para a Renascença.

É símbolo da vacância do Papado. Atualmente é usado no escudo de armas do Cardeal Camerlengo, que administra a Igreja durante a vacância do Trono de Pedro entre a morte de um Papa e a entronização do seguinte.

Esta insígnia constitui também privilégio das basílicas, sendo habitualmente exposta junto ao altar-mor ou em procissões.

 

 

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15 setembro 2014

O simbolismo divino na arte e na natureza visto pela Idade Média

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 3:15
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Rosácea lateral da catedral de Chartres: resumo da ordem do Universo
Rosácea lateral da catedral de Chartres: resumo da ordem do Universo

com Cristo Rei no centro.

continuação do post anterior: Lendo a ordem sublime de Deus impressa no Universo
A terceira característica da arte medieval reside no fato de que ela é um código simbólico.

Desde o tempo das catacumbas [nos dias da perseguição romana], a arte cristã falava por meio de figuras, ensinando os homens a verem por detrás de uma imagem uma outra coisa superior.

O artista, segundo o imaginavam os Doutores da Igreja, deve imitar a Deus, que sob a letra da Escritura escondeu um profundo significado, e que queria que a natureza também servisse de lição para o homem.

O anjo (no alto à esquerda) segura o braço de Abraão que vai sacrificar seu filho Isaac, prefigura do sacrifício do Calvário. Catedral de Chartres
O anjo (no alto à esquerda) segura o braço de Abraão

que vai sacrificar seu filho Isaac, prefigura do sacrifício do Calvário.

Catedral de Chartres

Tal concepção de arte implica uma visão profundamente idealista do esquema do universo, e a convicção de que tanto a história quanto a natureza devem ser consideradas como grandes símbolos.

Podemos fazer uma tentativa de entender a visão medieval do mundo e da natureza.

O que é o mundo visível? Qual é o significado das miríadas de formas de vida?

O que devia pensar da Criação, o monge contemplando em sua cela, ou o Doutor meditando no claustro da catedral antes de sua palestra?

É apenas aparência, ou realidade?

A Idade Média foi unânime na sua resposta: o mundo é um símbolo.

Assim como a ideia da obra reside antes na mente do artista, da mesma maneira o universo estava na mente de Deus desde o início.

Deus criou, mas criou através da Sua Palavra, ou seja, através de Seu Filho.

O mundo, portanto, pode ser definido como “um pensamento de Deus realizado através da Palavra”.

São João Batista anuncia o Cordeiro de Deus: Cristo Catedral de Chartres
São João Batista anuncia o Cordeiro de Deus: Cristo

Catedral de Chartres

Se isto é assim, então em cada ser se esconde um pensamento divino; o mundo é um livro escrito pela mão de Deus, no qual toda criatura é uma palavra carregada de significado.

O ignorante vê as formas – as letras misteriosas – sem compreender nada do seu significado, mas o sábio, a partir do visível, se eleva ao invisível, e na leitura da natureza lê os pensamentos de Deus.

O verdadeiro conhecimento, então, não consiste no estudo das coisas em si mesmas – as formas exteriores –, mas em penetrar no significado profundo delas, que Deus pôs para a nossa instrução.

Desse modo, nas palavras de Honório de Autun, “cada criatura é uma sombra da verdade e da vida”.

Todo ser manifesta em suas profundezas um reflexo do sacrifício de Cristo, a imagem da Igreja, das virtudes e dos vícios.

O mundo material e o mundo espiritual refletem uma só e derradeira realidade.

(Autor: Émile Mâle, The Gothic Image: Religious Art in France of the Thirteenth Century, New York, Harper, 1958, pp 1-2, 5, 9-15, 29).

 

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