Idade Média

23 fevereiro 2016

Quem podia entrar na Cavalaria?

Cavaleiros
Cavaleiros

Quem era admitido na Cavalaria? Quem tinha o direito de ser admitido na Cavalaria?

Em princípio, todos. Não era preciso ser nobre para ser admitido na “Sainte Ordre de Chevalerie”, na “Santa Ordem da Cavalaria”.

E há exemplos históricos de homens da plebe, do povo, que foram recebidos cavaleiros. Mas a classe que por excelência tinha obrigação de se sacrificar, e tinha como característica o espírito de sacrifício, era a nobreza.

Sendo a Cavalaria uma dedicação plena ao serviço de Deus, aqueles que mais naturalmente podiam se entregar a isso eram os nobres, que tinham para tal uma inclinação quase natural, uma inclinação de classe.

Por isso a grande maioria dos cavaleiros eram nobres. As outras classes tinham como obrigação cuidar mais de seus próprios interesses, dentro de limites legítimos.

O lavrador tinha obrigação de cuidar do seu campo, o burguês tinha obrigação de administrar os seus negócios.

O dever de um burguês muito piedoso, muito cristão, era administrar bem seus negócios, ao passo que o dever de estado do nobre era a dedicação a um serviço em favor do bem comum, tanto mais quando se tratava do serviço de Deus.

Outra questão é saber em que lugar se era recebido na Cavalaria. Podia ser na igreja ou no campo de batalha. Francisco I, como vimos, foi armado cavaleiro no campo de batalha.

Monumento a Bayard em sua cidade natal.
Monumento a Bayard em sua cidade natal. Poncharra. Saboia, França.Poncharra. Saboia, França.

Dom João I, pouco antes da batalha de Aljubarrota, armou numerosos cavaleiros, fazendo um apelo para que naquela batalha eles se fizessem dignos da Ordem que acabavam de receber. Mas de modo geral a cerimônia se dava na igreja.

Em que idade se era recebido cavaleiro? Quando se entrava na maioridade. Ao entrar na maioridade — 15, 16, 17 anos — já se estava inteiramente pronto para ir combater, para lutar sozinho contra 30 muçulmanos, comandar um exército, etc., e então já se podia ser armado cavaleiro.

Como é que se ingressava na Cavalaria? Através de um rito, de uma cerimônia, que na França se chamava “adoubement”. Em Portugal se chamava “armar cavaleiro”.

Houve três espécies de ritos: o militar, o religioso e o litúrgico.

O mais antigo foi o militar. Consistia essencialmente em um cavaleiro — porque só um cavaleiro podia armar outro cavaleiro — cingir a espada ao recipiendário, dando-lhe na ocasião um violentíssimo tapa na nuca, tão forte que o rapaz precisava tomar cuidado para não ir ao chão.

 

 

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16 fevereiro 2016

A Cavalaria se estruturou organicamente

Bayard defende a ponte sobre o Carigliano. Henri-Félix-Emmanuel Philippoteaux (1815–1884).
Bayard defende a ponte sobre o Carigliano.
Henri-Félix-Emmanuel Philippoteaux (1815–1884).

Outro aspecto importante é que a instituição da Cavalaria surgiu como que espontaneamente, organicamente, sem um plano nem decreto, pela ação da graça e do Espírito Santo.

Não é como a vida religiosa, que tem um legislador como São Bento, que dá à instituição uma lei, uma organização, uma estrutura jurídica.

De fato já existia aquele ideal, aquela inspiração, mas um homem, um fundador, dá uma organização para aquilo.

Com a Cavalaria não acontece assim. Não houve um Papa que em determinado momento excogitasse “como seria uma coisa interessante instituir a Cavalaria”, publicasse depois uma encíclica “De militia christiana”, e a partir desse dia começasse a existir a Cavalaria.

Tanto não é assim, que nós não podemos nem saber quando é que começou a Cavalaria. Podemos dizer onde ela floresceu mais perfeitamente, mas não onde que ela começou. Tudo se passou organicamente.

O impulso do Espírito Santo, agindo em toda a Europa por meio da Igreja e dos santos, vai fazendo nascer esse desejo de um ideal e o vai elaborando aos poucos. Não surgiu de uma reunião de pessoas, de um concílio ou de uma universidade para estudar e deliberar sobre o assunto.

Na Idade Média quase tudo se fez assim. É um corpo sadio que vai florescendo e vai dando frutos. Funck-Brentano tem sobre isso uma expressão muito bonita:

Cavaleiro em oração, Vitral na Universidade de Yale.
Cavaleiro em oração.
Vitral na Universidade de Yale.

“Alguém pode não gostar da civilização medieval, do regime feudal medieval. Mas uma coisa que ninguém pode fazer é criticar aquela sociedade por ter dado aqueles frutos.

“Ela só podia ter dado aqueles frutos. Uma sociedade como aquela tinha que dar nascimento àquelas instituições, tinha que florescer com aquelas instituições.

“A coisa surgia como o fruto nasce da árvore. A pessoa pode não gostar de maçã, mas ninguém pode criticar uma macieira porque dá maçãs”.

A Cavalaria era de fato um ideal de santidade e uma via de santificação. Diante daqueles homens rudes, bárbaros e semi-selvagens, a Igreja teve a linda audácia de não fazer concessões.

Ela tomou um ideal de santidade e o ofereceu a eles.

Analisando o ideal da Cavalaria, vemos que era um altíssimo ideal de santidade. Não era um ideal de levar uma vida bem direitinha, bem honestazinha, mas era propriamente um ideal de santidade.

Quem encarnasse perfeitamente o espírito da Cavalaria ficava santo. E a Cavalaria também era uma via de santificação.

Porque seguindo aquele termo, seguindo aquelas normas da Cavalaria, embebendo-se daquele espírito da Cavalaria o homem se santificava, mais ou menos como se santifica quem segue a regra de uma determinada Ordem religiosa.

Quem se embeber no espírito da Ordem de S. Domingos, por exemplo, não dá para não tornar-se um santo.

Se a Cavalaria era um ideal de perfeição, também era um colégio. Em algumas recepções de cavaleiros, aquele que os recebe diz: “Eu vos recebo com vontade, com satisfação, no colégio da Cavalaria”.

Isso pode dar margem a confusão, pois era colégio enquanto o conjunto de todos aqueles que foram armados cavaleiros. Era uma corporação, um conjunto, ligados todos pelo mesmo ideal.

Pelo fato de terem sido armados cavaleiros através de um rito sensível, também havia uma certa solidariedade entre eles. Mas sem uma estrutura jurídica.

Isso é uma coisa muito bonita também na Cavalaria, porque aqueles homens eram armados cavaleiros, e a todo momento estavam lutando um contra o outro.

Era normal um cavaleiro que vivesse num feudo e depois fosse lutar por outro, mas sempre havia uma certa solidariedade. Eles sempre sentiam no outro uma marca especial, que os levava a ter uma mútua estima.

O rei da França Francisco I é armado cavaleiro por Bayard. Louis Ducis (1775 - 1847) , Museu do castelo de Blois.
O rei da França Francisco I é armado cavaleiro por Bayard.
Louis Ducis (1775 – 1847) , Museu do castelo de Blois.

Vemos isso com Bayard, por exemplo, quando ele se aproximou das linhas inimigas. Estão os imperiais do outro lado, e todos se aproximam para ver aquele grande cavaleiro, que era o pior inimigo que eles tinham, o homem que mais dores de cabeça dava aos imperiais.

Mas sentiam alguma coisa de comum com ele, embora fosse já uma época de decadência da Cavalaria. Quando ele foi preso, o rei da Inglaterra Henrique VIII o recebeu com uma consideração muito especial.

Trataram-no com toda a cortesia, sentindo uma certa solidariedade com um homem que, como eles, tinha recebido a ordem da Cavalaria, e como eles — ou muito melhor que eles, aliás — servia os ideais da Cavalaria.

Outra coisa característica na Cavalaria é que todos são iguais. Um pequeno fidalgo, como é Bayard na Cavalaria, é igual a um rei.

É por isso que, logo depois da batalha de Marenga, Francisco I, rei de França, se faz armar cavaleiro por ele, que era pequeno fidalgo de uma nobreza muito modesta.

Mas como ele é cavaleiro, pode armar cavaleiro o rei, e não há nisso nada de contrário às leis. Na Cavalaria, os únicos graus que existem são as diferenças de valor.

A Cavalaria teve seu máximo florescimento nos séculos XI e XII. Começou a decair no século XIII, e tal decadência se estendeu por toda a Europa civilizada.

 

 

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2 fevereiro 2016

Fidelidade ao senhor feudal, fidelidade a Deus

Eduardo, dito o príncipe negro, ajoelhado ante seu pai o rei Eduardo III,
1390, British Library, MS Nero D VI, f31

As obrigações morais impostas ao cavaleiro mostram o valor da instituição: combater pela Fé, ser submisso ao suserano, ser fiel à palavra dada, proteger os fracos, as viúvas e os órfãos, combater a injustiça.

Os poetas medievais fizeram a descrição do cavaleiro ideal. Ele deve ser “franco de coração e belo de corpo, generoso, doce, humilde e pouco falador”.

Reunia as grandes qualidades exigidas dos nobres da época: valentia, generosidade, espírito empreendedor e circunspecção; era retilíneo, austero e puro.

Em qualquer circunstância, o cavaleiro deve defender a Fé. Deste juramento de manter a Fé de Jesus Cristo originou-se o costume de na Missa os cavaleiros desembainharem a espada durante a leitura do Evangelho. Isto significava a disposição de derramar o sangue em defesa da doutrina da Igreja.

Esta magnífica instituição contribuiu muito para o florescimento de uma das virtudes essenciais da época: o senhor deve amar os seus vassalos, e os vassalos devem amar o seu senhor.

Assim, segundo a expressão de um famoso historiador, “jamais o preceito divino ‘amai-vos uns aos outros’ penetrou de modo tão profundo o coração dos homens”.

Mesmo fora dos limites da Cristandade, corria a fama das extraordinárias virtudes do cavaleiro medieval.

Em certa ocasião, quando São Luís IX se encontrava prisioneiro dos muçulmanos, um de seus chefes, chamado Octai, pediu a São Luís, sob ameaça, para ser armado cavaleiro.

Tal era a admiração que os mais ferozes inimigos da Civilização Cristã tinham por tão magnífica instituição.

A fidelidade é a virtude cavalheiresca por excelência, a primeira obrigação do vassalo em relação a seu superior.

O cavaleiro tem uma obrigação de honra de servir a seu divino Suserano, sem fraqueza nem felonia. Paralelismo sempre perfeito com o direito feudal, com a organização feudal.

Eduardo, o príncipe negro, Príncipe de Gales, 1453, Bruges Garter Book.
Eduardo, o príncipe negro, Príncipe de Gales,
1453, Bruges Garter Book.

Em troca, “Sire Dieu” se obriga a auxiliar o cavaleiro, protegê-lo com sua graça e, se for preciso, protegê-lo miraculosamente. E nós vemos nas crônicas quantas vezes ocorre a proteção miraculosa de Deus.

O brasão que adotamos para o “Legionário”, depois para o “Catolicismo”, lembra um desses fatos.

Quando o rei Artur foi combater contra os romanos pagãos que dominavam a França — os medievais não tinham a mínima ideia de cronologia, não tinham nenhum escrúpulo do anacronismo —, teve que se bater em duelo singular com um gigante, Floros.

Estava quase sendo vencido, quando Nossa Senhora apareceu, e com o forro de arminho de seu manto cobriu a cabeça do rei Artur. Os golpes do gigante pegavam no manto de arminho e não causavam mal ao rei Artur.

O pagão, por sua vez, ficou apavorado com aquela visão, e acabou sendo derrotado. Aquela orla de arminho que temos em nosso brasão lembra esse fato.

Também aqui está o paralelismo perfeito com o direito feudal. É o senhor que se obriga a defender, a proteger, a sustentar o vassalo. O Senhor aqui é Deus. Nossa Senhora é a dama e Rainha do cavaleiro.

Os cavaleiros franceses tinham um grito tradicional: “Nossa Senhora, velai para que eu não me torne perjuro”. Eles entregavam a Nossa Senhora sua fidelidade, sua primeira obrigação.

De fato, embora a Cavalaria não tenha existido só na França, quando se fala de Cavalaria tem-se que falar sobretudo da França, onde ela floresceu de maneira especial.

Jean de Salisbury, um bispo inglês do século XII, diz que estabeleceu-se o solene costume de que no dia em que um homem era revestido do símbolo militar, em que ele era armado cavaleiro, votasse sua pessoa ao serviço do altar e da espada, isto é, prometesse a Deus ligar-se a Ele pelo laço do serviço doméstico.

Serviço doméstico tem aí o sentido de feudal. Quando é armado cavaleiro, o homem se liga a Deus por um laço feudal.

Há muitas outras expressões que denotam a mesma coisa. Assim, na Idade Média os cavaleiros eram chamados os homens de Deus, no sentido em que se falava dos homens do rei da França, dos homens do imperador da Alemanha, etc.

Santa Joana d’Arc, embora mulher, foi uma das mais perfeitas flores da Cavalaria
Santa Joana d’Arc, embora mulher,

foi uma das mais perfeitas flores da Cavalaria

Quer dizer, os vassalos, aqueles que estavam ligados ao suserano pelo vínculo feudal. Os cavaleiros eram os homens de Deus.

A Canção de Antioquia fala de “les Jésus chevaliers” — os cavaleiros de Jesus.

E Santa Joana d’Arc — que, embora mulher e vivendo já numa época de decadência, foi uma das mais perfeitas flores da Cavalaria — levou talvez à suma perfeição a encarnação do ideal de Cavalaria.

Na primeira entrevista que ela teve com Baudricourt em Vaucouleurs, ela se referiu a Deus com expressões tão nitidamente feudais, que Baudricourt pensou que ela se referisse a um outro senhor feudal.

Desconfiado de uma traição, perguntou a ela: “Mas quem é o teu senhor?” Ela respondeu: “Meu senhor é Deus”.

Ela tinha de tal forma essa noção do laço feudal para com Deus, da transposição do laço feudal para as relações entre Deus e o homem, que as expressões de que se servia davam margem a essa confusão, até mesmo para um homem experimentado na linguagem feudal, como era Baudricourt.

Sabemos também que, em sinal de submissão, havia o costume de o vassalo estender ao suserano o seu guante, sua luva de ferro.

Na Chanson de Roland, agonizando em Roncesvales, Roland “reclame le pardon de Dieu”, estende o guante de sua mão direita e São Gabriel o recebe.

São alguns pequenos exemplos que mostram como isso é real. A Cavalaria é o laço feudal — o regime feudal, por assim dizer — transposto às relações entre Deus e o homem.

Para resumir, poderíamos dizer que, para converter esses rudes varões semi-bárbaros (o melhor autor da Cavalaria chama-os de peles vermelhas, tão selvagens quanto os índios da América, faltando-lhes apenas o cocar e as flechas), a Igreja ofereceu-lhes o ideal cristão do soldado.

Ofereceu-lhes um fim preciso, um código de procedimento especial, tudo isso encarnado, concretizado, revestido de forma sensível pela transposição do laço feudal para a vida sobrenatural. Isso é a Cavalaria.

 

 

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26 janeiro 2016

A Igreja modelando o ideal do cavaleiro

Para compreendermos como a Igreja modelou o ideal de cavaleiro, é conveniente entendermos a rudeza dos bárbaros recém convertidos.

O primeiro personagem que podemos focalizar é Raul de Cambrai, personagem de uma canção de gesta. Ele fez tais e tantas, que sua mãe acabou por amaldiçoá-lo; mas enquanto ela o amaldiçoava, ele ria.

Um dia ele chega diante de um mosteiro de religiosas e dá esta ordem aos seus soldados:

“Armareis minha tenda no meio da igreja, fareis meu leito diante do altar e poreis meus falcões sobre o crucifixo de ouro”.

Ele queima a igreja, queima o mosteiro, queima as religiosas, entre elas a mãe de seu mais fiel vassalo e amigo.

Enquanto as chamas crepitam, ele se banqueteia à farta no próprio local do sacrilégio, sendo ainda por cima um dia de jejum. Ele desafia a Deus, ergue a cabeça contra Deus.

Esse era um barão feudal do século X, uma matéria-prima muito rude com a qual a Igreja irá trabalhar. Aqueles homens eram ainda semi-bárbaros, semi-selvagens.

Já eram cristãos, naturalmente batizados, mas o bárbaro germano a todo momento aparecia neles, e aparecia com grande ênfase, com grande entusiasmo, e com certa frequência os dominava.

Virando a página, ouviremos um cronista do século XIII, em 1220, falando de um cavaleiro chamado Walter de Birbach.

Vestido de ferro, com sua rija espada na mão, em grandes lides de guerra, esse cavaleiro tinha uma tão grande devoção a Nossa Senhora, que se consagrou a Ela, rendendo-Lhe preito de homenagem como uma rainha terrestre.

Antes das lides, o cavaleiro assiste a Missa. Os Milagres de Notre Dame (KB 71 A 24, fol. 123r).
Antes das lides, o cavaleiro assiste a Missa.
Os Milagres de Notre Dame (KB 71 A 24, fol. 123r).

O cronista diz que quando ele se retirou para um mosteiro cisterciense, no fim da vida, poderia ter conservado ali sua armadura, porque ela tinha adquirido um ar tão religioso quanto o burel cisterciense.

Esse é o tipo ideal, generalizado, do barão feudal dos séculos XII e XIII. Uma mudança enorme, portanto, entre essas duas figuras.

Como é que se fez em tão pouco tempo uma mudança tão grande? Quem é que fez isso? Certamente a Igreja, o Espírito Santo, mas foi sobretudo através da Cavalaria.

A Cavalaria, como quase tudo na Idade Média, não surgiu por decreto, não surgiu pela ação de um homem determinado, não surgiu nem mesmo em certo lugar.

Embora a Igreja não ame a guerra, na Idade Média ela viu os valores que existem na profissão militar.

Viu também a necessidade que havia de guerras, naquele momento histórico: antes lutar contra os maus cristãos semi-bárbaros, antes lutar contra os bárbaros declarados, antes lutar contra os muçulmanos.

Por isso ela fez nascer em toda a Europa, pela sua ação lenta, orgânica, pela ação do Espírito Santo, o desejo de dar um ideal e um freio àquela fogosidade germânica. E depois apresentou aos soldados medievais, aos homens medievais, esse ideal que é a Cavalaria.

Podemos definir assim as coisas: Cavalaria é a forma cristã da condição militar, e o cavaleiro é o soldado cristão. Ela é mais um ideal do que uma instituição.

Assim, a Igreja ofereceu ao soldado uma lei precisa e um fim preciso. A lei precisa foi o Código da Cavalaria, uma lei especial adequada para aquele gênero de vida, para aqueles homens. E o fim preciso era alargar na Terra as fronteiras do Reino de Deus.

Vemos numa crônica medieval que, para protestar adesão à Fé de Jesus Cristo, era costume em França que os cavaleiros, durante a leitura do Evangelho na Missa, tivessem sua espada nua.

Com isso eles queriam dizer: “Se for preciso defender o Evangelho, nós aqui estamos”.

Carlos Magno coroado imperador pelo Papa Leão III
Carlos Magno coroado imperador pelo Papa Leão III

Mas além de apresentar esse fim preciso e essa lei precisa, a Igreja se lembrou do sinal corporal, uma necessidade profundamente humana, sem a qual a realidade permanece imperfeita, inacabada, desfalecente.

Ela tratou então de satisfazer esse gosto medieval pelo concreto, pelo encarnado, pela manifestação sensível dos valores das realidades espirituais.

Ela tratou de concretizar também a Fé, os sentimentos cristãos. Por isso formou o direito feudal. Profundamente concreto, o direito feudal é concebido para indivíduos reais, bem personalizados, não para homens abstratos de uma sociedade teórica.

Repousa sobre a fidelidade, sobre a reciprocidade. Um vassalo liga-se a um senhor por um laço pessoal, torna-se seu homme-lige, obrigando-se ao serviço da hoste, ao serviço militar, e em troca esperando do suserano subsistência e proteção.

Esse laço pessoal é proclamado em uma cerimônia, um rito. Mais um sinal sensível, mais uma coisa concreta, que torna mais concreta ainda essa realidade.

O vassalo se ajoelha diante do senhor, com as mãos em suas mãos, o cinturão de que pende a espada aberto — em sinal de confiança, de entrega, de abandono — declara-se seu homme-lige e lhe entrega seus bens.

Por sua vez, o suserano beija o vassalo em sinal de afeição e proteção. Depois devolve-lhe os bens ou dá-lhe bens, se o vassalo não os tinha.

É a investidura do feudo. Encerra-se o contrato pelos juramentos sobre o Evangelho. Coisa profundamente concreta, com simbolismo muito sensível.

A Igreja tomou esse laço feudal e o transpôs para o domínio espiritual. O cavaleiro é o vassalo de Deus, Suserano supremo.

Na divisa de Santa Joana d’Arc — “le Christ qui est roi de France” — Nosso Senhor é um soberano, cercado da corte dos santos. Deus como rei, como suserano, tem a sua corte, a corte dos santos, servido pela milícia dos anjos. São expressões muito significativas.

Pelo rito de se armar cavaleiro, este resolve deliberadamente empenhar sua vida, sua pessoa, seus bens, todos os seus atos, ao serviço desse suserano de poder e majestade infinitos.

Como dizia a regra dos templários:

“Servir militarmente, combater com pureza de ânimo, pelo sumo e verdadeiro Rei”.

Expressão tipicamente feudal e militar. Assim como se combate pelo senhor feudal, também se combate pelo Senhor eterno.

O serviço da hoste, obrigação do vassalo, no caso da Cavalaria é a defesa da Santa Igreja, feudo de Deus, e também do povo, dos fracos, dos pobres, dos órfãos, das viúvas — dos pobres miúdos, como se dizia em Portugal na Idade Média.

O cavaleiro presta esse serviço com o coração inteiramente leal.

 

 

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19 janeiro 2016

A Idade Média: “segunda Criação” obra da Igreja

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 5:11
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A Idade Média nasceu na queda do Império Romano, de lutas de raças, confusão de povos, violências, gemidos, corrupção e barbárie.
A Idade Média nasceu na queda do Império Romano, de lutas de raças,
confusão de povos, violências, gemidos, corrupção e barbárie.

“Na Idade Média há muitas coisas. Por um lado o isolamento das cidades, a queda de impérios, luta de raças, confusão de povos, violências, gemidos; corrupção, barbárie, instituições que caem ou ficam apenas no bosquejo; homens que vão aonde vão os povos; e povos que vão aonde outro quer e eles nem sabem; há luz apenas suficiente para ver que todas as coisas estão fora de seu lugar e que não lugar para coisa alguma: Europa é caos.

“Porém, além do caos há uma outra coisa: a presença da Igreja, Esposa imaculada de Nosso Senhor. Então, há um grande acontecimento nunca antes visto pelos povos: há uma segunda Criação operada pela Igreja.

A presença da Igreja no caos inicial fez da Idade Média uma 'segunda Criação'
A presença da Igreja no caos inicial
fez da Idade Média uma ‘segunda Criação’

“Da Idade Média nada me parece assombroso senão a sua criação, e nada há que me pareça adorável salvo a Igreja.

“Para operar esse grande prodígio, Deus escolheu esses tempos obscuros, eternamente famosos ao mesmo tempo pela explosão de todas as forças brutais e pela manifestação da impotência humana.

“Nada é mais digno da Divina Majestade e da divina grandeza que trabalhar ali, onde homens, povos e raças se agitam confusamente e ninguém obtém nada.

“Querendo Deus demonstrar em duas solenes ocasiões que a corrupção só é estéril e que só a virgindade é fecunda, quis que Maria nascesse e contraísse desposórios com a Igreja. Então, a Igreja foi mãe de povos, como Maria é Mãe dEla.

“Viu-se então àquela imaculada Virgem, ocupada em fazer o bem – do mesmo modo que seu divino Esposo ‒, levantar o ânimo dos caídos e moderar o ímpeto dos violentos; dar a uns o pão dos fortes e a outros o pão dos mansos.

“Aqueles ferozes filhos do pólo, que humilharam a majestade romana escarnecendo-a, caíram vencidos pelo amor aos pés da indefensa Virgem.

“Então o mundo todo contemplou, entre atônito e assombrado, por espaço de muitos séculos, a renovação da Igreja, a renovação do prodígio de Daniel protegido contra todo mal em meio à cova dos leões.

“Após ter amansado amorosamente aquelas grandes iras e após ter serenado só com um olhar aquelas furiosas tempestades, viu-se a Igreja tirar um monumento da ruína; uma instituição de um costume; um princípio de um fato; uma lei de uma experiência.

“Para dizer tudo de vez: o ordenado do esdrúxulo; o harmônico do confuso.

“Sem dúvida, todos os instrumentos de sua Criação, como o próprio caos, existiam antes em meio ao caos; mas pertenceu a Ela a força vivificante e criadora.

“No caos estava, como no embrião, tudo o que haveria de vir e de ganhar vida. Porém, na Igreja despojada de tudo, só havia o ser e a vida.

“Tudo passou a viver quando o mundo prestou ouvido atento às suas amorosas palavras e fixou o olhar na sua resplandecente beleza.”

 

 

(Autor: Juan Donoso Cortés, “Obras Completas”, BAC, Madri, vol. II, p. 630).

 

 

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12 janeiro 2016

À procura do Paraíso: as almas dos construtores da Idade Média

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 5:04
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Para a mentalidade medieval esta terra é uma terra da exílio na qual, entretanto, há um paraíso: a Santa Igreja Católica, a única igreja verdadeira do único Deus verdadeiro. E os vitrais eram as janelas desse paraíso.

Os romanos descobriram o vidro, mas nunca fizeram um vitral.

Quando começou então a história do vitral?

Quando nasceu o desejo do maravilhoso.

Se as almas dos vitraleiros — se a palavra existe no português — não fossem ávidas deste azul, daquele verde, daquele dourado, eles teriam tomado o trabalho de encontrar essas cores?

Eles preferiam ficar numa semi-pobreza a vida inteira até encontrar um verde ou um azul que sonhavam para o vitral de Nossa Senhora, ou do Anjo São Gabriel, ou de um santo.

E depois morriam contentes. “Ali vai haver tal azul, essa é a minha contribuição para todo o sempre para a glória de tal Santo”.

A gente teria a vontade de imaginar que o Anjo que veio pegar a alma deles quando eles morreram, tinha santidades e virtudes análogas à cor com que eles sonharam.

Essa era a morte do artesão que trabalhava o vitral.

Ele podia dizer:

“a minha vida está explicada, eu trouxe tal cor ao conhecimento dos homens, à piedade da Igreja, à glória de santo tal, ou de Nosso Senhor em tal mistério de sua vida.

“Ó sol tu que me antecedeste na criação, tu também, foste criado para que um dos seus raios passasse sempre por lá.

“Enquanto tu fores sol e o mundo for mundo, um dos teus raios atravessará o azul com que eu sonhei, e vai iluminar o chão de granito e vai enlevar alguma alma fiel que veja. Minha vida está explicada”.

Por detrás da história do vitral está a história das almas que quiseram essas cores.

Porém, há muito mais.

É a história das almas irmãs destas que pensaram num maravilhoso muito mais global do que simplesmente uma cor. Desejaram o vitral inteiro.

E, mais ainda, as almas que pensaram na catedral.

O que é que é o vitral senão um elemento da catedral?

Se quiserem, os vitrais são os olhos das catedrais.

Ó alma da Idade Média que pensou nas catedrais, que pensou nos castelos e que queria mais, mais e mais. Quando é que nasceu essa alma?

A alma da Idade Média, o espírito da Idade Média nasceu quando?

Se nós nos pusermos estas perguntas, nós vamos remontando como um rio a história da Igreja.

Todas essas almas que engendraram o gótico, elas desejavam coisas mais perfeitas, mais e mais.

E haveria de vir um dia em que a perfeição da Igreja e da Civilização Cristã, da Cristandade seriam tais que o Reino de Maria estaria constituído na terra.

E aí também, haveria um reflorescer incomparável das artes, da beleza, dos vitrais e quanta outra coisa!

Nós estamos numa época de germinação do Reino de Maria.

E se nós queremos conhecer o Reino de Maria como será, não se trata tanto de planejá-lo, nem de excogitá-lo, mas se trata de sentir a pulsação dele dentro de nós.

 

(Fonte: Plínio Correa de Oliveira, 15.8.81, excerto sem revisão do autor.)

 

 

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23 dezembro 2015

Feliz Natal e bom Ano Novo !

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 19:46

Feliz Natal 2015 Ciencia e Igreja

17 novembro 2015

O cavaleiro, braço armado da Santa Igreja

Roberto de Normandia no sitio de Antioquia
Roberto de Normandia no sitio de Antioquia

Dispôs a Providência que a Idade Média fosse uma era histórica especialmente aguerrida, não só pela dupla compressão com que Carlos Magno teve que lutar — os sarracenos e os bárbaros — mas também pelos resíduos de espírito pagão que ficaram nos próprios católicos, por onde eram levados a desembainhar a espada por motivos insignificantes.

Gradualmente foi a Igreja dulcificando os costumes e canalizando esse ardor combativo para o serviço da Cristandade.

Até a época das Cruzadas, a defesa do território e do governo legítimo de cada povo era o mais elevado ideal que inspirava o coração dos guerreiros no momento das batalhas.

Mas eis que uma idéia nova, como um astro desconhecido que brilha com fulgor extraordinário no meio da noite, paira sobre a Igreja e atrai todos os olhares.

Tomada de Jerusalém. Emil Signol, Museu das Cruzadas, castelo de Versailles
Tomada de Jerusalém.
Emil Signol, Museu das Cruzadas, castelo de Versailles

Sua luz se projeta em um momento sobre a Europa inteira e acende em todo lugar um entusiasmo sagrado; todas as classes da sociedade cristã se agrupam, se interpenetram, confraternizam; os povos, que até pouco antes se desmembravam e se fracionavam para viver isolados em suas estreitas muralhas, se levantam simultaneamente como um só homem, uma só nação, um só exército; marcham sob o mesmo estandarte, obedecem ao mesmo impulso, devotam-se à mesma causa.

O que se passa então no mundo? Qual a grande nova que se diz e se repete no Oriente e no Ocidente?

Qual o objeto desse universal abalo das nações cristãs? A libertação de Jerusalém!

A Cruzada não é senão o mistério da Cruz, meditado e realizado, posto em pensamento e ação em toda a sua amplitude, notavelmente nos seus resultados, e não somente por um indivíduo ou por uma nação, mas por toda a Cristandade, por todo o Corpo Místico de Cristo, crucificado e ressuscitado.

Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Ele mesmo profetizou, devia sofrer, mas também entrar na glória.

Segundo o rei Davi, devia ser perseguido e esbofeteado, saciar sua sede com fel e vinagre, ter os pés e as mãos perfumados, divididas suas roupas e sua túnica jogada à sorte.

Mas para Ele voltar-se-iam todos os confins da terra, adorá-lo-iam todas as famílias dos povos, a Ele caberia o Império, dominaria as nações.

Segundo Isaías, devia ser acabrunhado de opróbrios, quebrantado por nossos crimes.

Mas por isso teria uma longa posteridade, dividiria os despojos dos poderosos, receberia as nações por herança, golpearia a terra com a vara de sua boca, faria habitar juntos o lobo e o cordeiro, o leão e o cabrito, sob a direção de um menino; levantaria seu estandarte aos olhos das nações, e os povos acudiriam a Ele e lhe apresentariam suas homenagens. Seu sepulcro seria glorioso.

Segundo o Discípulo bem-amado, esse Cordeiro, imolado desde a origem do mundo, teria uma espada de dois gumes para ferir as nações rebeldes, governá-las-ia com vara de ferro e calcá-las-ia aos pés no lagar.

Com seus santos e seus anjos, julgaria e castigaria a grande Babilônia, a idólatra Roma, de quem o império anticristão de Maomé não é senão uma versão reduzida.

Seus servidores e seus combatentes seriam distinguidos por seu sinal: o sinal do Filho do Homem, o thau do profeta Ezequiel; o thau que primitivamente tinha forma de cruz; o thau, última letra do alfabeto hebreu, porque Jesus Cristo crucificado é o fim de todas as coisas; o thau que, em hebreu, é a primeira letra da palavra crucificado.

E dessas execuções da justiça divina pelo Cordeiro e seu exército, nunca o sangue dos culpados subiria até o freio dos cavalos.

E a Cruzada, o que é senão tudo isso? Não é a Cristandade inteira reunida sob a cruz, para sofrer e combater?

Batalha das Navas de Tolosa, Espanha.
Batalha das Navas de Tolosa, Espanha.

Não é Jesus Cristo, outrora só e rejeitado por seu povo, que agora reúne as principais nações da Terra, o lobo e o cordeiro, o leão e o cabrito, o franco, o godo, o vândalo, o inglês, o lombardo, o italiano, o grego, o sírio, as nações outrora as mais bárbaras ou as mais requintadas?

Ele as reuniu à voz de um menino; Ele as reuniu sob seus estandarte, a Cruz; Ele as reuniu para sofrer e combater, como Jesus Cristo, que sofreu e morreu para combater e vencer, como Jesus Cristo ressuscitado e triunfante!

Na concepção do cavaleiro medieval, a guerra é o ato pelo qual um povo resiste à injustiça com o preço de seu sangue. Onde houver injustiça, há legítima causa de guerra até a satisfação.

A guerra é, depois da religião, o primeiro dos ofícios humanos: uma ensina o direito, a outra o defende; uma é a palavra de Deus, a outra o seu braço.

“Santo, santo é o senhor Deus dos Exércitos!” O Deus da Justiça, o Deus que manda o forte socorrer o fraco oprimido, o Deus que derruba as dominações soberbas.

O espírito das Cruzadas, a união do heroísmo à devoção, do amor ao próximo à combatividade, da espada à penitência, se mostrou com as mais brilhantes cores nas Ordens de Cavalaria.

Como o caçador, vigilante e armado no cimo da colina, investiga de que lado sopra o vento, assim a Europa, naqueles tempos, de lança em punho e pé no estribo, observava atentamente de que lado vinha a injúria.

Viesse ela de um trono ou da torre de um simples castelo, fosse preciso cruzar mares, campos ou vales, nada detinha seus guerreiros.

Não se avaliava o proveito ou o prejuízo: o sangue se derrama sem preço ou não se derrama, e a consciência o paga na terra de Deus, na eternidade.

A guerra transformou-se não só num serviço cristão, mas ainda num serviço monástico: viram-se batalhões de monges cobrir com o cilício e o escudo os postos avançados do Ocidente.

Os religiosos se animaram com bravura cavalheiresca; os cavaleiros se inflamaram com zelo religioso; o soldado se fez monge na perspectiva da Jerusalém celeste; o monge se fez soldado para libertação da Jerusalém terrestre.

Tomaram e conquistaram pela violência a Jerusalém da Terra, assim como só pela violência se conquista a do Céu.

Tais foram aqueles cavaleiros orantes e monges armados, cujos mosteiros eram fortalezas, que obedeciam com o mesmo fervor ao sino como à trombeta quando os chamava à batalha.

Eram os primeiros no ataque e os últimos na retirada. Enquanto sua espada feria, suas orações e cânticos entusiásticos se elevavam aos céus.

É assim que o grande São Bernardo, não contente em louvar a vida piedosa dos templários, governados por uma sábia regra, lhes traça uma justificação da guerra: Não há lei que impeça ao cristão golpear com o gládio; o que é proibido é a guerra iníqua, é sobretudo a guerra entre os cristãos.

“Matar os pagãos seria até mesmo proibido, se se pudesse impedir de qualquer outro modo suas corrupções e retirar-lhes os meios de oprimir os fiéis.

Mas atualmente é melhor massacrá-los, a fim de que sua espada não permaneça suspensa sobre a cabeça dos justos.

Os cavaleiros de Cristo podem combater os combates do Senhor, podem fazê-lo com toda a segurança. Quer eles matem o inimigo ou morram eles próprios, não devem conceber nenhum receio; padecer a morte por Cristo ou dá-la, longe de ser criminoso, é antes glorioso.

O cavaleiro de Cristo mata em consciência e morre tranquilo; morrendo, trabalha por si mesmo; matando, trabalha por Cristo. E não é sem razão que ele porta um gládio; ele é o ministro de Deus para castigo dos maus e exaltação dos bons.

Quando mata um malfeitor, não é homicida, mas (desculpai a palavra) malicida, e é necessário ver nele o vingador que está a serviço de Cristo e o defensor do povo cristão.

A morte dos pagãos faz a sua glória, porque ela é a glória de Cristo; sua morte é um triunfo, porque ela o introduz na morada das recompensas eternas”.

Entre as frágeis instituições que a Cavalaria tomou sob a sua guarda, havia uma sagrada entre todas: a Igreja. A Igreja, não tendo soldados nem muralhas para defender-se, estivera sempre à mercê de seus perseguidores.

Qualquer príncipe podia tudo contra ela. Mas quando a Cavalaria se formou, a sua preocupação foi proteger a fraca e oprimida Cidade de Deus, cuja liberdade era a própria causa do gênero humano.

Fundada por nosso Senhor Jesus Cristo para perpetuar a obra da Redenção entre os homens, a Igreja era a mãe, a esposa, a irmã de todo aquele que tivesse uma nobre alma e uma boa espada.

Tudo isso fez das Cruzadas um ciclo de operações militares para exaltação da Igreja: contra os mouros no Ocidente, na Sicília e na Espanha; contra pagãos no Norte; contra hereges e antipapas em Toulouse e na Itália.

Assim como em São Francisco de Assis a virtude do desapego dos bens terrenos refulgiu de um modo especial, assim nas Cruzadas brilhou como nunca o caráter militante da Igreja.

 

 

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10 novembro 2015

Defesa da Igreja e da justiça

 

“Em todas as suas ações — diz o autor de ‘l’Entrée en Espagne’ — o cavaleiro deve se propor um duplo fim: a salvação de sua alma e a honra da Igreja, da qual ele é o guardião”.

Sustentar a Cristandade é um termo que aparece frequentemente em nossos velhos poemas, e que exprime bem o que quer dizer.

Quando o jovem deixa a casa paterna, a última palavra que a mãe lhe dirige é para lembrá-lo deste augusto dever: “Serve a Jesus Cristo e a Santa Igreja”.

Ao mesmo tempo que recebia as armas de cavaleiro, o escudeiro pronunciava, a pedido do celebrante, o juramento de respeitar as leis da Cavalaria e recitava alguma oração no gênero daquela, lindíssima, que se encontra no cerimonial, datado de 1293-1295, do Padre Guilherme Durant, e da qual Marc Bloch nos deu uma excelente transposição:

“Senhor Santíssimo, Pai Todo-Poderoso, Vós que permitistes na terra o uso da espada para combater a perfídia dos maus e defender a justiça, que para a proteção do povo quisestes constituir a Ordem da Cavalaria, fazei com que, dispondo o seu coração ao bem, o vosso servo que aqui está não faça nunca uso desta espada ou de outra para lesar alguém injustamente, mas que se sirva sempre dela para defender a Justiça e o Direito”.

 

O espírito guerreiro que os animava bem se expressa nesta poesia, habitual entre os cavaleiros medievais:    Si j’avais un pied en ParadisEt l’autre em mon château,

Je retirerais, pour aller me battre,

Le pied que j’aurais là-haut.

Se eu tivesse um pé no Paraíso

E outro no meu castelo,

Eu retiraria, para ir combater,

O pé que estivesse no Céu. (Léon Gautier, “La Chevalerie”, Arthaud, Paris, 1959, pp. 31-32).

Baudouin de Condé crê que o cavaleiro deve continuar ativo em sua armadura durante todo o tempo que suas forças o permitam.

Até às portas da morte, até o último suspiro, o pensamento e a recordação dos feitos e das batalhas persegue a grande maioria desses homens de armas.

Um deles morre murmurando: “No céu, vou refazer a guerra de espada e de lança”.

Outro moribundo, sem desanimar, pede aos que o estão velando que o ajudem a levantar-se e armar-se, para acertar uma “quintana”. Certo cavaleiro dizia que era preciso haver mouros no paraíso, que lhes dessem ocasião de novos combates.

Numerosos guerreiros, para serem mais garantidamente admitidos na bem-aventurada morada, tomam a precaução de vestir, antes de morrer, hábitos de monge, com os quais serão enterrados.

Vendo-os aparecer em tais vestes, São Pedro não ousará fechar-lhes as portas. Esse uso praticado pela Cavalaria, de se enterrar com hábito de monge, continuou até o fim do século XIV.

Em algumas abadias havia monges especialmente designados para vestir os cavaleiros que exprimissem tal desejo.

Se o cavaleiro morresse em uma batalha, depositava-se sobre a tumba sua bandeira, seu estandarte e o pequeno estandarte de seu elmo. Se ele não tivesse morrido em batalha, era permitido colocar-se apenas duas destas insígnias.

Suvanes, em seu “Tratado sobre a Espada Francesa”, fala do costume de se levar a uma igreja as armas do cavaleiro morto, para serem conservadas no tesouro do templo.

A espada de Santa Joana d’Arc encontra-se na igreja de Santa Catarina de Fierbois. A Santa guerreira considerava um verdadeiro dom celeste a espada que recebera.

Os cruzados que tinham combatido na Terra Santa, ou mesmo aqueles que apenas haviam pronunciado o voto de fazê-lo, eram enterrados com as pernas cruzadas, atitude em que podemos contemplá-los sobre os túmulos, nos claustros dos mosteiros.

O cavaleiro ansiava pelo momento em que pudesse abandonar os torneios e seguir para além-mar, para a Terra Santa. Só assim poderia adquirir a reputação de “batalhador”.

São Luís IX, em sua imensa piedade, não se cansava de dizer que preferia o cognome de “batalhador” ao de “devoto”.

Preguiça e avareza aparecem aos olhos do cavaleiro como inimigos mortais. Por isso, não bastava conquistar um prêmio num torneio ou uma batalha vitoriosa. Ao voltar para casa, ele deveria mostrar-se benevolente para com todos, amável, polido, dar esmolas aos pobres, distribuir suas velhas túnicas aos menestréis.

À valentia, generosidade e cortesia devia juntar-se a modéstia.

Sentimentos religiosos dos cavaleiros

Ir à missa todas as manhãs, sem distinção entre Domingo e dias da semana, era obrigação à qual os cavaleiros se submetiam em consciência.

Durante a leitura do Evangelho, tiravam a espada da bainha e a sustentavam na mão até o fim da leitura, indicando com isto a sua vontade de defender em todas as circunstâncias a Igreja e a Fé.

A oração que parece ter sido a mais divulgada nos séculos XIII a XVI é a seguinte, que se encontra em grande número de livros de horas:

“Alcançai-me o dom desta Graça Divina, que será a protetora e a mestra dos meus cinco sentidos, que me fará cumprir as sete obras de misericórdia, crer nos doze artigos da Fé e praticar os dez mandamentos da Lei, e que enfim me livrará dos sete pecados capitais até o último dia da minha vida”.

Eram orações tradicionais, que nem todos os cavaleiros podiam estar repetindo, se não as decoravam.

Um dos mais renomados cavaleiros franceses era Étienne Vignolles, chamado La Hire, o ativo colaborador de Santa Joana d’Arc. Com o bravo Dunois, ele ia tentar fazer levantar o cerco de Montargis, assaltada pelos ingleses.

Aproxima-se do campo inimigo e suplica a um capelão, tendo em vista os perigos que vai enfrentar, que lhe seja dada a absolvição dos pecados que ele possa ter cometido.

O padre lhe pede que se confesse. Impossível, pela urgência, pois o ataque é iminente. A absolvição pedida é dada, sob a condição de La Hire dizer a Deus uma oração.

Ele junta devotadamente as mãos, e diz em gascão: “Deus, eu te suplico que faças hoje por La Hire o mesmo que Tu gostaríeis que La Hire fizesse por Ti, se ele fosse Deus e Tu fosses La Hire”. E ele estava certo de ter rezado muito bem a Deus.

 

 

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3 novembro 2015

O ideal da Cavalaria em ação nas Cruzadas

O bispo Adhemar de Monteil leva a Santa Lança na vitória libertadora de Antioquia
O bispo Adhemar de Monteil leva a Santa Lança na vitória libertadora de Antioquia

Nascida da união de dois anelos aparentemente contraditórios — a caridade cristã e a força do guerreiro — a Cavalaria deixou na História um sulco prateado que ninguém conseguiu apagar.

Num mundo que surgia das ruínas do paganismo romano, lançou um raio de beleza ideal e criou condições para a maior epopeia que os séculos viram: as Cruzadas.

O cavaleiro nasceu na Igreja Católica e formou-se na sagrada doutrina do Mestre da Galileia, que ele aprendeu a admirar nos coloridos vitrais e nas serenas imagens das catedrais medievais. Em sua alma trazia impressa a aprazível, bondosa e suave imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele sabe perfeitamente que a vida do homem sobre a Terra é um combate — Militia est vita hominis super terram (Job, 7,1) — e ao elevar seu olhar até o Senhor Justo e Bom (Sl. 24, 8-9), o Rei paciente e bondoso, generoso e cheio de misericórdia (Sl. 102, 8-10), que passou a vida fazendo o bem, percebe que Ele foi desprezado, injuriado, perseguido, traído, preso, flagelado, ultrajado, e finalmente morto infamemente entre dois vulgares ladrões.

Em face a essa incomensurável injustiça, a alma angustiada do homem medieval repete o brado do leal Clóvis: “Ah, se eu estivesse lá com meus francos!…”

O cavaleiro quer estabelecer aquilo que Nosso Senhor Jesus Cristo veio instaurar.

Daí o grandioso momento em que, reunidos os cavaleiros na praça de Clermont-Ferrand, ao chamado do Bem-aventurado Urbano II, as Cruzadas nasceram!

Inspiradas pelo papado, nutridas da doutrina da Cátedra da Verdade, é nela que melhor encontramos a explicação das mesmas.

As Cruzadas — afirma Inocêncio III — tinham por fim “arrebentar militarmente os bárbaros pagãos e conservar a herdade de nosso Senhor, vingar as injúrias ao Crucificado e defender a terra onde nasceu o Salvador”.

São Cruzadas, em primeiro lugar, contra os infiéis que se instalaram impunemente “naquela cidade em que Nosso Salvador quis padecer, e em outras que os pagãos conspurcam livremente”; mas o papado move também cruzadas contra os hereges que querem destruir a Cristandade, contra os cristãos rebeldes, contumazes na excomunhão ou culpados de crimes eclesiásticos gravíssimos.

São Bernardo de Claraval, incansável pregador das Cruzadas.
São Bernardo de Claraval, incansável pregador das Cruzadas.

 

O lema invocado por Celestino III é extraído dos Evangelhos:

“Quem não está com Cristo, como a doutrina evangélica ensina, é um inimigo.

“Praticarias o infame vício da ingratidão, ficarias coberto com o manto da infidelidade e serias réu do crime de condenação eterna se, estando Jesus Cristo, Nosso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores, expulso da terra que comprou com seu próprio Sangue, e como que cativo dos sarracenos por causa de seu salutar sinal da Cruz, tu negligenciasses tomar parte na Cruzada.

“Indigno se torna da herança eterna, e bem pode ser excluído da mesma — o que não pode deixar de causar terror — aquele que não acende seu zelo pela Fé Cristã, não se move pelas injúrias feitas a Jesus Cristo e não se abrasa diante da profanação do Santuário e das afrontas feitas ao Redentor. Como poderá ser co-herdeiro com Cristo quem negligenciou prestar-lhe socorro, como varão, quando Ele precisava?”

 

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27 outubro 2015

Origens da Cavalaria medieval

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O 'adoubement' era a sagração do cavaleiro e marcava seu ingresso na cavalaria.
O ‘adoubement’ era a sagração do cavaleiro e marcava seu ingresso na cavalaria.

Podemos agora afirmar que existiram duas organizações paralelas: o exército feudal e a Cavalaria.

O exército feudal compreenderia tropas a cavalo e tropas a pé. Entre as primeiras estariam os diversos tipos de cavaleiros e escudeiros, cujos nomes derivariam da espécie de feudo que possuíssem ou da natureza de jurisdição que exercessem em seus territórios. Seus membros seriam recrutados entre a nobreza feudal.

Nas tropas a pé encontravam-se burgueses e determinados servos da gleba. Eram flecheiros e besteiros. Havia também os que se armavam com maça ou machado.

Qualquer um desses guerreiros podia ser armado cavaleiro, em virtude de seus atos de bravura ou de sua honestidade moral. A princípio, o cerimonial usado para conferir essa dignidade fora simplesmente militar (séc. IX e X).

Com a maior influência da Igreja Católica, começou a surgir o cerimonial religioso, que incluía a ação do sacerdote como parte integrante do “adoubement” (séc. XI).

Finalmente formou-se o cerimonial litúrgico, que atribuía aos membros do clero o direito de armar cavaleiros os homens de armas dignos (séc. XIII).

É bem provável que, no começo, a honra da Cavalaria fosse concedida tendo-se em vista sobretudo o valor militar do candidato. Com a ação da Igreja, modificou-se em parte essa visualização, preferindo-se atender muito mais às virtudes morais do guerreiro do que às suas qualidades físicas.

Não estamos de acordo com aqueles que afirmam que a origem da Cavalaria estaria nos costumes primitivos dos germanos. Os que lhe dão tal paternidade costumam apoiar-se no simples fato de que a entrega da espada era comum entre as tribos bárbaras.

Entretanto, a Cavalaria era uma distinção feita para a recompensa dos guerreiros excelentes. Existe nela uma idéia de que os atos de virtude devem ser simbolizados em alguma instituição.

Ora, a entrega das armas entre os bárbaros, ao que tudo indica, nunca significou uma recompensa por um ato de virtude, mas simplesmente conferia a um homem livre o direito de usar das armas.

Juramento durante a cerimônia de 'adoubement'.
Juramento durante a cerimônia de ‘adoubement’.

Ainda que houvesse entre os germanos certos cerimoniais muito próximos aos que se encontram na Cavalaria, jamais aqueles cerimoniais quiseram comemorar entre eles um valor moral, mas sempre tiveram em vista um fim prático, como seja o acréscimo de mais um guerreiro para a defesa da tribo.

A nobreza de concepção que se encontra na própria instituição da Cavalaria ultrapassa as possibilidades de realização dos bárbaros. Por isso essa instituição se deve, em última análise, à atuação evangélica da Igreja Católica entre esses povos.

Não queremos afirmar com isso que a Igreja teria previsto e ditado as normas de como seria a Cavalaria.

Sem a atuação da Igreja através da distribuição das graças de conversão a esses povos bárbaros, jamais teria nascido entre eles a ideia de uma tal instituição. Portanto, mais uma vez, podemos dizer que só à Igreja Católica é que devemos a origem mais profunda da Cavalaria.

 

Evolução da Cavalaria medieval

A Cavalaria assim compreendida sofreu um desenvolvimento orgânico muito importante. Se de um lado ela significava uma distinção às virtudes morais e naturais praticadas por certos guerreiros, de outro lado, por uma espécie de decorrência, ela originou a formação de agrupamentos, onde se praticava o ideal de vida do guerreiro católico.

Daí os dois ramos em que podemos dividir a Cavalaria: o civil e o religioso. A Cavalaria civil seria, de acordo com a exemplificação já vista, comparável a uma condecoração conferida àqueles guerreiros que se destacassem por seus atos de virtude militar ou moral.

A Cavalaria religiosa seria uma espécie de confraria religiosa ou Ordem Terceira, destinada a formar o espírito militar católico naqueles que tivessem inclinação para tal.

A existência dessa segunda espécie de Cavalaria se acha confirmada não só pela criação das Ordens Militares, como também pelo seguinte trecho:

“Guilherme, Conde de Holanda, tendo acabado de ser coroado imperador em Aix-la-Chapelle, foi feito cavaleiro em Colônia, no ano de 1248; porque era somente escudeiro, e as leis do império determinavam que o imperador só devia ser coroado se fosse cavaleiro. Por isto, o rei da Boêmia o fez cavaleiro.

“Eis as cerimônias que se praticaram nessa ocasião. Durante a Missa, celebrada pelo Cardeal Capuccio do Título de São Jorge au Voile d’Or, o Rei da Boêmia, após o Evangelho, apresentou a este Prelado o Conde de Holanda, dizendo-lhe:

‘Nós apresentamos a Vossa Reverência este escudeiro, suplicando muito humildemente que Vossa Paternidade receba sua profissão e seu votos, a fim de que ele possa entrar em nossa Sociedade Militar’.

“O Cardeal disse ao Conde: ‘Segundo a origem da palavra cavaleiro, é preciso que aquele que quer combater tenha grandeza de alma, que seja de condição livre, que seja dadivoso, que seja corajoso e que tenha muita destreza.

‘Que tenha grandeza de alma, a fim de não se deixar abater nas adversidades; que seja de condição livre por seu nascimento; que se faça honrar por sua liberalidade; que demonstre coragem quando comandar e que dê provas de suas destrezas nas ocasiões.

‘Mas antes de pronunciar os votos de vossa profissão, a fim de que não os façais sem saber ao que vos obrigais, escutai as regras da Cavalaria:

‘é preciso ouvir todos os dias a Santa Missa, expor vossa vida em defesa da Fé Católica, garantir da pilhagem a Igreja e seus ministros, proteger as viúvas e os órfãos, evitar as guerras injustas, aceitar os duelos para libertar o inocente, não alienar os bens do império, e viver diante de Deus e diante dos homens sem nenhuma falta.

‘Estas são as regras da Cavalaria, e se as observardes fielmente, obtereis muita honra nesta vida, e gozareis, após vossa morte, da eternidade bem-aventurada.

“Após isto, o Cardeal tomou as mãos do Conde de Holanda, e tendo-as encerrado no Missal onde acabara de ler o Evangelho, perguntou-lhe se queria receber a Ordem da Cavalaria, em nome do Senhor, e fazer profissão dessa Ordem conforme a regra que ele acabava de explicar.

“O Conde, tendo respondido que a queria receber, deu-lhe sua profissão por escrito, que ele pronunciou nos seguintes termos:

“Eu, Guilherme de Holanda, Príncipe da Milícia e vassalo do Santo Império, sendo livre, faço juramento de guardar a regra da Cavalaria, em presença do Senhor Cardeal do Título de São Jorge au Voile d’Or e Legado da Santa Sé, por estes Santos Evangelhos que toco com a mão”.

Rei da Boêmia deu-lhe então um grande golpe sobre o pescoço, dizendo-lhe: ‘Lembrai-vos, em honra de Deus Todo-Poderoso, que eu vos faço cavaleiro e vos recebo com alegria em nossa Sociedade; e lembrai-vos também de que Jesus Cristo recebeu uma bofetada, que d’Ele se riram diante do Pontífice Anás, que foi revestido de uma túnica de louco, que sofreu zombarias diante do rei Herodes, que foi exposto nu e preso a uma cruz.

“Eu vos peço de ter sempre no pensamento os opróbrios d’Aquele cuja Cruz aconselho-vos a trazer sempre’. Após a Missa ter chegado ao fim, saíram da Igreja ao som de trombetas, timbales e fanfarras.

“O Conde fez um desafio à lança com o filho do rei da Boêmia, e o perseguiu com a espada na mão, como para começar a cumprir as funções da Ordem com a qual acabava de ser honrado” (“Histoire des Ordres Monastiques, Religieux et Militaires, et des Congrégations Seculières de l’un et l’autre sexe, qui ont été établies jusqu’à présent” – Nicolas Gosselin, Paris, 1775, vol. IV, p. 44 ss).

Esse trecho confirma a tese de que havia uma Sociedade Militar, na qual se entrava por meio de uma profissão, fazendo-se votos e obedecendo-se a regras. Ora, isto é o que sucede nas Ordens Terceiras religiosas. Fica, portanto, provado que existia uma Cavalaria religiosa.

Quanto às Ordens Militares, basta recordar que muitas delas exigiam de seus membros votos perpétuos de castidade, obediência e pobreza. Os cavaleiros viviam em comunidades, recitando o Ofício Divino e trajando hábitos especiais.

Seria preciso, todavia, estudar melhor a natureza jurídico-eclesiástica das Ordens Militares de Cavalaria. Como o próprio nome indica, parecem estar incluídas na categoria das Ordens Religiosas dentro da Igreja.

 

 

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20 outubro 2015

Como se entrava na Cavalaria medieval?

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Beato Charles de Blois, duque da Bretanha, igreja Notre-Dame de Bulat-Pestivien
Beato Charles de Blois, duque da Bretanha,
igreja Notre-Dame de Bulat-Pestivien

Baseados no conceito de “cavaleiro”, podemos fazer uma ideia do significado das diversas etapas que se requeriam para ser armado cavaleiro.

Sendo o cavaleiro um homem de armas que possui determinadas virtudes naturais e morais, ele pode adquirir essas virtudes depois de um longo noviciado, como se faz nas Ordens Religiosas.

Ou tornar-se digno da Cavalaria porque, num momento excepcional, ele superou-se a si mesmo, demonstrando com isso um grande valor de alma que abarca, em potência, todas aquelas virtudes requeridas para o ingresso na Cavalaria.

Portanto, os homens de armas podem ser armados cavaleiros de duas maneiras:

a) normalmente, através de um noviciado, que compreende as três etapas de pajem, escudeiro e cavaleiro;

b) excepcionalmente, no campo de batalha ou em outras circunstâncias, quando se lhe confere a Cavalaria sem aquela preparação anterior.

Paul Lacroix afirma que “todo cavaleiro põe seu filho a serviço de outro cavaleiro”. (Paul Lacroix, “Vie Militaire et Religieuse au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance”, Firmin Didot Frères, Fils et Cie., Paris, 1873, p. 150)

Esta afirmação nos leva a pensar que havia entre os cavaleiros uma espécie de contrato, pelo qual era possível realizar o noviciado dos cavaleiros.

Somente os cavaleiros tinham poder de armar cavaleiro um homem de armas. Isso poderia significar também que somente os cavaleiros eram capazes de preparar e educar os homens de armas para a recepção na Cavalaria.

De maneira que o serviço de pajem e escudeiro, enquanto significando um noviciado para a recepção na Cavalaria, provavelmente só se fazia nos castelos de senhores que eram cavaleiros, isto é, membros da Cavalaria.

Isto talvez seja um dado novo, pois nos livros de História não se dá realce a esse fato, e acaba-se interpretando que o serviço de pajem e escudeiro se prestava a qualquer senhor feudal, e que era costume da nobreza enviar seus filhos a senhores mais poderosos para executarem tais serviços.

Robert Bruce, herói da Escócia, estátua em Bannockburn
Robert Bruce, herói da Escócia, estátua em Bannockburn

Uma vez que a Cavalaria é algo inteiramente distinto do feudalismo, aquele serviço de pajem e escudeiro, que todos reconhecem ser uma etapa para a recepção da Cavalaria, provavelmente só se fazia junto aos nobres que eram membros da Cavalaria.

Somente nobres eram capazes de transmitir aos jovens, desejosos de pertencer à Cavalaria, a mentalidade e as virtudes necessárias para adquirir aquela distinção honorífica.

Portanto, o serviço de pajem e escudeiro, enquanto significando uma etapa preparatória para a Cavalaria, deve ser visto como um verdadeiro noviciado, onde o pretendente à Cavalaria adquire, pelo exercício e pelo tempo, as virtudes naturais e morais que o possam tornar digno de ser membro da Cavalaria.

Esse era o meio normal para se ingressar na Cavalaria. Havia também os meios excepcionais, a que já nos referimos.

O que acabamos de dizer acerca do noviciado da Cavalaria talvez lance uma luz sobre o problema do significado da palavra “escudeiro”. Certamente ocorre com essa palavra o mesmo que com a palavra “cavaleiro”.

“Escudeiro” poderia significar uma etapa na formação de um homem de armas para a recepção na Cavalaria, e poderia significar também um tipo de guerreiro de exército feudal, que possuísse um feudo territorial de natureza especial.

Assim, poder-se-ia levantar a hipótese de que a palavra “escudeiro” teria pelo menos dois significados:

a) designava todos os homens de armas que estavam cursando o noviciado da Cavalaria, ou que já o haviam completado, embora ainda não tivessem recebido o “adoubement”;

b) designava os homens de armas do exército feudal que possuíam feudos especiais.

Para compreendermos melhor o sentido da palavra “escudeiro”, enquanto membro da Cavalaria, lembremos que nas Ordens Terceiras existem os noviços e os irmãos terceiros. Os noviços podem ficar noviços durante muito tempo, até serem aceitos como irmãos.

No caso da Cavalaria, existiram os escudeiros e os cavaleiros. Um cavaleiro provavelmente poderia ficar muito tempo escudeiro, até que fosse armado cavaleiro por um outro cavaleiro.

Todavia, embora não fosse armado cavaleiro, enquanto escudeiro ele pertencia à Cavalaria, isto é, participava de alguma dignidade honorífica pelo fato de ser um pretendente à Cavalaria.

Em abono desta hipótese, poder-se-ia aduzir o seguinte trecho do Grand Dictionnaire Universel Larousse:

“O escudeiro não podia usar esporas de ouro nem roupas de veludo; mas calçava esporas de prata e trajava vestimentas de seda”.

Isso parece indicar que o escudeiro tinha roupas especiais, que simbolizavam o seu grau de dignidade dentro da Cavalaria.

Por outro lado, falando sobre o grau de escudeiro, o mesmo dicionário assim se expressa:

“Da situação de pajem, o jovem fidalgo passava à de escudeiro; para receber esse grau, que lhe era conferido numa grande cerimônia religiosa, devia ter pelo menos 14 anos.

“O jovem, recém-saído do estado de pajem, era apresentado diante do altar por seu pai ou sua mãe, que, com uma vela na mão, compareciam ao oferecimento.

“O sacerdote tirava de cima do altar uma espada com seu cinturão, fazendo a seguir várias bênçãos sobre ela e prendendo-a ao lado do jovem candidato, que até então só a podia carregar”.

Essa descrição nos aproxima das cerimônias requeridas para a recepção de candidatos à Cavalaria, e por isso nos faz supor que escudeiro era um grau na cavalaria, que se adquiriria também através de certos rituais, e que se conservaria até que fosse chamado ao grau de cavaleiro.

Quanto à afirmação de que o escudeiro só podia levar a espada, sem poder fazer uso dela, há uma explicação a ser dada. Parece-nos que isso vigorava até que o escudeiro atingisse a idade de 21 anos.

Segundo Larousse, havia escudeiros que combatiam tal como os cavaleiros. Além disso, Lacroix, ao tratar dos escudeiros em sua obra “Vie Militaire et Religieuse au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance”, diz que os escudeiros, depois de um determinado tempo de serviço junto aos senhores feudais, iam correr o mundo com o título de “poursuivants d’armes” (cadetes de armas), onde acabavam de concluir o seu noviciado de Cavalaria, fazendo atos de bravura e aprimorando os seus conhecimentos e sua educação. (Paul Lacroix, idem, ibidem, pp. 150 ss.)

Portanto, é bem provável que os escudeiros usassem da espada para demonstrarem o seu valor militar, e assim tornarem-se dignos de receber o “adoubement” da Cavalaria.

De maneira que, se isso for assim, os escudeiros podiam ser inclusive adultos que ainda não tivessem recebido o “adoubement”, mas que no entanto pertenceriam à Cavalaria, pois estavam no noviciado preparatório para a mesma.

Ou seja, haveria casos em que um escudeiro ficava esperando durante muito tempo, até que chegasse a ocasião em que ele fosse julgado digno de ser armado cavaleiro.

Finalmente, poderíamos também supor que um fidalgo fosse cavaleiro enquanto membro do exército feudal, e no entanto tivesse o título de escudeiro enquanto membro da Cavalaria.

Esse fidalgo, que seria um “cavaleiro de nascimento”, todavia era escudeiro diante dos demais cavaleiros membros da Cavalaria, e devia ceder o seu lugar quando estivesse na presença daqueles.

Talvez houvesse também o caso de serem armados cavaleiros certos homens livres, que ocupassem no exército feudal o posto de escudeiro. Como membros da Cavalaria, estes seriam cavaleiros, e como participantes do exército feudal seriam escudeiros.

Estas últimas hipóteses, parece-nos, abririam novos horizontes na pesquisa do intrincado problema da Cavalaria. E sobretudo facilitariam a investigação do verdadeiro sentido dos termos “cavaleiro” e “escudeiro”, durante a Idade Média.

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13 outubro 2015

Os mestres medievais autores de inventos atribuídos a Leonardo da Vinci

Detalhe do relógio astronômico na Praça da Cidade Velha, Praga.
Detalhe do relógio astronômico na Praça da Cidade Velha, Praga.

continuação de post anterior: A geometria a serviço do arquiteto medieval

Em 1459, os mestres-pedreiros de Estrasburgo, Viena e Salzburg, reunidos em Ratisbona para redigir os estatutos profissionais de suas lojas, decidiram:

“Nenhum operário, nenhum mestre, nenhum parlier, nenhum jornaleiro ensinará a quem não for do nosso ofício nem fez jamais trabalho de pedreiro como tirar a elevação [alçado] a partir do plano” (J. Gimpel, Les bâtisseurs de cathédrales, Ed. du Seuil, Paris, 1958, p. 123.).

O parlier – forma germanizada de parleur – é, de certo modo, um contramestre encarregado de “falar” [parler] aos companheiros como representante e intérprete do arquiteto nos grandes canteiros de obras.

Em 1486, o arquiteto alemão Mathias Roriczer, em sua obra intitulada Livro da Construção Exata de Pináculos, explicou abertamente esse método, com o auxílio de desenhos que recordam os que Villard executara 250 anos antes, sem os considerar um segredo.

O princípio da duplicação dos quadrados já se encontra no Tratado de Vitrúvio. Tanto Villard como Magister II conheciam certamente esse princípio.

Vitrúvio diz-nos tê-lo descoberto ele mesmo num diálogo de Platão: o Menon. “Platão demonstrou destarte a duplicação, por meio de linhas desenhadas” (Vitrúvio, I, Introdução).

Se o Carnet de Villard de Honnecourt nos faz pensar nos Cadernos de Leonardo da Vinci, isso não ocorre por mero acaso e a aproximação nada tem de fortuita.

Separados um do outro por dois séculos e meio, Villard, homem da Idade Média, e Vinci, homem da Renascença, tinham recebido praticamente a mesma formação e a mesma cultura: a das artes mecânicas.

Ao redigirem apontamentos de trabalho, resultados de suas pesquisas pessoais, eles obravam em conformidade com os costumes de seu tempo.

Detalhe das engrenagens do relógio astronômico da catedral de Estrasburgo.
Detalhe das engrenagens do relógio astronômico
da catedral de Estrasburgo.

Conhece-se a existência de mais de 150 manuscritos técnicos que datam do final do século XIV e começo do século XVI.

Da Vinci utilizou os tratados de seus antecessores e de seus contemporâneos, mas é admissível que ignorasse Villard e sua obra.

Foi recentemente provado que numerosas invenções atribuídas a Da Vinci já existiam nos escritos de engenheiros como Konrad Kyeser, nascido em 1366, Robert Valturio, nascido em 1413, e Francesco di Giorgio, nascido em 1439, escritos esses que Da Vinci conhecia todos. Anotou de seu próprio punho um texto de Giorgio.

Como Villard, ele também leu Vitrúvio, cujas obras figuravam entre os volumes de sua biblioteca. Se Villard parece ter vivido de pleno acordo com os costumes do seu meio social e o status de sua profissão, Da Vinci reagiu violentamente à falta de consideração com que os humanistas trataram o técnico que ele era.

Os iluminadores de manuscritos prestaram aos arquitetos medievais uma homenagem apropriada, ao representarem Deus, o Pai, como um arquiteto-engenheiro, medindo o universo com um compasso gigantesco.

Silenciosos mas pasmosos progressos: o Relógio Mecânico

A sociedade medieval entusiasmou-se pela mecanização e a pesquisa técnica, porque acreditava firmemente no progresso, um conceito ignorado no mundo antigo.

De um modo geral, os homens da Idade Média recusaram-se a respeitar as tradições que poderiam ter freado seu ímpeto criador, e Gilbert de Tournai escrevia:

“Jamais encontraremos a verdade se nos contentarmos com o que já está descoberto… Os que escrevem antes de nós não são senhores, mas guias. A verdade está aberta a todos, ela não foi ainda inteiramente possuída”. (Gimpel, Les bâtisseurs de cathédrales, p. 163)

 

ERelógio astronômico da catedral de Estrasburgo. Bernard, mestre da escola episcopal de Chartres, de 1114 a 1119, acrescentava:

“Somos anões empoleirados nos ombros de gigantes.

“Por isso, vemos mais que eles e mais longe que eles, não porque a nossa vista seja mais aguda ou nossa estatura mais elevada, mas porque eles nos carregam no ar e nos elevam a toda a sua gigantesca altura”. (J. Le Goff, Les intellectuels au Moyen Age, ed. du Seuil, Paris, 1957, p. 17 )

 

Relógio astronômico da catedral de Estrasburgo.

A atitude de um Gilbert de Tournai e de um Bernard de Chartres levou os homens dessa época a encararem as invenções como coisa normal e a aceitarem a ideia de que haveria sempre no futuro novas invenções.

A ambição dos inventores não conhecia limites, sua imaginação ignorava fronteiras e, no entanto, de todas as máquinas extravagantes que conceberam e por vezes realizaram, uma simboliza a sua “pesquisa” científica: o relógio.

Se a teoria de Lewis Mumford sobre a origem beneditina dos relógios mecânicos é hoje controvertida, as opiniões desse autor sobre o papel da medida do tempo no desenvolvimento da civilização continuam válidas:

“A máquina-chave da idade industrial moderna não foi a máquina a vapor, foi o relógio. Em cada fase do seu desenvolvimento, o relógio é o fato saliente e o símbolo da máquina.

“Ainda hoje, nenhuma outra máquina é tão onipresente. Assim, no começo da técnica moderna, apareceu profeticamente a primeira máquina automática precisa que, após alguns séculos de esforços, iria pôr à prova o valor dessa técnica em cada ramo da atividade industrial.

“Permitindo a determinação de quantidades exatas de energia (portanto, a padronização), a ação automática e, finalmente, o seu próprio produto, a saber, um tempo exato, o relógio foi a primeira máquina da técnica moderna.

“Conservou a preeminência em todas as épocas. Possui uma perfeição a que as outras máquinas aspiram” (L. Mumford, Technique et civilisation, ed. du Seuil, Paris, 1950, pp. 23-24.).

 

(Autor: Jean Gimpel, “A revolução Industrial da Idade Média”, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977, 222 páginas).

 

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6 outubro 2015

Hierarquia e símbolos na Cavalaria

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 1:54
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A dignidade de cavaleiro comportava graus:

– os “bannerets” ou porta-estandartes;

– a seguir os “bacheliers”, jovens que após as batalhas eram armados cavaleiros, ou então cavaleiros recém-sagrados;

– finalmente os cavaleiros propriamente ditos. As duas palavras “bachelier” e cavaleiro passam a ser sinônimas.

– No terceiro plano, os “cavaleiros alistados”, isto é, aqueles que se inscreveram mediante salário, a serviço de um mais poderoso.

– Por fim os escudeiros, que não estavam autorizados a lutar com um cavaleiro.

Quando se trata de escrever a um cavaleiro, ou de lhe dirigir a palavra, ele é intitulado Dom, Sire, Messire ou Monseigneur.

Sua esposa é qualificada de Dame ou Madame.

O escudeiro deve ser chamado de Monsieur, e sua esposa de Demoiselle.

Quanto ao uso de roupas de seda, elas eram proibidas aos simples burgueses, bem como aos escudeiros. Apenas os cavaleiros estavam autorizados a vesti-las.

Os escudeiros usavam roupas de lã, sem ornamentos de ouro ou de prata. Somente os cavaleiros eram autorizados a enfeitar seus mantos de branco ou cinza, de arminho ou outra pele de privilégio. As peles de menor qualidade eram para a gente do povo.

Somente os cavaleiros tinham o direito de dourar suas esporas e os arreios de seus cavalos. A mais característica das vestes de uso exclusivo dos cavaleiros era o longo manto escarlate enfeitado de arminho.

Esses mantos de grande luxo eram distribuídos pelo rei aos cavaleiros recém-armados por ele. A cor vermelha tornou-se privilégio da Cavalaria.

Mathieu de Couci (“História de Carlos VII”) descreveu um banquete que foi organizado em Lille, em 1454, pelos desejos do Duque de Bourgogne.

Os cavaleiros que serviam estavam vestidos de damasco, os escudeiros de cetim, e os simples valetes de pano de lã. Mathieu de Couci dá igualmente a descrição de uma justa de três borguinhões contra três escoceses.

Dos três borguinhões, os dois primeiros estavam vestidos de longos mantos enfeitados com pele de marta zibelina. Quanto ao terceiro, seu manto era de cetim negro.

Três cavaleiros franceses, chegando à corte da Espanha, apresentam-se vestidos com mantos escarlates e coroados com flores azuis. Usam luvas brancas e estão montados em grandes cavalos de batalha da Espanha.

As lanças cavalheirescas são feitas de pinho, tília, sicômoro ou faia, de preferência em freixo. A ponta de aço, aguda, é enfeitada com o “gonfalon” — bandeira de guerra muito comprida.

Joinville salienta que os cavaleiros tinham o costume de raspar os cabelos, para não se embaraçarem com eles durante as lutas.

Os cavaleiros se distinguiam uns dos outros pelas armas, onde seus brasões estavam pintados, ou mesmo pela cor do pequeno estandarte que enfeitava sua lança, e da bandeira com a qual o alto do seu capacete podia estar decorado.

Quanto ao brasão dos cavaleiros, era extremamente variável.

Alguns se contentavam com um escudo branco ou de cor lisa, para decorá-lo, após uma sucessão de acontecimentos, com um emblema significativo: uma cruz em memória de uma campanha contra os sarracenos; a reprodução de uma arma conquistada em um torneio; a imagem de uma torre ou de uma fortaleza tomada de assalto; as ameias de um reduto vitoriosamente defendido, etc.

 

 

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29 setembro 2015

O que era o cavaleiro medieval: um ideal de honra, uma espécie de sacerdocio militar

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 1:50
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Chegamos pois a precisar, o mais possível, o significado da palavra “cavaleiro”, enquanto indicando aquele que pertence à Cavalaria:

é um homem de armas que, por suas virtudes naturais e morais, recebe uma distinção honorífica inteiramente pessoal, por isso mesmo não transmissível por hereditariedade, e que lhe confere o poder e o juízo de armar outros homens de armas como cavaleiros.

Esta distinção honorífica acarretava uma série de privilégios para aqueles que pertencessem à Cavalaria. O “Grand Dictionnaire Universel Larousse”, tratando do assunto, afirma o seguinte:

“A dignidade de cavaleiro era tão considerada, que o próprio rei sentia honra em sê-lo. Os cavaleiros sentavam-se à sua mesa, coisa que nem seus filhos, irmãos ou sobrinhos podiam fazer, a não ser quando fossem recebidos na Cavalaria.

“Usavam uma capa de honra, aberta no lado direito e presa por um alfinete no ombro, para deixar o braço livre no combate. Durante toda a Idade Média, somente o cavaleiro podia levar sua espada à cintura; os outros a suspendiam por um talabarte”.

Um outro sinal distintivo dos cavaleiros é o uso de esporas de ouro. Que essa prerrogativa fosse específica dos membros da Cavalaria, é o que faz supor a seguinte afirmação de Paul Lacroix no livro “Les Arts au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance”:

“Para ganhar suas esporas (de ouro) — expressão que ficou proverbial — era necessário fazer alguma ação brilhante, que mostrasse quanto se era digno de ser armado cavaleiro.

A cerimônia de recepção começava pela entrega das esporas, e aquele que conferia a ordem de Cavalaria, fosse rei ou príncipe, tomava sobre si o encargo de calçá-las no próprio recipiendário”. (Paul Lacroix, “Les Arts au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance” – Firmin Didot Frères, Fils et Cie., Paris, 1874)

Todos esses sinais exteriores serviam para simbolizar aquela excelência honorífica que possuíam os cavaleiros face aos demais homens de armas do exército feudal.

Note-se, no entanto, que essa excelência não importava em ascensão na hierarquia feudal ou em possuir equipamento militar mais completo.

A Cavalaria constituiu uma dignidade de ordem moral, que conferia àquele que com ela fosse honrado uma investidura de caráter praticamente religioso.

Léon Gautier, em importante obra consagrada ao assunto, chegou a qualificar a Cavalaria de “oitavo sacramento”.

Um padre que casasse, e fosse preso vestindo trajes civis, deveria ser conduzido a um tribunal eclesiástico.

O mesmo se passava com o cavaleiro. Por outro lado, ele usufruía vários privilégios consagrados ao clero.

Clérigos e cavaleiros eram homenageados da mesma forma. Nas comparações que fazem entre clero e cavalaria, os autores mais antigos sustentam que ao cavaleiro deve ser imposta a obrigação do celibato.

São três as ordens necessárias para o bom funcionamento de um Estado: O sacerdote, para cuidar do culto e das orações; o trabalhador, para cuidar do campo; e o cavaleiro, para proteger a ambos e sustentar a justiça.

A Cavalaria — diz o autor de Jouvencel — é o que são os braços para o corpo, isto é, dispostos para defender, sempre que necessário, a cabeça (a Igreja) e as pernas (o povo).

A Cavalaria é então um como que sacerdócio, mas de caráter militar.

Se uma jovem dama se tornasse herdeira de um importante domínio, ou se uma mulher ficasse viúva e com terras para administrar, recorria a um cavaleiro para que protegesse seus bens, tomasse a guarda do seu castelo e o comando dos homens de armas. O cavaleiro recebia com isso o título de visconde ou de castelão.

Os cavaleiros eram considerados por todos como um grupo de elite.

Quem podia ser armado cavaleiro?

A primeira condição exigida era, naturalmente, a Fé Católica.

A ideia de se fazer armar cavaleiro a um sarraceno faria explodir de rir. Em seguida era preciso que ele montasse a cavalo, soubesse manejar a lança, a acha e a espada, e devia mover-se livremente sob uma armadura de aço.

Não eram admitidos na Cavalaria aqueles que estivessem desonrados por costumes.

 

 

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22 setembro 2015

A Cavalaria: ideal das almas propulsoras na Idade Média

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 1:48
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Surge uma pergunta: não constituiriam os cavaleiros, enquanto membros da Cavalaria, um tipo de guerreiro mais bem equipado ou com poderes especiais, uma espécie de generais ou comandantes superiores?

Consideremos separadamente cada uma das duas questões envolvidas nesta pergunta. Em primeiro lugar, vejamos a questão do ornamento.

Antes de mais nada, parece que se o cavaleiro, enquanto membro da Cavalaria, representasse um guerreiro mais bem equipado, então provavelmente um dos requisitos indispensáveis para que alguém recebesse um feudo, ou o conservasse em sua posse, deveria ser o armar-se cavaleiro.

Com efeito, nenhum suserano certamente quereria ter um vassalo que não o pudesse defender da melhor maneira possível, ou que o acompanhasse à guerra com pouco armamento. Ora, esse requisito não era exigido, pois já vimos que Cavalaria e feudalismo são duas coisas distintas.

Além disso, para reforçar o argumento, basta lembrar que se a posse de um feudo estivesse ligada ao fato de o seu possuidor ser armado cavaleiro, então seria legítimo desapropriar esse feudo caso seu dono se recusasse a entrar na Cavalaria.

Ora, isso parece não constar da história judiciária medieval, pois, como já tivemos ocasião de ver, havia muitos vassalos que não entravam na Cavalaria, por causa das despesas da recepção.

Quanto ao problema de os cavaleiros representarem uma função nas batalhas enquanto membros da Cavalaria, também isso não parece sustentável.

Com efeito, um dos deveres dos cavaleiros era o respeito às obrigações feudais. Ora, entre estas havia a obrigação de seguir seus suseranos quando estes os convocassem à guerra.

Portanto esses suseranos eram naturalmente os comandantes de seus cavaleiros, e não o inverso.

A esse respeito, Léon Gautier, en “La Chevalerie”, comentando o 7º mandamento do Código de Cavalaria, assim se expressa:

“O seu objeto (do 7º mandamento) é o rigoroso cumprimento dos deveres feudais. O vassalo deve obediência a seu senhor em tudo quanto não seja contrário à Fé, à Igreja e aos pobres.

“Como já fizemos notar, sem dúvida alguma não se deve confundir Cavalaria e feudalismo, mas no momento em que a autoridade se subdividia, quando os perigos eram mais prementes do que nunca, é justo reconhecer que o feudalismo era necessário.

“O sistema feudal comportava, além disso, deveres recíprocos. O vassalo se obrigava a seguir fielmente o seu senhor, para desfrutar a segurança em que constantemente vivia. Daí a força incomparável do liame feudal”. (Léon Gautier, “La Chevalerie”, pp. 47-48)

Com isso podemos afirmar que o cavaleiro, enquanto membro da Cavalaria, não representava um guerreiro mais bem equipado que todos os outros guerreiros do exército feudal, ou ainda que possuísse maior autoridade que esses mesmos guerreiros.

Parece-nos que os guerreiros do exército feudal tinham o nome genérico de homens de armas. Entre os homens de armas havia as mais diversas hierarquias. Como já vimos, alguns recebiam o título de cavaleiro, embora não pertencessem à Cavalaria.

Ao lado disso, muitos homens de armas, fosse qual fosse o seu grau hierárquico, podiam ser armados cavaleiros, e então passavam a fazer parte da Cavalaria.

Para compreendermos bem a natureza da relação existente entre Cavalaria e o exército feudal, tomemos um fato militar moderno. Em todo exército moderno existe grande número de capitães.

Mas entre esses capitães pode haver alguns que possuem certas condecorações, obtidas em gloriosas campanhas. Essas condecorações não acarretam uma elevação do posto militar desses capitães, que com elas adquirem uma excelência honorífica.

Vejamos agora como isso se aplica à Cavalaria. O exército feudal era formado por homens de armas, muitos dos quais eram armados cavaleiros. Isso representava uma excelência honorífica, e não um poder ou graduação maior em relação aos outros membros do exército feudal.

Podemos talvez formar uma ideia do que seja a Cavalaria, fazendo outra comparação.

Tomemos uma classe de estudantes com muitos alunos. Aqueles que se esforçam mais recebem medalhas, figurando no quadro de honra. Analogamente, os homens de armas mais notáveis e que mais se empenhavam nas lutas mereciam ser armados cavaleiros.

Desta forma, a Cavalaria consistiu, ao menos na época do seu apogeu, numa família de almas propulsoras das virtudes militares, no seio da classe militar. A Cavalaria civil constituía um escol dos exércitos, e a Cavalaria religiosa uma elite inserida nesse escol que era a Cavalaria civil.

As Ordens Militares constituíam a fina ponta dessa elite, e dentre elas a Ordem dos Templários ocupava um lugar de destaque.

Enquanto esta Ordem, como que arquetípica, viveu plenamente sua regra e seus membros estiveram possuídos de alto fervor religioso, toda a Cavalaria, e mesmo a instituição feudal, alcançou seu apogeu.

Decaindo este Ordem, por via de consequência o espírito de Cavalaria começou também a decair. Este processo foi acelerado com a extinção da Ordem dos Templários em princípios do século XIV.

Amorteceu-se o impulso que essas almas propulsoras deveriam manter, e portanto toda a chama da Cavalaria medieval começou a desvanecer-se até se apagar, com a intensificação do processo revolucionário na época do Renascimento e da Pseudo-Reforma.

 

 

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15 setembro 2015

O título de ‘cavaleiro’ e o de membro da Cavalaria

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 1:46
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Entre os guerreiros medievais havia muitos que recebiam o nome de “cavaleiros”, embora isso não significasse que eles fossem membros da Cavalaria.

O Pe. Luís F. de Retana, C.SS.R., no livro “San Fernando III y su Época”, falando sobre a sociedade espanhola do século XIII, diz o seguinte:

“Digamos agora algo sobre a contribuição social desta época tão característica, segundo a legislação então vigente. Três classes compunham a sociedade do século XIII: o clero, a nobreza e a classe popular ou estado vulgar.

“Entre a nobreza houve um elemento aristocrático que herdou sua dignidade da nobreza visigótica, e outro que a conquistou por seu esforço pessoal.

“Era função dessa classe: sua cooperação com o rei no governo da nação, na guerra, na defesa e na administração do território, em troca de certos privilégios, cujos princípios eram a isenção de impostos e o domínio senhorial de certas terras.

“Não havia igualdade de classes. Pelo contrário, para efeitos jurídicos, a vida de um nobre valia mais do que a de um plebeu (a do primeiro custava 500 soldos; a do segundo, 300).

“Entre os próprios nobres havia três classes:

– os ‘ricos-homens’, que eram os mais destacados em riquezas, poder e jurisdição, tendo direito a assistir aos conselhos reais, concílios e cortes;

– os ‘infantes’, que eram nobres de nascimento, mas, por não serem primogênitos ou por outro motivo qualquer, não herdavam jurisdição territorial e ocupavam o segundo lugar em relação aos ‘ricos-homens’;

– enfim os ‘cavaleiros’, homens livres ou libertos que, sem haver herdado nobreza ou fidalguia, tinham riquezas para manter cavalo e armas, fazendo da guerra sua profissão.

“Não se devem confundir os simples cavaleiros com os que recebiam a ordem da Cavalaria. …

“Os régulos de Múrcia e sua terra se entregaram a São Fernando, seu inimigo natural, e não ao Granadino, seu irmão de fé e raça, porque sabiam que aquele, acima dos ódios nacionais, era ‘cavaleiro’ que nunca desrespeitou a palavra dada e nunca alojou em seu coração algum gênero de vilania”. (P. Luís F. de Retana, C.SS.R., “San Fernando III y su Época” – Editorial El Perpetuo Socorro, Madrid, 1941, pp. 242-243).

Por esse texto, vê-se que na Espanha havia o título de “cavaleiro”, que não implicava em fazer parte da Cavalaria. Era um guerreiro que, embora não fizesse parte da Cavalaria, era chamado cavaleiro.

Passamos agora a um novo problema. Não se trata só de saber que o exército feudal é coisa distinta da Cavalaria; trata-se de demonstrar que a palavra cavaleiro se aplica, quer a membros do exército feudal, quer a membros da Cavalaria.

Sobre esse assunto, Paul Lacroix, na obra “Moeurs, Usages et Costumes au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance”, nos fornece os seguintes esclarecimentos:

“Sob os reis da terceira dinastia, o território do reino (de França) compreendia mais ou menos cento e cinquenta domínios, chamados grandes feudos da coroa, e cuja posse estava entregue, por direito hereditário, aos membros da alta nobreza, colocados imediatamente debaixo da suserania ou dependência real.

“Designavam-se geralmente pelo título de barões os vassalos que dependiam diretamente do rei, e cuja maioria possuía castelos fortes.

“Os outros se confundiam sob a denominação de “cavaleiros”, título genérico ao qual se costumava acrescentar o de “bannerets” quando levassem bandeira e pusessem ao serviço do rei uma companhia de homens de armas.

“Os feudos de “haubert” (cota de malhas) deviam fornecer ao suserano cavaleiros cobertos de cotas de malhas e completamente armados.

“Todos os cavaleiros, como o nome indica, serviam a cavalo nas guerras em que tomavam parte.

“Mas é preciso não confundir os “cavaleiros de nascimento” com os que se tornavam cavaleiros depois de um noviciado de armas no castelo de um príncipe ou grande senhor feudal, e menos ainda com os membros das diversas Ordens de Cavalaria que foram sucessivamente criadas, como, por exemplo, os cavaleiros da Estrela, os do Ginete, os do Tosão de Ouro, os do Espírito Santo, os de São João de Jerusalém, etc.” (Paul Lacroix, “Moeurs, Usages et Costumes au Moyen Âge et à l’époque de la Renaissance” – Firmin Didot Frères, Fils et Cie., Paris, 1874, pp. 16-17)

Se aproximarmos este texto do anterior, escrito por Weiss — no qual se lê que “na segunda metade do século XV o número dos cavaleiros propriamente ditos era muito menor do que poderíamos pensar, ao passo que o dos cavaleiros de nascimento era muito maior, e que comumente se confunde a entrega das armas com o armar-se cavaleiro” — chegamos a conclusões muito curiosas.

Com efeito, segundo Paul Lacroix, na França o título de “cavaleiro” era aplicado, quer para certos tipos de possuidores de feudos, quer para os membros da Cavalaria.

Além disso, Lacroix usa a expressão “chevaliers de naissance”, que é exatamente igual a “caballeros de nacimiento”, empregada por Weiss.

Ora, Lacroix utiliza esse termo quando se refere aos possuidores de feudos que não dependiam diretamente do rei, e os separa dos cavaleiros, assim chamados por serem membros da Cavalaria.

Weiss defende que nem todos os “caballeros de nacimiento” eram propriamente cavaleiros, pois não se deve confundir a entrega das armas com o armar cavaleiro.

A conseqüência é que o título de “cavaleiro” serve para designar pelo menos duas coisas:

a) em primeiro lugar, todos os membros da Cavalaria;

b) em segundo lugar, certos tipos de possuidores de feudos.

Podemos portanto afirmar que a palavra cavaleiro tanto se aplica a certos guerreiros do exército feudal quanto a todos os membros da Cavalaria.

 

 

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8 setembro 2015

O que é que foi a Cavalaria medieval?

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 1:44
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A palavra “cavaleiro”, na realidade, comporta várias significações diversas, não acentuadas pelos historiadores.

Weiss, em sua “História Universal”, comentando o trabalho de Ischer intitulado “Sobre la caballería y la nobleza hacia fines de la Edad Media”, assim se expressa:

“Ultimamente vem-se descobrindo com frequência que, em muitos conceitos, temos uma ideia falsa das relações entre a nobreza e os homens livres comuns; que na segunda metade do século XV o número dos cavaleiros propriamente ditos era muito menor do que poderíamos pensar, ao passo que o dos cavaleiros de nascimento era muito maior; e que comumente se confunde o emprego das armas com o armar-se cavaleiro, embora só entre os cavaleiros de nascimento este último fato estabeleça uma hierarquia ideal”. (J.B. Weiss, “Historia Universal”- Tipografia la Educación, Barcelona, 1927, vol. V, p. 503)

Este trecho nos revela uma importante distinção acerca do significado da palavra “cavaleiro”.

Segundo Voise, existem duas espécies de cavaleiros:

1) os cavaleiros propriamente ditos;

2) os cavaleiros de nascimento.

O mesmo autor mostra ainda que não se deve confundir a entrega das armas com o ato de “armar-se cavaleiro”. Esta afirmação nos conduziu à conclusão de que a palavra cavaleiro não é sinônima de guerreiro medieval.

Em vista disso, parece defensável a tese de que existe uma diferença fundamental entre exército feudal e Cavalaria.

Por outro lado, Funck-Brentano, em seu livro “Le Moyen Âge”, afirma:

“Deve-se distinguir a Cavalaria da nobreza feudal, mesmo considerando que esta última fora a semeadura daquela, e que quase todos os barões feudais tenham sido armados cavaleiros.

“A Cavalaria constituía uma Ordem, cuja recepção, que em geral recaía sobre fidalgos, se desenrolava numa cerimônia religiosa chamada “investidura”.

“Esta compreendia o “adoubement” conferido por um cavaleiro, o mais das vezes o suserano do feudo, cujo domínio pertencia ao recipiendário.

“Mas a nobreza não era uma condição rigorosamente exigida, e até mesmo servos foram armados cavaleiros plenos.

“Houve também muitos nobres que ficaram escudeiros durante toda a vida, por causa das grandes despesas de guerra que o adoubement acarretava”. (Funck-Brentano, “Le Moyen Âge” – Hachette, Paris, 1947, p. 154)

Existe, portanto, uma diferença entre Cavalaria e nobreza feudal.

Ora, na Idade Média a nobreza feudal estava encarregada de empreender as guerras; ela constituía, por assim dizer, o exército feudal. De maneira que, baseados em Funck-Brentano, podemos já estabelecer que a Cavalaria era distinta do exército feudal.

Léon Gautier, em sua célebre obra “La Chevalerie”, assim se expressa:

“Daí resulta que não só no mundo romano não se encontra uma tal instituição, mas que também a Cavalaria e o feudalismo são coisas distintas, embora frequentemente se faça confusão entre ambas.

“Feudalismo nasce do feudo, que era a recompensa dada àquele que se entregava à proteção do mais forte. Ao senior, que outorgava terras como presente, o vassalo (vessus) devia assistência.

“Quando o seguia na guerra, era porque os vassalos eram necessários para a defesa dos territórios que eles mesmos recebiam. O feudo é uma concessão de terra que envolve uma obrigação militar.

“O sistema feudal, assim entendido, não possui nada de comum com a Cavalaria.

“Esta é uma espécie de corpo privilegiado, onde se entra sob certas condições e segundo um ritual determinado. Nem todo vassalo é necessariamente cavaleiro, e alguns preferem recusar a Cavalaria em virtude das despesas de sua recepção.

Mais de uma vez foi ela conferida a pessoas do povo que jamais tiveram feudos, não devendo a ninguém o dever feudal, além de ninguém lhes dever o mesmo.

“As canções de gesta citam muitas vezes casos de vilões que se tornaram cavaleiros, como por exemplo o lenhador Varocher, armado pelo próprio imperador, ou os dois servos do conde Amis, que também o foram por causa do desvelo que demonstraram para com seu amo.

O feudalismo tornou-se hereditário. Entretanto, a Cavalaria jamais o foi. À falta de outros argumentos, este já seria suficiente. O feudalismo foi um sistema econômico e social; a Cavalaria, porém, um ideal”. (Léon Gautier, “La Chevalerie” – Arthaud, Paris, 1959, pp. 31-32)

Estas palavras de Léon Gautier nos fornecem dados muito valiosos. Em primeiro lugar, fica claro que o feudalismo era uma instituição distinta da Cavalaria.

Em segundo lugar, o serviço militar era algo requerido pela simples posse de feudos, ou seja, o exercício militar era algo exigido pelo feudalismo. Em terceiro lugar, todo vassalo devia prestar serviço militar, mas nem todo vassalo era cavaleiro.

Podemos então afirmar que a condição de guerreiro não supõe a condição de cavaleiro.

Todo aquele que possui feudo é necessariamente um guerreiro; tem a obrigação de acompanhar o seu suserano, quando este o convocar para a guerra.

O exército feudal é o conjunto de todos os feudatários em torno de seus suseranos e marchando para a batalha. Eles são militares antes mesmo de serem cavaleiros, isto é, membros da Cavalaria.

 

 

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21 dezembro 2014

Santo Natal e Feliz Ano Novo!

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9 dezembro 2014

São Tomás de Aquino: no islamismo acreditaram homens animalizados, totalmente ignorantes da doutrina divina, que obrigaram aos outros pela violência das armas

Filed under: Uncategorized — idademedia @ 3:16
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São Tomás de Aquino, apoiado em Platão e Aristotes, esmaga Averroes, 'sábio' maometano
São Tomás de Aquino, apoiado em Platão e Aristoteles,

esmaga Averroes, ‘sábio’ maometano

Luis Dufaur

O que achar do islamismo e de seus prosélitos? Como interpretar os crimes que estão praticando contra os cristãos, sua adesão ao Corão (Livro) de Maomé, e as tentativas de diálogo e ecumenismo com eles?

São Tomás nos ensina com a concisão e a sabedoria do maior mestre e Doutor da doutrina e do método de pensamento da Igreja Católica:

“Tão maravilhosa conversão do mundo para a fé cristã é de tal modo certíssimo indício dos sinais havidos no passado, que eles não precisaram ser reiterados no futuro, visto que os seus efeitos os evidenciavam.

“Seria realmente o maior dos sinais miraculosos se o mundo tivesse sido induzido, sem aqueles maravilhosos sinais, por homens rudes e vulgares, a crer em verdades tão elevadas, a realizar coisas tão difíceis e a desprezar bens tão valiosos.

“Mas ainda: em nossos dias Deus, por meio dos seus santos, não cessa de operar milagres para confirmação da fé.

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